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Artigo

A demissão de Claudio Ranieri no Leicester tem sido apresentada por toda a gente como o triunfo da ingratidão. Então o homem que pegou num lote de jogadores sem qualquer aspiração nem reconhecimento de categoria e fez deles campeões ingleses, que depois à conta disso foi eleito treinador do ano da FIFA, de repente deixou de servir? A resposta é muito simples. Sim. Deixou de servir porque aquilo que se lhe pedia passou a ser diferente. Para perceber as razões pelas quais o Leicester fez bem em demitir Ranieri era preciso ter percebido as razões pelas quais Ranieri fez do Leicester campeão inglês. E essas tiveram mais a ver com o trabalho de mentalização do que com futebol puro e duro. Na história da época passada ficou a fábula da pizza. Conta-se que, ainda no início da aventura, irritado por a sua equipa não ser capaz de manter a baliza a zeros uma única vez, Ranieri terá prometido aos jogadores que os levava a jantar fora no dia em que o conseguissem. No menu estaria a típica pizza italiana. E à primeira oportunidade após a promessa, bingo: 1-0 ao Crystal Palace. Metido em trabalhos, Claudio Ranieri teve a arte para transformar o problema numa oportunidade. Levou os jogadores a um restaurante italiano, mas quando estes lá entraram tinham uma surpresa à espera: eram eles quem ia cozinhar as pizzas. A fábula da pizza foi de mestre em termos de construção de espírito de equipa, uma das chaves na chegada do Leicester ao título de campeão. A partir daquele momento, os jogadores perceberam que tinham de trabalhar por tudo aquilo que queriam, mas que se trabalhassem acabariam por alcançar o objetivo. Durante meses, todos os que íamos achando piada ao esforço do Leicester e até a torcer pelo sucesso dos “underdogs” glorificávamos a fábula da pizza e a capacidade de Claudio Ranieri para, pela crença, pelo espírito coletivo, transformar jogadores banais em campeões. Só agora, que o Leicester anda pelos fundilhos da classificação, em risco de descer de divisão, é que nos vamos lembrando de uma coisa muito simples. É que nos argumentos utilizados na construção de um campeão pelo veterano treinador italiano não aparecia o treino. Não havia futebol. E é disso que a equipa do Leicester mais precisa agora. Porque neste momento já não é formada por um conjunto de operários em busca do primeiro sucesso – já são campeões, já não vão lá com receitas básicas de auto-ajuda. E esse upgrade, Claudio Ranieri nunca foi capaz de o dar à equipa. No fundo, salvaguardadas as devidas diferenças – porque o Boavista era muito maior à escala portuguesa do que o Leicester alguma vez será em Inglaterra – repetiu um pouco aquilo que aconteceu com Jaime Pacheco no Boavista. E, apagada a chama do campeonato ganho em 2001, muito à conta da garra, do compromisso e do empenho, Jaime Pacheco também acabou por ver extinto o seu período de ouro à frente da equipa axadrezada quando os milhões da Liga dos Campeões permitiu trazer mais jogadores e aspirar a maiores feitos. Dir-me-ão que Jaime Pacheco saiu do Bessa de livre vontade e que por isso mesmo nunca teve a onda de apoio de que Ranieri goza agora, que o seu “sonho” morreu. De Mourinho a Klopp, com passagem até pelo australiano Eddie Jones, que é o selecionador inglês de râguebi, toda a gente por Inglaterra se mostra incrédula com a decisão do clube e solidária com o treinador italiano. Mas é preciso também entender estas tomadas de posição à luz de uma realidade muito diferente. A Premier League é muito mais popular do que a Liga portuguesa e os últimos dez anos também mudaram muito no panorama mediático mundial. E aquilo que toda a gente via agora era não apenas um Leicester que deixou de jogar acima das suas possibilidades – como lhe sucedeu na época passada, jogo após jogo – mas também adversários já precavidos e capazes de se ajustar ao que o Leicester tinha para propor. Que, no plano futebolístico, continuava a ser demasiado pouco para os pergaminhos de um campeão inglês. Sem Ranieri, o Leicester pode melhorar ou não. Uma coisa é certa. O novo treinador volta a ter nas mãos uma equipa que duvida de si mesma, como a que Ranieri encontrou há um ano e meio. Pode repetir a receita do italiano, mas talvez não seja pior apostar no futebol.    
2017-02-26
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Último Passe

A consagração de Cristiano Ronaldo na Gala da FIFA, destinada a premiar o melhor jogador do Mundo em 2016, fez mais que confirmar uma supremacia do português sobre Messi no último ano, que a conquista da Bola de Ouro do France-Football, em Dezembro, já tinha antevisto. Em 2016, Cristiano não se limitou a reduzir o score, que ainda é favorável a Messi, por 5-4. Cristiano conquistou o terceiro troféu de melhor do Mundo nos últimos quatro anos, deixando bem evidente que, apesar de ser mais velho que o argentino, é ele quem está a envelhecer melhor. Apesar de jogar um futebol mais físico. Tendo em conta que os últimos nove anos só viram estes dois vencedores e que Ronaldo até chegou lá primeiro, sendo depois arrasado por quatro troféus consecutivos de Messi, esta retoma é mais do que parece. Argumentarão de um lado que as conquistas de CR7 se devem a momentos físicos menos conseguidos do argentino, mas isso não é forma de menorizar aquilo que Cristiano tem conseguido. Pelo contrário. Também ele tem tido lesões, mas a forma como trabalha permite-lhe superá-las, o seu espírito de sacrifício chega para que jogue e renda mesmo diminuído. E, ainda que a ausência de todo o grupo do Barcelona na gala de hoje não seja vista com o mesmo olhar crítico de que se revestiram as reações às faltas de Ronaldo e Mourinho na cerimónia de há cinco anos (quando as razões são as mesmas), o célebre “mau feitio” do português não o impede de fazer balneário e assegurar que as suas equipas ganham sem ele em campo – veja-se, a título de exemplo, o que se passou na final do Europeu. Sacrificado na gala foi Fernando Santos, cuja vitória com Portugal no Europeu teve muito de treinador, não só na estratégia que foi desenhando para cada jogo como ainda (e sobretudo) na forma como foi capaz de unir os 23 jogadores convocados em torno de um ideal, em tempo de extremismo faccioso no país. Fernando Santos acabou por ser apenas terceiro na votação para os treinadores, mas até isso pode ser compreendido. É que Zidane ganhou a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes depois de ter pegado nos cacos que Rafa Benítez deixara no Real Madrid. E Ranieri protagonizou apenas a maior surpresa do século no futebol mundial. Dir-me-ão que Ranieri não tem uma ideia, que não é treinador para estes palcos, que é muito mais o homem despedido da Grécia do que o campeão com o Leicester e eu até concordo. Mas aquilo que o homem fez com o Leicester merece ser assinalado.
2017-01-09
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Artigo

Portugal está em êxtase com o título do Leicester. “É a prova de que tudo é possível no futebol”, dizem uns. “É o regresso do romantismo”, dizem outros. Depois, uns recordam o Boavista, outros falam na fábula da pizza e do trabalho. Sim, também eu fiquei com os olhos marejados quando li a história da fábula da pizza. Mas se quisermos falar disto a sério, sem clichés nem frases feitas, daquelas que se destinam apenas às partilhas nas redes sociais, temos de colocar a cabeça a funcionar. E de perguntar a nós mesmos: quereríamos nós um Leicester em Portugal? Deixem-me responder por vós. Não! Porque se quiséssemos já estaríamos a fazer alguma coisa para que algo de semelhante pudesse acontecer por cá. E a verdade é que nos dirigimos cada vez mais no sentido contrário. Primeira fase da reflexão – desconstrução de mitos. Há, de facto, algo de Boavista de Jaime Pacheco na proeza do Leicester de Claudio Ranieri. Há um plantel humilde, pelo menos se comparado com os que com ele se batem na mesma Liga. Há espírito de grupo, resultante dos laços que se vão criando a cada semana que o “underdog” segue na frente. “Somos nós contra o Mundo”. É aqui que entra a fábula da pizza. Se tivesse tido comunicação, o Boavista de Jaime Pacheco também teria tido uma fábula da pizza para contar. Esta, de Ranieri, explica-se de forma simples. O treinador estava a ganhar jogos, mas preocupado com o facto de a equipa sofrer sempre golos. Um dia, temendo que essa permeabilidade se tornasse um problema, ofereceu-se para pagar o jantar a toda a equipa se esta mantivesse as redes a zero. E quando isso foi conseguido, cumpriu. Ranieri levou os jogadores a um restaurante italiano e, ante a ausência previamente combinada do pessoal da cozinha, ordenou-lhes que fizessem as suas próprias pizzas. “Vou pagar-vos o jantar, mas aqui, tal como no campo, vocês vão ter de trabalhar para o conseguirem”, disse-lhes. Ranieri, como Jaime Pacheco, pode não ser um génio da metodologia de treino ou um paradigma de modernidade na tática, mas tem vivência, tem mundo, sabe como motivar um grupo. As comparações entre o Boavista e o Leicester, porém, acabam aqui, no balneário. Porque o Boavista do início do século já andava a ameaçar as posições cimeiras há algum tempo e este Leicester só era candidato a descer de divisão. Porque aquele Boavista era uma das equipas com mais poder nos bastidores do futebol português e este Leicester não é tido nem achado nesses pormenores. Porque aquele Boavista caiu vitimado por alguma soberba – aumento exponencial de orçamento – e pelas mesmas armas de bastidores que lhe permitiu chegar lá acima e este Leicester vai cair porque, pura e simplesmente, a fábula da pizza só resulta com jogadores esfomeados de sucesso. Ou acham que Mahrez, Kanté ou Vardy, daqui por um ano, quererão sujar as mãos com a massa? Claro que não. Vão passar a ter quem faça a pizza por eles, mesmo sem perceberem que foi isso que lhes permitiu ganhar. Mas é da natureza humana e não há nada neles que lhes permita ver isso por antecipação. Por que ganhou então o Leicester? Por várias razões. E o espírito de grupo criado por situações como a fábula da pizza é uma delas. Outra é o facto de, apesar de tudo, o Leicester não ser uma equipa de coitadinhos. Porque na Premier League não há equipas de coitadinhos. É certo que aquilo que o Leicester gastou não chegará para pagar as comissões gastas por Chelsea, Manchester City ou Manchester United nas suas aquisições, mas ainda assim os novos campeões ingleses investiram esta temporada 4,2 milhões de euros em Huth, 9 milhões em N’Golo Kanté, 7 milhões em Inler e 11 milhões em Okazaki, aos quais acrescentaram, em Janeiro, mais 6,6 milhões em Amartey e 5,1 milhões em Gray. Foram, ainda assim, mais de 40 milhões de euros em aquisições, o que permite que se diga que a equipa não é de bidons e que quem está errado é que gasta isso e muito mais em jogadores que ainda não são o Messi ou o Cristiano Ronaldo só para satisfazer a clientela. E é aqui que a realidade inglesa se separa da portuguesa. Porque, estando inserido num mercado que funciona, o Leicester teve, por um lado, a vontade, e por outro a possibilidade, de tomar as suas próprias decisões. Agora vamos à parte chata. Perguntemos a todos aqueles que têm vibrado nas redes sociais com o título do Leicester e que são adeptos do Benfica, do Sporting e do FC Porto, se gostavam de ver uma coisa assim na Liga portuguesa. Quase todos vão dizer que sim, sobretudo porque vão estar a pensar que o nosso Leicester seria campeão em vez de um rival e não do clube deles. Mas quase todos vão recuar quando se lhes disser que enquanto o futebol português estiver organizado como está isso não será possível e que só poderemos ter um Leicester como tivemos um Boavista, se esse clube estiver encostado aos bastidores do poder. Porque para termos um Leicester teremos de ter, primeiro, um mercado interno que funcione para lá dos humores dos grandes, que jogam o jogo das influências emprestando jogadores à esquerda ou à direita. Para termos um Leicester teremos de ter uma distribuição mais equitativa das receitas de televisão, teremos de ter limitação do número de jogadores que cada clube pode ter sob contrato, teremos de ter clubes com vontade e acima de tudo com a possibilidade de tomarem as suas próprias decisões em vez de terem de se colocar debaixo da asa do "seu" grande. E é aqui que os nossos adeptos, que são extensões dos nossos clubes, vacilam. Mais: é aqui que recuam, que concluem que afinal de contas é melhor não termos um Leicester. Eu, que há uns dez anos já escrevo isto – a ponto de achar que me repito – quero ter um Leicester em Portugal. Até acho normal que os clubes grandes não queiram. O que acho estranho é que a Liga não queira.
2016-05-03
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Último Passe

Mais um bis de Jamie Vardy, a coroar mais um jogo super-intenso, desta vez contra o Liverpool, deixou o Leicester um jogo mais perto de se transformar no Boavista de Jaime Pacheco da Premier League e Gary Lineker a menos um passo de enfrentar a humilhação de apresentar o primeiro Match of the Day da nova época de cuecas. Os próximos dois fins-de-semana, com as deslocações aos terrenos do Manchester City e do Arsenal, serão fundamentais para se perceber até que ponto a equipa de Claudio Ranieri pode passar do sonho à realidade, mas o que o Leicester já fez chega bem para lançar uma reflexão em torno de como é possível estar a bater o pé a alguns dos maiores colossos financeiros do futebol mundial. Há seis meses, aquando da nomeação de Ranieri, que na última década ganhou apenas um título da segunda divisão francesa, foi preciso acalmar os adeptos do Leicester, que já viam a equipa a descer de escalão. Agora, que o Leicester segue em primeiro lugar, já em Fevereiro, com mais três pontos que o Manchester City e mais dez que o United, quinto classificado, o treinador italiano já tem de responder a perguntas anteriormente tão imprevisíveis como “será um grande desapontamento se acabar abaixo do quarto lugar e fora da Liga dos Campeões?” E a verdade é que, sim, se isso vier a acontecer, será mesmo um grande desapontamento para os adeptos do Leicester e para todos os que escolhem acreditar que o dinheiro não compra o sucesso no futebol. A verdade, porém, é que não é bem assim. A verdade é que, por muito que os 18 golos de Vardy possam fazer pensar num conto de fadas, na história de superação do avançado que há apenas três anos era amador e depois bateu o recorde de jornadas consecutivas a marcar de Van Nistelrooy, o que se passou teve muito a ver com o aumento da receita proporcionada pela televisão e pela sua distribuição por todos os clubes da Premier League. O que a carreira do Leicester mostra é que há um ponto a partir do qual as diferenças entre um clube muito rico e um clube muitíssimo rico já não são assim tão relevantes. E que não é por o Manchester City contratar Guardiola ou o Chelsea ter tido Mourinho que se tornam candidatos únicos a ganhar o campeonato mais rico do Mundo.
2016-02-02
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