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Último Passe

Três assuntos têm animado os adeptos de futebol em Portugal. O caso Sporting-Doyen, a troca de José Peseiro por Jorge Simão no Sp. Braga e a polémica em torno da contagem dos títulos nacionais. Com algum atraso num ou noutro caso, eis o que penso de cada um. 1. O Sporting vai ter de pagar à Doyen no caso relativo à transferência de Rojo para o Manchester United. Sempre foi claro para mim que assim seria, porque havia um contrato em vigor e ele tinha sido assinado pela direção legítima do clube. Não sei se Bruno de Carvalho entrou nesta guerra para adiar o pagamento, para o evitar de todo ou apenas para fazer barulho à volta do tema polémico que é o da participação de fundos de investimento nos passes dos jogadores. Se foi a primeira razão, limitou-se a ser chico-esperto. Se foi a segunda, estava a ser ingénuo. Se foi a terceira, fez bem. Porque os negócios com os fundos de investimento sem rosto são, na maior parte dos casos, lesivos dos interesses dos clubes e abrem a porta ao dinheiro sujo que quem gosta de futebol deve querer ver longe da modalidade. 2. Nutro por José Peseiro a estima de muitos anos de conhecimento, porque crescemos a 150 metros um do outro. Tenho, além disso, o reconhecimento pela qualidade do trabalho que ele fez em muitos clubes, mas acho que fez mal em voltar a Braga. Depois de ele próprio ter perdido a final da Taça de Portugal para o Sp. Braga de Paulo Fonseca, entrar naquele balneário só podia ser feito com a certeza de que tinha condições para fazer melhor. E a verdade é que não tinha. Peseiro não foi demitido por ter perdido com o Sp. Covilhã. Foi demitido porque antes de cair na Taça de Portugal já tinha perdido a passagem à fase seguinte da Liga Europa e porque, antes ainda, a sua equipa mostrara um futebol demasiado pobre no Dragão contra o FC Porto – e o futebol de qualidade até foi sempre uma das imagens de marca deste treinador. Para o lugar dele entra Jorge Simão, um treinador jovem e ambicioso, que tem muito mais condições para ser bem sucedido. Quais? Tem atrás dele um trabalho de enorme qualidade no Chaves e entra num clube onde as expectativas já estão outra vez a um nível muito baixo. O resto é capacidade de trabalho, que tanto um como o outro têm inegavelmente. 3. A FPF manifestou-se finalmente acerca da polémica relativa aos títulos de campeão nacional, decretando que aos torneios da I Liga, disputados por jornadas entre 1934/35 e 1937/38, correspondem títulos de campeão nacional, e que aos Campeonatos de Portugal, jogados por eliminatórias entre 1921/22 e 1937/38, correspondem troféus equiparados à Taça de Portugal. A polémica vem da mais recente cruzada de Bruno de Carvalho, que nem sequer é uma ideia nova: recordo-me de, durante anos, o Record se ter recusado a alinhar com A Bola nessa equiparação, valendo-se da tese de Henrique Parreirão, segundo a qual só havia campeão nacional a partir de 1938/39, havendo antes, sim, o campeão da Liga e o campeão de Portugal, que eram coisas diferentes. E se na altura achei que a tese defendida pelo Record servia sobretudo de afirmação ante o gigante que era A Bola – era preciso contrariar o establishment para poder vir a superá-lo, algo que o Record depois até chegou a conseguir – também agora vejo na preocupação de Bruno de Carvalho uma forma de agitar as hostes e de ser contra-poder. As taças, porém, valem o que valem e estão nos museus dos clubes, de nada valendo agora tentar reescrever a história, seja num ou noutro sentido. O FC Porto, por exemplo, foi duas vezes campeão e europeu? Ou ganhou uma Taça dos Campeões e uma Liga dos Campeões? É que as provas têm nomes e formatos diferentes. E foi campeão mundial de clubes? Ou tem duas Taças Toyota? É claro que o documento da FPF aqui faz lei, mas na minha opinião as contas são outras: o Benfica tem 32 títulos de campeão nacional (e não os 35 que reclama com a soma das três I Ligas que ganhou), o FC Porto tem 26 (e não 27) e o Sporting tem 18 (e não os 22 que exige ver reconhecidos com a adição do Campeonato de Portugal).
2016-12-16
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Último Passe

A transferência de Gianelli Imbula do FC Porto para o Stoke City, por 24 milhões de euros – mais 15 por cento de uma futura mais-valia – foi a grande novidade do último dia de mercado no futebol português. O negócio pode ser apresentado como uma espécie de milagre da multiplicação dos pães e já foi mencionado por muito boa gente como a prova acabada de que as faculdades de Pinto da Costa não só estão intactas como têm vindo a ser aprimoradas. Não duvido disso. Mas se o caso Imbula prova alguma coisa é algo bem diferente e tem a ver com a gestão que os fundos de investimento fazem dos seus ativos. Uma gestão paralela à dos clubes. Não é fácil explicar de forma razoável como é que um jogador que nunca lutou por títulos e que já não era um adolescente – tinha cinco épocas a jogar com regularidade nos seniores em França – chegou ao FC Porto a valer 20 milhões de euros. Mas mais difícil ainda se torna encontrar uma boa justificação para que, após seis meses num ambiente diferente, nos quais não conseguiu impor-se como titular indiscutível de uma equipa que neste momento é de classe média europeia, o seu passe valorize 20 por cento. A única explicação plausível chama-se Doyen. A Doyen, cujos representantes andaram em reuniões com o FC Porto à altura da aquisição e que pode ter participado na operação, precisa de proteger os seus investimentos, o que faz inflacionando os valores dos jogadores que tem em carteira. Sai a ganhar o FC Porto? Depende. Neste caso, é evidente que sai a ganhar o FC Porto. Como saem a ganhar nas vendas todos os clubes que são capazes de manter boas relações com os fundos de investimento. De repente, vejo apenas um problema, que é a necessidade de manter boas relações com os fundos de investimento, pois sem essas boas relações a venda já não será tão facilitada. É que essas boas relações passam também por comprar, num patamar abaixo, quem esses fundos querem que se compre, ao preço que eles querem fazer. Foi assim que Imbula chegou ao FC Porto por 20 milhões. Ou, numa operação muito parecida mas com outros protagonistas, que Raul Jiménez também se valorizou brutalmente: foi adquirido pelo Atlético de Madrid ao América por 10 milhões de euros, passou um ano no banco e viu depois o Benfica comprar 50 por cento do seu passe por 9 milhões. Se Jiménez justificar esse investimento, o problema fica resolvido; se não justificar, vai ser precisa a boa vontade de quem patrocinou a compra para ele seguir para outras paragens sem perdas. Como aconteceu com o guarda-redes Roberto, outro grande conhecedor da rota Manzanares-Luz. É por tudo isto ser tão difuso que não aceito a tese de que os fundos de investimento fazem falta ao futebol português. E são os valores praticados nestas operações que me levam a concluir que não é verdade que os clubes portugueses precisem destes fundos para chegar ao verdadeiro talento. Porque se é claro que, em parceria com os fundos, vendem caro, geralmente são obrigados a comprar igualmente caro, porque a influência dos fundos inflaciona o mercado. E no fim quem sai a ganhar são sempre os mesmos. Com um problema acrescido: é que ninguém sabe bem quem eles são nem onde têm o dinheiro. 
2016-02-02
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Último Passe

Se há coisa que intriga mais que preço elevado que custou Gianelli Imbula ao FC Porto ou o seu fraco rendimento nestes meses no Dragão são as declarações hoje atribuídas ao pai do jogador, Willy N’Dangi, segundo as quais o filho terá sido vítima de um contexto que não foi bom e o FC Porto já lhe terá comunicado que o liberta já no mercado de Janeiro se aos 20 milhões pagos no Verão ao Ol. Marselha o comprador juntar agora mais cinco. A questão é que pouca coisa aqui faz sentido. Começaram por fazer pouco sentido os 20 milhões que o jogador custou no Verão. Imbula é um excelente médio, com dois anos ao mais alto nível em França, mas nunca ganhou uma competição na vida. E, nessas condições, não são muitos os jogadores a valer tanto dinheiro, muito menos se não estiverem a chegar a um dos campeonatos mais ricos da Europa, onde se sabe que os clubes pagam mais que o real valor por uma transferência. Sim, a intervenção da Doyen terá servido para inflacionar o preço, porque é à conta desses atos inflacionistas que os fundos de investimento conseguem tornar-se imprescindíveis para os clubes, numa espécie de pescadinha de rabo na boca que nunca tem fim. No FC Porto, Imbula mostrou potencial, mas não qualidade suficiente para fazer a diferença num meio-campo tão competitivo como o que Rui Barros herdou agora de Julen Lopetegui. A equipa não andou bem? Pois não. Mas também fazem pouco sentido as declarações de N’Dangi, que atribui esse fraco rendimento do filho ao facto de ele se sentir “desprotegido”. Mas, caramba, um jogador que chega ao FC Porto por 20 milhões não tem que ser protegido – tem de saber proteger os companheiros, que os fazer subir de rendimento. Foi o que, em tempos, fez João Moutinho. E nem custou tanto dinheiro. Por fim, faz pouco sentido que, após o que Imbula mostrou no FC Porto, o seu passe – que, recorde-se, já estava inflacionado – seja aumentado em mais cinco milhões de euros. Por isso, a forma como N’Dangi aposta tudo numa transação do filho já em Janeiro e afasta a hipótese de entendimento com o FC Porto para a permanência no clube parece no mínimo muito arriscada. A não ser que a Doyen volte mostrar o que vale e consiga mais um negócio do século.
2016-01-12
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Último Passe

O Sporting perdeu o caso Doyen/Rojo no Tribunal Arbitral do Desporto porque tinha de o perder, porque objetivamente desrespeitou um contrato assinado por responsáveis anteriores do clube. Bruno de Carvalho anuncia que vai recorrer e que continuará a lutar contra aquilo que considera ser um “subsistema opaco” no futebol porque tem de o fazer e porque objetivamente os fundos de investimento fazem mal ao futebol. Uma coisa não invalida a outra. Primeiro, a decisão do tribunal. Sabendo bem o que estava a fazer, o Sporting firmou um acordo com a Doyen para a contratação de vários jogadores, um dos quais era Rojo. As premissas do acordo eram simples e similares às de outros acordos que outros clubes assinam com este e com outros fundos de investimento: os investidores entram com parte do capital necessário à contratação dos ativos e assumem parte do risco ou do lucro. Isto é, se o jogador fracassar – como está a ser o caso de Labyad, por exemplo – já não voltam a ver a cor do dinheiro; se se valorizar, recebem uma percentagem semelhante à do capital investido no valor de uma futura transação. Rojo valorizou-se, foi vendido ao Manchester United e mandava o contrato assinado pela direção anterior que o executivo de Bruno de Carvalho entregasse à Doyen a parte que lhe cabia do bolo. Não o fez e por isso foi agora condenado. Tanto quanto me parece, justamente. Depois, as ações de Bruno de Carvalho. O Sporting não entregou à Doyen a parte que lhe cabia do lucro, em primeiro lugar, porque lhe dava jeito o capital. Como atravessava um período de vacas magras, em que o capital fazia muita falta, fez aquilo que na gíria se chama empurrar o problema com a barriga: usou o dinheiro primeiro, optando por pagar mais tarde, quando os cofres estivessem já mais forrados. Mas não foi só por isso. Pelo meio, Bruno de Carvalho assumiu uma guerra que também é justa e que merece continuar a ser travada. A verdade é que os fundos de investimento – todos eles – fazem mal ao futebol. Porque não se sabe de onde vem o dinheiro e no limite pode haver interesses comuns em equipas diferentes a manipular resultados ou transações inflacionadas ou deflacionadas para proceder à lavagem de capitais vindos de atividades criminosas. Porque abrem caminho a possibilidades de ingerência externa em decisões dos clubes, obrigando-os a comprar ou a vender quando não querem ou até indo ao ponto de estipular quem joga e quem fica de fora. E porque, por fim, ao abrigo da ilusão de estarem a proporcionar acesso a jogadores que de outra forma os clubes não poderiam contratar – sobretudo porque os próprios fundos inflacionam os valores dos passes – estão a contribuir para a descapitalização dos clubes, que qualquer dia já não são donos de nada. Por isso, Bruno de Carvalho faz bem em continuar a luta. Tanto quanto me parece, com razão.
2015-12-21
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