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Último Passe

O previsível regresso de Jonas ao onze do Benfica, no jogo frente ao Moreirense, mais logo (20h30, BTV), pode ajudar a mudar o paradigma da equipa de Rui Vitória. Os dois jogos consecutivos sem marcar, saldados por duas derrotas com o Ajax e o Belenenses, fizeram disparar os alertas acerca da real capacidade deste Benfica. Rapidamente o treinador veio desdramatizar, chamando a atenção dos críticos para a quantidade de ocasiões de golo desperdiçadas, mas a verdade é que isso é tão válido agora como era há dois anos, quando a equipa de Rui Vitória era diminuída e acusada de ter sorte por marcar muitos golos com pouco volume de jogo – e foi campeã. As equipas são aquilo que são e, ao contrário daquela, de 2016/17, esta não tem tido definidores da qualidade de Jonas e Mitroglou, fazendo, em contrapartida, com que a balança penda mais para o lado dos criadores, como Salvio ou Rafa. A minha opinião mantém-se. Há dois anos, num texto a propósito desse Benfica – que pode consultar aqui: http://antoniotadeia.com/lastpass/359/ – escrevi que nesse bom aproveitamento da equipa havia muito mais do que sorte. Havia uma aposta consciente em determinadas caraterísticas. Da mesma forma, neste momento recuso o argumento de que se trata de azar. Uma equipa é uma soma finita e limitada de recursos e cabe ao treinador escolher aqueles que melhor se coadunam com a ideia de jogo que quer ver aplicada. E é verdade que, muitas vezes, complicamos em demasia as análises. A esse respeito, o romeno Laszlo Bölöni deu-me uma vez uma grande lição de simplicidade. Na pré-época de 2001/02, já de gravador desligado, no final de um treino ou de uma conferência de imprensa, estávamos a debater a capacidade goleadora daquela equipa do Sporting, cujo treinador ansiava – em segredo, é certo… – pela contratação de Jardel. Para provar que precisava de mais um avançado, Bölöni pediu-me emprestada a Revista Record – eu trabalhava no Record, nessa altura – e começou a ler o total de golos que cada um dos seus avançados tinha marcado nas últimas temporadas. Não fiquei imediatamente convencido, mas a verdade é que ele tinha razão, como a época veio a provar. Façamos essa análise a respeito dos atacantes que Rui Vitória mais tem utilizado neste Benfica. Entre todas as competições, Seferovic marcou sete golos na época passada, quatro em 2016/17 e outros quatro em 2015/16. Rafa fez três golos na época passada, dois há duas épocas e 12 em 2015/16 (número fora do contexto e que lhe valeu a entrada no Benfica). Salvio fez nove golos na época passada, outros nove há duas épocas e, é verdade que jogando pouco, devido a lesão, zero em 2015/16. Quem pode mudar este paradigma? Jonas, que vem numa sequência de 37 – 18 – 36, mas está um ano mais velho e tem apresentado problemas físicos? Ferreyra, que segue com 30 – 16 – 7, mas estará ainda a tentar entrar ou pelo menos compreender um modelo de jogo mais veloz e menos assente no ataque posicional puro que era apanágio do Shakthar? Ou Castillo, que apresenta uns ainda assim bastante apresentáveis 18 – 26 – 11, mas em campeonatos de nível mais reduzido? Para já, parece que vai ter a palavra Jonas. A médio e longo prazo, creio que nenhum dos três permitirá ao Benfica regressar ao nível de eficácia que tinha com a soma do Jonas de há dois anos a Mitroglou, um avançado que nunca foi devidamente valorizado por quem decide o mercado na Luz. Em contrapartida, este Benfica é mais forte a criar jogo do que o de há dois anos – e tendo pelo menos Jonas mais perto do seu nível ou Ferreyra mais educado acerca da forma de jogar do coletivo isso repercutir-se-á sempre em mais golos e mais vitórias. Se chegará ou não para ser campeão ou para seguir em frente na Champions, isso já é outra conversa.
2018-11-02
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