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Último Passe

E agora, para algo completamente diferente... Portugal ganhou o campeonato da Europa, vencendo a França, a quem não ganhava há 41 anos, em Paris, onde nunca uma equipa portuguesa tinha ganho um jogo de competição, sem Cristiano Ronaldo em 95 dos 120 minutos, por lesão prematura, e com um golo de Éder num remate do meio da rua. Quais eram as probabilidades de isto acontecer? Mínimas. Mas a vitória, conseguida no prolongamento, depois de duas grandes mudanças no xadrez tático e no seguimento de um jogo em que a capacidade de sofrimento foi o argumento principal para contrariar um adversário sempre mais perigoso do ponto de vista ofensivo e mais possante nas manobras pelo meio do campo, acaba por premiar uma equipa que foi isso mesmo: uma equipa, um coletivo indestrutível e inexpugnável. Portugal não ganhou muitos jogos – nos 90 minutos, aliás, só ganhou um – mas não perdeu nenhum em dois anos de competição. E fê-lo utilizando sempre toda a profundidade do seu plantel, acabando por fazer de uma maior frescura física na final uma arma fundamental para melhor controlar a França. O jogo começou muito difícil para Portugal. Fernando Santos manteve o 4x1x3x2, mas o 4x2x3x1 da França deixava os médios portugueses com falta de referências para o seu habitual jogo de encaixe. William tentava preencher a área à frente dos centrais, onde caía preferencialmente Griezmann, mas depois com Renato Sanches e João Mário abertos nas alas, Adrien sofria face a Pogba e Matuidi. O médio português tentava subir em pressão, mas os seus esforços eram regra geral infrutíferos, pois mesmo que encostasse em alguém acabava atropelado pela maior pujança dos opositores. Giroud, cujo futebol dependia sempre mais dos cruzamentos, estava controlado por dois centrais intratáveis no jogo aéreo, mas a França era capaz de lançar vaga sobre vaga de ataque fruto das arrancadas dos homens que chegavam das linhas atrasadas. O primeiro remate até foi português, quando Cédric descobriu uma diagonal de Nani e este lhe deu depois de controlar no peito, mas depois a França tomou conta do campo e bem podia ter chegado ao golo. Uma recuperação alta permitiu a Griezmann chutar à rede lateral de boa posição (aos 7’) e, pouco depois (aos 10’) foi Rui Patrício que, com uma defesa magistral, impediu o Bota de Ouro da competição de marcar de cabeça. Até que se deu o golpe de teatro. Magoado numa entrada de Payet, Ronaldo teve mesmo de sair do campo aos 25’, depois de ter tentado o regresso com um joelho ligado. Fernando Santos chamou Quaresma, mas a equipa não piorou, sobretudo porque o treinador a reorganizou, trocando o 4x1x3x2 por um 4x3x3 que permitia a Portugal encaixar no meio-campo francês. Com Renato mais por dentro, a manter Matuidi em sentido, Adrien passava a ter de ocupar-se “apenas” de Pogba. E o problema aí passaram a ser as movimentações de Sissoko, um monstro de disponibilidade física, que ganhava todos os duelos que disputava. Foi Sissoko, aliás, quem voltou a estar perto do golo, quando aos 34’ se livrou de Adrien e chutou para mais uma excelente defesa de Rui Patrício, neste período o garante do zero na baliza de Portugal. A partir deste momento, porém, com o encaixe tático, a França já só ameaçava em movimentos individuais, fossem eles de Pogba, Sissoko ou Coman, que entrara para o lugar de Payet com o intuito de alargar o campo e forçar o um para um com Cédric. E apesar de Griezmann ter voltado a perder uma ocasião clara, cabeceando ao lado após centro de Coman, Portugal parecia agora mais confortável no jogo. E mais confortável foi ficando com as trocas de Adrien, esgotado, por Moutinho, e sobretudo com a saída de Renato por Éder, dando mais coerência ao 4x3x3 da seleção. Nani, que estava no centro do ataque, muitas vezes a ser alvo de impossíveis bolas aéreas, passou para a direita, deixando a Éder a missão de jogar de costas para a baliza; Quaresma mudou para a esquerda e João Mário baixou para o meio-campo, onde rende muito mais do que como extremo. E assim que chegou ao flanco direito, Nani mostrou o que podia fazer: cruzamento-remate para grande defesa de Lloris, que deteve também a recarga acrobática de Quaresma (aos 80’). A França já tinha então trocado de ponta-de-lança, inserindo em campo Gignac, que pelo jogo de pés e pela forma como defende a bola com o corpo, era muito mais difícil de controlar que Giroud. E GIgnac esteve mesmo à beira de sentenciar a final, já em período de descontos: trabalhou bem sobre Pepe e, na cara de Patrício, chutou ao poste. Aqui, foi a sorte a proteger Portugal e a levar o jogo para um prolongamento onde, no entanto, a equipa nacional já foi melhor, mostrando que a profundidade do plantel é muito importante numa competição-relâmpago como esta: não só Portugal utilizou mais jogadores (só não jogaram os dois guarda-redes suplentes), como mudou cinco titulares da abertura para o encerramento (contra apenas dois da França) e até teve onze dias para fazer os últimos três jogos, enquanto a França desenhou o calendário para os fazer em oito dias. Com Ronaldo empenhadíssimo na motivação dos companheiros antes do prolongamento, a equipa portuguesa entrou melhor nesta fase do jogo, muito fruto da capacidade de luta e de ganhar faltas mostrada por Éder. Didier Deschamps ainda não tinha feito a última substituição quando Raphael Guerreiro acertou na barra num livre direto (aos 108’) que deixara Lloris completamente batido. E já se preparava para colocar em campo Kanté, um médio de contenção, quando Éder inventou o golo da vitória: saiu da esquerda para o meio, foi ganhando espaço e acertou um pontapé forte do meio da rua que fez a bola entrar no canto inferior da baliza francesa. Com onze minutos para jogar, Portugal colocava-se em vantagem. Até final, a ideia foi resistir e vinha bem sonora do banco, onde Ronaldo estava híper-ativo, saindo frequentemente da área técnica e mais parecendo um treinador pela forma como ia gritando para dentro do campo. Deschamps emendou a substituição e fez entrar Martial, mais um homem de ataque, mas a França já não voltou a conseguir criar as situações de perigo que tivera no tempo regulamentar. E no fim foi Ronaldo quem ergueu a taça, lançando a festa em Portugal e em todo o local onde há portugueses.
2016-07-11
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A equipa. Não restam muitas dúvidas nem entraves ao consenso. Portugal foi evoluindo à medida que a competição foi avançando e terá encontrado o seu onze de gala na fase decisiva. Hoje o onze titular deve ser igual ao que bateu Gales, com as entradas dos dois jogadores que nessa altura estavam impossibilitados de jogar: Pepe (lesionado) e William (castigado). A seleção deve assim entrar de início com cinco jogadores que começaram a prova como suplentes: Cédric, José Fonte, William, Adrien e Renato. Não tendo sido propositado, esse fator acaba por funcionar a favor da equipa portuguesa, que soma a esse menor peso da prova nas pernas o dia-extra de repouso que estranhamente a equipa organizadora cedeu ao adversário no desenho do calendário. A esperança portuguesa é a de que isso venha a ser decisivo. A estratégia. Portugal é uma equipa difícil de contrariar, porque é uma espécie de camaleão do ponto de vista estratégico. Nunca se sabe muito bem como a equipa vai entrar em campo, porque ela se centra tantas vezes na melhor forma de contrariar o adversário e tão poucas numa identidade própria. Foi assim nos três jogos que a seleção já fez a eliminar nesta prova. Hoje, a estratégia portuguesa pode passar por duas ideias fortes: impedir que as movimentações de Griezmann e Payet se tornem letais no espaço central e não deixar que Pogba e Matuidi empurrem o bloco para perto da baliza de Rui Patrício. Muito se vai jogar, portanto, no meio-campo, sendo que a mobilidade dos jogadores de segunda linha franceses não aconselha a que Portugal mantenha as referências individuais que tem vindo a utilizar com frequência – fê-lo, por exemplo, com a Croácia ou a Polónia. Se o que interessa é controlar as movimentações de Griezmann, há que manter William posicional à frente dos defesas, mas não lhe dar ordens para ir atrás dele, porque se o espaço vaga aparece lá Payet, vindo da esquerda. Se Payet não é tão perigoso pelas idas à linha de fundo para cruzar ou pela largura, mas sim pelas diagonais da esquerda para o meio, há que ter Renato Sanches a fechar esse espaço, permitindo-lhe até que se junte muitas vezes a Adrien mais por dentro, de forma a igualar o duelo com Pogba e Matuidi. Se Pogba e Matuidi gostam de chegar perto da área, de empurrar a equipa para a frente, há que ganhar-lhes as costas, seja através da saída de bola de William, da explosão de Renato, de tabelas com Adrien ou de desmarcações de apoio de Nani ou Cristiano Ronaldo. O jogo. A França vai ter mais bola. Isso parece evidente à partida, ainda que Portugal chegue a esta final com maior percentagem de posse que os donos da casa (53% contra 52%). A chave do jogo para Portugal vai, por isso, estar em grande parte nos comportamentos sem bola, na forma como a equipa for capaz de fechar os espaços, mas também nos momentos de transição ofensiva. A zona central da defesa francesa melhorou com a entrada de Umtiti para o lugar de Rami, mas ainda é a mais vulnerável no jogo francês, pelo que as movimentações de Ronaldo e Nani podem vir a ser fundamentais. O mais certo é Deschamps acabar por pedir aos seus laterais que joguem muito perto dos centrais, sobretudo no lado mais longínquo do campo, para evitar situações de dois para dois que podem ser potencialmente perigosas. Mas onde tudo vai decidir-se é mais atrás, na capacidade que Portugal vier a ter (ou não) de queimar as linhas francesas em contra-ataque. O favoritismo. A França entra como favorita. Fez um Europeu mais convincente, joga em casa e ganhou os dois particulares que fez contra Portugal nos últimos dois anos. O que se jogou aqui, no Stade de France, foi mesmo a estreia de Fernando Santos e começou de forma trágica para uma equipa portuguesa que foi completamente atropelada nos primeiros minutos. Mas isso não quer dizer que ganhe. Esta equipa portuguesa é muito difícil de derrotar. Basta olhar para os últimos dez anos. Em fases finais (2006, 2008, 2010, 2012, 2014 e agora 2016), descontando a meia-final de 2012, resolvida nos penaltis, Portugal só perdeu seis jogos: quatro vezes com a Alemanha (no jogo pelo terceiro lugar de 2006, nos quartos-de-final de 2008, na fase de grupos de 2012 e 2014), uma com a França (na meia-final de 2006), uma com a Espanha (oitavos-de-final de 2010) e outra com a Suíça (num jogo irrelevante de 2008, que a seleção jogou com vários suplentes). Dessas seis derrotas, duas foram contra a equipa da casa e outras duas contra o futuro campeão. Mau agoiro para o jogo de hoje? A tradição e o desdém. Diz o registo histórico que Portugal não ganha à França há 41 anos. Desde que a bateu em Paris, em 1975, num jogo particular. Mas Fernando Santos tem sido pródigo em acabar com as tradições. Foi assim quando Portugal ganhou à Itália como assim foi quando bateu a Argentina. Isso pesa zero no que há-de acontecer mais logo. Como zero pesa o facto de todos os analistas franceses acharem que Portugal não joga nada e que a França ganhará facilmente. É no campo que vai ver-se.
2016-07-10
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