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Último Passe

Um jogo muito diferente dos três anteriores e até daquilo a que a seleção nacional está habituada permitiu a Portugal atingir os quartos-de-final do Europeu, mercê de uma vitória sobre a Croácia, por 1-0, com um golo de Quaresma a três minutos do final do prolongamento. O golo nasceu de um contra-ataque perfeito e coroou de sucesso a tática do esticão em que Fernando Santos apostou quando percebeu que era impossível tirar o domínio ao adversário e chegar lá através de um futebol mais consistente. Também por isso se falou tão pouco de Ronaldo: o primeiro remate do capitão aconteceu precisamente no lance do golo e exigiu uma defesa enorme a Subasic, tendo Quaresma sido o mais rápido a acorrer ao ressalto para marcar de cabeça na baliza deserta. As maiores virtudes lusitanas, no entanto, tiveram pouco a ver com brilho. Foram a exibição imperial de Pepe no comando da defesa, a disponibilidade física de Adrien para contrariar o jogo de posse do meio-campo croata, o jogo quase sem erros de Cédric e Guerreiro e, depois, quando foi preciso mudar o chip ao jogo, as arrancadas de Renato Sanches, a fustigar um adversário que apesar dos dois dias a mais de recuperação de que dispôs também não estava assim tão fresco. Entre os citados estão várias das alterações feitas por Fernando Santos no onze inicial, revelando uma avaliação perfeita do grupo e do que lhe era exigido. Um jogo não se faz com onze jogadores, mas sim com 14. Um jogo não tem de se ganhar nos primeiros minutos: pode ganhar-se nos últimos. Não costuma ser boa política esperar até lá para o ganhar, mas esta seleção tem-no feito com tanta frequência que dá que pensar. Fernando Santos optou por fazer quatro alterações ao onze que tinha defrontado a Hungria. Por três ordens de razões. Raphael Guerreiro regressou à equipa em vez de Eliseu porque é já o titular da posição e já não estava fisicamente impedido de alinhar. José Fonte ocupou a vaga de Ricardo Carvalho no centro da defesa porque os 38 anos do titular não lhe permitem já uma recuperação física tão rápida como a dos companheiros e a fadiga já se lhe notara no jogo com os húngaros, mas também porque era preciso combater o jogo físico do possante Mandzukic. Cédric e Adrien entraram em vez de Vieirinha e João Moutinho por questões ao mesmo tempo estratégicas e de análise do grupo: o lateral direito conteve bem Perisic e o médio não só inibiu Modric de exercer maior influência no jogo como conseguiu ir à frente municiar o ataque: é dele, por exemplo, a recuperação seguida de passe para Nani no lance em que o atacante sofreu uma grande penalidade não assinalada pelo árbitro. Portugal entrou na mesma em 4x4x2, com André Gomes em vez do reclamado Renato Sanches e se a opção parece revelar que Santos não quer Renato numa ala do seu 4x4x2 – e é evidente que não pode jogar com ele ao meio, só com dois médios – a forma como decorreu o jogo deu-lhe razão. Porque entrando aos 50’, Renato ainda teve tempo de se tornar uma força motriz nas chegadas de Portugal à frente. Nessa altura, com a saída de André Gomes, Portugal passou a um 4x3x3 que serve mais as caraterísticas de Renato mas sacrifica João Mário, que teve de se encostar na esquerda do ataque. E não é a mesma coisa ser ala no meio-campo de quatro ou extremo no ataque a três: João Mário, que joga melhor ao meio, pode desempenhar a primeira função mas terá sempre muitas dificuldades em dar à equipa o jogo pleno de velocidade que a segunda exige, razão pela qual foi depois naturalmente sacrificado para dar entrada a Quaresma, quando o treinador percebeu que não ia lá através do jogo consistente e mais valia apostar na tática do esticão. O 4x4x2 português tentava encaixar no 4x2x3x1 croata. Não havia marcações individuais, mas notava-se que William Carvalho se preocupava muito com as movimentações de Rakitic, o croata que jogava mais perto do ponta-de-lança, e que Adrien subia em pressão para ir buscar Modric, o principal cérebro do jogo axadrezado. O jogo era muito feito de encaixes, mas enquanto Portugal baixava para se organizar defensivamente, a equipa de Ante Cacic pressionava a saída de bola portuguesa, levando os centrais lusos a jogar mutas vezes longo e a perder a bola. Isso levou ao domínio territorial e de posse dos croatas, mas nem por isso a um jogo com ocasiões de golo. Em toda a primeira parte não houve um único remate bem enquadrado com as duas balizas e três dos quatro que saíram ao lado (três da Croácia e um de Portugal) nasceram em lances de bola parada. No segundo tempo, com a entrada de Renato Sanches e a passagem dos portugueses para um 4x3x3 que encaixava ainda melhor no 4x2x3x1 croata, só o desgaste natural das duas equipas permitiu que o jogo partisse um pouco e que começassem a entrar contra-ataques e ataques rápidos. Brozovic esteve perto do golo aos 52’, mas chutou cobre a barra da baliza de Patrício e, aos 57’, foi a vez de Renato chutar ao lado de boa posição, após uma boa tabela com João Mário. Até ao final dos 90’, só um cabeceamento de Vida, após livre de Srna, aos 62’, deixou a defesa de Portugal em cuidados. Fernando Santos atacou o prolongamento com Quaresma em vez de João Mário e percebia-se que o jogo estava para os raides do extremo do Besiktas. Ainda assim, o maior volume de jogo croata deixava Portugal em cuidado permanente. Kalinic chutou ao lado de boa posição aos 97’ e Vida voltou a ameaçar num canto, cabeceando por cima da barra aos 112’. Nessa altura já Portugal trocara Adrien por Danilo, numa tentativa de tapar a entrada da área e ganhar altura nas bolas paradas que a Croácia ia tendo com frequência e nas quais criava sempre perigo. Perdia-se a capacidade de Adrien nos penaltis, mas acabou por não ser necessário lá chegar porque a equipa fez valer os argumentos que tinha em campo. Após um cabeceamento de Perisic detido a meias por Rui Patrício e pelo poste, Quaresma desarmou Strinic perto do bico da área portuguesa, a bola sobrou para Ronaldo que a entregou de imediato a Renato Sanches, tirando a bola da zona de pressão croata. Este, com condições para correr, conduziu um contra-ataque de quatro para quatro por uns 50 metros antes de entregar a Nani na esquerda. Nani cruzou de trivela para o segundo poste onde, em boa posição, Ronaldo obrigou Subasic à primeira defesa do jogo. Quaresma, que tinha acompanhado a jogada, só teve de encostar de cabeça para enviar Portugal para os quartos-de-final.
2016-06-26
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Último Passe

A sexta vitória consecutiva da seleção nacional em jogos competitivos, obtida em Braga frente à Dinamarca (1-0), garantiu a qualificação para a fase final do Europeu e devia valer a esta equipa pouco brilhante mas sempre consistente mais confiança dos portugueses. A seleção raramente entusiasma, é verdade, mas nunca falha – e isso, no fim, é o que conta para um treinador que agora tem oito meses até à fase final do Europeu, onde a tarefa principal terá de ser a de encontrar uma dinâmica que lhe permita resolver os problemas ofensivos que tem enfrentado e o têm levado a sacrificar Ronaldo, abandonando-o aos adversários. A busca da fórmula-Euro é a prioridade, a começar já no domingo, em Belgrado, na partida frente à Sérvia, na qual até por isso convinha ter Ronaldo em campo e não a assistir pela TV, como vai suceder. Portugal voltou a ganhar pela margem mínima – as seis vitórias foram todas por um golo de diferença – mas a verdade é que nunca pairou no estádio a possibilidade de vir a perder o jogo. Fernando Santos podia jogar com a hipótese do empate, que também garantia a qualificação – aliás até a derrota a teria garantido, face à vitória da Sérvia frente à Albânia – e isso fez com que a equipa se sentisse mais em casa face a uma Dinamarca que raramente se desequilibra, mas que em contrapartida sofre horrores para fazer golos. O resultado foi um jogo sempre pouco entusiasmante, na linha, aliás, dos que sempre tem feito esta equipa, mas consistente. E com diferenças estratégicas, sobretudo na primeira parte, durante a qual se viu pela primeira vez uma coordenação muito satisfatória entre o meio-campo e as três peças móveis da frente: Ronaldo começava ao meio, com Nani à esquerda e Bernardo Silva à direita e Moutinho a aproximar-se muito, sobretudo em situações de pressão. A equipa, assim, equilibra-se, ocupa todos os corredores – ao contrário do que sucede se Ronaldo começa num corredor lateral e o deixa para aparecer no meio – e, sobretudo se resistir à tentação de jogar diretamente no CR7, construindo com mais elaboração, até cria condições para que este não fique abandonado aos centrais adversários, condenado a jogar de costas para a baliza e a anular-se em tarefas que não são as que mais o beneficiam, como se viu nas outras vezes em que jogou como 9. Notou-se essa preocupação estratégica frente à Dinamarca, com mais triangulações envolvendo os três homens da frente e os médios, com duas preocupações: a excessiva participação de Ronaldo em fases iniciais da construção e a perda de passes, fruto de alguma insegurança na posse. Ainda assim, o meio-campo mostrou que pode funcionar: Danilo foi forte defensivamente, Tiago definiu bem os momentos de surgir na área e Moutinho, condenado a ser segundo ponta-de-lança em muitos lances e primeiro a pressionar a saída do adversário noutros, acabou por resolver com um golo bem muito trabalhado. Mas pode melhorar, como podem melhorar as inserções ofensivas dos laterais – desta vez melhor Cédric que um Coentrão sempre em dificuldades para segurar Braithwaite. E é por isso que, na deslocação à Sérvia, importa não descomprimir. Portugal tem vários problemas a resolver e não pode agora dar-se ao luxo de libertar jogadores ou de encarar qualquer jogo que aí venha a não ser com uma ideia: a de aperfeiçoar o coletivo. Oito meses chegam para encontrar uma fórmula.
2015-10-08
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