PESQUISA 

Último Passe

A consagração de Cristiano Ronaldo na Gala da FIFA, destinada a premiar o melhor jogador do Mundo em 2016, fez mais que confirmar uma supremacia do português sobre Messi no último ano, que a conquista da Bola de Ouro do France-Football, em Dezembro, já tinha antevisto. Em 2016, Cristiano não se limitou a reduzir o score, que ainda é favorável a Messi, por 5-4. Cristiano conquistou o terceiro troféu de melhor do Mundo nos últimos quatro anos, deixando bem evidente que, apesar de ser mais velho que o argentino, é ele quem está a envelhecer melhor. Apesar de jogar um futebol mais físico. Tendo em conta que os últimos nove anos só viram estes dois vencedores e que Ronaldo até chegou lá primeiro, sendo depois arrasado por quatro troféus consecutivos de Messi, esta retoma é mais do que parece. Argumentarão de um lado que as conquistas de CR7 se devem a momentos físicos menos conseguidos do argentino, mas isso não é forma de menorizar aquilo que Cristiano tem conseguido. Pelo contrário. Também ele tem tido lesões, mas a forma como trabalha permite-lhe superá-las, o seu espírito de sacrifício chega para que jogue e renda mesmo diminuído. E, ainda que a ausência de todo o grupo do Barcelona na gala de hoje não seja vista com o mesmo olhar crítico de que se revestiram as reações às faltas de Ronaldo e Mourinho na cerimónia de há cinco anos (quando as razões são as mesmas), o célebre “mau feitio” do português não o impede de fazer balneário e assegurar que as suas equipas ganham sem ele em campo – veja-se, a título de exemplo, o que se passou na final do Europeu. Sacrificado na gala foi Fernando Santos, cuja vitória com Portugal no Europeu teve muito de treinador, não só na estratégia que foi desenhando para cada jogo como ainda (e sobretudo) na forma como foi capaz de unir os 23 jogadores convocados em torno de um ideal, em tempo de extremismo faccioso no país. Fernando Santos acabou por ser apenas terceiro na votação para os treinadores, mas até isso pode ser compreendido. É que Zidane ganhou a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes depois de ter pegado nos cacos que Rafa Benítez deixara no Real Madrid. E Ranieri protagonizou apenas a maior surpresa do século no futebol mundial. Dir-me-ão que Ranieri não tem uma ideia, que não é treinador para estes palcos, que é muito mais o homem despedido da Grécia do que o campeão com o Leicester e eu até concordo. Mas aquilo que o homem fez com o Leicester merece ser assinalado.
2017-01-09
LER MAIS

Último Passe

A imagem de Cristiano Ronaldo de pé junto à linha lateral, ao lado de Fernando Santos, ambos a gritar instruções para dentro do campo, na final do Europeu, era uma espécie de prenúncio da presença de ambos na gala da FIFA, como candidatos a vencedores dos prémios de melhor jogador e treinador de 2016. Os méritos de cada um para lá chegar são, contudo, muito diferentes.A presença de Ronaldo a este nível é habitual e é seguro dizer que ele lá estaria na mesma se Portugal não tivesse ganho a final contra a França. A vitória nesse jogo, mesmo tendo em conta que, lesionado desde cedo, nesse dia ele pouco contribuiu em campo, será o empurrão final para que o português possa somar mais um título de melhor do Mundo à Bola de Ouro da France-Football, mantendo acesa a disputa com Messi para definir qual dos dois extra-terrestres é mais alienígena. O que Ronaldo ganhou nesse dia afasta-o do argentino num particular: mesmo jogando numa seleção potencialmente mais fraca, já a conduziu a um título internacional, coisa que Leo ainda não fez com a bem mais poderosa Argentina.A reeleição de Ronaldo como melhor do ano, porém, não se esgota ali. É feita dos números mais uma vez impressionantes de golos, da vitória na final da Liga dos Campeões com o Real Madrid e também, porque isso revelou uma dimensão diferente do craque, do que mostrou ao nível da liderança na fase final do Europeu. O incidente do microfone, no qual se viu um Ronaldo irado com críticas e a virar a ira para o lado menos produtivo – para os jornalistas – marcará uma diferença entre o Ronaldo egocêntrico e o Ronaldo coletivo. A partir daí, o que se viu foi um CR7 que não se importava de se sacrificar em prol da equipa, que colocava o resultado final da seleção à frente do seu destaque pessoal na forma de lá chegar. A presença do craque ao lado de Fernando Santos na linha lateral no calor da disputa com a França ilustra aquilo que foi bem mais profundo: o compromisso entre os dois. E aí começa a explicar-se a entrada de Fernando Santos no lote dos que vão lutar pelo título de treinador do ano.Porque há muitas formas de ter êxito como treinador. O povo fala de táticas, o analista junta a estratégia, não há quem negue que o estar rodeado dos colaboradores certos tem muita importância, mas não há nada mais decisivo do que ser capaz de tirar o melhor de cada jogador. Fazer que cada um assuma na primeira pessoa o compromisso com o coletivo. Foi isso que Fernando Santos teve a arte de conseguir. E foi por isso que saiu de França com o título de campeão da Europa.
2016-12-28
LER MAIS

Último Passe

A conquista da quarta Bola de Ouro por parte de Cristiano Ronaldo, com uma gritante superioridade sobre a concorrência liderada por Messi, é vista por alguns como muita coisa que não tem necessariamente de ser. A votação dos correspondentes da France-Football – na qual, deixem-me dizê-lo, acredito muito mais do que naquela que vai ser feita pelos capitães e selecionadores nacionais chamados a votar pela FIFA, por ser menos suscetível a lóbis – confirma que Ronaldo foi o melhor jogador de 2016 e é um dos maiores da atualidade, a par do argentino. E mesmo assim dá que pensar, porque a vitória de Ronaldo se monta muito em cima de um jogo no qual ele saiu lesionado logo nos primeiros minutos: a final do Europeu. Nesse aspeto, esteve bem Ronaldo no discurso de agradecimento, no qual falou nos colegas da seleção nacional e do Real Madrid. Porque o futebol é um desporto coletivo e quase de certeza que se a França de Griezmann tivesse ganho aquele jogo ao Portugal sem Ronaldo as votações seriam, pelo menos, muito mais equilibradas. Como ganharam os portugueses, Ronaldo leva a Bola de Ouro para juntar aos títulos de campeão europeu de clubes e de seleções, elevando-se bem acima de Messi, “apenas” campeão espanhol com o Barcelona. O resto são leituras. Mais enviesadas umas, mais escorreitas outras. Já vi por aí que esta é a melhor reposta de Ronaldo ao escândalo fiscal em que se viu envolvido? Não creio, pois uma coisa nada tem a ver com a outra e ou muito me engano ou nem Ronaldo nem nenhum dos muitos envolvidos no processo divulgado pelo Football Leaks tem responsabilidade além da procuração quase plenipotenciária passada a quem lhes trata do dinheiro e dos negócios. Mais seguro será dizer que a quarta Bola de Outro eleva Ronaldo a um patamar ao qual ainda nenhum português tinha acedido. Mas mesmo isso é polémico. Sim, é verdade que o futebol de hoje é muito diferente do que era nos tempos de Eusébio. É evidente que a globalização permite a entronização muito para além do efémero dos melhores, independentemente do rendimento que tenham nos dois ou três jogos maiores do ano, que há meio século eram os únicos que muita gente via – e daí Messi e Ronaldo terem açambarcado as nove últimas Bolas de Ouro. É ainda claro para mim que a Eusébio nunca lhe foi permitido jogar fora de Portugal e que, tivesse ele ficado igualmente por cá, Ronaldo certamente levaria a uma nova mudança hegemónica no futebol nacional, a favor do Sporting, mas não poderia ser o fenómeno global que é hoje. Mesmo assim, tudo descontado, acho legítimo que se acabe com o debate. Porque como este nunca tivemos. E tenho sérias dúvidas de que voltemos a ter a tempo de eu poder vê-lo.
2016-12-13
LER MAIS

Último Passe

Algo de muito estranho se passa em Portugal para que, com dois vencedores da Bola de Ouro pela frente, toda a gente se preocupe sobretudo em saber, de um, se acha que o Sporting pode apanhar o Benfica na classificação da Liga e, do outro, que acaba de assinar uma renovação de contrato que o deixa em Madrid pelos próximos anos, se tenciona voltar a jogar no Sporting. Sei que Rui Costa estabeleceu um precedente invulgar, voltando ao Benfica depois de uma longa carreira em Itália – e não ganhou a Liga nesse regresso, que por isso não foi particularmente feliz nem para ele nem para o clube – e que quase todos os portugueses olham para o futebol não como um desporto, não como um negócio, mas como uma guerra de trincheiras. Como um nós contra eles. Um podemos nem ganhar nada com isso, mas depois de voltar do estrangeiro o craque x ou y provou que gosta é de nós e não deles. Como se isso importasse alguma coisa. Questionado sobre o regresso eventual ao Sporting, Ronaldo – para quem o futebol é uma profissão, na qual ele é parte fundamental de um mega-negócio, conforme se via só pelo facto de as perguntas serem parte da apresentação das novas chuteiras do craque – disse o que podia dizer. “Quem sabe aos 41 anos…” Essa é uma pergunta à qual, em bom rigor, ele neste momento não pode responder. Se o Real Madrid se fartar dele, se ele se fartar do Real Madrid, se não houver mais nenhum clube dos campeonatos de topo a querer contar com ele, se não houver nenhuma reforma num qualquer “Eldorado” onde ele possa impulsionar o negócio. São muitos ses. Bruno de Carvalho já disse que gostaria de o ter de volta, ele certamente também acharia graça à ideia, mas essa não é sequer uma questão atual ou uma questão à qual se possa responder de forma clara com um mínimo de honestidade intelectual. Inspirada na atualidade é a pergunta feita a Figo acerca da classificação da Liga, quando o antigo Bola de Ouro apresentava uma app de telemóvel destinada a ajudar na captação de talentos. Acha que o Sporting ainda consegue apanhar o Benfica? Figo lá balbuciou que sim, que é possível – e para o saber não é preciso ter sido Bola de Ouro – e que para bem dos sportinguistas era bom que isso sucedesse, mas certamente terá sido, pelo menos, surpreendido com a temática. Figo já não joga há uns anos e o futebol, para ele, já é mesmo só negócio. E se estivesse preparado para aquela pergunta até podia ter dito que sim, que o Sporting pode apanhar o Benfica na Liga, mas só porque o acordo que assinou com os encarnados para canalizar os jovens talentos captados pela sua app para o Seixal ainda não está em vigor. Fazia publicidade ao produto que estava a promover e respondia ao nonsense com nonsense.
2016-11-09
LER MAIS

Último Passe

Portugal goleou Andorra por 6-0, numa noite que ficará para a história da seleção e de Cristiano Ronaldo, autor de quatro golos que igualam o recorde de concretizações num só jogo da equipa nacional, até então pertença de Eusébio, Pauleta e Nuno Gomes. A partida serviu a Fernando Santos para começar a emendar o passo em falso dado com a derrota na Suíça, na jornada inaugural, mas não chega para alimentar euforias, não só porque Andorra é uma seleção demasiado fraca para ser tida em conta, como também porque os suíços complicaram as contas nacionais, ganhando na Hungria por 3-2 e superando com o pleno de pontos o obstáculo mais complicado que tinham antes da deslocação a Portugal. O jogo de Aveiro teve pouca história, porque Portugal marcou dois golos nos primeiros quatro minutos, ambos da autoria de Cristiano Ronaldo, que assim assinou o bis mais rápido de sempre na equipa nacional. A questão da atribuição dos pontos ficou logo ali resolvida, mas para a tibieza da reação andorrenha contribuiu igualmente o facto de os visitantes terem jogado os últimos 20 minutos com nove homens, devido a duas expulsões nascidas de um jogo persistentemente faltoso com que tentaram travar a equipa lusa. Fosse por excesso de empenho físico enquanto puderam dá-lo ou devido a um atraso constante na chegada à bola quando começaram a acusar a fadiga, os pupilos de Alvarez foram sendo fustigados com amarelos que lhes retiraram qualquer hipótese de construir jogadas de ataque e permitiram a Portugal acabar o jogo com várias unidades atacantes em campo ao mesmo tempo: Ronaldo, Quaresma, Gelson, Bernardo Silva, André Silva, João Mário e João Moutinho terminaram todos o jogo em campo, numa equipa que já só tinha três defesas e podia ter dispensado o guarda-redes, tão desprovida de sentido foi a permanência entre os postes de um sempre desocupado Rui Patrício Este foi, ainda assim, um jogo com várias pequenas histórias. Foi a história do recorde de golos num só jogo da seleção, que Ronaldo igualou mas podia bem ter superado, não tivesse ele passado os últimos 20 minutos de jogo longe da área, devido a um toque mais violento que sofreu por essa altura. Mas foi também a história do primeiro golo de André Silva na seleção, uma finalização longe de ser brilhante, que beneficiou de um desvio num defesa adversário, mas que nem por isso ou por ele ter perdido antes dois cabeceamentos com selo de golo tira vontade de o ver mais vezes ao lado de Ronaldo, pela forma como trabalha para libertar o capitão de amarras e da necessidade de jogar de costas para a baliza, como referência do ataque. A primeira experiência da dupla foi boa, mas tal como acerca da titularidade de Cancelo na defesa, exige observação mais cuidada perante um adversário de um nível de exigência mais alto para se formarem opiniões mais definitivas. E foi ainda a história da estreia de Gelson na seleção principal, entrando nos últimos 20 minutos para acelerar a equipa – quis o destino que a entrada do extremo leonino coincidisse com a lesão de Ronaldo e a redução de Andorra a nove homens, o que mudou o jogo. Nesses últimos 20 minutos, contra nove, Portugal só fez um golo – o sexto, de André Silva. Até aí tinha feito cinco, que completam a história do que se passou em Aveiro. Ronaldo marcou o primeiro aos 2’, sendo mais rápido a erguer-se que Rebés após uma defesa do guarda-redes Gomez para a frente, e juntou-lhe o segundo logo aos 4’, respondendo da melhor forma a um excelente cruzamento de Quaresma. Portugal entrou nessa altura numa fase de menor fulgor, com vários passes perdidos, nascidos da desconcentração de uma equipa à qual tudo parecia demasiado fácil. João Cancelo, em lance individual, fez o 3-0 pouco antes do intervalo, mas a equipa voltou melhor para o segundo tempo, provavelmente acordada com a insatisfação de Fernando Santos. Ronaldo fez o quarto aos 47’ numa belíssima finalização em volei após cruzamento tenso de André Gomes, e o quinto aos 68’, acorrendo de pé esquerdo a um desvio de José Fonte. Igualado o recorde e com mais de 20 minutos por jogar, esperar-se-ia que ele o batesse, mas foi aí que o capitão recuou no campo e a equipa assumiu o objetivo de dar a André Silva o seu primeiro golo internacional. Fê-lo já perto do final, compondo o resultado e deixando toda a gente à espera de ver o que trará o jogo nas Ilhas Faroe. Mais dificuldades, certamente.
2016-10-08
LER MAIS

Último Passe

A dramática derrota do Sporting frente ao Real Madrid no Santiago Bernabéu (1-2) e o insuficiente empate do FC Porto em casa ante o Copenhaga (1-1) puseram um ponto final modesto na semana das equipas portuguesas na Liga dos Campeões. Os dois jogos tiveram histórias muito diferentes mas epílogos semelhantes, de desilusão. Saíram desiludidos os leões, que foram a melhor equipa em campo durante 70 minutos mas não conseguiram congelar o desafio nos últimos 20, ficando à mercê da remontada madridista, como desiludidos saíram os dragões, incapazes de criar desequilíbrios na defesa dinamarquesa, nem mesmo quando o adversário ficou reduzido a dez. A derrota do Sporting veio recheada de uma demonstração de personalidade que não está ao alcance de qualquer equipa. Com um posicionamento irrepreensível e face a um Real pouco dinâmico, a equipa de Jorge Jesus foi sempre assegurando superioridade numérica nos vários duelos a meio-campo, fundando aí a capacidade de assegurar a maior dose de iniciativa de jogo: o Real só chutou à baliza de Rui Patrício à passagem da meia-hora, e de fora da área, por Cristiano Ronaldo. Gelson, mais uma vez o melhor em campo, foi um pesadelo constante para a defesa do Real Madrid, tendo começado nele o lance em que Bruno César abriu o marcador. Foi ainda o jovem ala quem, num lance pela direita, deu a Bas Dost a melhor ocasião do jogo – o holandês tentou meter o pé onde se impunha a cabeça e o cruzamento perdeu-se. O Real acabou por virar o jogo quando já poucos nisso acreditariam, fruto da conjugação de vários fatores. Primeiro, as alterações introduzidas por Zidane: Morata, Lucas Vasquez e James Rodríguez melhoraram muito o rendimento do campeão europeu. Depois, o facto de os leões terem piorado com as trocas de Adrien e Gelson por Elias e Markovic. Por fim, é verdade, a inexperiência de muitos jogadores da equipa portuguesa em momentos como aqueles, em que se impõe quebrar o ímpeto ao adversário. A verdade é que, tendo feito o empate num livre irrepreensível de Ronaldo (após falta de Elias), aos 89’, o Real ainda teve tempo para ganhar, num cabeceamento de Morata após cruzamento de James. Houve muito banco numa reviravolta que deixa o Sporting com zero pontos e a precisar de ganhar ao Legia já na segunda jornada. A pressão, senti-la-á também o FC Porto, que seguirá para Leicester com um ponto e a precisar pelo menos de pontuar em Inglaterra, depois de uma exibição pouco conseguida frente ao Copenhaga. Nuno Espírito Santo voltou ao 4x3x3, remetendo Depoitre para o banco, e parecia até poder sair-se bem, depois de um início premiado com um golaço de Otávio, após bela assistência de André Silva. Já nessa altura, porém, o FC Porto revelava parte dos pecados que haveriam de custar-lhe dois pontos, nomeadamente a falta de controlo do espaço aéreo defensivo face à potência de Santander e Cornelius, os dois avançados dos dinamarqueses. O resto ver-se-ia no segundo tempo, sobretudo depois de o Copenhaga ter empatado – por Cornelius, após mais um cruzamento não desfeito pelo último reduto portista – e de o adversário ter ficado reduzido a dez homens, por expulsão de Gregus. Nessa altura, em que Espírito Santo descobriu falta de eficácia, o que se viu foi falta de capacidade para criar desequilíbrios numa equipa organizada mas de qualidade inferior. O FC Porto voltou então ao 4x4x2, com Depoitre em vez de Corona, e mais tarde com a entrada de Brahimi para as vezes de Herrera, mas nem assim criou verdadeiras ocasiões de golo, parecendo sofrer sempre que as probabilidades estão a seu favor. Talvez não seja esse o caso em Leicester, como não era em Roma.
2016-09-14
LER MAIS

Artigo

A equipa. Não restam muitas dúvidas nem entraves ao consenso. Portugal foi evoluindo à medida que a competição foi avançando e terá encontrado o seu onze de gala na fase decisiva. Hoje o onze titular deve ser igual ao que bateu Gales, com as entradas dos dois jogadores que nessa altura estavam impossibilitados de jogar: Pepe (lesionado) e William (castigado). A seleção deve assim entrar de início com cinco jogadores que começaram a prova como suplentes: Cédric, José Fonte, William, Adrien e Renato. Não tendo sido propositado, esse fator acaba por funcionar a favor da equipa portuguesa, que soma a esse menor peso da prova nas pernas o dia-extra de repouso que estranhamente a equipa organizadora cedeu ao adversário no desenho do calendário. A esperança portuguesa é a de que isso venha a ser decisivo. A estratégia. Portugal é uma equipa difícil de contrariar, porque é uma espécie de camaleão do ponto de vista estratégico. Nunca se sabe muito bem como a equipa vai entrar em campo, porque ela se centra tantas vezes na melhor forma de contrariar o adversário e tão poucas numa identidade própria. Foi assim nos três jogos que a seleção já fez a eliminar nesta prova. Hoje, a estratégia portuguesa pode passar por duas ideias fortes: impedir que as movimentações de Griezmann e Payet se tornem letais no espaço central e não deixar que Pogba e Matuidi empurrem o bloco para perto da baliza de Rui Patrício. Muito se vai jogar, portanto, no meio-campo, sendo que a mobilidade dos jogadores de segunda linha franceses não aconselha a que Portugal mantenha as referências individuais que tem vindo a utilizar com frequência – fê-lo, por exemplo, com a Croácia ou a Polónia. Se o que interessa é controlar as movimentações de Griezmann, há que manter William posicional à frente dos defesas, mas não lhe dar ordens para ir atrás dele, porque se o espaço vaga aparece lá Payet, vindo da esquerda. Se Payet não é tão perigoso pelas idas à linha de fundo para cruzar ou pela largura, mas sim pelas diagonais da esquerda para o meio, há que ter Renato Sanches a fechar esse espaço, permitindo-lhe até que se junte muitas vezes a Adrien mais por dentro, de forma a igualar o duelo com Pogba e Matuidi. Se Pogba e Matuidi gostam de chegar perto da área, de empurrar a equipa para a frente, há que ganhar-lhes as costas, seja através da saída de bola de William, da explosão de Renato, de tabelas com Adrien ou de desmarcações de apoio de Nani ou Cristiano Ronaldo. O jogo. A França vai ter mais bola. Isso parece evidente à partida, ainda que Portugal chegue a esta final com maior percentagem de posse que os donos da casa (53% contra 52%). A chave do jogo para Portugal vai, por isso, estar em grande parte nos comportamentos sem bola, na forma como a equipa for capaz de fechar os espaços, mas também nos momentos de transição ofensiva. A zona central da defesa francesa melhorou com a entrada de Umtiti para o lugar de Rami, mas ainda é a mais vulnerável no jogo francês, pelo que as movimentações de Ronaldo e Nani podem vir a ser fundamentais. O mais certo é Deschamps acabar por pedir aos seus laterais que joguem muito perto dos centrais, sobretudo no lado mais longínquo do campo, para evitar situações de dois para dois que podem ser potencialmente perigosas. Mas onde tudo vai decidir-se é mais atrás, na capacidade que Portugal vier a ter (ou não) de queimar as linhas francesas em contra-ataque. O favoritismo. A França entra como favorita. Fez um Europeu mais convincente, joga em casa e ganhou os dois particulares que fez contra Portugal nos últimos dois anos. O que se jogou aqui, no Stade de France, foi mesmo a estreia de Fernando Santos e começou de forma trágica para uma equipa portuguesa que foi completamente atropelada nos primeiros minutos. Mas isso não quer dizer que ganhe. Esta equipa portuguesa é muito difícil de derrotar. Basta olhar para os últimos dez anos. Em fases finais (2006, 2008, 2010, 2012, 2014 e agora 2016), descontando a meia-final de 2012, resolvida nos penaltis, Portugal só perdeu seis jogos: quatro vezes com a Alemanha (no jogo pelo terceiro lugar de 2006, nos quartos-de-final de 2008, na fase de grupos de 2012 e 2014), uma com a França (na meia-final de 2006), uma com a Espanha (oitavos-de-final de 2010) e outra com a Suíça (num jogo irrelevante de 2008, que a seleção jogou com vários suplentes). Dessas seis derrotas, duas foram contra a equipa da casa e outras duas contra o futuro campeão. Mau agoiro para o jogo de hoje? A tradição e o desdém. Diz o registo histórico que Portugal não ganha à França há 41 anos. Desde que a bateu em Paris, em 1975, num jogo particular. Mas Fernando Santos tem sido pródigo em acabar com as tradições. Foi assim quando Portugal ganhou à Itália como assim foi quando bateu a Argentina. Isso pesa zero no que há-de acontecer mais logo. Como zero pesa o facto de todos os analistas franceses acharem que Portugal não joga nada e que a França ganhará facilmente. É no campo que vai ver-se.
2016-07-10
LER MAIS

Artigo

Lembram-se da seleção de 2004? Pois bem, não tem nada a ver. Ou melhor: tem um ponto de contacto: ambas chegaram a uma final. Mas para se perceber por que razão aquela equipa foi capaz de convocar bandeiras nas janelas de tantos portugueses e esta continua a ser olhada de lado pela generalidade dos que julgam que sabem de futebol é preciso recorrer a mais justificações do que a capacidade de marketeer de Luiz Felipe Scolari, a abundância face à escassez atual de estrelas no onze ou o facto de aquele Europeu ter sido disputado em casa e portanto mais próximo das emoções nacionais. É, fundamentalmente, uma questão de foco. Aquela equipa começava os jogos a pensar nas maneiras de chegar ao golo, de seduzir, esta começa-os a pensar nas maneiras de evitar que os adversários lá cheguem, de anular. Mas dizer que aquela jogava enormidades e que esta não joga nada é uma parvoíce que só mesmo no país das vitórias morais pode ouvir-se e ser aplaudida. Porque como dizia Chris Coleman no final do Portugal-Gales, “há mais de uma maneira de ganhar um jogo de futebol”. Afinal de contas o que é jogar bem? Um dos primeiros que vi abordar essa questão foi Jorge Valdano, no Europeu de 1996. Escreveu-o acerca de Portugal, no “caderno” que publicava no El Pais, lançando a euforia no contingente de jornalistas portugueses ainda pouco habituados a verem a sua seleção nas fases finais. Eu sei, porque estava lá e também babei com o elogio internacional. “Jogar bem é tocar a bola, entendendo que cada lugar do campo tem a sua velocidade e a sua dificuldade. Todos a tocam e se oferecem…”, começava por definir o treinador argentino. Depois de passar detalhadamente por cada contributo, concluía. “Pode ser golo ou não, ganharão ou perderão, mas no fim dos jogos ingleses, espanhóis, italianos e búlgaros coincidem no veredito: ‘Maravilhoso!’ Ah sim? Então não me perguntem mais o que é jogar bem. É isto”. E no entanto aquele Portugal não ganhou. Ficou nos quartos-de-final. Jogava bem? Sem dúvida, mas não era eficaz. Não fazia golos que alimentassem tanto futebol. A questão em torno da equipa de Fernando Santos não é tanto a de saber se joga bem ou mal. Este Portugal joga bem, porque o faz de forma coerente com as suas ideias. Não joga é bonito. É a equipa estrategicamente mais bem montada de todo o Europeu. O que se aponta ao selecionador nacional? Que não começou com o melhor onze, guardando jogadores como Cédric, Fonte, Adrien, William ou Renato para segundas oportunidades. É verdade. Mas, mesmo sem acreditar que isso tenha sido propositado, alguém pode garantir que se eles têm entrado de início estariam agora em condições de dar à equipa o contributo decisivo que têm dado? Um Europeu é uma prova super-intensa, com sete jogos em menos de um mês, e nesse aspeto Portugal foi brilhante, arrancando lento e utilizando os 20 jogadores de campo baseado na convicção de que seria preciso fazer muita asneira para ficar eliminado na primeira fase. Mais acusações? Que Portugal joga muito em função dos adversários. Também é verdade. Mas a forma como a equipa foi montada nos jogos com a Croácia ou Gales, por exemplo, esteve perto da perfeição. Contra a Polónia esse espírito de antagonismo exacerbado foi longe demais e a ideia que ficou foi a de quem nem os próprios jogadores perceberam bem como era suposto jogarem, pelo menos até ao momento em que o treinador simplificou a fórmula em que, até pela dificuldade de pronunciar os nomes dos adversários, estes eram referenciados pelos números. Mas o modo como Adrien anulou Modric e Allen, os organizadores de jogo croata e galês; o modo como o mero posicionamento de Ronaldo impediu a Croácia de sair tantas vezes como quereria pela direita, através de Srna; o modo como João Mário e Renato Sanches fecharam as linhas de passe interior aos laterais galeses, impedindo-os de conectar com o resto da equipa quando se projetavam no ataque, tudo isso roçou o brilhantismo estratégico. Lembram-se do que disse Coleman lá mais acima? Há mais do que uma maneira de ganhar jogos de futebol. E, ao contrário do que aconteceu em 1996, agora a maneira de Portugal é esta. E atenção, que isto não quer dizer que esta seleção seja a nulidade ofensiva e de espetacularidade que os mais desatentos possam ficar a pensar. Portugal é a terceira equipa com maior média de remates por jogo: 18,6, apenas atrás da Inglaterra e da Bélgica. É a quarta com mais cantos a favor: 7,5 por jogo, mais uma vez apenas atrás de Bélgica, Inglaterra e Espanha. Está um pouco pior na percentagem de posse de bola, mas mesmo aí só há sete equipas mais agarradas à iniciativa, e nem todas são exemplos de sucesso: Alemanha, Espanha, Inglaterra, Suíça, Ucrânia, França e Hungria superaram os 53% lusitanos. Seria isto possível com uma equipa que estivesse no Europeu apenas para se defender? Não creio. O que há é uma mudança de paradigma resultante da extinção da geração de ouro, mas que já estava bem à vista de quem a quisesse observar, por exemplo, no último Europeu de sub-21. Foi a jogar assim que os portugueses ganharam por 5-0 à Alemanha, por exemplo. E o país não se queixou. É verdade que o futebol desta equipa é pouco atraente. Em comparação com o que jogava a de 2004, parece até vir de uma escola diferente. E a questão é que não vem de uma escola diferente, mas sim de uma realidade diferente, com menos jogadores de top mundial. Será preciso recordar que em 2004 a base da equipa era o FC Porto que acabara de ser campeão europeu e que o maior contingente na atual seleção vem do Sporting, que não ganhou sequer o campeonato nacional? Ou que há muito tempo que Portugal não fazia tantos jogos com tanta gente da Liga nacional em campo? Na meia-final lá estiveram Rui Patrício, Danilo, João Mário, Adrien e Renato Sanches. Nos quartos-de-final somaram-se-lhes Eliseu e William. E aqui chegados, o argumento simplifica-se. Olha-se para o sorteio e conclui-se que esta equipa tem tido é muita sorte. Pois é. Que chatice! Isso é que não é nada português. In Diário de Notícias, 08.07.2016
2016-07-08
LER MAIS

Último Passe

Quando Fernando Santos dizia que só voltava a casa no dia 11 de Julho, depois da final do Europeu, estava a falar a sério. Portugal assegurou a qualificação para o jogo onde vai decidir-se a prova ao bater com inteira justiça o País de Gales por 2-0, com golos de Ronaldo e Nani, a coroar um jogo que só não foi defensivamente perfeito porque a equipa abanou durante uns dez minutos da primeira parte. Mas desta vez nem os que só conseguem ver tacanhez na equipa terão grande margem de manobra, uma vez que Portugal foi claramente a melhor equipa em campo, até do ponto de vista atacante, tendo desperdiçado pelo menos cinco ocasiões claras para construir um resultado mais amplo. É verdade que o foco da equipa continuou a ser não deixar jogar o adversário. Que Fernando Santos construi o seu onze com a ideia firme de anular as principais armas de quem lhe surge pela frente. E, depois de o ter conseguido contra a Croácia, voltou a ser bem sucedido frente a Gales. O 4x4x2 de Fernando Santos, com recusa de pressionar a primeira fase de construção de Gales, tinha como maiores objetivos a anulação de Joe Allen por Adrien Silva, o médio-centro português, e o fecho das linhas de passe dos dois laterais galeses, Gunter e Taylor, através da colocação estratégica de Renato Sanches e João Mário entre eles e os jogadores dos quais mais dependia a criação, que eram Bale e King. Ora, com exceção de oito minutos da primeira parte (entre os 18’ e os 26’), nos quais os dois interiores portugueses perderam um pouco o posicionamento e Gales fez os seus três remates dos primeiros 45’, o plano resultou em pleno. O problema é que Portugal também não conseguia construir: eram raros os momentos de combinação entre os interiores e os seus laterais e os passes longos para Ronaldo esbarravam numa noite inesperadamente perfeita de Collins, que impedia a bola de lá chegar. A primeira parte foi, por isso, demasiado morna e na verdade teve apenas uma situação de perigo verdadeiro: foi quando, aos 44’, Adrien Silva se desamarrou e foi à esquerda para cruzar para um cabeceamento de Ronaldo, em boa posição, sobre a barra. O jogo precisava de um golo para mudar e foi Portugal quem o fez. Já Quaresma, Moutinho e André Gomes aqueciam para dar mais chispa no meio-campo e no ataque quando, ao terceiro canto português, João Mário bateu pela primeira vez curto, para Raphael Guerreiro. O lateral cruzou de forma perfeita e Ronaldo aproveitou o atraso da chegada da bola à zona de definição para se superiorizar à defesa galesa e cabecear para o 1-0. O jogo ia mudar, mas antes que Gales pudesse reagir, os portugueses fizeram o 2-0, após um bom movimento ofensivo, coroado com um remate de fora da área de Ronaldo. A bola parecia ir fraca e em direção às mãos de Hennessey, mas Nani apercebeu-se disso e desviou-a do alcance do guarda-redes galês, fazendo o 2-0. Havia 37 minutos por jogar, mas a urgência de Gales poderia abrir caminho ao ampliar da vantagem. Coleman meteu risco no jogo. Primeiro, trocou o médio mais defensivo, Ledley, por um segundo ponta-de-lança, Vokes, que foi jogar para perto de Robson-Kanu, transformando o sistema num 3x4x1x2, com Bale atrás dos dois avançados. A ideia manteve-se após a troca de Robson-Kanu por Church e acentuou-se a 25 minutos do final, quando Collins deu o lugar a Jonathan Williams. Aí, Gales passou a um 4x4x2, com Allen e Bale a pegarem no jogo alternadamente, Vokes e Church na frente e King e Williams nas alas. Santos, porém, não mudou a estrutura e limitou-se a refrescá-la: Renato Sanches cedeu a vaga a André Gomes, mais contido; Adrien foi trocado por Moutinho, que manteve a posição ao meio; e Nani abriu caminho à entrada de Quaresma. Portugal resistiu sempre a fazer entrar um terceiro central ou até a baixar Danilo no campo e continuou a ter as melhores situações para marcar. Primeiro, num contra-ataque aos 65’, no qual Nani forçou Hennessey a uma defesa incompleta e João Mário recargou de primeira rasar o poste, já com o guarda-redes caído. Depois, aos 70’, quando José Fonte cabeceou um canto de João Mário para nova defesa do guardião galês. Renato Sanches ainda perdeu esse mesmo 3-0 num contra-ataque em que Portugal teve superioridade numérica, mas no qual optou por chutar de fora da área (aos 73’, imediatamente antes de sair). Danilo, aos 78’ podia também ter ampliado a margem, quando aproveitou uma situação de pressão para se isolar na cara do guardião galês e o viu deter-lhe o remate à segunda, já em cima da linha de golo. E por fim Ronaldo, isolado por André Gomes na meia-direita, viu a receção prejudicar-lhe a finalização, que saiu à rede lateral (aos 86’). Nessa altura, porém, já os portugueses viam St. Denis ao longe. Gales caía muito no jogo direto para os pontas-de-lança, ganhando algumas bolas aéreas mas perdendo outras, e só se tornava perigoso quando Bale conseguia espaço. Dois remates de longe da estrela galesa (aos 77’ e aos 80’), ambos defendidos por Rui Patrício, representaram o último estertor de uma equipa que saiu deste Europeu merecidamente aplaudida de pé pelos adeptos mas que não chegou para contrariar a superioridade técnica, tática e sobretudo estratégica de Portugal.
2016-07-06
LER MAIS

Artigo

Gerir uma equipa, todos o sabem mas muitos tendem a esquecê-lo, é mais do que escolher um onze e decidir as substituições. Muito mais do que isso. Gerir uma equipa é sobretudo gerir os egos que coexistem num balneário, aspeto que ganha ainda mais preponderância quando se joga uma fase final de um Europeu ou de um Mundial, no qual 23 jogadores com pretensão a estrelas e centro do Mundo em que vivem têm de viver em conjunto dia e noite. E ainda que nem sempre tenha estado de acordo com as opções de Fernando Santos na escolha dos onzes, na sua arrumação em campo, nas substituições que foi fazendo, neste particular tiro o chapéu ao selecionador nacional e à sua navegação à vista. Portugal não joga um futebol espetacular do ponto de vista atacante, não é sequer uma equipa defensivamente coriácea como era a Grécia de 2004, mas tem grupo. E isso nota-se tanto mais quanto mais se radicalizam as críticas aos que esperavam ver Ronaldo decidir os jogos e entendem mal o Europeu que ele está a fazer. Quando Cristiano Ronaldo falhou o penalti que podia ter dado a Portugal a vitória contra a Áustria, passou-me pela cabeça que o facto não tinha necessariamente de ser mau para a seleção nacional. O apuramento para os oitavos-de-final haveria de se conseguir com mais ou menos brilho, com maior ou menor dificuldade, e aquele momento era o que faltava para equilibrar a relação de poderes no balneário. A partir daquele penalti, Ronaldo desceu à Terra e passou a sentir-se em débito para com os colegas. Algo a que ele não está habituado na seleção, porque do que se fala sempre é de Ronaldo-dependência, é de uma equipa que ele carrega aos ombros com o seu brilho individual. E se a melhor coisa para a seleção numa fase final seria, de longe, ter o Ronaldo de Outubro/Novembro, meses em que ele se apresenta no auge do seu rendimento desportivo, a segunda melhor é ter um Ronaldo consciente de que tem de ser mais um a empurrar quando o coletivo disso necessitar. E aquilo que se viu daí para a frente foi diferente. Contra a Hungria, preocupado em ser mais coletivo, em decidir mais em prol do grupo que do seu próprio protagonismo, Ronaldo foi premiado com dois golos. Frente à Croácia, trabalhou sempre para o grupo: pressionou, prendeu os centrais e não pôde rematar senão aos 117’, no lance que acabou por dar o golo a Quaresma. Finalmente, no jogo com a Polónia, não tendo decidido sempre bem – ainda chutou uma vez de ângulo apertado quando podia facilmente ter dado o golo da vitória a João Mário – voltou a ser o primeiro defesa e a sacrificar-se na posição central de que tão pouco gosta porque era disso que a equipa precisava. No final, Fernando Santos dedicou-lhe algumas palavras, destacando o papel que ele desempenhou. O selecionador sabe que tem ali um caso especial, que precisa de afagar o ego a Ronaldo quando antevê esses carinhos não chegarão da comunicação social ou de adeptos mal habituados, mas daí não vem nenhum mal ao Mundo nem ao grupo. E a diferença entre este comportamento do CR7 e o “Perguntem ao Carlos!” com que ele pontuou a deprimente prestação portuguesa no Mundial de 2010 é por demais evidente e sintomática de como a gestão de um grupo é mais importante numa fase final do que a tomada de decisões táticas. Não foi por acaso que, mesmo nunca lhe tendo dado muitas oportunidades, o selecionador falou também do tempo que passou com o ainda adolescente Ricardo Carvalho no FC Porto quando agora o relegou para o banco. Ou que a estrutura da seleção tanto se esforça para controlar danos na comunicação com os jornalistas sempre alguém sai da equipa. Faz parte. Porque a verdade é que esta seleção é mais limitada do que muitas das suas antecessoras, mas para quem vê de fora parece ter mais grupo. Tem um Quaresma que aceita o seu papel de joker com um sorriso nos lábios e não deixa de ser decisivo. Tem um Renato Sanches que não deixa que o “hype” à volta das suas prestações lhe destrua a vontade de aprender. Tem um Adrien Silva que mesmo depois da excelente prestação contra a Croácia vem dizer que não ficaria surpreendido se voltasse ao banco. A foto de Renato e Adrien abraçados no seguimento do golo de Quaresma à Croácia é um exemplo daquilo que deve ser o espírito de seleção, indiferente às tonterias de radicalismo clubista que vêm sendo ditas e escritas um pouco por todo o Portugal. E se muitas vitórias são alcançadas graças a momentos de inspiração individual de alguns jogadores, nesse resultado o papel de quem gere este grupo não é irrelevante. In Diário de Notícias, 02.07.2016
2016-07-02
LER MAIS

Último Passe

Um aproveitamento de 100 por cento nas grandes penalidades, a somar a um penalti defendido por Rui Patrício, permitiu a Portugal carimbar o apuramento para as meias-finais do Europeu, depois de mais um empate – o quinto – da equipa de Fernando Santos nesta fase final. Desta vez, o futebol jogado saldou-se por uma igualdade a um golo: os polacos marcaram logo a abrir, por Lewandowski, tendo os portugueses empatado por Renato Sanches quando Fernando Santos transmitiu alguma clareza tática para dentro do campo, ainda na primeira parte. Cristiano Ronaldo ainda perdeu um par de situações claras para fazer o segundo, mas não vacilou quando se tratou de liderar a equipa no desempate. Aí, além do capitão, Renato Sanches, João Moutinho, Nani e Quaresma também fizeram golo nas suas tentativas, tendo Rui Patrício detido o remate de Blaszczykowski da definição do 5-3 final. Sem Raphael Guerreiro e André Gomes, Fernando Santos colocou finalmente na relva o meio-campo que o país em peso vinha pedindo, mas nem por isso a equipa entrou bem no jogo. Com Wiliam Carvalho atrás de Renato Sanches, Adrien Silva e João Mário, Portugal passou meia-hora numa indefinição tática da qual ninguém se salvava. Ora Cristiano e Nani abriam nas alas deixando a João Mário a missão de aparecer como falso ponta-de-lança; ora o capitão ficava no meio e era Adrien quem mais dele se aproximava, baixando Nani; ora a equipa se aproximava de um 4x3x3 com Adrien e Renato por dentro e João Mário a abrir como extremo... As combinações ofensivas não saíam e, pior do que isso, defensivamente a equipa parecia adormecida. Para cúmulo, a Polónia marcou logo aos 2’, num lance em que alguns portugueses não ficaram isentos de culpas: Cédric falhou a interceção de um passe que encontrou Grosicki na esquerda, este ganhou posição na linha de fundo e, beneficiando de um movimento de Milik, que arrastou os dois centrais portugueses em direção à baliza, deu a bola para a finalização fácil de Lewandowski, que se adiantou a William Carvalho graças a uma melhor e mais rápida leitura do lance. Estava dado o mote para uma meia-hora na qual, mesmo tendo experimentado visar a baliza de Fabianski algumas vezes, Portugal podia ter deitado o jogo a perder, tanta era a desconcentração que a equipa mostrava e que se revelava na perda sucessiva de passes. As melhores ocasiões neste período foram polacas, nelas se contando um remate de Milik ao lado (aos 15’) e uma defesa de Rui Patrício a novo tiro de Lewandowski (aos 17’), mas sobretudo uma troca de passes no lado esquerdo do ataque polaco que, mesmo sem ter criado sensação clara de golo, deixou os portugueses como se fossem meros pinos de treino. Por volta da meia-hora, porém, Fernando Santos parece ter esclarecido as coisas com a equipa. Corrigidas as posições em campo, tendo Portugal assumido um 4x1x3x2 mais clássico, com Renato na direita, João Mário na esquerda e Adrien perto de William, a equipa assentou o jogo. E ato contínuo chegou ao golo, numa bela tabela de Renato com Nani, que o jovem médio concluiu com um remate de pé esquerdo para o fundo da baliza polaca. Houve alguma fortuna na forma como o remate desviou em Krychowiak, fugindo do guarda-redes, mas Portugal encarregar-se-ia nos minutos seguintes de mostrar que merecia essa sorte. Abriu-se aí a melhor fase portuguesa no jogo. E em condições normais esta podia mesmo ter dado origem à primeira vitória portuguesa em 90 minutos. O meio-campo funcionava na forma como era capaz de tirar a bola da zona de pressão polaca e conduzir a equipa a ataques rápidos, como aquele em que Ronaldo se isolou sobre a esquerda e, quando tinha João Mário do outro lado, de baliza aberta, optou por rematar em vez de lhe dar a bola para o que se adivinhava viesse a ser uma conclusão fácil. O remate do capitão, no entanto, acertou na rede lateral (aos 56’). O mesmo Ronaldo acertou mal numa bola já dentro da área (aos 60’), tendo Adrien chutado de ressaca contra um adversário. E até Cédric, num disparo de fora da área, esteve à beira de desempatar (aos 64’). O cansaço de alguns elementos pôs termo a esta boa fase de Portugal. O sinal veio num desvio de Milik, que Rui Patrício deteve com categoria (aos 69’) ou no cartão amarelo mostrado a Adrien pela forma como travou, em falta, um contra-ataque polaco (aos 70’). Mas mesmo com o jogo mais dividido, os portugueses podiam perfeitamente ter ganho. Primeiro num raide de Pepe em que, para evitar que a bola chegasse a Ronaldo, Glik quase fez autogolo (aos 81’). Depois, já em período de compensação, quando João Moutinho (que substituíra Adrien) descobriu mesmo Ronaldo atrás da linha defensiva polaca, mas o capitão luso não foi capaz de desviar o passe alto em direção da baliza do desamparado Fabiánski. O prolongamento foi marcado mais pelo medo de perder do que pela vontade de ganhar. Portugal já tinha lançado Quaresma em vez de João Mário, fazendo-o o jogar pela direita e derivando Renato para a esquerda. Percebendo o cansaço de William, mais uma vez o que mais estava a correr entre os jogadores lusos, Fernando Santos trocou-o então por Danilo, de forma a evitar que essa fadiga se refletisse em falta de cobertura defensiva aos centrais na contenção dos dois pontas-de-lança que Nawalka mantinha em campo e de testar já a solução para a meia-final, uma vez que William viu um amarelo que o afasta do jogo. Ainda assim, com a Polónia a beneficiar nesta fase de alguma falta de agressividade portuguesa no ataque às sobras e a encaminhar o jogo para mais perto da baliza de Rui Patrício, a melhor ocasião de golo pertenceu a Portugal, quando Ronaldo voltou a não acertar bem na bola, desta vez após ficar em boa posição no seguimento de um cruzamento de Eliseu (aos 93’). A verdade é que ninguém desempatou o jogo e este se decidiu mesmo nas grandes penalidades. E aí, 100% de frieza e competência dos marcadores portugueses, tendo Rui Patrício assinado a única defesa do desempate, quando caiu para a sua esquerda para ir buscar o remate de Blaszczykowski. Quaresma não vacilou na hora de bater o penalti decisivo e apurou Portugal para a sétima meia-final do seu historial (já lá tinha estado nos Mundiais de 1966 e 2006 e nos Europeus de 1984, 2000, 2004 e 2012).
2016-07-01
LER MAIS

Artigo

Quando Portugal dominou a Islândia e a Áustria e viu as hipóteses de vitória esbarrar nas deficiências de finalização, a reação do país foi mais ou menos esta: "que nabos! Nem sequer sabem chutar à baliza!" Agora que a seleção teve menos bola e menos remates que a Croácia mas acabou por ganhar o jogo, o país também não gostou: "que nabos! Jogaram como uma equipa pequena e tiveram uma sorte monumental!" Na verdade, este debate não interessa a ninguém. Portugal nunca foi tão mau como querem fazer crer estes radicais da análise ou os que se lhes opõem, vendo sempre o copo meio cheio. Mas há no desafio com a Croácia, o jogo em que Portugal teve menos bola e fez menos remates nos últimos dois anos, base para se lançar outro debate: qual é o futebol que mais convém a esta seleção de Portugal? Porque até é muito possível que seja este jogo mais passivo que se viu frente à Croácia.Tradicionalmente, o futebol português dos últimos 40 anos evoluiu a partir da escola pedrotiana, privilegiando a posse mas sofrendo para entrar nos 30 metros finais. Por causa disso ou da timidez de alguns treinadores, criou-se a convicção de que Portugal tinha de jogar sobretudo em contra-ataque, condenando toda uma geração bastante talentosa a um futebol pequenino que teve como expoente o massacre a que a seleção foi submetida em Estugarda, onde ganhou à RFA e se apurou para o Mundial de 1986. A ideia de que Portugal tinha de jogar assim, lá atrás, só foi posta em causa mais tarde, pela geração de ouro. Os Figos, os Ruis Costas, os Paulo Sousas, os Baías ou os Joões Pintos perceberam que não só podiam como deviam mandar nos jogos. E criou-se a ideia oposta, segundo a qual Portugal tinha de mandar nos jogos, ter sempre uns 60 por cento de posse e ser esmagador na estatística de remates. A equipa do Europeu de 2000, mais tarde aperfeiçoada até se chegar a 2006, com Cristiano Ronaldo, foi o melhor exemplo deste novo paradigma do futebol nacional.A questão é que não só o futebol mudou como mudaram os melhores jogadores portugueses. O futuro, com a tomada do poder pelas gerações que têm brilhado nas seleções de sub21, pode até devolver a seleção nacional a uma realidade com mais posse - ainda que o futebol da equipa que perdeu o último Europeu da categoria nos penaltis não pareça indicar essa direção - mas o presente é o de uma equipa que sofre para transformar um jogo mais dominador em vitórias por falta de um ponta-de-lança que liberte Ronaldo e ao mesmo tempo garanta golos com regularidade. Acaba por ser isso que leva os observadores a falar em Ronaldo-dependência ou na obsessão do capitão pelos golos, o que ao mesmo tempo é a razão que permite que esta equipa consiga algum sucesso com táticas assim tão conservadoras. Tivesse a equipa de 1984 um Ronaldo para jogar com Jordão e Chalana e seria campeã a jogar maioritariamente em ataque organizado ou em contra-ataque sem grandes problemas. Tivesse a equipa atual a profundidade de escolhas para a posição de ponta-de-lança que tinha a de 1984 (Jordão, Gomes, Nené e ainda Manuel Fernandes, que ficou em casa) e também poderia dar-se ao luxo de optar por uma ideia ou outra em vez de ouvir Ivkovic dizer que Portugal não tem uma ideia de jogo.Na verdade, a seleção de Portugal vive numa dúvida permanente. Deve ouvir os otimistas que não se cansam de dizer que temos uma seleção de enorme qualidade e que "ganhar a jogar à Grécia" é uma vergonha? Ou deve reconhecer que, por falta de um atacante que sirva de referencia e por ser forçada a jogar ali com o CR7, tirando-o do jogo, precisa de unir o bloco, baixar linhas e aproveitar os momentos de contra-ataque que os jogos (todos os jogos) oferecem? O que está a dizer-nos este Europeu é que mais vale a segunda opção. Com a Croácia, Ronaldo, que tinha sido o mais rematador dos portugueses nos três desafios anteriores, teve de esperar 117 minutos para ter a primeira oportunidade de visar a baliza adversária. Mas ao contrário do que sucedeu contra a Islândia ou a Áustria, quando a teve foi decisivo. O que nos disse o jogo de Lens foi que, com este Ronaldo, sem ter um ponta-de-lança que permita fixar o futebol da equipa mais à frente, e mesmo sabendo-se que isso não traz um crescimento tão consolidado a nenhuma equipa como um futebol mais burilado e envolvente, Portugal parece condenado ao um modelo mais baseado no agrupamento atrás e na rapidez e profundidade nas suas transições. O problema é que a Polónia também gosta de jogar assim.
2016-06-27
LER MAIS

Último Passe

Um jogo muito diferente dos três anteriores e até daquilo a que a seleção nacional está habituada permitiu a Portugal atingir os quartos-de-final do Europeu, mercê de uma vitória sobre a Croácia, por 1-0, com um golo de Quaresma a três minutos do final do prolongamento. O golo nasceu de um contra-ataque perfeito e coroou de sucesso a tática do esticão em que Fernando Santos apostou quando percebeu que era impossível tirar o domínio ao adversário e chegar lá através de um futebol mais consistente. Também por isso se falou tão pouco de Ronaldo: o primeiro remate do capitão aconteceu precisamente no lance do golo e exigiu uma defesa enorme a Subasic, tendo Quaresma sido o mais rápido a acorrer ao ressalto para marcar de cabeça na baliza deserta. As maiores virtudes lusitanas, no entanto, tiveram pouco a ver com brilho. Foram a exibição imperial de Pepe no comando da defesa, a disponibilidade física de Adrien para contrariar o jogo de posse do meio-campo croata, o jogo quase sem erros de Cédric e Guerreiro e, depois, quando foi preciso mudar o chip ao jogo, as arrancadas de Renato Sanches, a fustigar um adversário que apesar dos dois dias a mais de recuperação de que dispôs também não estava assim tão fresco. Entre os citados estão várias das alterações feitas por Fernando Santos no onze inicial, revelando uma avaliação perfeita do grupo e do que lhe era exigido. Um jogo não se faz com onze jogadores, mas sim com 14. Um jogo não tem de se ganhar nos primeiros minutos: pode ganhar-se nos últimos. Não costuma ser boa política esperar até lá para o ganhar, mas esta seleção tem-no feito com tanta frequência que dá que pensar. Fernando Santos optou por fazer quatro alterações ao onze que tinha defrontado a Hungria. Por três ordens de razões. Raphael Guerreiro regressou à equipa em vez de Eliseu porque é já o titular da posição e já não estava fisicamente impedido de alinhar. José Fonte ocupou a vaga de Ricardo Carvalho no centro da defesa porque os 38 anos do titular não lhe permitem já uma recuperação física tão rápida como a dos companheiros e a fadiga já se lhe notara no jogo com os húngaros, mas também porque era preciso combater o jogo físico do possante Mandzukic. Cédric e Adrien entraram em vez de Vieirinha e João Moutinho por questões ao mesmo tempo estratégicas e de análise do grupo: o lateral direito conteve bem Perisic e o médio não só inibiu Modric de exercer maior influência no jogo como conseguiu ir à frente municiar o ataque: é dele, por exemplo, a recuperação seguida de passe para Nani no lance em que o atacante sofreu uma grande penalidade não assinalada pelo árbitro. Portugal entrou na mesma em 4x4x2, com André Gomes em vez do reclamado Renato Sanches e se a opção parece revelar que Santos não quer Renato numa ala do seu 4x4x2 – e é evidente que não pode jogar com ele ao meio, só com dois médios – a forma como decorreu o jogo deu-lhe razão. Porque entrando aos 50’, Renato ainda teve tempo de se tornar uma força motriz nas chegadas de Portugal à frente. Nessa altura, com a saída de André Gomes, Portugal passou a um 4x3x3 que serve mais as caraterísticas de Renato mas sacrifica João Mário, que teve de se encostar na esquerda do ataque. E não é a mesma coisa ser ala no meio-campo de quatro ou extremo no ataque a três: João Mário, que joga melhor ao meio, pode desempenhar a primeira função mas terá sempre muitas dificuldades em dar à equipa o jogo pleno de velocidade que a segunda exige, razão pela qual foi depois naturalmente sacrificado para dar entrada a Quaresma, quando o treinador percebeu que não ia lá através do jogo consistente e mais valia apostar na tática do esticão. O 4x4x2 português tentava encaixar no 4x2x3x1 croata. Não havia marcações individuais, mas notava-se que William Carvalho se preocupava muito com as movimentações de Rakitic, o croata que jogava mais perto do ponta-de-lança, e que Adrien subia em pressão para ir buscar Modric, o principal cérebro do jogo axadrezado. O jogo era muito feito de encaixes, mas enquanto Portugal baixava para se organizar defensivamente, a equipa de Ante Cacic pressionava a saída de bola portuguesa, levando os centrais lusos a jogar mutas vezes longo e a perder a bola. Isso levou ao domínio territorial e de posse dos croatas, mas nem por isso a um jogo com ocasiões de golo. Em toda a primeira parte não houve um único remate bem enquadrado com as duas balizas e três dos quatro que saíram ao lado (três da Croácia e um de Portugal) nasceram em lances de bola parada. No segundo tempo, com a entrada de Renato Sanches e a passagem dos portugueses para um 4x3x3 que encaixava ainda melhor no 4x2x3x1 croata, só o desgaste natural das duas equipas permitiu que o jogo partisse um pouco e que começassem a entrar contra-ataques e ataques rápidos. Brozovic esteve perto do golo aos 52’, mas chutou cobre a barra da baliza de Patrício e, aos 57’, foi a vez de Renato chutar ao lado de boa posição, após uma boa tabela com João Mário. Até ao final dos 90’, só um cabeceamento de Vida, após livre de Srna, aos 62’, deixou a defesa de Portugal em cuidados. Fernando Santos atacou o prolongamento com Quaresma em vez de João Mário e percebia-se que o jogo estava para os raides do extremo do Besiktas. Ainda assim, o maior volume de jogo croata deixava Portugal em cuidado permanente. Kalinic chutou ao lado de boa posição aos 97’ e Vida voltou a ameaçar num canto, cabeceando por cima da barra aos 112’. Nessa altura já Portugal trocara Adrien por Danilo, numa tentativa de tapar a entrada da área e ganhar altura nas bolas paradas que a Croácia ia tendo com frequência e nas quais criava sempre perigo. Perdia-se a capacidade de Adrien nos penaltis, mas acabou por não ser necessário lá chegar porque a equipa fez valer os argumentos que tinha em campo. Após um cabeceamento de Perisic detido a meias por Rui Patrício e pelo poste, Quaresma desarmou Strinic perto do bico da área portuguesa, a bola sobrou para Ronaldo que a entregou de imediato a Renato Sanches, tirando a bola da zona de pressão croata. Este, com condições para correr, conduziu um contra-ataque de quatro para quatro por uns 50 metros antes de entregar a Nani na esquerda. Nani cruzou de trivela para o segundo poste onde, em boa posição, Ronaldo obrigou Subasic à primeira defesa do jogo. Quaresma, que tinha acompanhado a jogada, só teve de encostar de cabeça para enviar Portugal para os quartos-de-final.
2016-06-26
LER MAIS

Último Passe

Uma exibição decisiva de Ronaldo, que tal como há quatro anos apareceu no Campeonato da Europa à terceira jornada, chegou a Portugal para empatar a três bolas com a Hungria e apurar-se para os oitavos-de-final do Euro’2016, onde a seleção nacional vai defrontar a Croácia. Autor de dois golos de grande execução e de uma assistência para o primeiro dos três tentos portugueses, marcado por Nani, Ronaldo fez a diferença numa tarde em que os portugueses puderam ainda ver os efeitos da sociedade entre João Mário e Renato Sanches a carrilar jogo para o meio-campo adversário, mas na qual a Fernando Santos terá sobrado uma dúvida: como poderá ter os dois miúdos ao mesmo tempo e não sofrer defensivamente? Na resolução desse dilema estará a chave de um Europeu no qual Portugal ainda não convenceu ninguém, mas onde teve a felicidade de calhar na metade certa do quadro, assegurando que só defrontará Espanha, Itália, Alemanha, França ou Inglaterra se chegar à final. Pode parecer uma loucura estar a falar de final quando a seleção nacional teve de sofrer até para ser terceira classificada num grupo que apurou diretamente a Hungria e a Islândia. Ou quando ainda não ganhou uma única das três partidas que fez. No último dia do Grupo F, porém, o jogo foi mesmo de loucos. Mesmo antecipadamente apurada, a Hungria só desistiu de tentar ganhar nos últimos 20 minutos, quando se centrou mais na vontade de acabar o grupo como primeira classificada e fugir também aos favoritos. A precisar de ganhar para ser primeiro, mas sabendo que o empate lhe dava sempre a qualificação, Portugal também só resolveu meter o jogo no bolso nos últimos dez minutos, quando Fernando Santos substituiu Nani por Danilo, na tentativa de evitar uma surpresa desagradável. É que um quatro golo da Hungria mandava a equipa nacional para casa e, além de os dois golos que os húngaros fizeram na segunda parte já terem saído de livres com desvio na barreira, Rui Patrício ainda viu uma bola tabelar-lhe no poste direito que bem podia ter forçado a equipa a recuperar por uma quarta vez. É que a história do jogo mostrou sempre a Hungria na frente e Portugal a ter de recuperar e depois a ver o seu ímpeto destruído por mais um golo húngaro. Enquanto Bernd Storck resolveu poupar os titulares que já tinham visto um cartão amarelo, assegurando dessa forma que os teria no jogo dos oitavos-de-final, Fernando Santos entrou perto daquela que tem sido para ele a equipa de gala. A exceção era a ausência de Raphael Guerreiro, que, lesionado, dava o lugar a Eliseu. André Gomes mantinha a vaga na esquerda de um meio-campo que, com a reentrada de João Mário para o lugar que tinha sido de Quaresma no jogo com a Áustria, regressava aos quatro elementos, enviando a equipa para o 4x4x2. O problema é que André Gomes pareceu limitado e nunca produziu tanto como nos primeiros jogos e William também baixou a sua influência, condenando Portugal a um jogo atacante mais lento – a isso não terá sido estranho o intenso calor de Lyon – e previsível. Daí que, apesar do domínio territorial português, não aparecessem ocasiões de golo na baliza de Kiraly. Portugal quase se limitava a rondar a área, a ganhar cantos e a chutar de fora da área. E foi a Hungria quem marcou primeiro, aos 19’, por Gera, na sequência de um canto de Dzsudzsak: Ronaldo cortou no ar, Nani completou o alívio para a entrada da área portuguesa, onde o médio húngaro apareceu a chutar sem hipóteses para Rui Patrício. O golo húngaro afetou a produtividade da equipa portuguesa, que levou uns minutos a reentrar no jogo. A reação começou num livre de Ronaldo, que Kiraly teve de se esforçar para desviar para canto, aos 29’, mas só teve continuidade já bem perto do intervalo, quando o mesmo Ronaldo solicitou uma diagonal de Nani e este bateu Kiraly com um remate seco para o ângulo mais próximo. Com 45 minutos por jogar, Fernando Santos decidiu assumir o risco de ir à procura da vitória que garantisse o primeiro lugar do grupo e trocou Moutinho por Renato Sanches, mas antes que a alteração pudesse ter efeito, a Hungria voltou a marcar. Dzsudzsak bateu um livre perto da área, a bola desviou em André Gomes e traiu Rui Patrício, deixando Portugal outra vez fora dos oitavos-de-final. A reação portuguesa, desta vez, foi mais rápida. Três minutos depois, aos 50’, João Mário arrancou pela direita e cruzou para o ataque de Ronaldo à bola. Lang acompanhou bem o capitão português e ter-lhe-ia blocado o remate não tivesse Ronaldo inventado uma solução genial: deixou a bola passar e deu-lhe com o calcanhar do pé direito, deixando Kiraly colado ao solo. A espetacularidade do golo, somada à forma como João Mário e Renato Sanches combinavam na direita, parecia poder carregar a seleção para a vitória. Só que, cinco minutos depois, deu-se mais um episódio da Lei de Murphy: Dzsudzsak voltou a ter um livre, desta vez chutou contra a barreira, mas recuperou o ressalto e deu-lhe com alma, fazendo a bola resvalar em Ricardo Carvalho e trair o desamparado Rui Patrício. O 3-2 anulava o efeito do golo de Ronaldo e da substituição e deixava Portugal outra vez a precisar de recuperar. Fernando Santos chamou então Quaresma, para o lugar do fatigado André Gomes e, com o segundo toque na bola – o primeiro tinha sido para marcar o canto – Quaresma cruzou para o bis de Ronaldo, desta vez de cabeça. Faltava meia-hora para o final da partida e Portugal lançou-se à procura da vitória. A ocasião mais flagrante de golo, porém, pertenceu à Hungria, quando Elek se isolou pela esquerda e chutou violentamente contra o poste da baliza de Rui Patrício. Se antes tivera azar na forma como sofreu os dois golos, desta vez a equipa nacional foi sortuda por não ter de procurar a recuperação por uma quarta vez. A jogar em 4x3x3, com Renato Sanches e João Mário à frente de William, e com Quaresma e Nani a ladear Ronaldo na frente, Portugal apresentava o seu onze mais ofensivo imaginável. O empate no outro jogo mandava os portugueses para o segundo lugar e a metade errada do quadro do sorteio e por isso a equipa ainda procurava o quarto golo. Ronaldo esteve por duas vezes perto do hat-trick, mas o que se via também era alguma tremedeira sempre que a Hungria subia até ao ataque. Por isso, mesmo já com os húngaros a jogar com uma linha de cinco atrás, Fernando Santos resolveu tapar o jogo à frente da sua área e substituir Nani por Danilo a nove minutos do fim. O jogo acabou com os húngaros a recusarem sair para o meio-campo adversário e com a notícia do golo islandês na outra partida, a chutar Portugal do segundo para o terceiro lugar e para a metade mais desejada do quadro. Fernando Santos terá gostado do envolvimento atacante que a equipa conseguiu na segunda parte, com a associação de João Mário a Renato Sanches, mas não pode ter ficado satisfeito com os buracos que a equipa abriu a defender. A solução para o jogo com a Croácia terá de ser outra, provavelmente com Renato e João Mário nas alas, sacrificando André Gomes, e João Moutinho ou até Adrien à frente de William (caso o selecionador desista de recuperar Moutinho, como a substituição ao intervalo pode fazer prenunciar). Dúvidas haverá também acerca da condição de Ricardo Carvalho para um jogo que terá lugar já daqui a três dias – ele que já pareceu menos seguro hoje – como na lateral-esquerda, onde Eliseu não fez esquecer Raphael Guerreiro. O tempo para pensar e recuperar não é muito, mas uma coisa é certa: a Croácia é forte e será preciso muito mais Portugal do que o que se viu na primeira fase para seguir em frente.
2016-06-23
LER MAIS

Artigo

Não posso, como é evidente, aplaudir o arremesso do microfone da CM TV para dentro de um lago por parte de Cristiano Ronaldo. Tenho até de repudiar a atitude do capitão da seleção nacional. É básico: não devemos nunca destruir propriedade alheia ou faltar ao respeito a quem tenta fazer o seu trabalho, por muito que discordemos da forma como ele está a ser feito. No entanto, há no incidente várias coisas que não compreendo nem compreenderei por mais que tentem explicar-mas. Primeiro, da parte da seleção. Faz algum sentido os jogadores irem fazer um passeio ao longo da margem de um rio para descomprimir e – pelo menos nas imagens que vi – irem rodeados de seguranças por todo o lado? Não creio. Gosto de passear ao longo das margens de rios, mas em paz e sossego, não naquele ambiente que só pode ser de tensão. Se me meto no lugar dos jogadores, acho que ficaria muito mais tenso ainda. Depois, da parte dos jornalistas. Faz algum sentido interromper um passeio de descompressão para perguntar a Cristiano Ronaldo se está “preparado para o jogo”? Que resposta se espera? Que não, que não está preparado e que por isso vai pedir a Fernando Santos para ficar no banco? Ou um soundbyte meramente vazio, a dizer que sim, que vai dar o melhor de si próprio. E isso ia valer exatamente o quê no dia informativo? A avaliação de risco/benefício da ação não devia ter levado os jornalistas a evitar a situação? A única justificação que encontro – porque é com o jornalismo que me preocupo – é que tudo o que se procura seja o “buzz” mediático. E nesse caso a situação deixa todos a ganhar. Ganha Ronaldo, que de repente volta a ter com ele todos os que acham que os jornalistas exageram na forma como acompanham a seleção (e são mais do que muitos pensam). Ganha a CM TV, que tem pela frente um dia no topo da atualidade. A questão é que perde o jornalismo. Com este incidente, como com as perseguições a autocarros ou com os diretos incessantes à porta dos hotéis sem nada para dizer, conseguem-se duas coisas. Uma, imediata, são audiências. Dizem-me que sim, pelo menos. Outra, mais a longo prazo mas terrivelmente importante, é diminuir o jornalista frente ao protagonista, é tirar-lhe a dignidade de que a sua missão devia estar revestida. E isso não pode ser bom.
2016-06-22
LER MAIS

Artigo

Há uma razão acima de todas as outras para que o futebol seja muito baseado em triângulos: é que quando estamos num dos vértices, podemos desenhar o triângulo independentemente do lado que escolhermos. Uma das justificações fundamentais para a melhoria do futebol da seleção nacional no jogo contra a Áustria foi a construção de um triângulo a meio-campo. Outra foi o facto de a Áustria ter dado um pouco mais de espaço. Outra ainda foi a entrada no onze de William Carvalho. Querer atribuir a apenas uma das justificações a melhoria global da equipa é como dizer que o mais alto aí em casa só chega à prateleira de cima do armário porque se põe em cima de um banco ou porque estica o braço, quando na verdade, mesmo esticando-se ou subindo para cima de um banco ele não chegaria lá se não fosse o mais alto. Os “mapas de calor” da equipa portuguesa nos dois primeiros jogos não deixam dúvidas acerca do que foi visível a olho nu. Avaliando o preenchimento do campo pelos jogadores colocados em campo por Fernando Santos é evidente que o selecionador trocou o 4x4x2 por um 4x3x3, com Moutinho e André Gomes à frente de William Carvalho. Desenhou ali o tal triângulo, que ajudou a modificar o futebol da equipa e a que esta conseguisse meter mais gente dentro do bloco defensivo adversário, podendo assim causar mais desequilíbrios atacantes. É por causa desta evidência geométrica que o 4x3x3 é muito mais fácil de interpretar do que o 4x4x2. Mas será o melhor para a equipa? Isso é discutível: Ronaldo pode render mais ofensivamente solto na frente, alternando entre o meio e a esquerda com uma referência frontal, mas cria mais problemas defensivos à própria equipa se lhe for atribuído o fecho de um dos corredores laterais e depois raramente lá estiver no momento de perda da bola. Isso, porém, nunca foi posto à prova por uma Áustria que raramente conseguiu sair com perigo para o ataque. Mas centremo-nos nos momentos ofensivos, para entender o que mudou em Portugal do jogo com a Islândia para o jogo com a Áustria. A análise do circuito preferencial de jogo da equipa de acordo com a estatística oficial fornecida pela UEFA vem confirmar a ideia de que as coisas mudaram. Selecionando o companheiro a quem cada jogador português deu mais passes certos, contra a Islândia a equipa jogou preferencialmente de Rui Patrício para Pepe (oito passes), deste para Ricardo Carvalho (18 passes, contra nove para Danilo), depois para Raphael Guerreiro (17 passes, com onze para Danilo), do lateral esquerdo para Moutinho (15 passes) e desde de volta a Guerreiro (outros 15 passes). Nani (25 passes) e Ronaldo (44 passes) foram os menos solicitados da equipa, tendo Portugal feito chegar apenas 69 passes aos jogadores de ataque. No jogo com a Áustria, o circuito mudou. Rui Patrício fez os mesmos oito passes para Pepe, que no entanto entregou 19 bolas a William Carvalho e apenas oito a Ricardo Carvalho. Teve instruções para isso ou simplesmente passou a ter um médio que se ofereceu mais frequentemente para dar seguimento à construção? Provavelmente as duas coisas. Depois, há outra alteração importante: enquanto no jogo com a Islândia os destinatários preferidos de Danilo foram Pepe e Ricardo Carvalho (doze passes para cada um), frente à Áustria William escolheu João Moutinho (16 passes) e André Gomes (11 passes). Efeitos da criação do triângulo ou uma maior predisposição de William relativamente a Danilo para jogar para a frente? Mais uma vez, provavelmente as duas coisas. O circuito português no jogo com a Áustria prosseguiu com Moutinho a dar onze passes a Quaresma, que por sua vez jogou sobretudo com o mesmo Moutinho (quatro passes) e André Gomes (outros quatro passes). Portugal fez chegar mais bolas ao ataque (91 contra 69), envolveu mais gente no seu circuito preferencial, mas Ronaldo esteve menos em jogo (recebeu só 33 passes, aos quais há a somar 24 para Nani e 34 para Quaresma). Ainda assim, Portugal voltou a não ganhar e, apesar de ter mais bolas na frente, até rematou menos: 23 tiros, contra os 27 totalizados ante a Islândia. A questão é que rematou de melhores posições e em condições normais teria feito mais golos. O que faltou foi o acerto normal de Ronaldo: olhando para as médias de toda a época, entre o Real Madrid e a seleção nacional, Ronaldo faz seis remates a cada 90 minutos, marcando 0,9 golos por jogo: a média dá um golo a cada 6,6 remates. Nos dois jogos do Europeu que já disputou, Ronaldo tentou 22 remates. Em condições normais, já teria feito pelo menos três golos. É isso que é preciso melhorar para Portugal poder ter futuro neste Europeu além da final de quarta-feira próxima contra a Hungria. In Diário de Notícias, 20.06.2016
2016-06-20
LER MAIS

Último Passe

Portugal melhorou do primeiro para o segundo jogo do Europeu, mas voltou a não conseguir ganhar. Desta vez, nem com 23 finalizações e um penalti, nem com duas bolas nos postes da baliza de Almer, nem com uma mudança de sistema que lhe permitiu fazer os médios jogar com mais frequência dentro do bloco adversário os portugueses conseguiram fazer um único golo à Áustria, saindo do Parque dos Príncipes com um 0-0 que é ao mesmo tempo frustrante e pressionante. Frustrante porque a equipa fez mais por ganhar e em condições normais teria ganho, pressionante porque o resultado deve obriga-la a vencer o último jogo, frente à Hungria, na quarta-feira, para seguir para os oitavos-de-final. No fundo faltou à seleção aquilo que Cristiano Ronaldo pode dar-lhe: golos. O capitão teve tudo para os fazer, mas nem de penalti lá chegou: a 11 minutos do fim, ganhou uma grande penalidade, na sequência de um raid de Raphael Guerreiro na esquerda, mas apesar de ter enganado o guarda-redes, fez a bola esbarrar no poste. O segundo penalti consecutivo falhado por Cristiano Ronaldo na seleção – já tinha permitido a defesa do guarda-redes contra a Bulgária, em Março – pode nem levar o selecionador a mudar a hierarquia dos marcadores, mas terá seguramente levado o capitão de equipa a aproximar-se dos restantes “humanos” e procurar tirar mais de si mesmo daqui para a frente. Além de que enfatizou a falta que os golos dele fazem a uma equipa que já na primeira parte tinha acertado no poste, num cabeceamento de Nani, após cruzamento de André Gomes. E essas nem foram as únicas ocasiões flagrantes desperdiçadas por Portugal, o que justifica a forma efusiva como os adeptos austríacos festejaram o empate no final: ficaram a cantar nas bancadas, apesar de a equipa de Koller continuar em último lugar no Grupo F e sem depender apenas de si própria para se apurar. Ao empate não é alheia também a forma como Fernando Santos geriu a equipa no banco. De início, o técnico corrigiu bem os erros táticos cometidos ante a Islândia mas mexeu mal durante o jogo. A entrada de William para o comando do meio-campo trouxe a Portugal a capacidade de afastar a bola das zonas de pressão, graças à sua maior agilidade no passe longo e à capacidade que tem para ganhar terreno com bola, ao passo que passagem para o 4x3x3 também ajudou João Moutinho e André Gomes a entrarem com bola entre as linhas defensivas adversárias: Moutinho foi mesmo designado pela UEFA, com exagero, é verdade, como o melhor em campo (ainda que tenha estado abaixo do rendimento de William e dos dois laterais). A questão é que, com Portugal a encostar a Áustria às cordas, Fernando Santos demorou a mexer. E quando mexeu permitiu que se instalasse a confusão na equipa. Nunca foi claro o que o treinador quis obter, por exemplo, com a entrada de João Mário: impunha-se que ele (ou Renato Sanches) entrasse até antes do minuto 71, mas para jogar em vez de um dos médios-interiores, de forma a dar mais criatividade naquela zona, mas ao fazê-lo entrar para o lugar de Quaresma na direita e mandá-lo explorar o jogo interior, Santos perdeu o flanco. André Gomes acabou por sair, mas apenas a sete minutos do fim, quando o desespero levou o selecionador à entrada de Éder para jogar ao lado de Cristiano no centro do ataque. E Rafa, o último a ser chamado, acabou por ser quem mais trouxe ao jogo – percebeu-se no final que devia ter ocupado a vaga de um Nani que já estava esgotado muito antes do minuto 89, que foi quando ele entrou no relvado. Ainda assim, em condições normais, Portugal devia ter ganho o jogo. Apesar da largueza que os dois centrais portugueses foram dando a Harnik, o ponta-de-lança solitário dos austríacos, para este poder combinar com os médios, a Áustria só chegou três vezes à baliza de Rui Patrício. Logo aos 3’, de cabeça, Harnik soltou-se atrás da defesa portuguesa para cabecear um cruzamento de Sabitzer, mas fê-lo ao lado. O ponta-de-lança voltou a ameaçar aos 41’, na sequência de um livre lateral que Alaba bateu direto à baliza, mas nessa ocasião Vieirinha evitou que ele fizesse a finalização e cortou junto ao poste. E a abrir a segunda parte Rui Patrício fez a sua única defesa, detendo um remate de longe de Illsanker. Até final, com Alaba (que jogou atrás do ponta-de-lança, a ser completamente dominado por William e a ser substituído) os austríacos limitaram-se a conter as ofensivas de Portugal, que só ficou a dever a si próprio a vitória. E aqui Nani e Ronaldo terão de dividir responsabilidades, pois foram perdendo golos à vez. Aos 12’, Nani ganhou um ressalto e isolou-se face a Almer, mas não conseguiu evitar a mancha do guarda-redes. Dez minutos depois, foi Ronaldo quem teve a bola à frente para marcar, após trabalho de Raphael Guerreiro, mas chutou de pé direito ao lado. Nani acertou no poste aos 29’, de cabeça, após cruzamento de André Gomes e aos 38’ foi outra vez Ronaldo quem cabeceou para o guarda-redes, no seguimento de um canto de Quaresma. Na segunda parte, Nani foi-se apagando e teve de ser Ronaldo a assumir as responsabilidades: chutou de longe para grande defesa de Almer aos 55’, cabeceou para o guarda-redes após o canto de Quaresma aos 56’, bateu um livre em boa posição por cima da barra aos 65’ e acertou no poste com o penalti que ganhou aos 79’. Tanto fogo, sem um único tiro certeiro acaba por deixar a equipa numa posição desconfortável e sem o direito a errar de novo no jogo com a Hungria. Santos parece ter acertado no regresso ao 4x3x3, seja com Nani ou Ronaldo ao meio, mas o pouco que se viu neste jogo parece impor a entrada de Rafa na equipa para o último jogo, onde João Mário e Renato Sanches também podem ter um papel a desempenhar – nem que seja saindo do banco – mas para jogar ao meio. 
2016-06-18
LER MAIS

Último Passe

Portugal vai enfrentar a Áustria numa situação que não é brilhante mas também não é desesperada. Saiu com um ponto do primeiro jogo, precisará de fazer mais três – em dois jogos – para se qualificar, uma vez que os quatro pontos darão quase de certeza para se ser um dos quatro melhores terceiros. Contra a Áustria, a obrigação é a mesma que já era ante a Islândia: ganhar. A forma de procurar essa vitória será, no entanto, diferente, porque as circunstâncias próprias e alheias são diferentes. Na conferência de imprensa no Parque dos Príncipes, Fernando Santos não deu muitas respostas que permitam adivinhar o que lhe vai na mente, ao que o próprio diz para não mostrar o jogo todo ao treinador adversário, mas ainda assim é possível fazer sem ele um exercício de pergunta-resposta no qual se colocam as principais dúvidas e se fornecem alguns esclarecimentos com base no mero senso-comum. Pergunta 1: Fernando Santos vai fazer uma revolução no onze? Resposta: Não. Aliás, o próprio o disse na conferência de imprensa. “Revolução foi em 1974”, brincou. Em Portugal muito se tem falado da falsa partida do Europeu de 2004, quando após a derrota com a Grécia no Dragão, Scolari teria feito uma revolução, indispensável para que a equipa chegasse à final. Mas depois olha-se com mais atenção e verifica-se que, do jogo com a Grécia para a segunda partida, frente à Rússia, que Portugal ganhou por 2-0, Felipão só mudou quatro jogadores: Paulo Ferreira por Miguel, Rui Jorge por Nuno Valente, Fernando Couto por Ricardo Carvalho e Rui Costa por Deco. Ronaldo, por exemplo, continuou no banco e só no terceiro jogo, contra a Espanha, ganhou o lugar a Simão. Por isso, desenganem-se os que querem ver muito sangue antes do jogo com a Áustria. No máximo, Fernando Santos mudará quatro jogadores. Mas o mais provável é que só troque dois ou três. Pergunta 2: Portugal pode jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Resposta: Pode. Aliás, Fernando Santos já o fez em alguns momentos, embora não de início. Na conferência de imprensa, o selecionador limitou-se a dizer que isso “era uma possibilidade”, o que à saída da sala era interpretado de duas formas diferentes pelos vários jornalistas presentes. Uns diziam terem ficado convencidos de que os “três reis magos” iam jogar desde o início, outros que aquilo que Fernando Santos disse veio apenas engrossar o que acham que é um bluff para assustar os austríacos. A questão deve, por isso ser colocada de uma outra forma. Portugal vai jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Não me parece a hipótese mais provável, sobretudo por duas razões. A primeira – e fundamental – é que essa alteração deixava a equipa com três jogadores que pouco participam no processo defensivo e que veem o jogo sobretudo de uma forma individual. Olhando para os números de toda a época, Ronaldo soma uma média de 1,8 recuperações ou interceções por jogo, Quaresma tem 4,1 e Nani soma 4,6, enquanto que os dois potenciais sacrificados estão acima: André Gomes com 5,9 e João Mário com 6,2. Depois, porque esse onze não deixaria a Fernando Santos muitas hipóteses de reforçar o ataque se as coisas começassem a correr mal. Acresce a isso, para os defensores da disciplina de caserna, que a alteração iria premiar as declarações “fora da caixa” de Quaresma, que de certa forma desautorizou o treinador ao dizer que estava em condições de ter sido titular contra a Islândia, quando Fernando Santos disse que se o tivesse colocado a jogar corria o risco de ter de o tirar aos 40 minutos. Pergunta 3: Se ainda assim Quaresma entrar, qual será o esquema de Portugal? E quem sai? Resposta: O facto de Quaresma entrar não significa que a equipa mude para o 4x3x3, porque com ele não fica resolvido o problema da colocação de Ronaldo, que ainda hoje Fernando Santos voltou a dizer que “nunca será um avançado-centro” na perspetiva de jogar sozinho na frente. A equipa continuará por isso a jogar em 4x4x2, ainda que a presença em simultâneo dos três atacantes permita uma série de alternativas. Até aqui, o extremo do Besiktas tem alinhado sempre numa das alas do meio-campo, deixando na mesma Ronaldo e Nani no centro do ataque, mas pessoalmente acho que faz mais sentido ter Quaresma e Ronaldo na frente, com Nani a ocupar uma posição no meio-campo, seja como “10” num losango ou como ala esquerda no 4x4x2 mais clássico. Mais difícil é definir quem pode sair. E isso depende muito da arrumação inicial dos jogadores. Em condições normais, seja com Nani e Ronaldo na frente e Quaresma numa ala ou com Ronaldo e Quaresma na frente e Nani numa ala, sairia André Gomes, porque além de ter uma melhor percentagem de passe (84% para 83% em termos médios durante a época), João Mário faz mais passes de rotura (3,1 para 2,7 por jogo) e aparece mais na área (sete passes por jogo contra 2,7 são dentro da área). A questão é que com tanta gente que só vê baliza na frente, Fernando Santos pode sentir-se tentado a manter quem pense o jogo mais atrás, e aí André Gomes ganha algum avanço. Até porque os números defensivos dos dois são muito semelhantes. Diferente será se Santos optar por colocar Nani como “10”: aí sairia Moutinho. Pergunta 4: Quem pode então ser sacrificado nas alterações que Fernando Santos anunciou? Resposta: Fernando Santos disse claramente que ia fazer algumas alterações “para refrescar a equipa”. Uma delas será a troca de médio mais recuado, posição que Danilo dificilmente ocupará. A sua entrada contra a Islândia tinha a ver com um aspeto muito específico do jogo islandês, que era o jogo aéreo. Sem essa ameaça, certamente nem seria necessária a lesão de Danilo para que a equipa passasse a apresentar ali um jogador que arrisca mais nos momentos atacantes, como é o caso de William. As outras alterações não são claras. A não ser que queira colocar Nani a “10”, Santos dará provavelmente pelo menos mais um jogo a Moutinho para que ele possa reganhar o ritmo que lhe vem faltando mas que, assim que o recuperar, fará a diferença nos oitavos-de-final, porque é o jogador mais coletivo desta seleção. Adrien e Renato continuarão certamente à espera. Depois, o jogo de Vieirinha contra a Islândia não foi assim tão mau a ponto de justificar uma alteração na hierarquia – e se o facto de o lateral do Wolfsburg ter estado no golo islandês contribui para algo é para que Fernando Santos não o deixe cair em nome da mera rotatividade que noutras circunstâncias talvez até se justificasse. Pergunta 5: O que precisa Portugal de mudar para ter mais garantias de obter um resultado positivo? Resposta: Primeiro que tudo, tem de melhorar a finalização. A seleção nacional foi a que mais rematou na primeira jornada do Euro, mas só fez um golo, que lhe valeu apenas um ponto. As ocasiões de golo, porém, abundaram – e é bom que todos se consciencializem que contra a Áustria não vão ser tantas, porque os austríacos vão querer jogar mais do que os islandeses. Ainda assim, há que perceber que boa parte do baixo índice de certeza na finalização teve a ver com as condições não tão favoráveis em que muitos dos remates foram feitos. E isso já tem a ver com todo o processo de construção de jogo de Portugal. Por raramente ter conseguido meter gente entre as duas linhas defensivas da Islândia, faltou a Portugal o necessário ponto de apoio nas suas jogadas, de onde pudesse partir um passe de rotura para as alas ou para deixar um dos avançados na cara do guarda-redes. Não apareceram ali Nani nem Ronaldo, da mesma forma que nem João Mário nem André Gomes procuraram o corredor central com a frequência recomendada. João Moutinho também andou sempre mais longe da baliza islandesa do que seria desejável, o que pode ter a ver com o facto de Danilo não assumir tanto a construção. O ataque ao espaço central terá de ser uma das prioridades da equipa no jogo de amanhã, o que pode levar à adoção da solução com o meio-campo em losango. Da mesma forma que terá de o ser a agilidade na transição ofensiva. Pergunta 6: E Ronaldo, o que tem de fazer diferente? Resposta: Ronaldo tem sobretudo que compreender que o futebol é um jogo coletivo e que o facto de ser o melhor finalizador do Mundo não recomenda que seja sempre ele a chutar. A luta do CR7 contra os recordes tem destas coisas: se anda obcecado com os golos que lhe permitam ser o melhor marcador da história dos Europeus, acaba por secar tudo à sua volta, não tomando as decisões que seriam mais recomendáveis em benefício da equipa. E nem falo de livres ou de falta de empenho no processo defensivo: isso já faz parte do pacote. Contra a Islândia, no entanto, Ronaldo optou várias vezes por rematar em situações nas quais havia companheiros melhor colocados para dar seguimento a lances que podiam ter tido outro final. Mas este é um problema que só se resolverá quando Ronaldo marcar o primeiro golo e aliviar um pouco a ansiedade que o come por dentro em cada grande competição internacional.
2016-06-17
LER MAIS

Último Passe

Pouco Ronaldo, um meio-campo incapaz de entrar nas linhas do adversário, a incapacidade para ganhar uma bola aérea que fosse a Sigthórsson e falta de concentração e agressividade no ataque às segundas bolas levaram Portugal a uma falsa partida no Europeu de 2016. O empate com a Islândia, fruto de um golo de Nani e de outro de Birkir Bjarnason, não é grave, porque ainda há mais duas jornadas para trabalhar para a qualificação, mas veio deixar a nu algumas carências da equipa de Fernando Santos. A emendar já frente à Áustria, em Paris, num jogo que até face à derrota dos austríacos, de repente ganhou preponderância. A questão Ronaldo não é das fáceis de resolver, porque não se trata de o trocar ou de o fazer jogar noutras funções. Ronaldo não jogou mal, simplesmente não fez a diferença: não conseguiu fazer uma arrancada imparável, não fez golo nos dois cabeceamentos perigosos de que dispôs nem nos livres que marcou. Fez um jogo de esforço, de entrega, mas sem brilho, com exceção talvez do lance em que, ainda com 0-0, trabalhou em cima de Saevarsson e cruzou para um remate de cabeça de Nani que o guarda-redes Halldórsson deteve. E isso o selecionador não só tem de aceitar como por certo o aceitará até melhor que o próprio Ronaldo. Mesmo estando sempre em jogo, o capitão português não só não assinalou o dia em que igualou as 127 internacionalizações recorde de Figo com uma vitória, como viu Nani suplantá-lo na luta pelo título de melhor em campo. O autor do golo português respondeu da melhor forma à oportunidade que Fernando Santos voltou a dar-lhe face à lesão de Quaresma e foi quem mais perto esteve de ampliar a marca, pelo que dificilmente perderá o lugar frente à Áustria. Já quanto à incapacidade do meio-campo entrar nas linhas islandesas haverá certamente algo a fazer, tanto do ponto de vista tático como até da mudança de elementos. É verdade que a Islândia, até por força do futebol direto que praticava, pouco ou nada se desposicionava: no final, os portugueses tentaram 617 passes, contra 221 do adversário, o que significa que se empenhavam em combinações e jogadas de envolvimento, enquanto a Islândia se limitava a jogar direto em Sigthórsson, subindo depois como um bloco de concreto para atacar as sobras. A questão é que se a primeira bola, a que ia para o gigante número 9 do adversário, era inatingível – creio que ele terá ganho todas as bolas aéreas que disputou –, a segunda já não dependia de estatura: dependia de concentração e agressividade. E aí nem os quatro defesas de Portugal, nem Danilo – que Santos preferiu a William Carvalho, por dar mais capacidade no jogo aéreo e combatividade no ataque às segundas bolas – souberam impor-se aos islandeses. Mesmo tendo feito uma primeira parte de nível médio-alto, Portugal nunca contou com todos os jogadores ao mesmo nível. O melhor período da equipa começou logo a seguir a uma primeira desatenção defensiva, aos 3’: Vieirinha estava projetado no ataque, Pepe foi disputar uma bola perto da linha lateral na zona de meio-campo sem a ganhar, o mesmo aconteceu a Danilo face a Gudmundsson já perto do bico da área, tendo que ser Rui Patrício a impedir que a Islândia fizesse logo ali um golo. A partir daí, porém, mesmo sem ter os dois laterais em noite-sim Portugal assentou o seu jogo. É verdade que Moutinho, não conseguia ganhar as costas a Gunnarsson e Sigurdsson, os dois médios-centro islandeses, e que João Mário, demasiado aberto na esquerda, também não era capaz de ganhar aquele espaço interior, mas os lances mais perigosos passaram a surgir na baliza islandesa. Nani, de cabeça, após o tal trabalho individual de Ronaldo, viu Haldorsson tirar-lhe o golo aos 21’; Ronaldo, também de cabeça, falhou o alvo aos 23’ e não acertou sequer na bola aos 26’, quando Pepe viu a aberta e o isolou face ao guarda-redes num passe longo. E quando Nani marcou, aos 31’, na sequência de uma boa combinação entre Vieirinha e André Gomes na direita, o problema parecia resolvido. Mas não. O intervalo voltou a trazer a desconcentração à defesa portuguesa e, logo aos 50’, duas divididas seguidas perdidas pelos portugueses na direita do ataque islandês resultaram num cruzamento de Gudmundsson. O desentendimento entre Pepe – que seguiu Sigthorson – e Vieirinha, que estava demasiado dentro e não intercetou a bola, resultou num volei de Bjarnasson para dentro da baliza de Patrício. João Mário começava a entrar no jogo e a ativar as subidas de Raphael Guerreiro, mas apesar de voltar a ter quase sempre a bola, Portugal não conseguia criar tantos lances de perigo como na primeira parte. Só aos 63’, quando Vieirinha ganhou a linha de fundo e cruzou rasteiro, Nani esteve perto de marcar, não chegando a conseguir antecipar-se a Ragnar Sigurdsson no ataque à bola. Oito minutos depois, já com Renato Sanches em campo, na tentativa de ocupar o tal espaço entre as linhas defensivas islandesas, foi outra vez Nani quem, desviando de cabeça um livre, fez a bola passar a centímetros do poste. À procura do golo, Santos chamou então Quaresma para ocupar o lugar de João Mário. Até final ainda substituiu André Gomes por Éder, colocando a equipa num 4x2x4, com Ronaldo e Éder ao meio, servidos por Nani e Quaresma nas alas. Mas nem assim, nem com a Islândia a abdicar até de jogar no ponta-de-lança, Portugal chegou ao golo. Quaresma (aos 78’), Pepe (após um canto, aos 82’) e Ronaldo (na sequência de um cruzamento de Nani, aos 85’) ainda ameaçaram, mas o empate já não se desfez, punindo o jogo menos conseguido do meio-campo português e algumas apostas perdidas: Danilo nunca impediu a construção direta da Islândia e pode ceder a vaga a William, que faz a equipa jogar mais; Moutinho e João Mário apareceram pouco entre as linhas islandesas e também não têm o lugar assegurado. Certo é que se Fernando Santos optar por chamar Quaresma à partida de Paris, o sacrificado não será certamente Nani, o melhor dos portugueses em Saint-Etiènne.  
2016-06-14
LER MAIS

Último Passe

A goleada de 7-0 que Portugal aplicou à Estónia na despedida do público nacional rumo ao Europeu espalhou a euforia entre os adeptos, que já começam a acreditar no sonho de Fernando Santos. Um dos maiores responsáveis pelo clima de euforia é Quaresma, que com dois golos e duas assistências encheu as medidas a quem viu o jogo e ganhou o lugar ao lado de Ronaldo no ataque ao primeiro jogo de competição, frente à Islândia, na terça-feira. Fernando Santos tentará assim tornar-se o primeiro selecionador nacional a resolver a questão da compatibilidade entre Ronaldo e Quaresma, valendo-se da maturidade que os dois não tinham, por exemplo, quando Luís Felipe Scolari o tentou – e desistiu, por perceber que não tinha uma bola para dar a cada um. Para a coisa resultar em jogos a sério – que esta Estónia saiu bem pior do que a encomenda – há ali muito trabalho a ser feito pelo treinador. Ronaldo e Quaresma são incrivelmente talentosos, ainda por cima são amigos e entendem-se bem – o que desde logo resolve a questão de um eventual choque de egos – mas caberá ao treinador fazer-lhes perceber que o facto de possuírem armas individuais muito acima da média não faz com que o jogo deixe de ser um processo coletivo. Contra a Estónia, tanto Ronaldo (ainda que só num lance, na primeira parte, com 0-0 no marcador, quando procurou o remate, tendo colegas melhor colocados) como Quaresma (este por procurar passes ou remates de letra quando a solução simples prometia bastante mais) foram responsáveis pela perda de jogadas que podiam ter causado mais problemas ao adversário. A questão é que é mais fácil fazer estes dois génios evitar os excessos do que dar a jogadores banais a capacidade de resolver jogos, pelo que o risco valerá sempre a pena. Com a Estónia, valeu. Portugal entrou com mais bola mas sem grande capacidade de entrar na área adversária, na maior parte das vezes por causa da timidez do meio-campo: Danilo muito atrás, João Moutinho melhor mas ainda longe do ideal, André Gomes e João Mário sem chegada à área para compensar as constantes derivações para os corredores laterais. Depois de um início mais intenso, o jogo já começava a adormecer, a Estónia segurava a bola por mais tempo entre cada vaga de ataque português, até que Quaresma tirou um coelho da cartola: cruzamento milimétrico de trivela na esquerda para um cabeceamento de Ronaldo e 1-0. Faltavam nove minutos para o intervalo, mas até lá resolver-se-iam o jogo e a corrida do CR7 para o golo: Quaresma fez o 2-0, concluindo com um belo remate em arco um passe simples de João Mário e, mesmo sobre o apito para o descanso, foi outra vez João Mário quem, entendendo aquilo de Fernando Santos queria, pressionou alto, recuperou uma bola e tabelou duas vezes com Ronaldo para dar a este o 3-0. Ronaldo já não voltou para a segunda parte, dando lugar a Nani, mas depressa Fernando Santos emendou a mão e chamou Éder para garantir a presença na área que, sem o CR7, ficava ao abandono. Quaresma passou então para a direita e dali voltou a dar expressão ao marcador: marcou o canto no qual Danilo fez o 4-0; fez o cruzamento do qual nasceu o quinto golo, marcado na própria baliza por Mets e marcou ele mesmo o 6-0, após aceleração de Renato Sanches. O sétimo, obtido por Éder, após cruzamento de André Gomes, completou o ramalhete e mandou a equipa para França no meio da euforia popular, mas não terá resolvido já todas as dúvidas de Fernando Santos. Após os três jogos de preparação, percebe-se que o selecionador está inclinado para Danilo em vez de William, que vai continuar a apostar em Moutinho em vez de Adrien ou Renato, na esperança de que a fase de grupos chegue ao “motorzinho” para recuperar o seu ritmo natural, e que para já prefere Guerreiro a Eliseu e a dupla de centrais formada por Pepe e Ricardo Carvalho. Mas não creio que tenha certezas acerca do defesa-direito (Cédric ou Vieirinha?) ou, sobretudo, do médio-esquerdo. André Gomes é mais consistente mas nunca encheu as medidas, Renato pode aparecer ali e dar ao meio-campo a explosão que lhe tem faltado, Nani ou Rafa verão a candidatura prejudicada pelos excessos individualistas dos dois da frente. Os seis dias que aí vêm darão a resposta.
2016-06-08
LER MAIS

Artigo

Fernando Santos e Lars Lagerback já estão a preparar o Portugal-Islândia com que as duas equipas vão abrir a respetiva caminhada no Europeu. A questão é que ambos estão centrados na equipa de Portugal. Santos nas dúvidas que certamente tem acerca do onze; Lagerback na tentativa de condicionar desde já o árbitro que vier a ser nomeado para a partida de St. Etiènne para aquilo a que chama os “filmes” de Cristiano Ronaldo e Pepe. “Portugal tem um dos melhores jogadores do Mundo, que também é um ator eficiente. Temos visto alguns bons filmes portugueses. Na final da Liga dos Campeões também vimos outro que podia estar em Hollywood”, disse Lagerback. É verdade que o que Pepe fez na final da Champions, tentando arrancar a expulsão de Felipe Luís com uma simulação de agressão, não beneficia em nada a sua imagem nem a do futebolista português em geral. Mas ao fazer ele mesmo essa generalização e, mais, ao juntar Ronaldo ao “filme”, o treinador sueco está a parecer-se mais com um daqueles comentadores engajados dos programas televisivos, que defendem a agenda das suas cores e têm e uma noção de vergonha tão pouco desenvolvida como a de Pepe ao ver as imagens televisivas do lance em que rebolou na relva de San Siro como se tivesse sido atingido por um direto de Muhammad Ali. É verdade que por essa altura Lagerback já tinha deixado de ser selecionador do seu país, mas Ronaldo é aquele tipo que joga com o 7 nas costas e que sozinho desfez a Suécia em Estocolmo, há dois anos e meio, carregando Portugal para o Mundial de 2014. No fundo, é também aquele tipo que Fernando Santos espera venha a resgatar Portugal do pesadelo ofensivo em que se transformou o exame de Wembley contra a Inglaterra, jogo no qual a seleção nacional parecia desconhecer que é possível fazer combinações atacantes. Tudo tem uma explicação – e a expulsão de Bruno Alves, tendo sido justa, pode ajudar a explicar a timidez ofensiva da equipa nacional – mas o Portugal que apareceu em Wembley nunca foi uma equipa completa. Foi sempre apenas meia-equipa: a metade que se esmera para impedir o adversário de marcar. E isso não se esgota no facto de Fernando Santos ter visto abatido um homem ao onze com 35 minutos de jogo. Para perceber por que razão o ataque de Portugal se resumiu a uma mão cheia de ações individuais é preciso entrar nos planos tático e estratégico. É preciso perceber que, ao adotar o esquema tático atual – o 4x4x2 – para acomodar estrategicamente Ronaldo e permitir a criação de condições para que ele se torne desequilibrador, a seleção precisa de alguém que faça uma coisa fundamental no 4x4x2, que é arranjar espaço entre linhas no corredor central para que os médios possam jogar. Vamos centrar-nos na realidade portuguesa. O Benfica joga em 4x4x2 e tem Mitroglou. O Sporting joga em 4x4x2 e tem Slimani. O que fazem Mitroglou e Slimani além de serem bons finalizadores? Dão profundidade às suas equipas, pedem a bola no espaço atrás da última linha adversária, para a forçarem a recuar e dessa forma tentarem que o espaço entre ela e a linha seguinte, a de meio-campo, aumente. É ali que jogam os médios. Quem o digam Gaitán, Renato Sanches, Pizzi, até Jonas, no Benfica. E que o digam João Mário, Adrien, Ruiz e até Gutièrrez no Sporting. O futebol é muito simples: para se jogar tem de se inventar o espaço. Agora imaginemos o Benfica e o Sporting a jogarem com dois avançados que em vez de esticarem o jogo passavam o tempo todo a baixar em desmarcações de apoio e a buscar o espaço dos médios. Pode funcionar? Pode. Mas só com outro meio-campo, com um meio-campo mais clássico, com médios-ala que procuram sempre dar largura à equipa, e preferencialmente com médios-centro capazes de aparecer na área em trocas posicionais com os tais avançados que recuam. Ora Portugal não tem uma coisa nem outra, pelo que o melhor mesmo é não complicar. A equipa que Santos está a montar ainda depende do jogo que falta fazer, com a Estónia, mas se todos já sabíamos que ela teria de ter Ronaldo, agora ficamos a saber que a suportar esta conclusão não está apenas o facto de ele ser melhor do que os outros. É que tática e estrategicamente só com ele é que este modelo pode funcionar. Depois, se o outro avançado deve ser Nani ou Quaresma, se o médio que sai da esquerda deve ser Renato, André Gomes ou até o próprio Nani, se o médio-centro deve ser João Moutinho ou Adrien Silva e se o médio-defensivo deve ser William ou Danilo, tudo está aberto a discussões. Na frente, porém, tem de estar Ronaldo. E se nalguma altura não houver Ronaldo o melhor talvez seja mesmo ter um Plano B para mudar de tática e de estratégia. In Diário de Notícias, 06.06.2016
2016-06-06
LER MAIS

Último Passe

O Inglaterra-Portugal foi um confronto entre duas meias-equipas no qual ganhou a que esteve mais tempo com onze jogadores em campo. O cartão vermelho a Bruno Alves, logo aos 35 minutos de jogo, ajuda a explicar o facto de Portugal quase só ter defendido e de a Inglaterra ter passado tanto tempo no meio-campo ofensivo, mas as limitações de ambas as seleções não se esgotaram nas implicações desse momento de vigor excessivo do central português. Mesmo antes disso, se via que a Inglaterra tinha avançados mas falta de criativos e Portugal anulava os seus criativos por conta da falta de avançados que lhes encontrassem espaço para ter a bola. O golo da vitória inglesa (1-0), marcado por Smalling aos 86 minutos de jogo, na segunda vaga de um canto, a aproveitar um erro de cobertura dos defensores portugueses, nem foi o mais relevante da noite. O jogo era particular e o resultado importava menos do que as ilações a tirar da forma como se chegava a ele. E, além de ter permitido tirar conclusões acerca de algumas exibições individuais – bem Ricardo Carvalho, Rui Patrício e Danilo, íngreme o caminho de Moutinho em direção à recuperação da rotatividade que fez dele o jogador que é – o jogo de Wembley permitiu ver que o modelo de jogo criado para Ronaldo tem dificuldades em subsistir sem ele. A utilização do 4x4x2 com dois avançados móveis, que permite potenciar as caraterísticas do CR7 sem deixar a equipa vulnerável do ponto de vista defensivo, exige que pelo menos um deles dê à equipa alguma profundidade – quando isso falta, quando em vez disso Portugal usa dois avançados que baixam em apoio mas não esticam o jogo, quem mais sofre são os médios criativos. Que em Wembley foram uma sombra do que podem render. Enquanto teve onze jogadores, Portugal não deixou a Inglaterra criar lances de perigo mas também não foi capaz de os criar. Chegou pela primeira vez à baliza num livre lateral ao qual acorreu Ricardo Carvalho. Depois da expulsão de Bruno Alves, sem Rafa para poder enquadrar José Fonte no onze, Portugal baixou as linhas e desistiu de atacar. Metia duas linhas de quatro homens à frente da área e beneficiava da falta de criativos atrás de Kane, Rooney e Vardy, que aliada à timidez atacante dos laterais ingleses e à pouca versatilidade de Dier tornava a equipa de Hodgson mais do que previsível. Os ingleses, aliás, nem cruzavam bolas para a área. Numa das primeiras vezes que o fizeram, deu golo. Mas isso nem foi o mais importante da noite.
2016-06-02
LER MAIS

Artigo

O Inglaterra-Portugal de hoje pode contribuir muito para se perceber o que as duas equipas valem tendo em vista o Europeu que aí vem. É um particular de perfil elevado, contra um adversário que, tal como a equipa de Fernando Santos, se conta entre os outsiders no alinhamento de favoritos, e ainda que a ausência de Ronaldo e Pepe possa funcionar como dissuasor para os que pretendem fazer do jogo um teste realista, há aspetos que podem ser medidos. Como por exemplo um dos dois que, a par da dependência de Ronaldo, mais preocupa os observadores nacionais: o peso da experiência. Adequado ou excessivo? Uma eventual vitória de Portugal em Wembley – seria a primeira da história, mais um “borrego a matar” por Fernando Santos – 50 anos depois da derrota ali sofrida pela equipa de Eusébio, no Mundial de 1966, poderá significar que a experiente seleção nacional aguenta ritmos elevados, como aqueles que os ingleses por si só já costumam imprimir aos seus jogos. Mais importante ainda se torna medir isso se tivermos em conta que Roy Hodgson juntou a equipa mais jovem que a Inglaterra leva a uma fase final desde o Mundial 1958, o que pressupõe que a Inglaterra deverá apostar ainda mais do que habitualmente nessa elevada intensidade. Se compararmos os 23 de Inglaterra com os 23 de Portugal, as diferenças são grandes. Não tanto em termos de idades (25,3 anos de idade média dos ingleses para 27,8 anos de idade média dos portugueses), mas mais em termos de internacionalizações (22,0 de Inglaterra contra 35,3 de Portugal) e, sobretudo, de presenças em fases finais (um total de 20 nos jogadores ingleses para 36 dos portugueses). É esta experiência de competição internacional ao mais alto nível que Portugal leva para França, seja como um dos seus maiores atributos ou um dos seis maiores defeitos. E no entanto, quando se olha para o onze que Portugal fez alinhar no domingo no Dragão frente à Noruega, a realidade parece bem diferente. Fernando Santos começou esse jogo com seis sub-25 (Anthony Lopes, Cédric, Guerreiro, William e João Mário), tendo chegado a ter sete em campo, entre os 60 e os 79 minutos de jogo (quando Rafa e Danilo substituíram Quaresma e Ricardo Carvalho). Esse elevado contingente saído da geração que foi vice-campeã europeia de sub21 faz depois com que a idade média da seleção nacional não seja assim tão elevada, quando o verdadeiro problema é o hiato entre a geração campeã europeia de sub17 em Viseu (em 2003) e estes jogadores mais novos. Olha-se para o grupo de Santos e descobrem-se onze jogadores com pelo menos 29 anos, mas depois há um buraco enorme até ao contingente de oito elementos que ainda são sub24 e à partida seriam convocáveis para a equipa que vai estar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em Agosto. Dos quatro anos intermédios, aparecem apenas quatro homens: Antony Lopes (25 anos), Adrien Silva (27), Rui Patrício (28) e Éder (28). Tendo em conta que esta é a idade associada ao pico de carreira de um futebolista, é caso para se tentar perceber o que se fez em Portugal com estas gerações, de forma a evitar repetir. A Inglaterra, por exemplo, tem nove jogadores entre os 25 e os 28 anos: Henderson, Rose e Clyne têm 25, Sturridge, Smalling, Walker e Bertrand têm 26, Lallana e Forster têm 28. Depois, o que é diferente é que enquanto Portugal tem os tais onze jogadores mais velhos, na Inglaterra aparecem apenas seis: Hart (29), Vardy (29), Heaton (30), Cahill (30), Milner (30) e Rooney (30). Há oito portugueses mais velhos que o mais antigo dos ingleses. Não espanta, por isso, a diferença abismal no total de internacionalizações (nove portugueses contra cinco ingleses acima dos 30 jogos pela seleção, para uma média que dá mais 13 jogos a cada português) e, sobretudo, nas presenças em fases finais. É verdade que onze dos jogadores chamados agora por Hodgson já estiveram no Mundial de 2014, prova da qual a Inglaterra não pode orgulhar-se. Esse contingente é igual ao total de elementos que Santos leva agora a França e já estiveram com Paulo Bento no Brasil. Só que há depois duas diferenças. Primeiro, Quaresma e Ricardo Carvalho não estiveram no Brasil mas já tinham sido convocados para mais provas antes disso. Depois, se entre os ingleses só Rooney (cinco), Hart (três), Milner (três) e Henderson (duas) foram a mais de uma fase final, na equipa de Portugal há bem mais repetentes: Ronaldo tem seis fases finais, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Pepe foram a quatro, Rui Patrício, Eduardo, Nani, João Moutinho a três e Quaresma a duas. Eles já sabem e podem bem enquadrar os mais novos, no fundo fazer aquilo que motiva Rooney antes do Europeu: “Preciso de ser um exemplo para os outros jogadores. Não vou ter de tomar conta deles, mas se eu puder estabelecer o exemplo correto no hotel ou no campo de treinos, é isso que eles vão ver. Muitos deles vão jogar a primeira fase final e não sabem o que esperar. Se eu puder antecipar-lhes o que aquilo vai ser, fá-lo-ei”. Portugal tem vários Rooneys. Resta saber se consegue aproveitá-los.
2016-06-02
LER MAIS

Artigo

O fim de semana foi de sentimentos mistos para os adeptos de futebol portugueses. No sábado, Cristiano Ronaldo fez um jogo de sofrimento e sem a qualidade habitual na final da Liga dos Campeões pelo Real Madrid, lançando a preocupação entre os que tanto esperam dele no Europeu. E se a lesão não é ainda parte do passado? No domingo, sem ele, a seleção ganhou por 3-0 à Noruega, permitindo aos que mais duvidam acreditar que o milagre pedido por Fernando Santos até é possível. Afinal, há Portugal sem Ronaldo! Só que há aqui uns quantos “mas”. Porque nem tudo o que parece é. Primeiro Ronaldo. Mesmo sem ser decisivo, o craque respondeu presente em Milão. Meteu a defesa do Atlético em respeito com uns quantos sprints e até marcou o penalti que deu a décima-primeira Champions ao Real Madrid. No momento da decisão, foi ele quem respondeu presente. Não se escondeu, e nenhuma equipa pode prescindir de um capitão assim, que não se esconde. Depois, Portugal. Mesmo ganhando por 3-0, a seleção mostrou algumas debilidades ante uma Noruega fraquinha, que não está sequer entre os 24 apurados para o Europeu. Coletivamente deixou que os noruegueses se apoderassem do jogo entre os 30’ e os 65’, quando Guerreiro fez o 2-0 num livre exemplarmente batido. Individualmente, Cédric teve períodos de desconcentração; Fonte cometeu um erro que até podia ter custado o empate momentâneo; Moutinho está sem ritmo, depois de dois meses a lutar com uma lesão, a ponto de a equipa melhorar quando ele saiu; Quaresma fez um grande golo, mas nunca deu à equipa presença na área, custando a perceber como pode encaixar no 4x4x2 engendrado por Fernando Santos; e Éder, que também marcou, parece um corpo estranho naquele onze. Para fazer o tal Europeu de grande qualidade, a equipa precisa de melhorar – e o próprio Fernando Santos o reconheceu no final. Há, é evidente, muita margem para que tal aconteça. A renovação do onze está bem à vista no facto de ter sido Éder quem acabou o jogo com a braçadeira de capitão: todos os outros estão ainda menos habituados a estas coisas do que ele. Fernando Santos começou a partida com um meio-campo que, à exceção de João Moutinho, veio do último Europeu de sub21 – William, João Mário e André Gomes – e podia bem estar nos Jogos Olímpicos e não no Europeu de seleções A. Isso é bom? Claro que sim. Porque a renovação não foi forçada, porque se estão a jogar é porque fizeram por isso. E sobretudo porque já mostraram há um ano que têm qualidade coletiva ao chegarem à final da categoria etária a que então pertenciam. Só que é aí que entra Ronaldo. Teria aquela seleção de sub21 resistido a um Ronaldo em mau momento? Provavelmente não. Uma das qualidades a permitir que o meio-campo das esperanças portuguesas mandasse no último Europeu foi o facto de à sua frente ter dois avançados que não resolviam mas também não atrapalhavam. E a verdade é que Ronaldo faz as duas coisas. Quase sempre a primeira, mas infelizmente às vezes também a segunda. A seleção de 2014 valia mais do que os resultados mostraram, mas caiu logo na primeira fase do Mundial porque Ronaldo estava magoado e a equipa não foi capaz de superar esse inconveniente. Em contrapartida, a de 2012 valia menos do que os resultados mostraram, mas chegou às meias-finais do Europeu porque Ronaldo estava inspirado e a equipa seguiu atrás do exemplo dele. Posto de outra forma. Com um bom Ronaldo, o meio-campo de Portugal vai necessariamente render menos, mas ninguém vai reparar, porque o CR7 é um dos melhores do Mundo e ganha jogos praticamente sozinho. Com um mau Ronaldo, o meio-campo de Portugal também vai render menos, porque o facto de ele estar em campo é o suficiente para que tudo no jogo tenha de passar por ele e, mesmo sendo um dos melhores do Mundo, se ele não estiver bem, a equipa vai ressentir-se disso. Aqui chegado, Fernando Santos não pode fazer muita coisa a não ser esperar que venhamos a ter um bom Ronaldo e criar condições ao nível do treino, da recuperação física e da idealização do jogo para que ele emirja. Se assim não for, é esperar pela próxima oportunidade. Porque ter Ronaldo é e será sempre uma benesse. E ainda que a renovação da equipa prove a quem quer ver que há e haverá sempre futuro quando ele acabar, ainda é cedo para se pensar nisso. Por enquanto é aproveitar. E esperar que ele apareça como Portugal precisa. In Diário de Notícias, 30.05.2016
2016-05-30
LER MAIS

Artigo

A eliminação do Barcelona pelo Atlético Madrid, somada à proeza individual de Cristiano Ronaldo, na véspera, contra o Wolfsburg, vem animar muita gente no futebol português. À cabeça, pois claro, o selecionador nacional. Fernando Santos pode ser um dos principais beneficiários da subida de nível que o contexto pede a Ronaldo. Porque, independentemente de se achar que um é melhor ou pior do que o outro, a Bola de Ouro volta a estar ao alcance do português e dependerá em boa parte de um grande Europeu. Que, juntamente com a Liga dos Campeões, são os grandes objetivos de Ronaldo nesta ponta final da época. Se em 2015 não havia sequer discussão, pois Messi tinha ganho tudo – Liga espanhola, Champions e Taça do Rei – desta vez a questão voltará a animar os debates sobre futebol um pouco por todo o lado, lá mais para o fim do Verão ou início do Inverno. Messi passou pela Liga dos Campeões, não diria de forma anónima, mas sem fazer golos além dos oitavos-de-final, nos quais foi fundamental para o sucesso do Barcelona ante o Arsenal. Ficou em branco nas duas partidas com o Atlético Madrid e disso se ressentiu a equipa, que acabou eliminada. Aos seis golos de Messi na Liga dos Campeões, respondeu já Ronaldo com 16, entre eles o hat-trick que virou a eliminatória contra o Wolfsburg. A Liga espanhola, por sua vez, ainda pode ser alvo de discussão coletiva – o Barça tem quatro pontos de vantagem sobre o Real e três sobre o Atlético, um calendário minimamente acessível, mas vem de duas derrotas seguidas – mas dificilmente verá aberto o debate acerca do maior contributo individual. É que Ronaldo tem mais oito golos e mais uma assistência do que Messi, que no plano individual está mesmo atrás de Suárez na influência no jogo do Barcelona. Já se sabe que Ronaldo é especialista nos arranques de época – os seus totais goleadores na Champions têm muito a ver com a forma como despacha adversários mais débeis na fase de grupos – pelo que as hipóteses de vir a ser coroado Bola de Ouro no final de 2016 têm muito a ver com o que acontecer no Europeu. Uma performance convincente nos relvados de França, ao mesmo tempo que Messi joga uma Copa América que, mesmo em edição especial, nunca terá a mesma visibilidade da prova europeia, pode desde logo garantir a redução do score global para 5-4, ainda a favor do argentino. E com isso pode ganhar a seleção nacional. 
2016-04-14
LER MAIS

Último Passe

Portugal conseguiu uma boa vitória sobre a Bélgica, por 2-1, numa partida em que mostrou menos capacidade para criar desequilíbrios na frente do que tinha feito contra a Bulgária mas onde, em contrapartida, se mostrou uma equipa muito mais segura e disciplinada do que na passada sexta-feira. No último jogo antes da escolha final dos 23 convocados por Fernando Santos, o selecionador deixou algumas pistas acerca não só acerca dos homens que tenciona levar para França mas também da evolução do modelo e da organização que tenciona aplicar quando a competição começar a apertar. A aposta na mobilidade na frente manteve-se, com Nani e Cristiano Ronaldo a funcionarem como os dois elementos mais avançados do esquema. Depois, no entanto, Santos acertou um pouco os equilíbrios na forma como escolheu quatro jogadores que são tendencialmente médios para jogar atrás destes dois avançados. Uma coisa é jogar contra uma Bulgária que só ataca pela certa e outra é fazê-lo contra uma Bélgica que assume o jogo e até acabou a partida com mais posse de bola do que Portugal. No primeiro jogo, Fernando Santos soltou João Mário e Rafa, neste chamou antes André Gomes em vez do atacante bracarense, levando a que a equipa não tivesse sempre tanta gente na frente e se colocasse de forma diferente no momento defensivo. Durante o jogo, mesmo mantendo o modelo, Santos ainda experimentou o 4x3x3, quando chamou Éder ao campo, e o 4x2x3x1, quando sentiu a necessidade de fechar o espaço à frente da sua área com a utilização simultânea de Danilo e William, para controlar uma Bélgica com cada vez mais gente na frente. O jogo, em certa medida, diferiu do de sexta-feira sobretudo na eficácia das finalizações nacionais. Os portugueses não foram exemplares, porém. Após um início em que os belgas pareciam querer monopolizar a bola, Portugal começou a acertar nas combinações ofensivas e, antes de Nani abrir o marcador, aos 20’, na sequência de um bom lance de Cristiano Ronaldo e André Gomes, já o guarda-redes Courtois se tinha oposto com qualidade a remates de João Mário, Adrien, Nani e Ronaldo. E antes de Ronaldo fazer o 2-0, aos 40’, após um excelente cruzamento de João Mário, já este tinha perdido uma ocasião claríssima, traído pela forma como fez a receção a um passe do CR7 que era meio golo. O 2-0 ao intervalo justificava-se, por isso, perfeitamente. Santos trocou então Adrien e João Mário, que já tinham sido titulares na sexta-feira (e essa dupla titularidade é seguramente uma pista acerca dos 23), por Renato Sanches e Bernardo Silva. E Portugal baixou a intensidade. Não tanto pelas substituições – ainda que Renato tenha parecido muito mais tímido do que nos jogos do Benfica, ganhando em disciplina tática o que perde em capacidade de explosão atacante – mas muito pela forma como a equipa decidiu gerir a vantagem. A Bélgica voltou a pegar no jogo e a entrada de Jordan Lukaku, dando profundidade ofensiva ao corredor esquerdo, colocou Portugal em sentido. Santos continuou a sua gestão, trocou Ronaldo e Nani por Quaresma e Éder e mudou para 4x3x3, com Danilo atrás de Renato e André Gomes no meio-campo, e Quaresma e Bernardo abertos no ataque. E foi nessa altura que a Bélgica marcou, numa combinação dos irmãos Lukaku, que Romelu concluiu de cabeça. Nessa altura, com meia-hora para jogar e já sem Ronaldo em campo, Marc Wilmots quis ir à procura do empate. Chamou Batsuayi para jogar perto de Lukaku na frente e Portugal tremeu até ao momento em que Fernando Santos mudou para o 4x2x3x1, com William Carvalho ao lado de Danilo como médios mais recuados (outra pista, a indicar que é possível tê-los em simultâneo em campo). Com a troca, a equipa portuguesa fechou o jogo e segurou o 2-1 até final, vindo mesmo a ter uma ou outra ocasião para ampliar a vantagem. Ainda assim, mesmo pela margem mínima, a vitória chegou para animar um pouco os semblantes, que tão carregados tinham saído depois da derrota com a Bulgária. Afinal, mesmo tendo em conta que à Bélgica faltavam vários titulares, a seleção deixou indicações de que pode ser competitiva.
2016-03-30
LER MAIS

Artigo

Fernando Santos escolheu o jogo com a Bulgária para pôr em prática um novo jogar na seleção nacional. Mais do que olhar para o resultado, que foi mau, ou para as indicações, que face ao elevado número de situações de golo criadas até foram boas, o que importa é avaliar se este novo jogar tem pernas para a andar e se é a melhor resposta aos problemas da seleção. A resposta às duas perguntas é sim. O que em si não significa que esteja tudo bem ou que o problema não pudesse ter começado a ser atacado há mais tempo. Porque o Europeu é já daqui a dois meses. O selecionador nacional apanhou a equipa a meio de uma fase de qualificação que, ainda por cima, nem tinha começado bem e a primeira prioridade que teve foi a de apurar a equipa para a fase final. Fê-lo com um misto de sensações. Por um lado ganhou todos os jogos, por outro mostrou quase sempre um futebol pobre, resolvendo nos últimos instantes muitas partidas de fraca produção atacante. Parecia estar em curso um processo de helenização da seleção nacional, mas foi a esse processo que Santos puxou agora o travão de mão. Porque além de não confiar assim tanto na sorte, também ele percebeu que esse processo não resolvia o maior problema da equipa. A saber: o que fazer com Ronaldo? Voltemos ao último Mundial. Com Paulo Bento, Portugal usava o 4x3x3 e Ronaldo jogava a extremo-esquerdo, a posição que melhor lhe permite desequilibrar, pois dá-lhe os metros necessários para embalar, da esquerda para o meio, e aparecer já lançado face à defesa adversária. A questão é que isso acarretava dois problemas adicionais: para Ronaldo jogar ali era preciso estar lá um ponta-de-lança que, não existindo, roubava o lugar no onze a jogadores melhores e, por outro lado, essas deambulações de Ronaldo pelo campo deixavam sempre a equipa nacional coxa e desequilibrada no momento de transição defensiva, pois raramente havia alguém para defender o corredor que o CR7 deixara vago além do defesa-lateral, condenado a incontáveis situações de inferioridade numérica. Quando a prioridade foi conseguir a qualificação, Ronaldo chegou a jogar como ponta-de-lança solitário. Isso que vinha resolver o problema defensivo, pois mantinha todos os corredores bem preenchidos, mas sacrificava o melhor jogador da equipa a uma posição que não é aquela em que ele mais rende – Ronaldo passava boa parte do jogo de costas para a baliza adversária a batalhar por bolas aéreas bem longe da área – e de caminho sacrificava também o potencial ofensivo da equipa. Conseguido o apuramento, a ideia devia ter sido logo resolver este problema, que só podia passar pela adoção de um 4x4x2 que permitisse a Ronaldo aparecer solto, com um parceiro no centro do ataque. Nem precisava de ser um goleador – que para os golos está lá Ronaldo. Tinha era de ser alguém que fosse capaz de fazer tudo aquilo que ele não faz: tinha de se bater com os defesas-centrais, para ganhar espaço para Ronaldo, e pressioná-los na fase defensiva, para que Ronaldo pudesse guardar energias para desequilibrar depois. Santos, porém, dispensou Ronaldo dos dois primeiros particulares, desperdiçando nessas partidas com a Rússia e o Luxemburgo a oportunidade de testar a compatibilidade entre os pontas-de-lança convocados (Nélson Oliveira e Lucas João) com o capitão de equipa. Percebe-se agora que nunca quis sequer fazer esse teste, pura e simplesmente porque não acreditava no seu sucesso. A ideia de Santos, o novo jogar da seleção, passa por uma frente de ataque com dois jogadores móveis, que não se dão à marcação, dois jogadores que tanto procuram os corredores laterais em trocas posicionais com os médios-ala, como a profundidade nas costas da defesa adversária, a solicitar o passe dos médios com movimentos de rotura, ou as desmarcações de apoio para tabelas no espaço entre as linhas adversárias. Contra a Bulgária jogaram ali Nani e Ronaldo e o teste não correu mal, tantas foram as situações de golo criadas. É preciso, no entanto, ter em conta dois aspetos. Primeiro, que o adversário era fraco – e parece-me mais importante valorizar isso do que o facto de Portugal ter perdido, porque em condições normais uma equipa que cria tantas oportunidades flagrantes de golo acaba por golear. Depois, que este novo jogar, por privilegiar tanto a mobilidade e uma primeira zona de pressão agressiva, com muita gente no último terço, deixou a equipa vulnerável do ponto de vista defensivo, com muitos jogadores fora do lugar em transição e pouca gente atrás em organização defensiva. A ideia não é má, mas ainda precisa de muito trabalho. A ver já amanhã, contra a Bélgica. In Diário de Notícias, 28.03.2016
2016-03-28
LER MAIS

Último Passe

Uma noite memorável do guarda-redes Stoyanov e o desacerto global dos portugueses na hora da finalização levaram a seleção nacional a perder por 1-0 com uma insípida Bulgária, em Leiria, no primeiro jogo de preparação para o Europeu de 2016. O resultado foi o pior de uma noite em que foi possível perceber como quer Fernando Santos resolver a questão do enquadramento de Ronaldo no onze. O selecionador quer um ataque feito de mobilidade total, um modelo que vai precisar de trabalho de aperfeiçoamento e que terá implicações na forma como a equipa se organiza defensivamente, mas que chegou para criar ocasiões de golo mais que suficientes para ganhar este jogo com tranquilidade: Portugal acabou com 27 remates contra quatro, com 54 ataques contra doze, com 19 cantos a três. Este novo modelo prefigura ainda uma alteração identitária numa seleção que ultimamente se habituara a jogar muito atrás e que agora, talvez por ter a noção de que vai enfrentar muitas equipas com propensão para jogar na expectativa, parece querer meter mais ênfase na frente. Ronaldo e Nani, os dois pontas-de-lança móveis escalados por Santos, alternavam bem entre a busca dos corredores laterais – sempre chamando Rafa e João Mário, os dois médios-ala, a posições interiores –, a solicitação do passe em profundidade para o espaço nas costas da defesa búlgara ou o recuo em desmarcações de apoio para combinar com o meio-campo. Em resultado disso, os portugueses perderam várias ocasiões de golo cantado, incluindo um penalti, em que o CR7 permitiu a defesa de Stoyanov, a meio da segunda parte. O início de jogo, então, foi de alvoroço total, com oito situações de finalização nos primeiros dez minutos a provarem que o modelo pode funcionar. Mas da mesma forma que é importante não permitir que a depressão pelo resultado negativo tome conta da equipa, também não convém que se entre em euforia à conta do bom funcionamento do novo modelo. Porque a questão é que ele nem sempre funcionou. Por um lado, a desorganização criativa à base da qual funciona o ataque tem repercussões no modo como a equipa defende, pois muitas vezes ela está desequilibrada no momento da perda. Via-se que Portugal metia muita gente na frente, que dava liberdade total a quem por lá andava – e a própria coordenação entre todos melhorará com o tempo de trabalho e a repetição – mas que depois sofria na transição defensiva, sobretudo se falhava a primeira zona de pressão. Essa pareceu ser a preocupação principal de Santos: a seleção procurava estancar cedo a saída de bola dos búlgaros, chegou mesmo a fazer várias recuperações altas, fruto da amplitude de movimentos de William Carvalho e Adrien Silva, os dois médios-centro, mas se não conseguia ganhar a bola logo ali permitia invariavelmente que se abrissem auto-estradas para rápidos ataques do adversário. Num deles apareceu o golo de Marcelinho, a dar vantagem à Bulgária. Até final nunca mais Portugal teve momentos tão avassaladores como aqueles primeiros 15 minutos de jogo. Mas, apesar da quebra de rendimento de alguns jogadores à medida que o jogo avançava – Nani e João Mário pareceram perder concentração na segunda parte – continuou a criar várias situações para evitar a derrota. O sorriso desesperado de Ronaldo quando, já depois de ter perdido o penalti, viu Stoyanov negar-lhe mais um golo certo com uma defesa impossível, dizia tudo: não era noite de Portugal. Resta a Fernando Santos acreditar que pode ter sido a alvorada de um novo jogar.
2016-03-26
LER MAIS

Último Passe

A chamada de Renato Sanches aos jogos que Portugal vai fazer com a Bulgária e a Bélgica, no final deste mês, é absolutamente normal e esperada. Por muito que ela seja contestada, já se viram coisas muito mais estranhas. Aliás, no caso do médio benfiquista, estranho seria que Fernando Santos não aproveitasse os últimos jogos antes da convocatória final para o Europeu para ver a nova coqueluche do Benfica num ambiente de seleção A ao qual regressa Ronaldo, em princípio para voltar a jogar como ponta-de-lança. Renato Sanches tem passado nas seleções, pode dar à equipa nacional coisas que ela não tem em abundância, como a amplitude territorial em que se move, a meia-distância ou o arranque forte com bola. Mesmo longe de ser um jogador feito – ainda se lhe notam inconsistências, sobretudo nos comportamentos sem bola – tem sido fundamental na recuperação que trouxe o Benfica dos sete pontos de atraso que tinha quando ele entrou no onze para os dois de avanço que tem neste momento. Não tem um par de jogos como titular, como alguns elementos chamados no passado recente à seleção nacional, pelo que se justifica plenamente a sua convocatória. Aliás, em rigor, toda a convocatória de Fernando Santos parece absolutamente normal. É normal eu estejam Adrien e João Mário, os dois melhores médios do Sporting que, ainda assim, faz figura de desafiante na corrida ao título. É normal que apareçam William e Danilo, quanto mais não seja para Fernando Santos perceber qual dos dois quer levar ao Europeu, uma vez que não será fácil que caibam ambos. É normal que regressem Ronaldo, Danny e Ricardo Carvalho. Aliás, neste caso, o que foi anormal foi não terem estado na última convocatória. É normal que esteja Rafa, um fenómeno de aceleração de jogo no último terço, que pode ter um papel bem mais ativo do que há dois anos, quando foi a surpresa na lista para o Mundial. É normal que caiam Ruben Neves e Gonçalo Guedes, porque deixaram de ser opção no FC Porto e no Benfica. A única coisa anormal é mesmo que ainda esteja por testar um ponta-de-lança capaz de jogar com Ronaldo, algo que o regresso de Éder não vem propriamente resolver. O que me leva a crer cada vez mais que a ideia de Fernando Santos é mesmo a de sacrificar o CR7 na posição de avançado de referência. Talvez nem haja outra solução, mas a verdade é que não foi feito tudo para a encontrar.
2016-03-18
LER MAIS

Artigo

Cristiano Ronaldo não tem que saber de jornalismo e por isso até pode queixar-se do tratamento que os jornalistas espanhóis lhe têm dado. É verdade que ao CR7 lhe tem bastado aquilo que sabe de futebol, que é muito, sobretudo por ele ter a capacidade tão rara de o pôr em prática. Mas não tem havido muitas situações melhores do que esta para aplicar a velha máxima de Manuel Sérgio, segundo a qual “quem só sabe de futebol, nem de futebol sabe”. E, descontando o desconforto que mostrou com a exigência sempre nos píncaros com que os media espanhóis lhe sobrecarregam os ombros, Cristiano tinha a obrigação de saber mais do que a melhor forma de meter um remate cruzado ao ângulo. Tinha de saber que a exigência, que é algo fundamental em qualquer equipa que quer ser grande, tem locais para ser colocada. Os jornalistas colocam-na nos jornais, os jogadores de futebol nos balneários. Primeiro, o jornalismo. Aqui há uns anos, quiseram convencer-me que o jornalismo desportivo era o palco do domínio inevitável do emocional sobre o racional. Nunca o aceitei. Em Espanha, contudo, é assim que o negócio está montado, até na forma como os jornais cavalgam o sucesso dos clubes que estão no mesmo lado do que eles e descobrem os podres aos que estão do outro lado. Quando Cristiano é bom, é o melhor; quando é menos bom – porque não me lembro de alguma vez o ter visto ser mau num campo de futebol – é o pior. Se aqui, à distância, qualquer um já se apercebeu disso, é evidente que Cristiano, que é quem há anos deve ter momentos de deleite narcísico a olhar para umas manchetes e outros de pura raiva a contemplar outras, não pode ter tido agora uma epifania. Percebo mal, por isso, que aquele que é um dos dois melhores jogadores do Mundo há várias épocas venha queixar-se da injustiça dos jornalistas espanhóis. São injustos? Claro que são injustos. Sempre o foram. Para o bem e para o mal, em toda a carreira de Cristiano Ronaldo, desde que ele chegou ao Real Madrid. São excessivamente bajuladores numas alturas e demasiado críticos noutras. É normal, portanto, que perante o fracasso que está a ser a época do Real Madrid os media se virem para Cristiano Ronaldo. Ele segue com 34 golos em 33 jogos feitos esta época e por isso se sai com aquela frase que pretende ser deinitiva: “Olhem para as estatísticas!”. OK. Olhemos então para as estatísticas. Na época passada, Ronaldo seguia em finais de Fevereiro com 38 golos em 35 jogos, números que eram apenas ligeiramente melhores que os atuais. Mas só tinha ficado em branco onze vezes (31,4%), ao passo que este ano não marcou em 16 ocasiões (48,4%). E nessas o Real Madrid empatou seis e perdeu quatro. É a olhar para as estatísticas que se conclui que, se há uma época Cristiano não marcara golos num terço das partidas, esta época ficou a seco em metade. Claro que segue com uma média excelente, que qualquer clube daria tudo o que tem por um avançado que tem mais golos do que jogos, mas a verdade é que deixou de levantar sozinho a equipa quando esta se mostra incapaz de ganhar por outros meios. A culpa é dele? Claro que não. Nisso, tem razão Cristiano: a única culpa que ele tem aqui é a de ter feito ganhadora uma equipa que valeu sempre menos do que aquilo que parecia. E, agora, a de se ter expressado de forma inapropriada, ou pelo menos num local inapropriado, acerca dessa evidência. Cristiano tem razão em ser exigente com os colegas. Tem essa obrigação, aliás. Mas tal como teve razão nas críticas à valia geral da seleção portuguesa antes do Mundial 2014 e escolheu mal o timing e sobretudo a forma de as expressar, voltou agora a cometer o mesmo erro. “Se todos estivessem ao meu nível seríamos primeiros”, disse, na zona mista após a frustrante derrota em casa com o Atlético. Mais uma evidência, que não precisava que o CR7 viesse depois fazer o esclarecimento que fez, alegando que se referia a “nível físico” e não a “qualidade” de jogo. Como? Deixando de parte o facto de ninguém se expressar assim, de ninguém dizer “se todos estivessem ao meu nível” em vez de “se todos estivessem aptos”, este é um discurso que Ronaldo pode ter em todos os locais menos à frente dos jornalistas. Pode dizer a Florentino que contratou um treinador que era um problema (Rafa Benítez) e que mais tarde ou mais cedo isto aconteceria. Ou que a pré-época foi catastrófica e redundou na quantidade absolutamente irreal de lesões, que tem mantido a equipa amputada de alguns dos seus melhores elementos. Pode dizer a Zidane que, de Kroos a James, com passagem por Danilo, Mayoral e Isco, houve muitos erros defensivos acumulados a contribuir para o golo com que Griezmann derrotou o Real Madrid. Mas quando escolhe dizê-lo na zona mista, o mínimo que pode ouvir é que está a abrir a porta de saída do clube. E não, isto não é uma perseguição. In Diário de Notícias, 29.02.2016
2016-02-29
LER MAIS

Artigo

Cristiano Ronaldo, Messi ou Neymar. Um deles vai ganhar hoje a Bola de Ouro para o melhor futebolista do Mundo de 2015. O Mundo inteiro aposta em Messi, líder do Barcelona que ganhou tudo no ano passado e que assim poderia alargar para 5-3 a sua batalha privada com Ronaldo, que já dura desde Janeiro de 2009. Mas há nesta Bola de Ouro uma série de nuances que podem baralhar as contas, como a política do voto por blocos ou a definição do que deve ser privilegiado num prémio individual. A segunda questão já não é nova e é uma daquelas que não tem nem terá nunca resposta – só serve para entreter. A primeira é a mais interessante, porque depende dos blocos onde a solidariedade funcionar melhor. Ainda assim, nem toda a política do Mundo deve roubar a Messi mais uma consagração. Olha-se para os três nomeados e descobrem-se três máquinas de fazer golos. Ronaldo, vencedor em 2008, 2013 e 2014, fez no ano de 2015 54 golos em 52 jogos pelo Real Madrid, aos quais somou mais três em cinco jogos pela seleção portuguesa. Messi, que ganhou em 2009, 2010, 2011 e 2012, marcou 48 golos em 53 desafios pelo Barcelona, juntando-lhes mais quatro em oito partidas pela Argentina. E Neymar, que sucede a Xavi (2011), Iniesta (2012), Ribery (2013) e Neuer (2014) como desafiante do ano – todos os anos aparece um a partilhar o plateau com os dois donos da bola –, somou 41 golos em 54 jogos pelo mesmo Barcelona, mais quatro em nove jogos pelo Brasil. Logo à partida, nas estatísticas, a superioridade vai para Ronaldo. Mas os jogadores do Barcelona contrariam essa vantagem com a evidência da sua superioridade coletiva: ganharam Liga espanhola, Taça do Rei, Liga dos Campeões e Mundial de clubes contra um rotundo zero do Real Madrid de Ronaldo. É aqui que aparecem uns a dizer que este não é um prémio de goleadores – para isso está lá a Bota de Ouro – e outros a responder que também não é um prémio coletivo – que para isso existem as competições de clubes. Essa é, portanto, uma discussão estéril, porque todos têm razão e porque não é isso que está em causa. A Bola de Ouro baseia-se em votações subjetivas de jogadores, treinadores e jornalistas e se tanto os golos como os títulos coletivos ganhos são fatores capazes de influenciar a decisão de quem vota, não é menos verdade que a escolha nunca será científica e baseada em fatores mensuráveis. Há coisas a medir, mas não são essas. As influências, por exemplo. Os mais velhos lembrar-se-ão das transmissões dos festivais da Eurovisão de antigamente, onde a canção portuguesa tinha sempre uns pontinhos assegurados, vindos do júri espanhol, fosse por solidariedade geográfica ou política, quando os dois países ibéricos eram as últimas ditaduras de direita da Europa. No futebol, a coisa funciona um bocado assim também. O problema é que a globalização veio baralhar os blocos. De um lado, o bloco do Barcelona – Neymar e Messi – contra o bloco do Real Madrid – Cristiano Ronaldo. Depois, o bloco dos sul-americanos – os mesmos Neymar e Messi – contra o bloco europeu – mais uma vez representado por Ronaldo. De seguida, o bloco de idioma castelhano – Messi sozinho – contra o dos luso-falantes – aqui Ronaldo e Neymar, sendo que o português pode ter pelo seu lado os que falam inglês, por ter jogado na Premiership. E, mesmo que não se fale em verbas a circular de cá para lá e de lá para cá, algo tão em voga quando se vota pela atribuição de sedes de campeonatos do Mundo da FIFA, há ainda uma dúvida remanescente: poderão os membros de um mesmo bloco dividir os votos respetivos entre si, facilitando a vitória de quem está sozinho? É que se nas presidenciais portuguesas, por exemplo, a esquerda prefere pulverizar e dividir os votos a ver se consegue forçar uma segunda volta, na Bola de Ouro não há segunda volta. Ganha quem tiver mais um voto. Messi? Creio que sim. Mas espero para ver. In Diario de Notícias
2016-01-11
LER MAIS

Stats

Fernando Santos vai certamente somar no particular frente à Rússia mais alguns estreantes ao lote de jogadores aos quais deu a primeira internacionalização. Ricardo Pereira (Nice), Ruben Neves (FC Porto), Gonçalo Guedes (Benfica) e Lucas João (Sheffield Wednesday) esperarão ser o 16º novo internacional da era Fernando Santos, permitindo ao engenheiro superar a média de estreias a cada dois anos na seleção, que costuma andar pelas 15. Desde que pegou na equipa, no particular frente à França, em Outubro de 2014, Santos já estreou 15 jogadores na seleção. Cédric e João Mário estiveram logo no primeiro jogo, Raphael Guerreiro experimentou as quinas ao peito frente à Arménia, em jogo de qualificação, quatro dias antes de Tiago Gomes, José Fonte e Adrien Silva serem pela primeira vez internacionais A, no particular contra a Argentina. Anthony Lopes, André Pinto, Paulo Oliveira, Bernardo Silva, Danilo, André André e Ukra arrancaram todos com a sua conta de internacionalizações em mais um particular, desta vez o jogo com Cabo Verde, no qual os titulares habituais estava regulamentarmente proibidos de alinhar. Por fim, Santos ainda estreou no particular frente à Itália e promoveu a segunda estreia em competição a sério com Nelson Semedo, que jogou com a Sérvia em Belgrado. As 15 estreias de Santos, bem antes de completar o biénio à frente da equipa, dão uma ideia de renovação, ainda que esta só seja verdadeiramente conseguida se os jogadores trazidos para o grupo por lá ficarem. Paulo Bento, por exemplo, estreou 24 jogadores em quatro anos, mas destes só Rui Patrício, Vieirinha, Neto e William Carvalho se transformaram em apostas capazes de resistir à mudança de comando. Antes de Bento, a norma era dar uma média de 15 novos internacionais a cada dois anos. Carlos Queiroz inaugurou 16 entre 2008 e 2010; Luiz Felipe Scolari tinha estreado 30 entre 2003 e 2008, mas este lote teria de ser completado com os 12 trazidos para a seleção por Agostinho Oliveira em 2002 (42 em três biénios, portanto). Antes, ainda, António Oliveira estreara os mesmos 15 homens entre 2000 e 2002.     - As únicas derrotas de Fernando Santos na seleção (três) aconteceram em jogos particulares. Perdeu duas vezes com a França (2-1 em Paris em Outubro de 2014 e 1-0 em Lisboa em Setembro deste ano) e uma com Cabo Verde (2-0 no Estoril em Março último).   - Portugal ganhou os últimos dois jogos sem Cristiano Ronaldo: 2-1 na Sérvia, na despedida já sem significado da fase de qualificação para o Europeu de 2016, e 1-0 à Itália, num particular, em Junho. Mas antes desses dois jogos, o panorama era desanimador: derrotas com Cabo Verde (0-2, em 2015) e Albânia (0-1, 2014), vitória no último suspiro contra o México (1-0, 2014) e empate (0-0, 2014) com a Grécia.   - A Rússia vem com quatro vitórias consecutivas, que lhe permitiram a qualificação direta para o Europeu, tendo sofrido apenas um golo esta época, no 2-1 à Moldávia. O avançado do Zenit Artyom Dzyuba tem sido a figura, pois marcou em três desses jogos: fez o golo do decisivo 1-0 à Suécia, marcou quatro nos 7-0 ao Liechtenstein, voltou a estar entre os goleadores nos 2-1 à Moldávia e só ficou em branco nos 2-0 ao Montenegro. - Os russos só perderam duas vezes desde o Mundial do Brasil, ambas com a Áustria, que venceu o seu grupo de qualificação. E não perdem um jogo particular desde Fevereiro de 2011, quando foram batidos por 1-0 pelo Irão.   - Desde que a URSS se desmembrou, Portugal defrontou cinco vezes a Rússia, ganhando três, mas todas em Portugal. Nas duas deslocações a solo russo, sempre em Moscovo, empatou uma vez (0-0) e perdeu outra (0-1), nunca marcando sequer um golo. Aliás, nem nos tempos da URSS a seleção nacional conseguiu ali marcar, pois perdeu por 5-0 na única vez que lá se deslocou, em 1983.   - Os 5-0 de apuramento para o Europeu de 1984 não são a maior goleada entre estas duas seleções: Portugal ganhou à Rússia por 7-1, em Alvalade, no apuramento para o Mundial de 2006. Cristiano Ronaldo marcou nessa noite dois golos, mas não foi o único membro da atual geração a jogar nesse dia, pois Ricardo Carvalho esteve em campo e Tiago viu o jogo do banco. Nenhum dos três foi agora convocado por Fernando Santos.
2015-11-13
LER MAIS

Último Passe

Podemos achar o que quisermos sobre o facto de haver um documentário acerca de Cristiano Ronaldo destinado ao ecrã grande do cinema, mas uma coisa não pode ser ignorada: a indiferença com que toda a gente no Real Madrid encarou a cerimónia de lançamento da obra. Se lá esteve Ancelotti, se lá esteve Ferguson, se lá esteve até José Mourinho, o técnico com quem o CR7 não mantém relações propriamente efusivas, não se vê na falta de Rafa Benítez, de Florentino Pérez ou de algum representante seu mais do que uma declaração. Uma declaração acerca do futuro, à qual me custa a entender que Jorge Mendes, pelo poder que tem, seja alheio.O clima anda tenso, como era inevitável que viesse a acontecer a partir do dia em que a aposta do Real Madrid foi em Rafa Benítez, um treinador com tanta vontade de deixar marcas no clube que precisava de pôr tudo em causa. Incluindo a forma de funcionar com e para Ronaldo. Seja por razões táticas, seja devido à falta que lhe faz Benzema - aproximando Ronaldo dos problemas que enfrenta no ataque móvel e sem referências da seleção nacional - seja por ter deixado de sentir o afeto entretanto partilhado com outros, a verdade é que Ronaldo não está a gosto e tanto ele como os que o rodeiam fazem questão de que isso se saiba sem terem de o dizer. Porque não podem dizê-lo, como é evidente.Foi a entrevista à Kicker, a admitir que há-de sair de Madrid um dia; foi o segredo a Laurent Blanc, no jogo contra o PSG, a abrir caminho a especulações; foi agora a discussão com Sérgio Ramos, no final da derrota em Sevilha, a primeira da época. Tudo achas para uma mesma fogueira, a fogueira que vinha sendo alimentada por meia dúzia de exibições tristes, para as quais as táticas de Benítez contribuem com frequência. E exatamente a mesma fogueira que foi mais inflamada ainda por Florentino Pérez, quando confrontou o jogador à frente das câmaras de TV após as declarações à Kicker ou não se fez sequer representar a si ou ao clube no lançamento do documentário sobre a vida do seu jogador bandeira, do seu Bola e Bota de Ouro.  Ora se Florentino não é idiota - e eu acho que não é - e sabe bem o que vai dizer-se neste tipo de circunstâncias, não creio que esteja a ser surpreendido pelo que está a passar-se. Como todos os bons gestores, tê-lo-á mesmo antecipado. Tê-lo-á feito ele, como certamente podem tê-lo Ronaldo ou Jorge Mendes, que esteve bem à vista de todos na cerimónia de Londres, como o esteve também José Mourinho, treinador estrela da Gestifute cuja presença foi o sublinhado a grosso da ausência do Real Madrid. Novidades? Lá para o fim da época veremos.
2015-11-09
LER MAIS

Último Passe

Fernando Santos abriu hoje a caça ao ponta-de-lança. É essa uma das principais ilações a tirar da lista de convocados do selecionador para os particulares com a Rússia e o Luxemburgo, que nas palavras do técnico marcam o “primeiro dia do Europeu”. É excelente que Santos já tenha assumido a procura de um jogador capaz de casar com Ronaldo no ataque como prioridade máxima até ao arranque da fase final. Mas ainda me sobram duas ou três inquietações na lista de 23 jogadores chamados. Uma das quais o facto de se querer que este casamento seja feito por procuração. As chamadas de Lucas João (quatro golos em 17 jogos pelo Sheffield Wednesday) e Nelson Oliveira (um golo em oito partidas pelo Nottingham Forest) enquadra-se na tal busca do elo perdido, o ponta-de-lança que possa permitir a Portugal jogar em 4x4x2, com Ronaldo ao meio mas livre do que faz pior ou do que o impeça de fazer aquilo em que é incomparável. A própria convocatória de Gonçalo Guedes – justa, pelo que o miúdo tem feito até aqui – pode ser assim vista, pois também ele tem caraterísticas que lhe permitam jogar ao meio num ataque móvel. Só que, mais uma vez, se a ideia é testar compatibilidades com Ronaldo, pois é evidente que quem falta é o próprio Ronaldo, que fica em Madrid. Sim, Ronaldo está sujeito a uma pressão incomparável e, jogando num clube poderoso, acaba por ter o reverso da medalha, ao ficar livre destas “chatices” que são os jogos particulares. Da mesma forma que já ficou fora da deslocação a Belgrado para jogar com a Sérvia, quando a qualificação estava assegurada. Mas se Ronaldo fez 14 jogos pelo Real Madrid este ano, Rui Patrício já esteve em 16 desafios do Sporting, Bernardo Silva fez 17 pelo Mónaco e Nani outros tantos pelo Fenerbahçe. Todos foram convocados e para nenhum deles se procura o parceiro ideal. É isto que me custa perceber, mais a mais num dia em que, a propósito do Sporting-Benfica do dia 21 (quatro dias após o jogo no Luxemburgo), o selecionador reiterou que os clubes não ditam nada na seleção. De resto, as alterações promovidas por Fernando Santos à última convocatória têm lógica, embora a mim me pareça que já tarda a oportunidade a Ruben Neves: se já é altura para Gonçalo Guedes, também não é cedo para o miúdo que manda no meio-campo do FC Porto. Ventura volta a ceder a vaga de terceiro guarda-redes a Anthony Lopes. Nélson Semedo está lesionado e cai para o regresso de Vieirinha, que estava magoado na altura dos últimos jogos. Coentrão também não joga desde o Portugal-Dinamarca e por isso fica fora para que possa ser visto Raphael Guerreiro. Ricardo Carvalho, que não falha um minuto no Mónaco, descansa, porque já está disponível Pepe. William Carvalho regressa e André Gomes tem mais uma oportunidade, em vez de Tiago e Veloso, que ficam em repouso. Na frente é que muda quase tudo: só Nani e Bernardo Silva se mantêm, para que possam aparecer Ricardo Pereira – que tem sido lateral no Nice mas aqui deverá voltar a ser extremo –, Gonçalo Guedes, Lucas João e Nélson Oliveira. A ver se alguém diz o tão desejado “Sim” a Ronaldo, mesmo num casamento por procuração.
2015-11-06
LER MAIS

Stats

Mesmo estado ausente, dispensado por Fernando Santos, Cristiano Ronaldo é incontornável na visita da seleção nacional à Sérvia. É dele que se fala, é dele que os sérvios querem saber. Afinal, o que vale Portugal sem Ronaldo? A verdade é que, em termos numéricos, vale menos, mas não vale assim tanto a menos. O exercício é simples de fazer: anda-se para trás e vão buscar-se os últimos 20 jogos que Portugal fez sem Ronaldo. É preciso recuar Setembro de 2008. Desses 20 jogos, a equipa ganhou apenas dez (50%), empatando cinco (25%) e perdendo outros cinco (25%). Como todas as estatísticas, esta só é válida se houver um termo de comparação. Há então que ver que resultados fez Portugal nesse mesmo período com o CR7 em campo. Ora desde a vitória em Malta por 4-0, na qualificação para o Mundial de 2010, na qual Ronaldo esteve ausente, a equipa portuguesa jogou 65 partidas com ele em campo, ganhando 38 (58%), empatando 16 (25%) e perdendo onze (17%). O que diz a frieza dos números é que, sem Ronaldo, Portugal tem menos oito por cento de hipóteses de ganhar à Sérvia em Belgrado. Os números não explicam tudo, porém. Há depois uma série de fatores subjetivos a ter em conta, tais como o grau de dificuldade dos jogos. E a verdade é que muitas vezes Ronaldo tem estado fora de jogos menos exigentes: metade destas 20 ausências foram em particulares, percentagem que sobe para 70 por cento se olharmos apenas para as últimas dez ausências do CR7. É verdade que na última falta de Ronaldo Portugal até ganhou à Itália (resolveu um golo de Éder), num particular em campo neutro, mas antes disso o panorama não era muito animador: derrota com Cabo Verde (0-2) e com a Albânia (0-1), vitória no último suspiro frente ao México (1-0) e empate com a Grécia (0-0) na antecâmara do Mundial 2014. Dois golos marcados nos últimos cinco jogos sem Ronaldo, portanto. Antes disso, ainda assim, a equipa reagia melhor ofensivamente à falta de Ronaldo. Nos três jogos de 2013 em que ele faltou, houve duas vitórias (3-0 ao Luxemburgo e 2-0 ao Azerbaijão) e uma derrota compreensível (1-3 no Brasil). Em 2012, na sua única ausência – a excursão ao Gabão – não foi o ataque que falhou, num jogo que acabou empatado a duas bolas. E em 2011, o CR7 só faltou a dois particulares, em Março, que redundaram numa vitória (2-0) sobre a Finlândia e num empate (1-1) face ao Chile. Antes disso, é que veio o pior e o melhor da história recente sem Ronaldo. Em 2010, no rescaldo do desentendimento com Carlos Queiroz, que aqueceu a fase final do Mundial, Ronaldo esteve ausente no empate (4-4) com Chipre e na derrota com a Noruega em Oslo (0-1), que redundaram na troca de selecionador. Em 2009, porém, tinha sido sem ele que a equipa se reencontrou e garantiu a qualificação para a África do Sul: Ronaldo não esteve nas duas vitórias do play-off com a Bósnia (ambas por 1-0) nem no último jogo do grupo de apuramento (4-0 a Malta) como já não tinha estado nos particulares com o Liechtenstein (3-0) e a Estónia (0-0). Completam o lote das derradeiras 20 ausências de Ronaldo a derrota caseira com a Dinamarca (2-3) e a tal vitória (4-0) em Malta, a 6 de Setembro de 2008.   - Portugal procura a sétima vitória seguida em jogo de competição, algo que nunca obteve em toda a sua história. A atual série, de seis vitórias consecutivas (contra Dinamarca, Arménia, Sérvia, outra vez Arménia, Albânia e mais uma vez Dinamarca), todas pela margem mínima, só encontra paralelo na estabelecida pela equipa que chegou às meias-finais do Mundial de 2006. Na altura, dirigido por Luiz Felipe Scolari, Portugal ganhou os dois últimos jogos de qualificação (Liechtenstein e Letónia) e os quatro primeiros na fase final (Angola, Irão, México e Holanda). Empatou à sétima partida, com a Inglaterra, mas apurou-se na mesma, ganhando nas grandes penalidades.   - A Sérvia também ganhou os dois últimos jogos de competição: 2-0 em Novi Sad à Arménia e 2-0 à Albânia em Tirana. Ainda assim, não ganha um jogo em Belgrado desde Setembro de 2011 (dois empates e três derrotas desde uns 3-1 às Ilhas Faroé) e vem com uma série repetitiva de alternância entre vitórias e derrotas nos últimos oito jogos: perdeu com a Dinamarca, ganhou à Grécia; perdeu com Portugal, ganhou ao Azerbaijão; perdeu outra vez com a Dinamarca, ganhou à Arménia; perdeu com a França, ganhou à Albânia. É a vez de perder de novo.   - Num jogo sem nada por decidir, Fernando Santos pode adicionar mais algumas estreias ao lote de jogadores aos quais deu a primeira internacionalização. O guarda-redes Ventura (Belenenses), o lateral Nelson Semedo (Benfica), o ala Ricardo (Nice) e o avançado Rui Fonte (Sp. Braga) esperarão ser o 15º estreante da era Fernando Santos, depois de Cédric, João Mário, Raphael Guerreiro, Tiago Gomes, José Fonte, Adrien Silva, Anthony Lopes, André Pinto, Paulo Oliveira, Bernardo Silva, Danilo, André André, Ukra e Carriço.   - Portugal nunca perdeu com a Sérvia, mas também só ganhou uma vez, precisamente nesta fase de qualificação (2-1, na Luz). Os dois jogos de apuramento para o Euro’2008 acabaram empatados a um golo: Tiago e Jankovic marcaram em Belgrado; Simão e Ivanovic fizeram-no em Portugal. Em Março, na Luz, Ricardo Carvalho e Coentrão marcaram por Portugal e Matic fê-lo pelos sérvios. Mais equilibrado foi o confronto entre portugueses e jugoslavos: três vitórias para Portugal; duas para a Jugoslávia. Os jugoslavos levaram a melhor no apuramento para o Europeu de 1960 (5-1 em cada depois de perderem 2-1 fora) e verificou-se uma vitória para cada lado em particulares, a portuguesa em 1932, a jugoslava em 1984. O desempate fez-se a favor de Portugal nos Jogos Olímpicos de 1928.   - Adem Ljajic marcou nas três vitórias da Sérvia em 2015, fazendo sempre o segundo golo da sua equipa nos 4-1 ao Azerbaijão, nos 2-0 à Arménia e nos 2-0 à Albânia.   - Fejsa, Eliseu e Nelson Semedo jogam todos no Benfica, mas não são casos únicos de colegas de clube que poderão estar em lados opostos da barricada neste jogo. Tosic e Quaresma são colegas no Besiktas; Cédric, José Fonte e Tadic alinham no Southampton. E se olharmos para o passado haveria ainda mais casos.
2015-10-10
LER MAIS

Último Passe

As dispensas de Ronaldo, Tiago e Ricardo Carvalho da viagem à Sérvia, às quais se soma a ausência de Coentrão, por lesão, podem ser vistas de muitas formas. Os mais condescendentes acharão que é justo, que há jogadores mais veteranos ou massacrados pela competição e que por isso mesmo, com o apuramento no bolso, Fernando Santos pode dispensá-los deste jogo e ver alternativas em funcionamento. Os mais críticos dirão que é uma vergonha, que se estão em condições têm é de ajudar a equipa, porque na seleção não pode haver filhos e enteados. Eu digo só uma coisa: é uma oportunidade perdida. Percebo a razão dos dois grupos, o dos que veem o copo sempre meio cheio e o dos que olham para ele sem conseguir perceber outra coisa a não ser que está meio vazio. Por um lado, há que fazer a gestão do grupo, dar minutos de competição a jogadores menos utilizados e permitir o repouso aos que estiverem mais fatigados – e para isso ninguém como a equipa técnica saberá quem precisa de jogar e quem precisa de repousar. Mas por outro, o jogo de domingo, em Belgrado, apresenta vários pontos de interesse: pode dar uma sétima vitória consecutiva que seria inédita em toda a história da seleção nacional; pode garantir pontos no ranking da FIFA e um importantíssimo lugar de cabeça de série na fase final do Europeu. Além de que visitar a Sérvia e prescindir voluntariamente de três jogadores que foram titulares sempre que estiveram disponíveis pode ser visto como uma falta de respeito pelo adversário. Francamente, sou sensível a todos estes argumentos. Aos positivos e aos negativos. Mas aquilo que mais me preocupa é que, mais ainda se acreditarmos no objetivo que Fernando Santos teima em apresentar como seu – o de ser campeão europeu – o caminho não está finalizado. Está a menos de meio. E para lá chegar será necessário aperfeiçoar a equipa que vai competir na fase final, algo que nunca se fará tão bem como em competição. A equipa está afinada até ao mais ínfimo detalhe? Claro que não está. Sim, ganhou os últimos seis jogos de competição, mas ainda não encontrou a forma de jogar com Ronaldo. Aquilo que se viu nos últimos dois jogos, com o CR7 abandonado aos centrais adversários, a jogar muito de frente para a equipa e de costas para a baliza, pode até agradar aos tais observadores que veem sempre o copo meio vazio, pois conseguem rejubilar ao ver a estrela anular-se em prol da equipa, mas não me agrada a mim. Jogar com Ronaldo ali é como ir para um engarrafamento de Ferrari. É desistir de aproveitar as armas que fazem dele o melhor goleador do Mundo. Não é fácil encontrar a fórmula certa e, dentro dela, o jogador certo para libertar Ronaldo sem desequilibrar a equipa. Mas de uma coisa tenho a certeza: se alguma vez Fernando Santos a encontrar não será com o capitão a celebrar o apuramento em Marraquexe.
2015-10-10
LER MAIS

Último Passe

A sexta vitória consecutiva da seleção nacional em jogos competitivos, obtida em Braga frente à Dinamarca (1-0), garantiu a qualificação para a fase final do Europeu e devia valer a esta equipa pouco brilhante mas sempre consistente mais confiança dos portugueses. A seleção raramente entusiasma, é verdade, mas nunca falha – e isso, no fim, é o que conta para um treinador que agora tem oito meses até à fase final do Europeu, onde a tarefa principal terá de ser a de encontrar uma dinâmica que lhe permita resolver os problemas ofensivos que tem enfrentado e o têm levado a sacrificar Ronaldo, abandonando-o aos adversários. A busca da fórmula-Euro é a prioridade, a começar já no domingo, em Belgrado, na partida frente à Sérvia, na qual até por isso convinha ter Ronaldo em campo e não a assistir pela TV, como vai suceder. Portugal voltou a ganhar pela margem mínima – as seis vitórias foram todas por um golo de diferença – mas a verdade é que nunca pairou no estádio a possibilidade de vir a perder o jogo. Fernando Santos podia jogar com a hipótese do empate, que também garantia a qualificação – aliás até a derrota a teria garantido, face à vitória da Sérvia frente à Albânia – e isso fez com que a equipa se sentisse mais em casa face a uma Dinamarca que raramente se desequilibra, mas que em contrapartida sofre horrores para fazer golos. O resultado foi um jogo sempre pouco entusiasmante, na linha, aliás, dos que sempre tem feito esta equipa, mas consistente. E com diferenças estratégicas, sobretudo na primeira parte, durante a qual se viu pela primeira vez uma coordenação muito satisfatória entre o meio-campo e as três peças móveis da frente: Ronaldo começava ao meio, com Nani à esquerda e Bernardo Silva à direita e Moutinho a aproximar-se muito, sobretudo em situações de pressão. A equipa, assim, equilibra-se, ocupa todos os corredores – ao contrário do que sucede se Ronaldo começa num corredor lateral e o deixa para aparecer no meio – e, sobretudo se resistir à tentação de jogar diretamente no CR7, construindo com mais elaboração, até cria condições para que este não fique abandonado aos centrais adversários, condenado a jogar de costas para a baliza e a anular-se em tarefas que não são as que mais o beneficiam, como se viu nas outras vezes em que jogou como 9. Notou-se essa preocupação estratégica frente à Dinamarca, com mais triangulações envolvendo os três homens da frente e os médios, com duas preocupações: a excessiva participação de Ronaldo em fases iniciais da construção e a perda de passes, fruto de alguma insegurança na posse. Ainda assim, o meio-campo mostrou que pode funcionar: Danilo foi forte defensivamente, Tiago definiu bem os momentos de surgir na área e Moutinho, condenado a ser segundo ponta-de-lança em muitos lances e primeiro a pressionar a saída do adversário noutros, acabou por resolver com um golo bem muito trabalhado. Mas pode melhorar, como podem melhorar as inserções ofensivas dos laterais – desta vez melhor Cédric que um Coentrão sempre em dificuldades para segurar Braithwaite. E é por isso que, na deslocação à Sérvia, importa não descomprimir. Portugal tem vários problemas a resolver e não pode agora dar-se ao luxo de libertar jogadores ou de encarar qualquer jogo que aí venha a não ser com uma ideia: a de aperfeiçoar o coletivo. Oito meses chegam para encontrar uma fórmula.
2015-10-08
LER MAIS

Stats

Portugal ganhou os últimos cinco jogos de competição, desde a derrota em Aveiro com a Albânia, na despedida de Paulo Bento. A equipa de Fernando Santos igualou assim a série de cinco vitórias consecutivas em competição obtidas pelo ex-selecionador quando este chegou para substituir Carlos Queiroz ou até pelo próprio Queiroz, quando arrancou para garantir a presença na fase final do Mundial de 2010. Resta-lhe manter a velocidade para uma sexta partida, de forma a pelo menos igualar a melhor série em competição da equipa nacional, fixada por uma equipa de Luiz Felipe Scolari em 2005 e 2006. Depois de perder com a Albânia em Aveiro, Portugal voltou a ser derrotado três vezes, mas todas em jogos particulares. Dois deles tiveram como denominador comum a França, besta negra da equipa nacional: 1-2 em Paris, em Outubro do ano passado, na estreia de Fernando Santos, e 0-1 em Alvalade, no mês passado. O outro foi um particular com Cabo Verde, em Março, onde o 0-2 final castigou uma equipa cheia de segundas escolhas, pois os titulares tinham batido a Sérvia 48 horas antes e estavam regulamentarmente proibidos de dar o seu contributo. Em competição, porém, a derrota com a Albânia foi o último jogo que Portugal não ganhou. Desde então, a equipa nacional soma cinco vitórias consecutivas. Todas pela margem mínima, algumas nos descontos, mas são sempre cinco vitórias: 1-0 fora à Dinamarca (golo de Ronaldo aos 90+5’); 1-0 no Algarve à Arménia; 2-1 à Sérvia na Luz; 3-2 na Arménia e 1-0 na Albânia (golo de Veloso aos 90+2’). A equipa atual igualou assim duas das melhores séries da sua história, estabelecidas em 2010 e 2011 pela comandada por Paulo Bento e em 2009 pela dirigida por Carlos Queiroz. Quando Paulo Bento chegou à seleção, no rescaldo da derrota com a Noruega em Oslo, esta também alinhou cinco vitórias competitivas seguidas: 3-1 à Dinamarca, 3-1 na Islândia, 1-0 à Noruega, 4-0 em Chipre e 5-3 à Islândia, perdendo a sexta partida… com a Dinamarca (1-2 em Copenhaga). Por sua vez, em Setembro de 2009, quando a qualificação para a fase final do Mundial de 2010 estava muito comprometida, após um empate com a mesma Dinamarca em Copenhaga (1-1), a equipa de Carlos Queiroz cerrou fileiras e chegou às mesmas cinco vitórias seguidas: 1-0 na Hungria, 3-0 à mesma Hungria em casa, 4-0 a Malta e duas vezes 1-0 no play-off com a Bósnia. A série foi interrompida já na África do Sul, com o empate sem golos frente à Costa do Marfim, na abertura portuguesa do Mundial. Melhor que estas duas séries só se encontra uma na história da seleção nacional. Foi fixada em seis vitórias seguidas pela equipa que chegou ao terceiro lugar no Mundial de 2006 – e nem as de 1966, 1984 ou 2000, todas elas terceiras classificadas em grandes provas, lá chegara. A seleção dirigida por Luiz Felipe Scolari vinha de um empate com a Rússia, em Moscovo, em Setembro de 2005, e ganhou os seis jogos de competição que se seguiram: 2-1 ao Liechtenstein, 3-0 à Letónia e, já na fase final do Mundial, 1-0 a Angola, 2-0 ao Irão e 2-1 ao México. Encalhou ao sétimo jogo, o empate (0-0) com a Inglaterra que, mesmo assim, fruto do sucesso nos penaltis, até soube a vitória.   - Cristiano Ronaldo marcou golos em três dos últimos quatro jogos que Portugal fez com a Dinamarca, com a curiosidade de o ter feito sempre nos desafios realizados em Outubro: a vitória por 1-0 em Copenhaga no ano passado, a derrota fora por 2-1 em 2011 e a vitória por 3-1 no Dragão em 2010. A exceção foi a vitória portuguesa por 3-2 na fase final do Euro’2012, em que os golos portugueses pertenceram a Pepe, Postiga e Varela. Mas esse jogo foi em Junho.   - Ronaldo segue com uma média muito boa, de 10 golos em 11 jogos esta época (contando os jogos de competição do Real Madrid e as partidas oficiais de seleção). Mas em oito desses jogos ficou em branco, fazendo os dez golos nas outras três: dois ao Malmö, três ao Shakthar e cinco ao Espanyol.   - Só a derrota impedirá Portugal de se qualificar já para a fase final do Europeu. Ora Portugal só perdeu três em 15 jogos com os dinamarqueses, dois deles em Copenhaga: 4-2 num amigável em 2006; 3-2 em Alvalade na qualificação para o Mundial de 2010 e 2-1 em Copenhaga no apuramento para o Europeu de 2012.   - Portugal marcou sempre pelo menos um golo nos jogos com a Dinamarca, tendo vencido dez das quinze partidas realizadas com este adversário. O mais perto que esteve de ficar em branco foi há um ano, quando ganhou em Copenhaga por 1-0 com um golo de Ronaldo ao quinto minuto de compensação.   - Em contrapartida, a Dinamarca não sofre golos desde Novembro do ano passado, quando ganhou por 3-1 à Sérvia em Belgrado. São 356 minutos com a baliza de Kasper Schmeichel a zeros. O problema é que também não marca desde Junho, quando venceu a mesma Sérvia por 2-0 no Parken, de Copenhaga. São 183 minutos sem chegar ao golo, pois a esta vitória sucederam-se empates a zero com a Albânia e a Arménia.
2015-10-07
LER MAIS

Último Passe

A seleção nacional deu um passo gigante rumo à fase final do Europeu, da qual só um cataclismo matemático pode privá-la, ao vencer a Albânia por 1-0 em Elbasan, com um golo no tempo de compensação, tal como ja lhe sucedera em Copenhaga na visita à Dinamarca. Este triunfo frente a uma Albânia que é fácil menosprezar mas que ainda não perdera uma única vez nesta qualificação, foi justo e nasceu sobretudo de uma superior organização face aos jogos anteriores. Mas não quer dizer que está equipa esteja pronta para o objetivo ditado por Fernando Santos (a vitória no Europeu): para isso era preciso criar condições para que Ronaldo surja a grande nível.No final, o que Santos destacou no jogo de Ronaldo foi "o espírito de sacrificio" e o passe que deixou Eliseu frente ao guarda-redes, para um chapéu que não deu golo por milímetros. Mas limitar Ronaldo a um papel de sacrifício em prol da equipa, a um jogo muito passado de costas para a baliza, entre os centrais, parece ser uma má ideia. Até porque muitas vezes a sua ação veio criar situações de finalização a homens que não as aproveitam tão bem como ele. De qualquer modo, uma coisa é certa. É bem melhor tê-lo ali do que a funcionar à base do livre-arbítrio que deu na anarquia tática que se viu contra a França. O golo de Veloso veio premiar sobretudo aquilo que a equipa cresceu em organização e definição táctica. Com dois extremos que ficavam no seu corredor quando tocava a defender - e a jogarem de "pé trocado", de modo a favorecer os movimentos para o corredor central, os médios perceberam o que se lhes pedia e, com exceção dos últimos 20 ou 25 minutos, quando se viu uma Albânia mais entusiasmada e um meio-campo português já fatigado, não permitiram o aparecimento entre linhas dos médios albaneses.Até aí, Portugal tinha sido melhor no jogo e só lhe faltava o golo de Ronaldo para se colocar em vantagem. Depois, quando o medo de perder e o compromisso com o empate (que não era tão mau assim para as duas equipas) valeu muito menos que a vontade de ganhar, o jogo acelerou e as duas equipas podiam ter feito golos. Fez Portugal, num cabeceamento de Veloso a mais um canto de Quaresma, outra vez o desbloqueador da partida. E estes três pontos podem servir a Fernando Santos para ganhar tempo na busca da resposta à questão que pode permitir à equipa dar o grande salto de qualidade. O que fazer com Ronaldo?
2015-09-07
LER MAIS

Artigo

Cristiano Ronaldo já fez 30 anos, está perto de apanhar Figo como jogador mais internacional de sempre por Portugal e, no entanto, a discussão acerca da forma como pode ser mais útil à seleção nacional ou de como esta se deve organizar para tirar o máximo proveito das suas características continua bem viva. Fernando Santos tem tido o mérito de procurar uma solução para os problemas que o Mundial’2014 deixou à vista, mas esta tarda em aparecer. Deixo uma proposta, que resumidamente passa pelo seguinte: uma seleção em 4x4x2, com Ronaldo no papel de segundo avançado, meio-campo em losango mas linhas bem mais avançadas do que vem sendo hábito. Como em Portugal gostamos muito de discutir a parte gregária, a discussão tem muitas vezes caído num estéril “não é a equipa que tem de adaptar-se a Ronaldo, mas deve ser este a adaptar-se à equipa”. Nada de mais errado. Ronaldo tem de fazer sempre aquilo que faz dele um dos dois melhores do Mundo e Portugal tem tudo a ganhar em aproveitar os momentos em que ele o faz e tudo a perder em esgotá-lo em tarefas que lhe diminuem a capacidade de o fazer. Pedir a Ronaldo que se adapte à equipa seria o mesmo que pedir a Picasso que pintasse umas cercas em vez de colocar a sua genialidade na tela. Uma perda de tempo. Parece-me claro que cabe ao selecionador encontrar a melhor forma de explorar Ronaldo e construir uma equipa em torno dele. Ora, na seleção, Ronaldo já foi extremo puro, quando ainda não era a máquina goleadora que é hoje. Depois, com Queiroz, foi ponta-de-lança único do 4x3x3, o que ajudou a secar a sua fonte de golos e transformou a seleção numa equipa de cariz defensivo, a apostar sobretudo no contra-ataque. Com Bento passou a ser ala esquerdo constantemente a cair no corredor central, em diagonais que lhe recuperaram a veia goleadora mas criaram à equipa problemas de equilíbrio defensivo que esta nunca soube resolver – o flanco esquerdo estava sempre sujeito a situações de inferioridade numérica do lateral contra dois adversários. Com Santos, Ronaldo tem tido a liberdade para fazer o que lhe apetece, é uma espécie de elemento em função do qual toda a manobra atacante se organiza. Ou melhor: em função da qual toda a manobra atacante devia organizar-se, por que falta encontrar essa organização que faça da equipa um coletivo. De que precisa Cristiano Ronaldo na seleção? Precisa que lhe deem liberdade para aparecer onde adivinha que pode criar perigo, onde descobre espaço para uma aceleração ou para um remate. E precisa de apanhar a bola o mais perto do último terço do campo possível, para não ter de enfrentar sprints de mais de 50 metros em cada transição ofensiva. Em contrapartida, de que precisa a equipa para evitar problemas nascidos da utilização de Ronaldo? Precisa que essa liberdade não cause desequilíbrios defensivos (como acontecia com Paulo Bento) nem ofensivos (como acontece com Santos, com quem a equipa não preenche sempre os três corredores a atacar). E precisa que o desejo de poupar o CR7 a tarefas defensivas não condicione o comportamento global nem em transição nem em organização defensivas (e isso também tem acontecido, pois Portugal transformou-se numa equipa que não pressiona de todo a saída de bola dos adversários). A resposta, parece-me, tem de ser o 4x4x2 com meio-campo em losango: um sistema que Fernando Santos conhece bem, pois jogou com ele no Sporting e no Benfica. E um sistema que o atual selecionador foi testando até ao jogo com a Itália (em que Ronaldo não esteve), ainda que com nuances que me parecem funcionar como contra-indicações. Este é o momento em que surgem os protestos. Mas como pode Portugal, que tem o melhor extremo do Mundo, jogar num sistema que anula os extremos? Ora não só pode como deve. Porque há muito tempo que Ronaldo não é extremo. Há muito tempo que deixou de funcionar como tal. Até ao jogo com a Itália, o Portugal de Fernando Santos jogava num misto de 4x4x2 losango com 4x3x3. Os dois homens mais avançados eram os alas (Nani e Ronaldo), sendo que o ponta-de-lança (Danny) baixava muito no campo para funcionar como quarto médio. Ora esta organização apresentava vários problemas, o maior dos quais era a falta de pressão na saída de bola do adversário, que obrigava a equipa nacional a baixar muito as linhas, dessa forma diminuindo a ameaça Ronaldo em momentos de transição ofensiva – se a equipa estava tão baixa no campo, a bola chegava a Ronaldo com mais de meio-campo para percorrer. O 4x4x2 que faz falta a esta seleção é um 4x4x2 em que Ronaldo surge como avançado livre, a aparecer por onde acha que deve aparecer. Isto é: Ronaldo deve fazer mais ou menos o que fez contra a França, mas a equipa deve aprender a funcionar com aquele Ronaldo. Daí que esta tenha de dar o que faltou nesse jogo, em que o ataque era tão móvel que muitas vezes surgiam dois jogadores no mesmo corredor e depois o resto do campo ficava entregue a um só, com a inevitável falta de presença na área que não seria a chegada de um médio a resolver, sobretudo se estes partem tão de trás, condicionados pela vontade de jogar tão recuado como jogou a equipa nacional em Alvalade. Assim sendo, pensando numa ideia de jogo e de equipa, o que falta para complementar o futebol de Ronaldo? Falta, primeiro um ponta-de-lança que dê à equipa aquilo que Ronaldo não é capaz de dar ou não deve dar por razões estratégicas. E aquilo que Ronaldo deixa de dar não são golos – esses, ele marca-os aos magotes. O que Ronaldo não dá é uma presença mais fixa no centro do ataque, para fixar os defesas-centrais adversários. O que Ronaldo não dá e que, por isso mesmo, a equipa tanto precisa, é pressão sobre a saída de bola do adversário, de forma a que a equipa não tenha que recuar toda para um bloco médio-baixo que lhe condicione depois todo o jogo. A equipa precisa de um ponta-de-lança que fixe os centrais, de modo a dar espaço às arrancadas do CR7, que funcione como apoio nas tabelas que ele queira fazer, e que pressione defensivamente. Nem precisa de fazer muitos golos, que para isso está lá Ronaldo. Existe esse jogador? Não tenho a certeza, mas encontrá-lo devia ser a prioridade máxima do selecionador neste momento. Se chegamos ao meio-campo, este precisa de ser mais compacto, de estar mais perto dos atacantes. Nos momentos defensivos, tem de bascular para o lado da bola, para combater a falta de largura, e ao mesmo tempo de ser agressivo, para evitar as variações de flanco que o deixem exposto. Ofensivamente tem de chegar mais à frente, com tarefas bem definidas. Tem de ter um pivot defensivo que assuma o jogo e seja capaz de sair a jogar e dois médios interiores que tragam intensidade e, à vez, chegada à área ou jogo de corredor. Com exceção de Quaresma, que teria de funcionar como duplo de Ronaldo, ou de Varela, que seria a solução para mudar o esquema quando isso fosse necessário, todos os jogadores que Portugal tem usado como extremos podem funcionar neste papel. Por fim tem de ter um vértice mais adiantado capaz de compensar Ronaldo, de aparecer como terceiro atacante se for caso disso e de emprestar criatividade no último terço. Este meio-campo não será um problema, pois há em Portugal talento suficiente para o compor duas ou três vezes. Quem tem William, Danilo, Veloso, Moutinho, Adrien, Tiago, André André, João Mário, André Gomes, Nani, Danny ou Bernardo Silva não tem de ter medo deste desafio. Falta acrescentar dois laterais com pulmão para todo o corredor (Vieirinha ou Cédric à direita, Coentrão, com Guerreiro e Eliseu como alternativas à esquerda), de forma a compensar a propensão mais interior dos médios, e dois centrais que têm de ser rápidos (Pepe, Ricardo Carvalho e Paulo Oliveira, mais que José Fonte ou Bruno Alves), para poderem responder à necessidade de jogar subidos no terreno. Porque Portugal não tem de ser uma equipa de contra-ataque ou que tente explorar apenas os momentos de transição ofensiva. Aliás, para tirar partido de Ronaldo, não deve sê-lo. Da mesma forma que o Real Madrid não o tem sido nos últimos anos. 
2015-09-06
LER MAIS

Stats

Este tem sido um início de época atípico para Cristiano Ronaldo, que ainda não fez um único golo nos três jogos oficiais em que já participou. Habituado a números acima dos 50 golos por ano, o CR7 ficou em branco nas duas partidas feitas pelo Real Madrid na Liga e no Portugal-França de Alvalade. Se continuar de costas para o golo, iguala os arranques de 2010/11, 2004/05 e 2002/03, nos quais só marcou ao quinto desafio. Pior só em 2003/04, o ano de estreia em Inglaterra: a adaptação ao Manchester United manteve-o a zeros até à 12a partida.Esta é a 14a época de Cristiano Ronaldo como profissional. Delas, em sete, o CR7 marcou logo no primeiro jogo. A primeira vez que tal lhe aconteceu foi em 2005/06: fez um dos golos da vitória (3-0) do Man. United sobre o Debrecen. Um ano depois, marcou nos 5-1 ao Fulham, completando o bis de arranques goleadores no United. Em Madrid, a proeza tornou-se bem mais frequente. Marcou na estreia em 2009/10 (um golo nos 3-2 ao Deportivo) e, antes da época atual, já tinha quatro seguidas a fazê-lo, três delas na seleção: um golo ao Luxemburgo (5-0) em 2011, outro frente ao Panamá (2-0) em 2012, mais um com a Holanda (1-1) em 2013 e um bis contra o Sevilha (2-0) em 2014.Na última vez que Ronaldo deixou passar a estreia sem golear, a baliza demorou a abrir-se para ele. Foi em 2010, quando a discordância com Carlos Queiroz que se seguiu ao Mundial se transfigurou numa lesão que o afastou dos desafios contra Chipre e a Noruega e o início em Madrid se revelou difícil: só fez um golo ao quinto jogo, um 3-0 em casa ao Espanyol, a 21 de Setembro. Antes tinha ficado a zeros em Maiorca (0-0) e nas vitórias sobre Osasuna (1-0), Ajax (2-0) e Real Sociedad (2-1).Para se encontrar um arranque assim tão tímido é preciso recuar até ao tempo em que Ronaldo ainda não era o fenómeno em que entretanto se transformou. Tanto em 2008 como em 2007, quando ainda estava em Manchester, abriu o frasco do ketchup ao terceiro jogo: em 2008 num 3-1 ao Middlesborough, após jogos com o Villarreal (0-0) e Chelsea (1-1); em 2007 num empate da seleção na Arménia (1-1) após mais dois empates com o Chelsea (1-1) e o Reading (0-0). Piores, só mesmo os três primeiros anos da carreira. Em 2004, no rescaldo de um Europeu que fez dele figura internacional, passou quatro jogos sem marcar golos pelo United, mas festejou ao quinto, um Letónia-Portugal que a seleção ganhou por 2-0. Antes, na estreia com a camisola do Sporting, em 2002, também marcara ao quinto jogo: fez um bis ao Moreirense (3-0), a 7 de Outubro, depois de ficar em branco contra o Inter (0-0), o Partizan (1-3 e 3-3) e o Sp. Braga (2-4). Nada como o ano de 2003. Na chegada a Inglaterra, o CR7 levou 12 jogos até fazer um golo, ao Portsmouth. Dez pelo United e dois pela seleção: as suas duas primeiras internacionalizações, contra o Cazaquistão (1-0) e... a Albânia (5-3). - Portugal venceu as duas deslocações à Albânia. Ganhou por 3-0 em Outubro de 1996, na qualificação para o Mundial de 1998 (em França, onde agora se disputará o Europeu), graças a golos de Figo, Hélder e Rui Costa. E impôs-se por 2-1 em Junho de 2009, graças a um golo de Bruno Alves no último minuto, depois de Bogdani ter anulado um primeiro tento de Hugo Almeida. - A única vitória da Albânia sobre Portugal aconteceu há um ano, a 7 de Setembro, em Aveiro, por 1-0 (golo de Balaj). Dos 14 que Paulo Bento colocou em campo nessa noite, só seis repetem agora a viagem a Elbasan: Rui Patrício, Pepe, Vieirinha, Nani, Éder e Miguel Veloso. - Portugal marcou sempre que se deslocou à Albânia, mas ficou em branco nas duas últimas receções à seleção albanesa: 0-0 na qualificação para o Mundial de 2010 em Braga e 0-1 há um ano. - Portugal perdeu o jogo em casa com a França, por 1-0, e vai agora à Albânia. A última vez que a equipa das quinas perdeu dois jogos consecutivos foi há um ano, quando foi batida em casa pela Albânia (por 1-0) e foi de seguida batida pela… França (2-1 em Paris). - A Albânia só perdeu uma vez nos oito jogos que disputou no último ano: 0-1 em Génova com a Itália, em Novembro de 2014. Em casa não perde desde Maio de 2014, quando ali foi batida pela Roménia (0-1, golo de Rat) em Maio de 2014, num jogo particular. Desde então, empatou (1-1) com a Dinamarca e ganhou à Arménia (2-1) e à França (1-0). A última derrota em jogos de qualificação já data de Outubro de 2013 e foi frente à Suíça (1-2). - Em contrapartida, Portugal ganhou as últimas cinco saídas que contavam para qualificações: 3-2 na Arménia, 1-0 na Dinamarca, 3-2 na Suécia, 4-2 na Irlanda do Norte e 2-0 no Azerbaijão. O último empate data de Março de 2013 (3-3 em Israel) e a última derrota de Outubro de 2012 (0-1 na Rússia).
2015-09-05
LER MAIS

Último Passe

A derrota (0-1) no teste com a França não deixou as melhores indicações à seleção nacional. No final, porém, o selecionador fez uma boa leitura dos acontecimentos, ao reconhecer que faltou mais presença na área. Fernando Santos afirmou que ela seria obtida se os médios subissem mais, o que é evidente, mas também que crê na articulação de um 4x3x3 em que as três peças da frente se movem de acordo com o que decide uma delas. Ora, como diz aquela menina no anúncio dos iogurtes, "nisso, eu já não acredito". Portugal voltou ao 4x3x3, abdicando das experiências que vinham sendo feitas em torno de um 4x4x2 de difícil interpretação que se destinava a compensar a falta de um ponta-de-lança de grande qualidade e a encontrar forma de enquadrar Ronaldo ao meio sem o abandonar ao adversário como ponta-de-lança único. Em 4x3x3, no entanto, voltaram os problemas que se viam antes. Defensivamente, a saída constante de Ronaldo do corredor que lhe é destinado deixa o lateral desse lado em permanente inferioridade sempre que o adversário roda a bola e sai por ali: com a França, Adrien foi sempre a ajuda de Eliseu, o que pode explicar que não tenha aparecido com tanta frequência na frente, em apoio ao ponta-de-lança. Ofensivamente, num sistema em que Ronaldo escolhe a cada momento o seu corredor e Nani e Éder têm de perceber e ocupar os outros dois, a questão que se coloca é a da criação de rotinas que permita a coordenação efetiva dos três homens da frente. Neste jogo repetiram-se às situações em que apareceram dois deles no mesmo corredor, abandonando o terceiro a uma imensidão de espaço, sem esperança de sucesso.Esta é uma questão para a qual não há resposta evidente. Fernando Santos tem o mérito de andar à procura da solução. Ainda que, enquanto não a encontrar, Portugal esteja condenado a ser uma equipa de fraco potencial atacante, que nos jogos contra adversários a sério dependerá demasiado do contra-ataque, das bolas paradas ou da momentânea inspiração de um ou outro jogador para fazer golos. E isso não é aceitável numa equipa que tem tanta gente de qualidade do meio-campo para a frente.
2015-09-04
LER MAIS

Stats

Fernando Santos tem a sua ainda curta passagem pela seleção nacional marcada pelo ponto final que colocou numa série de tradições negativas. Foi com ele aos comandos que Portugal venceu a Argentina pela primeira vez em quatro décadas (1-0 em Manchester, em Novembro). Foi ainda com ele que Portugal bateu pela primeira vez a Itália em 39 anos (também 1-0 em Genebra, em Junho). Resta uma “besta negra”: a França, a quem Portugal não ganha desde 1975. A última vitória de Portugal sobre a França data de 26 de Abril de 1975 e foi obtida em Paris, a 26 de Abril de 1975, no estádio de Colombes. Nené e Marinho marcaram, em dois ataques rápidos (youtube.com/watch?v=FzujnaI9j1U) os golos de um 2-0 que deixava boas perspetivas para a viagem a Praga, onde, contudo, a seleção encaixou um robusto 5-0 da Checoslováquia e começou a ver como impossível a qualificação para o Europeu de 1976. Desde essa tarde – um dia depois das primeiras eleições livres em Portugal –, a seleção nacional defrontou a França por mais nove vezes, perdendo sete e empatando as outras duas (que no entanto veio a perder no prolongamento, nas meias-finais dos Europeus de 1984 e 2000). Duas das derrotas foram mesmo pesadas e de alguma forma premonitórias. Em 1983, a França de Michel Hidalgo veio ganhar por 3-0 a Guimarães, mostrando que o tempo de Otto Glória à frente da equipa lusa estava a esgotar-se: depois disso, com a Comissão Técnica no lugar do treinador brasileiro, Portugal ainda se qualificou para o Europeu, para o qual, contudo, não foram convocados metade dos que jogaram nessa tarde. Em 2001, Portugal foi pesadamente batido por 4-0 no Stade de France, no que podia ter sido o primeiro sinal de alarme para o que veio a ser o fracasso da equipa de António Oliveira no Mundial de 2002. Nenhuma outra seleção no Mundo tem sido tão aziaga para a equipa portuguesa, que uma vez ultrapassado o papão francês poderá então virar-se para o segundo monstro do momento: a Grécia, a quem Portugal não ganhou nenhum dos últimos seis jogos: três vitórias e três empates desde um 1-0 no Restelo que serviu de aquecimento para o Europeu de 1996. Mas de gregos, na verdade, não há quem perceba mais em Portugal do que Fernando Santos.   - Ricardo Quaresma é o único jogador da seleção portuguesa que já marcou à França. Fez de penalti o golo que valeu aos portugueses reduzir para 2-1 na derrota em Paris, em Outubro.   - A França vem de duas derrotas consecutivas, contra a Albânia (0-1, em Elbasan) e a Bélgica (3-4 em Saint-Denis). Os franceses não perdem três vezes seguidas desde 2013, quando foram consecutivamente batidos por Espanha (0-1, na qualificação para o Mundial), Uruguai (0-1) e Brasil (0-3), estes dois em jogos amigáveis.   - Anthony Martial, uma das figuras do último mercado, ao transferir-se do Mónaco para o Manchester United por valores acima dos 50 milhões de euros, pode estrear-se na seleção francesa no jogo com Portugal. O único francês nessas condições além do jovem atacante de 19 anos é o guarda-redes Costil, do Rennes. A seleção portuguesa não tem candidatos a estreantes.   - Novidade da seleção portuguesa é o regresso de Veloso, que não joga pela equipa nacional desde 7 de Setembro do ano passado, quando entrou nos últimos 17 minutos para o lugar de Ricardo Costa, na derrota com a Albânia (0-1), em Aveiro, que levou ao afastamento de Paulo Bento.
2015-09-02
LER MAIS