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Último Passe

Tive pena que a carreira de Gianluigi Buffon na Liga dos Campeões acabasse como acabou: com a primeira expulsão em 117 jogos na prova. E, tendo eu no direto ficado com a sensação de que Benatia tinha derrubado Lucas Vásquez e com a impressão contrária no momento em que vi as primeiras repetições, estou agora convencido que de Michael Oliver fez bem em assinalar o penalti que impediu o prolongamento e pôs termo ao sonho improvável da Juventus. De qualquer modo, não é disso que quero falar-vos. Interessa-me mais a argumentação de Buffon no final da partida, quando reconheceu que a ação é duvidosa mas sustentou a tese segundo a qual o árbitro não devia tê-la assinalado por questões do foro emocional: “Para fazeres uma coisa destas, em vez de um coração tens de ter num bidão de imundices”. Diz Buffon que o penalti até pode ter existido, mas que o árbitro não devia ter moral para o assinalar, naquele momento, naquele contexto. Razões? Primeiro, a noção de que a Juventus teria sido prejudicada na partida da primeira mão. Depois, a dimensão épica da reviravolta que a equipa italiana tinha conseguido, que não poderia ser deitada abaixo com um penalti que deixa dúvidas. Percebo Buffon e até simpatizo com a ideia – sobretudo a segunda, porque a primeira levar-nos-ia por caminhos complicados e à junção da famosa lei da compensação às leis do jogo em vigor – mas no limite um árbitro tem de apitar aquilo que vê ou que acha que vê. Sem coração, porque a justiça tem de ser cega e, como explicou o Principezinho de Saint-Exupery, “o essencial é invisível aos olhos” e “só se vê bem com o coração”. A tese de Buffon colhe a simpatia de todos os que gostam de futebol e viram o jogo de forma imparcial, apenas pelo espetáculo majestoso que ele foi – uma Juventus séria, competitiva e rigorosa a aproveitar a anarquia tática ainda maior do que o habitual promovida por Zidane ao abdicar de Benzema e deixar o corredor esquerdo entregue a quem por lá quisesse passar. A tese de Buffon colheu até a simpatia de Cristiano Ronaldo, que no final, ao passar pela Zona Mista, lhe deu um abraço sentido e reconhecido pela grandeza do guarda-redes italiano e por tudo o que ele deu ao futebol. Mas a coisa para aí. Tenho pena de ver Buffon sair como saiu, mas nunca um árbitro pode decidir com o coração. E sim, acho que foi penalti.
2018-04-12
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