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Último Passe

A ver Bruno de Carvalho e Pedro Madeira Rodrigues debaterem com vista às eleições do Sporting lembrei-me várias vezes de uma corrida de 400 metros. Os dois candidatos à presidência assemelhavam-se a dois atletas que, cada um na sua pista, iam traçando percursos paralelos, sem nunca se cruzarem. Madeira Rodrigues, o desafiante, focava-se nos aspetos que julga mais negativos no mandato do atual presidente e dizia que com ele tudo ia ser diferente. Bruno de Carvalho, por sua vez, centrava atenções no que considera serem as suas maiores vitórias e agitava documentos para as "provar", quase nunca dando respostas convincentes às críticas que lhe iam sendo lançadas. Resultado: as únicas vezes em que cruzaram argumentos foi acerca dos insultos que um e outro foram registando durante a campanha ou na questão das comissões, em que um disse uma coisa e outro disse outra. Duvido que um único sócio do Sporting tenha hoje mudado o seu sentido de voto. Depois de ver os dois candidatos, quem era de Bruno de Carvalho vai continuar a ser de Bruno de Carvalho e criticará a atuação de Pedro Madeira Rodrigues e o facto de o desafiante quase se ter limitado a despejar frases feitas acerca do que quase toda a gente vê de negativo no presidente: a obsessão com o Benfica, o culto da personalidade, a dificuldade para aceitar opiniões divergentes... Por sua vez, quem era de Pedro Madeira Rodrigues continuará a ser de Pedro Madeira Rodrigues e a reparar que em vez de dar respostas concretas às críticas que lhe eram feitas, o presidente fugia para os temas em que se sentia mais confortável, como quando ripostou ao desequilíbrio entre despesas e receitas operacionais com o saldo positivo entre vendas e compras na equipa de futebol.  A verdade é que, mesmo tendo passado todo o debate ao ataque, Madeira Rodrigues nunca disse como poderá fazer melhor aquilo que entende que Bruno de Carvalho fez mal - só que vai fazer melhor. E, mesmo tendo quase sempre dado a sensação de que estava ali apenas a cumprir um pró-forma, Bruno de Carvalho também nunca fez qualquer ato de contrição relativamente ao que lhe correu pior: a rábula de ter uma média de taças por ano superior à média geral do Sporting é um passo atrás relativamente ao discurso ambicioso de quem há quatro anos ia mudar o Mundo leonino e fazer do Sporting muito grande outra vez. Se o debate serviu para alguma coisa foi para que Madeira Rodrigues se desse um pouco mais a conhecer. De Bruno de Carvalho já todos sabem o que é - é aquilo que tem feito, com coisas positivas e outras negativas. Já o desafiante mostrou trazer o discurso preparado, os soundbytes bem alinhados e decorados e até valer mais do que aquilo que a perceção geral lhe concede em termos de reais possibilidades de vir a ser presidente do Sporting já este ano. A não ser que haja uma grande surpresa daqui até dia 4 de Março, Bruno de Carvalho vai ser re-eleito para mais um mandato à frente do Sporting. Pedro Madeira Rodrigues poderá capitalizar os votos que vier a acumular para se constituir como alternativa válida, como oposição que nenhum dos três grandes clubes portugueses verdadeiramente tem. Se quiser vir a contar, o candidato perceberá que a sua melhor aposta é no médio e no longo prazo e que a corrida que mais lhe interessa não é de 400 metros. É uma maratona.
2017-02-23
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Os resultados da equipa de futebol serão evidentemente um aspeto a ter em conta pelos sócios do Sporting quando forem chamados a eleger os corpos sociais do clube, em Março. O quarto lugar na Liga, somado à eliminação prematura em todas as outras competições, tem sido a maior arma potencial à mercê da oposição a Bruno de Carvalho. No entanto, os sócios não vão votar em jogadores nem em treinadores – vão eleger quem acharem mais capaz de liderar o clube num rumo que lhe permita ter bons jogadores, bons treinadores e, em resultado disso, bons resultados. Nesse aspeto, Bruno de Carvalho soube dar a volta à má situação desportiva que a equipa vive: ao arregimentar Jorge Jesus para o seu lado da barricada – o que também tem o seu quê de discutível… – expôs Madeira Rodrigues a uma contradição que certamente não ajuda nada o candidato nos esforços para convencer quem pudesse estar insatisfeito com a atual liderança. O que está aqui em causa não é Jorge Jesus. Haverá quem concorde com Bruno de Carvalho, que continua a dizer que o treinador é fundamental para o projeto, como haverá quem veja nele a causa de todos os males e queira vê-lo pelas costas como condição imprescindível para um Sporting ganhador. Isso, para o caso, é irrelevante. O que está aqui em causa é a estratégia de cada candidato para o futuro do clube e sobretudo a perceção que os sócios têm dela. Bruno de Carvalho foi inteligente e conseguiu anular um pouco do efeito dos maus resultados nesta campanha eleitoral. Foi desses maus resultados que nasceram as notícias em torno do afastamento entre presidente e treinador – as primeiras páginas dos dois maiores jornais desportivos de anteontem, com o Record a anunciar a união e A Bola a decretar a distância entre os dois são antológicas – e as consequentes reflexões, que levaram a oposição a acusar Bruno de Carvalho de querer sacrificar Jesus para salvar a pele. Ora, pelo menos publicamente, aquilo que o presidente fez foi exatamente o contrário: chamou Jesus para o seu lado, convidou-o para a Comissão de Honra e passou para a opinião pública a ideia de que está com os seus até ao fim. Sendo que Jesus passou oficialmente a ser um dos dele. Colocado perante este cenário, o que podia fazer Jorge Jesus? Ora aqui há vários planos possíveis de análise. O mais normal era que o treinador, funcionário pago do clube, se recusasse a fazer parte de qualquer candidatura. Isso, porém, era supondo que vivíamos uma situação normal. Esta não é uma situação normal, fruto dos tais maus resultados e das notícias em torno dos desencontros entre presidente e treinador. Se recusasse o convite público de Bruno de Carvalho, Jesus estaria a assumir em nome próprio o ónus da separação e a legitimar desde logo qualquer iniciativa de rutura que nascesse na outra parte. Assim sendo, só restava a Jesus aceitar. Ele até é sócio do Sporting há décadas, sempre se soube que era sportinguista, mesmo quando treinava o rival Benfica, pelo que puxou do seu direito a ter algo a dizer sobre o futuro do clube e juntou-se ao rol dos apoiantes da reeleição de Bruno de Carvalho. Jesus defendeu a sua posição e deu ao presidente-candidato um ás para jogar na próxima puxada: este pode assim alegar que é coerente, que defende o seu treinador, chamando-o para o seu regaço mesmo num momento como este, que é de dificuldades. A questão é que Bruno de Carvalho estava, neste caso, numa situação “win-win”: a alternativa deixava-o com razão para romper a aliança quando quisesse (e ainda há vários jogos até às eleições, onde, assumindo o pior cenário, isso podia dar-lhe jeito). Já Pedro Madeira Rodrigues, pelo contrário, ficou numa situação “loose-loose”. E só porque se precipitara ao anunciar, logo na apresentação da sua candidatura, em Dezembro, que contava com Jorge Jesus. “É o nosso treinador”, dissera na altura, apenas para agora se ver forçado a dizer que não contará com ele caso ganhe as eleições. Face à integração de Jesus na Comissão de Honra de Bruno de Carvalho, podia Madeira Rodrigues fazer outra coisa? Creio que não. Mas a ideia que passa é a de uma estratégia de cata-vento ou pelo menos a de alguém que não equacionou todas as variáveis possíveis antes de anunciar uma medida programática como é sempre a da escolha do treinador da equipa de futebol. Mas isto, afinal, é só política.
2017-01-22
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Último Passe

A eliminação da Taça de Portugal, a somar à saída prematura da Europa e da Taça da Liga e aos oito pontos de atraso para o Benfica na Liga, vem provocar um dos momentos mais difíceis dos quatro anos de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting. O “black-out” decretado antes da dupla visita a Chaves não permite antecipar como vão reagir jogadores, treinadores e o próprio presidente, mas o melhor para o clube era mesmo que se evitasse o extremar de posições e que as reflexões fossem feitas sem ninguém ter de puxar galões para ficar melhor na fotografia. Mesmo em vésperas de eleições. As razões desta má época estão identificadas: o plantel teve investimento mas não foi bem construído, uma vez que o perfil dos jogadores que entraram não tem muito a ver com o perfil dos que saíram. A equipa vinha de uma temporada fulgurante, com grande futebol, a jogar de olhos fechados, pelo que a vontade de mudar se tornava difícil de entender. Ela foi, no entanto, assumida, não nas palavras mas nos atos. Aqui chegados, a única forma de resolver o assunto é emendar caminho, ver que erros se cometeram e quem os cometeu, mas fazê-lo internamente e de forma serena. Os jogadores que estiverem a mais devem sabê-lo nas movimentações de mercado e não em acusações mais ou menos públicas de quem está interessado apenas em desviar as atenções. Porque enquanto estiverem no clube podem ser chamados a defender a camisola e convém que o façam de cabeça fria. Jesus também não tem feito a melhor gestão do grupo, é verdade. Seja por causa das mudanças permanentes em duas ou três posições – impedindo que alguns elementos do onze ganhem a rotina e a confiança que permitia o futebol da época passada – ou da insistência em soluções que dificilmente resultarão, a equipa está uma sombra daquilo que já foi. Em campo, o futebol de ataque não sai fluente e a defesa parece titubeante e desconcentrada. Ainda assim, certamente que Jesus não deixou em ano e meio de ser o treinador em quem Bruno de Carvalho meteu todas as fichas e a boa solução não passará nunca pela sua saída. Até porque quem o conhece sabe que ele não desistirá nunca e despedi-lo custaria valores que o Sporting não pode dar-se ao luxo de pagar – nem isso seria inteligente. Apostar numa estratégia de desgaste, com a criação de condições para que ele arque sozinho com as culpas em termos públicos – para limpar a face de outros – colocaria em risco o que resta de temporada, onde o Sporting ainda terá uma palavra a dizer em termos de campeonato ou de qualificação direta para a Liga dos Campeões. O problema, na perspetiva de Bruno de Carvalho, é que está a mês e meio das eleições e quer continuar por mais quatro anos à frente do clube. Em campanha, o presidente não pode repetir a estratégia corrosiva de há quatro anos, porque já não é oposição. E não pode renegar a sua quota-parte de culpa na situação atual, porque nesse caso já só os “yesmen” do costume o seguiriam numa “egotrip” difícil de levar a sério. Se acredita mesmo no trabalho que tem feito, Bruno de Carvalho terá de enfrentar o veredicto dos sócios com serenidade e a humildade própria de quem está em quarto lugar na Liga e fora de todas as outras competições. Mais do que isso seria um abuso de confiança.
2017-01-17
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Último Passe

A oito pontos do Benfica no campeonato, onde já perdeu mais pontos em meia Liga do que em toda a edição passada, prematuramente afastado da Europa e da Taça da Liga, é evidente que o Sporting joga muito do que vai ser a sua temporada 2016/17 na eliminatória dos quartos-de-final da Taça de Portugal, em Chaves. A importância do jogo foi suficiente para, mesmo em black-out – ou talvez sobretudo por haver black-out – Bruno de Carvalho saltar de novo para o topo da atualidade. O presidente está no olho do furacão por uma razão muito simples: tem eleições daqui a mês e meio e não quer chegar lá com a equipa de futebol numa posição próxima daquela em que a encontrou, temendo legitimar quem é agora oposição. No plano teórico, faz sentido. Na prática, porém, a realidade parece-me muito diferente. O modelo populista da liderança que incorpora, a mimetização de comportamentos já vistos a Pinto da Costa nos anos 80 ou a Luís Filipe Vieira no início deste século levam-me a crer que Bruno de Carvalho precisava sobretudo de estar quieto e passar despercebido para ganhar as eleições. Fá-lo-ia sem problemas de maior. Isso, porém, não casa com a sua elevada auto-estima e a vontade de não deixar ninguém sequer a suspeitar que a culpa do que corre mal possa pertencer-lhe. O pior é que quanto mais se mexe publicamente no problema maior é a dimensão que ele assume. E quanto mais se aborda a questão da culpa desta forma, para a afastar, mais ela se aproxima dos que estão com ele no mesmo barco. Começa a ser evidente que houve erros na planificação da época do Sporting. Erros de mercado, em primeiro lugar. Não tanto em questões de qualidade – ninguém põe em causa Bas Dost ou Campbell, por exemplo – mas sobretudo em termos de perfis, pois os jogadores que chegaram são muito diferentes daqueles que partiram. Dost não é Slimani e disso se ressente Bryan Ruiz, por exemplo; não há ninguém capaz de fazer o que fazia Téo; André não se aproxima do futebol de Montero; e ao meio-campo falta um terceiro jogador de controlo, como era João Mário. Os resultados têm a ver com isso, como acontece sempre. Querer encontrar a explicação nas substituições feitas neste ou naquele jogo ou no facto de alguns jogadores saírem à noite antes da folga é mascarar o problema. É dizer que o mercado foi bem planeado e dirigido, mas a equipa não ganha por falta de empenho de quem está em campo. E a questão aqui é a de se saber por que razão se quer mascarar o problema – porque a tese até foi avançada no próprio canal televisivo do clube. Se foi uma repetição do episódio José Eduardo-Marco Silva, uma tentativa de encontrar alguém para sacrificar no pelourinho, foi má ideia, porque Bruno de Carvalho precisa dos jogadores para chegar a Março em boa posição. Se o objetivo foi justificar a intervenção do presidente no balneário no final do empate em Chaves para o campeonato, também foi má ideia, porque ainda levou a que se falasse mais no assunto. Se o que se queria era motivar uma reação pronta dos jogadores, eventualmente feridos no orgulho, ver-se-á no jogo da Taça se isso resultou, mas na última vez que se entrou por este caminho – as críticas do próprio presidente no Facebook, após uma derrota em Guimarães, há dois anos – ainda se avolumaram os problemas de que a equipa sofria e a distância para o topo da tabela.
2017-01-16
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Último Passe

No dia em que se apresentou um novo – e até ver primeiro – candidato à presidência do Sporting, a tentação será a de se olhar para a lista de Pedro Madeira Rodrigues e procurar entre os seus apoiantes um grupo de adeptos “notáveis” que garanta credibilidade e uma boa hipótese de sucesso na ida às urnas. O Sporting, porém, mudou muito desde que o grupo que o liderou nas últimas décadas caiu em desgraça, levando à eleição de Bruno de Carvalho. E as eleições nos maiores clubes nacionais também.No Sporting, que ainda assim é o único dos três grandes onde as eleições vão para além de um formalismo (e a isso não é estranho o facto de ter ganho muito menos do que os rivais nos últimos anos), o apoio desses tais “notáveis” seria mais um empecilho do que uma real vantagem. Foi em boa parte esse beijo da morte que custou a José Couceiro, uma das melhores e mais modernas cabeças do futebol português, a derrota nas eleições que conduziram Bruno de Carvalho ao trono do leão. A última coisa que poderá acontecer nas eleições de Março é, por isso, vermos um candidato saído do grupo de herdeiros do roquetismo, o movimento que mandou no clube entre meados dos anos 90 – com Pedro Santana Lopes – e a demissão de Godinho Lopes, há três anos. Mesmo que nesse lote de presidentes tenha havido homens tão diferentes como o impulsivo Dias da Cunha, o mais fleumático Soares Franco ou até o patriarca Roquete.O peso dessa liderança e a revolução que foi a sua queda, para abrir caminho a Bruno de Carvalho, faz com que neste momento não se discutam tanto ideias e projetos, mas sim a figura do atual presidente. Talvez ainda seja cedo, mas a Madeira Rodrigues ainda não se ouviu grande coisa acerca do que pretende fazer, mas sim sobre aquilo que o líder atual tem feito de errado: as fugas para a cabina em noites de derrota, as voltas olímpicas em dias de vitória e até a forma dissimulada de falar da obsessão de Bruno de Carvalho com o Benfica, referindo que os anos que este já leva à frente do clube foram de títulos, sim, mas para os encarnados. No fundo, Pedro Madeira Rodrigues e quem está com ele já perceberam uma coisa: nas eleições de Março, mais do que o Sporting, vai discutir-se Bruno de Carvalho. O que ele fez bem – renegociação com a banca, mais dureza nas negociações de jogadores, apoio ao vídeo-árbitro e combate aos fundos – e o que ele fez mal – posições que estão muito perto da irresponsabilidade na relação com outros clubes, radicalismo excessivo naquilo que defende. Até por isso, o candidato diz que espera um combate a dois. É que já sabe que quanto mais gente aparecer a querer discutir Bruno de Carvalho, menos hipótese terá cada um de convencer os votantes dos seus méritos particulares. Até por isso, sem ter ainda desfeito o tabu que evidentemente levará à sua recandidatura, o presidente já veio dizer que todos os candidatos serão bem vindos. Quantos mais, melhor.
2016-12-27
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Último Passe

A derrota do Sporting em casa, contra o Sp. Braga, com a agravante de ter perdido o terceiro lugar na Liga para os minhotos e de ter ficado a oito pontos do Benfica, vem chamar a atenção para a gestão em Alvalade. Se Jorge Jesus já viu os primeiros lenços brancos nas bancadas de Alvalade é porque há quem lhe atribuía responsabilidades na forma como o treinador tem gerido o plantel disponível – e desta vez a “capacidade de superação” dos jogadores não chegou para ganhar um jogo em que eles pareceram pouco frescos. Mas só internamente poderá perceber-se um pormenor importante: se Jesus esgotou os 12 ou 13 jogadores que tem usado quase sempre porque os outros não servem, ou se os outros não servem porque o treinador os foi “queimando” semana após semana desta época de grande investimento. A evidência do jogo foi a de um Sporting fatigado. Os leões tiveram dificuldades para pressionar, para ganhar duelos diretos, para aguentar as arrancadas dos bracarenses, muito bem organizados por Abel Ferreira, o treinador interino que herdou a equipa de Peseiro e a montou com inteligência. Jesus terá cometido erros neste jogo – a colocação de Ruiz ao meio é, insisto, o maior de todos, porque o costa-riquenho não tem vivacidade para jogar ali e falha clamorosamente nas finalizações, pelo que o ideal será sempre tê-lo mais longe da baliza – mas o foco deve ser alargado a toda a temporada. E ainda que se compreenda que a pressão dos insucessos – de Varsóvia para a Luz, da Luz para Setúbal e para o jogo com o Sp. Braga – tenha levado o treinador a apostar sempre nos mesmos, há espaço para se questionar se isso esteve ou não na base da situação que a equipa vive atualmente. Porque num ano em que os leões contrataram tanta gente com nome, é estranho ver sempre as mesmas caras subir ao relvado, sobretudo quando os seus donos estão fisicamente inferiorizados e perdem os jogos por estarem, como diz o próprio treinador, “menos frescos”. E é aqui que convém perceber-se uma coisa. Beto, Douglas, Petrovic, Elias, Meli, Markovic, Alan Ruiz, André e Castaignos, as aquisições que, juntamente Bas Dost e Campbell, os dois que estão a jogar, encheram os sportinguistas de esperança no Verão, não servem? E não servem porque foram mal escolhidos ou não servem por terem perdido qualidades já depois de terem chegado? Na verdade, acho que há ali gente mal escolhida, uns por falta de qualidade flagrante, outros por não encaixarem naquilo que era o plano de jogo de Jesus, que tinha perdido Slimani e João Mário e recebeu jogadores muito diferentes. Mas outros foram perdendo fulgor à medida que a época seguia o seu curso e eram opção apenas em jogos de menor responsabilidade. Recuperá-los será a tarefa principal do treinador para o novo ano, onde os oito pontos de diferença para o líder não deixam os leões fora mas ao mesmo tempo diminuem a pressão pelo esvaziar do balão da esperança. E disso pode depender também a tranquilidade com que Bruno de Carvalho poderá encarar as eleições de Março.
2016-12-18
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Três assuntos têm animado os adeptos de futebol em Portugal. O caso Sporting-Doyen, a troca de José Peseiro por Jorge Simão no Sp. Braga e a polémica em torno da contagem dos títulos nacionais. Com algum atraso num ou noutro caso, eis o que penso de cada um. 1. O Sporting vai ter de pagar à Doyen no caso relativo à transferência de Rojo para o Manchester United. Sempre foi claro para mim que assim seria, porque havia um contrato em vigor e ele tinha sido assinado pela direção legítima do clube. Não sei se Bruno de Carvalho entrou nesta guerra para adiar o pagamento, para o evitar de todo ou apenas para fazer barulho à volta do tema polémico que é o da participação de fundos de investimento nos passes dos jogadores. Se foi a primeira razão, limitou-se a ser chico-esperto. Se foi a segunda, estava a ser ingénuo. Se foi a terceira, fez bem. Porque os negócios com os fundos de investimento sem rosto são, na maior parte dos casos, lesivos dos interesses dos clubes e abrem a porta ao dinheiro sujo que quem gosta de futebol deve querer ver longe da modalidade. 2. Nutro por José Peseiro a estima de muitos anos de conhecimento, porque crescemos a 150 metros um do outro. Tenho, além disso, o reconhecimento pela qualidade do trabalho que ele fez em muitos clubes, mas acho que fez mal em voltar a Braga. Depois de ele próprio ter perdido a final da Taça de Portugal para o Sp. Braga de Paulo Fonseca, entrar naquele balneário só podia ser feito com a certeza de que tinha condições para fazer melhor. E a verdade é que não tinha. Peseiro não foi demitido por ter perdido com o Sp. Covilhã. Foi demitido porque antes de cair na Taça de Portugal já tinha perdido a passagem à fase seguinte da Liga Europa e porque, antes ainda, a sua equipa mostrara um futebol demasiado pobre no Dragão contra o FC Porto – e o futebol de qualidade até foi sempre uma das imagens de marca deste treinador. Para o lugar dele entra Jorge Simão, um treinador jovem e ambicioso, que tem muito mais condições para ser bem sucedido. Quais? Tem atrás dele um trabalho de enorme qualidade no Chaves e entra num clube onde as expectativas já estão outra vez a um nível muito baixo. O resto é capacidade de trabalho, que tanto um como o outro têm inegavelmente. 3. A FPF manifestou-se finalmente acerca da polémica relativa aos títulos de campeão nacional, decretando que aos torneios da I Liga, disputados por jornadas entre 1934/35 e 1937/38, correspondem títulos de campeão nacional, e que aos Campeonatos de Portugal, jogados por eliminatórias entre 1921/22 e 1937/38, correspondem troféus equiparados à Taça de Portugal. A polémica vem da mais recente cruzada de Bruno de Carvalho, que nem sequer é uma ideia nova: recordo-me de, durante anos, o Record se ter recusado a alinhar com A Bola nessa equiparação, valendo-se da tese de Henrique Parreirão, segundo a qual só havia campeão nacional a partir de 1938/39, havendo antes, sim, o campeão da Liga e o campeão de Portugal, que eram coisas diferentes. E se na altura achei que a tese defendida pelo Record servia sobretudo de afirmação ante o gigante que era A Bola – era preciso contrariar o establishment para poder vir a superá-lo, algo que o Record depois até chegou a conseguir – também agora vejo na preocupação de Bruno de Carvalho uma forma de agitar as hostes e de ser contra-poder. As taças, porém, valem o que valem e estão nos museus dos clubes, de nada valendo agora tentar reescrever a história, seja num ou noutro sentido. O FC Porto, por exemplo, foi duas vezes campeão e europeu? Ou ganhou uma Taça dos Campeões e uma Liga dos Campeões? É que as provas têm nomes e formatos diferentes. E foi campeão mundial de clubes? Ou tem duas Taças Toyota? É claro que o documento da FPF aqui faz lei, mas na minha opinião as contas são outras: o Benfica tem 32 títulos de campeão nacional (e não os 35 que reclama com a soma das três I Ligas que ganhou), o FC Porto tem 26 (e não 27) e o Sporting tem 18 (e não os 22 que exige ver reconhecidos com a adição do Campeonato de Portugal).
2016-12-16
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Tenho evitado entrar na polémica do túnel de Alvalade, até porque não tenho nada de relevante a acrescentar ao que toda a gente viu: muita gente a portar-se mal, dos dois lados da barricada. Como não sou juiz, não decreto sentenças nem atribuo culpas. Como não sou advogado nem procurador, não faço a defesa de uns nem a acusação de outros. Sou jornalista. E os jornalistas aquilo que mais fazem são perguntas. É a única coisa que posso fazer neste caso. Deixo, assim, as perguntas que gostaria de fazer aos intervenientes neste caso, porque me parece que ainda não foram devidamente respondidas. Por que razão se dirigiu Carlos Pinho a Bruno de Carvalho de forma apressada e intempestiva, indo mesmo de braço em riste até ao confronto? Houve alguma provocação anterior feita por Bruno de Carvalho? O que disseram um ao outro nessa ocasião? O presidente do Sporting cuspiu na cara de Carlos Pinho? Ou mandou-lhe com vapor do cigarro eletrónico para a face? Se cuspiu e tendo em conta as acusações que foram feitas na altura (insultos e tentativa de agressão), isso não era suficientemente relevante a ponto de ter sido citado na conferência de imprensa que se seguiu pelo diretor desportivo do Arouca? Se vaporizou, isso é um comportamento digno? O que disse o steward a Carlos Pinho para, mesmo tendo ele os braços erguidos e abertos, o presidente do Arouca lhe ter dado um “safanão”? Acha digno tentar bater num homem cuja única intenção era, aparentemente, acalmar os ânimos? Para que estava o presidente do Arouca a chamar reforços de dentro do seu balneário? O que disseram os jogadores que compareceram por ali a acalmar a guerra aos seus presidentes? E os adeptos? Por acaso são capazes de se rever no comportamento dos respetivos dirigentes? Enquanto não souber a resposta a estas onze perguntas, não sou capaz de ter opinião acerca dos incidentes a não ser esta: ali, tirando os futebolistas, ninguém se portou bem. É por isso que gosto mais de falar de futebol.
2016-11-16
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Acabou o campeonato e o Benfica foi campeão. Justo? Sem dúvida nenhuma. Quem faz 88 pontos em 34 jogos, quem ganha 29 das 34 jornadas, quem perde pontos contra apenas quatro das 17 equipas que tem como adversárias no campeonato, é um campeão justo em qualquer parte do Mundo. E no entanto, do lado do Sporting, o derrotado, mantem-se o discurso: “não ganhou a melhor equipa”, disseram jogadores e treinador. É verdade que, com os seus 86 pontos, com apenas duas derrotas em toda a Liga, com cinco vitórias em seis clássicos, o Sporting também teria sido um campeão justo. Os leões foram a equipa que mostrou o futebol mais bonito, mais enleante, mais coletivamente trabalhado. Mas as hipóteses de sucesso da candidatura sportinguista ao título do ano que vem dependem de os seus responsáveis perceberem por que é que o Benfica foi campeão este ano. Porque há razões para isso que vão muito para lá da sorte e do azar. O Benfica foi campeão, primeiro, porque mesmo sem ter sido a equipa com o futebol mais vistoso, foi a equipa mais eficaz, a equipa com mais qualidade dentro da área, que é onde se ganham os troféus. O Benfica teve o melhor ataque e o maior número de vitórias. Sorte? Não. Qualidade nas áreas. Os processos para chegar à frente não foram sempre os melhores, não se lhe vê um futebol tão desenhado em laboratório como aquele que Jesus colocou o Sporting a jogar em tempo recorde, aceita-se mesmo que há ali menos trabalho saído do treino, mas vê-se uma organização defensiva impecável, com dois defesas-centrais rapidíssimos, que permitem encurtar o bloco e jogar com toda a equipa subida – com Luisão, provavelmente, isso não seria possível – e uma forma despachada de chegar à frente, onde o Benfica teve três pontas-de-lança de enormíssima qualidade. Jonas, Mitroglou e Jiménez desataram muitos nós a Rui Vitória, naqueles jogos mais complicados, onde fazia falta um golo caído do céu aos trambolhões. E Jesus viu o Sporting baquear naquele momento da época em que Gutiérrez estava de baixa, Montero tinha sido despachado para a China, Barcos não respondia - se é que alguma vez responderá – e só lhe sobrava Slimani, que também tinha direito a uns dias maus. Lembram-se dos golos cantados que Bryan Ruiz falhou em Guimarães e no dérbi de Alvalade? Jesus também, por muito que prefira esquecê-los. O Benfica foi campeão, depois, porque teve nas provocações do exterior um fator que lhe permitiu fazer das fraquezas forças. As provocações vindas de Alvalade, que resultaram no início da época – Jesus levou Vitória a mudar o que tinha andado a testar antes do jogo da Supertaça, ao reclamar para si mesmo todo o ideário futebolístico do rival, e começou aí a ganhar o troféu – foram perdendo eficácia à medida que a época avançava. E a cada vez que o treinador leonino falava em cérebros, em Ferraris ou em tocas, fazia com que o adversário se unisse mais ainda. Só assim se explica, também, que uma equipa que perde cinco dos seis clássicos que joga numa temporada, uma equipa que a dada altura da época parecia em falência mental e física, tenha conseguido ir sempre buscar mais alento e ganhar cada jogo. Essa injeção de adrenalina, era sempre Jesus que a dava. Como voltou a dar ontem, ao dizer que “uns criam e outros copiam”, rematando a conferência de imprensa com um “é por isso que eu ganho” que pode ter transportado alguns adeptos para um episódio da Twilight Zone. Do outro lado, Rui Vitória optou por se apagar em prol do mérito dos jogadores e afirmou que, mais do que no título, os seus falecidos pais podiam estar orgulhosos da contenção verbal que foi sempre mantendo. O Benfica foi campeão, por fim, porque geriu melhor os aspetos laterais do jogo. Não estou a falar de arbitragem. Estou a falar de casos como o processo a Carrillo – que Jesus perdeu logo no início do campeonato – ou dos confrontos que os encarnados entregaram sempre a assalariados sem real importância, como os seus comentadores engajados ou o departamento de comunicação, e os leões não foram capazes de passar para baixo do presidente. A ponto de até quando Octávio Machado aparecia – e a função dele era essa mesmo – parecer pouco, porque o precedente de ser Bruno de Carvalho a falar tirava importância a todos os outros. Luís Filipe Vieira quase pôde aparecer apenas no fim do campeonato a passar a taça para as mãos do capitão de equipa, enquanto que a Bruno de Carvalho, que passou a época a fazer comunicados a um ritmo quase diário, não restou senão sair pela esquerda baixa, aparentemente até do Facebook. Vieira também já teve os seus tempos de “loose cannon”, mas aprendeu e vai com quatro títulos nos últimos sete anos. Carvalho tem nos meses que se seguem a oportunidade de cortar caminho: basta-lhe ter a noção de que este Sporting cresceu tanto num ano que vai ser preciso fazer muita coisa errada para não acabar por ser também campeão num futuro próximo. In Diário de Notícias, 16.05.2016
2016-05-16
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Quem faz o favor de me ler há tempo suficiente sabe que adotei de Sven-Goran Eriksson a teoria segundo a qual discutir arbitragens é irrelevante porque, no fim, feitas as contas, entre o deve e o haver, as coisas acabam por se equilibrar. É por isso, e também porque nunca encontrei um debate sobre penaltis ou foras-de-jogo em cujos padrões de urbanidade ou educação me reveja, que não sigo o caminho geral, o caminho que manda o adepto comum vociferar contra os árbitros nos fins-de-semana em que a sua cor saiu prejudicada e silenciar essas discussões quando são os outros a queixar-se. Mas também já ando no futebol português há tempo suficiente para acrescentar à teoria de Eriksson uma outra, à qual chamo a “teoria do remediado”. E que diz o seguinte: nos últimos dez ou quinze anos, em cada momento conjuntural do futebol português, há sempre um que ganha, um que é cúmplice porque joga na mesma na Champions e um terceiro que luta por aquilo a que chama “a verdade desportiva”, mas que não é mais do que a defesa dos seus interesses e a vontade em ocupar o lugar de um dos outros dois. Não vou ao ponto de dizer, como Jorge Jesus disse do fair-play, que a verdade desportiva seja uma treta. Não é. Sou, aliás, favorável à introdução no futebol de meios auxiliares de diagnóstico que venham ajudar os árbitros a decidir melhor. Mas não tenho a ilusão de que isso venha acabar com a discussão, porque não é preciso recorrer às hordas de fanáticos que enxameiam as redes sociais para encontrar gente que, perante as mesmas imagens, tira conclusões diferentes. Basta muitas vezes consultar ex-árbitros internacionais. Como não existe uma verdade absoluta, mas sim diferentes interpretações de um mesmo acontecimento, quando houver vídeo-árbitro – e reparem que não disse “se”, disse “quando”, porque acredito que isso é inevitável – as suspeitas de favorecimento manter-se-ão, mas mudarão de destinatário: passarão do relvado para a régie. E isso será assegurado por todos os que mantém a funcionar o sistema de acordo com a “teoria do remediado”, esse axioma nascido da evidência de que só há lugar para dois clubes verdadeiramente grandes no futebol nacional, porque são apenas duas as vagas garantidas na distribuição de milhões da Liga dos Campeões. Foi de acordo com essa evidência que as coisas mudaram. Se até há uns dez, quinze anos, o que interessava era só ganhar, depois da reforma das provas europeias, que assegurou uma segunda vaga direta de clubes portugueses na Champions, passou a interessar também ficar em segundo lugar. Chegámos, nessa altura, ao ponto de ouvir um presidente do Sporting dizer que ante dois desafios, preferia ficar em segundo no campeonato a ganhar a Taça de Portugal. Ou ser duas vezes segundo a ser uma vez primeiro e outra terceiro. Essa, já se vê, era a altura em que o Sporting era o remediado. O FC Porto ganhava – e nos últimos 30 anos nunca deixou de ganhar por mais de três anos seguidos, mantendo mesmo assim com frequência o segundo lugar – e o Sporting era segundo, o que garantia à equipa de Paulo Bento um cartão de passageiro frequente na Liga dos Campeões. E dinheiro, muito dinheiro. Quem lutava nessa altura pela “verdade desportiva”? O Benfica, pois então. Era Luís Filipe Vieira quem falava mais na regeneração do sistema. António Dias da Cunha, um voluntarioso franco-atirador que, na qualidade de presidente do Sporting, chegou a alinhar com Vieira nalgumas iniciativas, acabou por ser afastado dentro do próprio clube, pois estava a ir contra a “teoria do remediado”. Entretanto, o Benfica passou a ganhar – é neste momento favorito à conquista do tricampeonato. E da Luz passaram a chegar vozes de moderação, de crítica a quem passa a vida a falar dos árbitros. Quem passou a ser o principal crítico do sistema? O Sporting, pois então, onde Bruno de Carvalho diz tudo aquilo que Luís Filipe Vieira disse e talvez até muito mais, questionando os árbitros e clamando por injustiça em todas as jornadas e chegando mesmo ao ponto de recusar a admissão de favorecimentos quando eles acontecem – como foi o caso esta semana. O FC Porto tem sido o remediado e por isso mesmo ninguém se juntou a Lopetegui quando este criticou as arbitragens, na época passada. Veremos como passarão a comportar-se no Dragão na próxima época, quando se torna mais ou menos evidente que o FC Porto será terceiro na Liga que se aproxima do fim e tem a Liga dos Campeões em risco. In Diário de Notícias, 19.04.2016
2016-04-18
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Há um mistério por resolver acerca da equipa do Sporting. Como é que os leões passam tão bem pelas melhores equipas da Liga e tremem contra as mais pequenas? Como é que arrumaram por três vezes o Benfica, entre Supertaça, Liga e Taça de Portugal, ganharam sem espinhas ao FC Porto, golearam em Setúbal, mas depois já deixaram dois pontos ao Boavista, outros dois ao Tondela e três ao U. Madeira? Como é que vão ganhar sem problemas a Paços de Ferreira, mas sofrem tanto no jogo em casa com a Académica, que só conseguem vencer nos últimos dez minutos? A necessidade de uma explicação pediria que se deitasse a equipa no divã para uma sessão de psicanálise, mas é claramente do domínio do emocional, porque as rotinas e a qualidade dos jogadores continuam lá e teriam até mais razões para aparecer nos jogos em que os adversários são mais fracos. Quem chegasse agora a Portugal e visse, por um lado, que o Benfica vai com dez vitórias seguidas, a maioria delas com clareza, que o FC Porto acaba de mudar de treinador e que o Sporting vem de um empate a dois golos e duas vitórias sofridas por 3-2 nos três últimos jogos em Alvalade teria alguma dificuldade em olhar para os leões como mais fortes candidatos ao título ou em explicar que eles sigam isolados na frente da tabela. Mas se depois lhe dissessem que a equipa de Jorge Jesus ganhou todos os jogos grandes em que entrou – e já defrontou três vezes o Benfica e uma o FC Porto –, se calhar esse observador já pensaria outra coisa. E tentaria explicar esta dualidade sem recorrer à justificação mais primária, que é sempre a que fala das arbitragens como fator determinante. Ora, aí chegados, há duas explicações possíveis: ou falta de foco ou excesso de confiança. Apesar de todos os sinais aduzidos em sentido contrário, ainda me inclino mais para a segunda. Se, como pretendem alguns analistas, a quebra recente do Sporting na Liga, não tanto expressa em pontos mas sobretudo na dificuldade para ganhar jogos em casa, tivesse mais a ver com o excesso de ruído criado à volta da equipa, dessa forma desfocando os jogadores, os leões não teriam sido capazes de ganhar com clareza em Setúbal ou em Paços de Ferreira. É claro que o que se passa durante a semana, que o clima de constante conflitualidade fomentado acima do balneário, tem efeito naquilo que a equipa vai rendendo – por exemplo, contra a Académica viu-se um Slimani menos imponente fisicamente, como que tolhido pelo que se tem vindo a dizer da sua forma de atuar – mas se fosse esse o problema a equipa teria muito mais razões para falhar nos jogos difíceis. Porque o ruído já não é novidade de agora e porque as pontuações das equipas de Jesus sempre se fizeram à conta de uma regularidade impressionante nos jogos em casa contra adversários mais fracos. Por isso me inclino mais para a outra explicação, a explicação que tem a ver com a falta de foco seletiva, apenas em alguns jogos, sobretudo aqueles que se afiguram mais fáceis. Excesso de confiança, portanto. O modo como os leões deram golos de avanço contra o Sp. Braga (0-2 ao intervalo), mas sobretudo contra o Tondela e a Académica, que também marcaram primeiro em Alvalade, tem todos os sintomas do adormecimento coletivo de uma equipa que se viu na frente da Liga e com mais jogos em casa por fazer do que os adversários e que por isso se terá deixado contagiar pelo otimismo permanente do seu treinador acerca das suas próprias capacidades. Se Jesus é capaz de dizer à Marca que o grande problema de Lopetegui em Portugal foi ele próprio, não admira que a equipa, sobretudo uma equipa menos experiente no ataque aos títulos, também entre nos jogos mais fáceis a julgar que não precisa de pôr o pé a fundo para os ganhar. Mas a questão é que precisa. E agora mais do que nunca, porque Benfica e FC Porto vão defrontar-se daqui a duas jornadas e bastará ao Sporting manter a cadência para se afastar em breve pelo menos de um dos perseguidores. In Diário de Notícias, 01.02.2016
2016-02-01
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Último Passe

Quando Jorge Nuno Pinto da Costa e Jorge Jesus estão de acordo acerca de um tema no qual quem fica a rir-se é o Benfica, é caso para se dizer que não estão a fazer favor nenhum e que o que dizem é justo. Acerca do interesse do Benfica em Carrillo, tanto o presidente do FC Porto – que o denunciou – como o treinador do Sporting – que o comentou – disseram o mesmo: Carrillo é profissional e vai para onde se sentir melhor. Mas nestas coisas do futebol-negócio há cada vez menos ingenuidades e convém todos sabermos acerca do que falamos. E do que falamos aqui é também do processo que o Benfica moveu a Jesus. Se perder Carrillo a custo zero, é evidente que o Sporting sai prejudicado pela estratégia que escolheu na abordagem ao tema. Bruno de Carvalho já fez excelentes operações em casos como este, nos quais fez da inflexibilidade negocial uma força, mas haveria de chegar o dia em que encontrava alguém igualmente inflexível do outro lado e sairia a perder. Já perdeu o contributo que o jogador podia ter dado durante a época desportiva – ainda que a sua ausência tenha sido gradualmente mitigada à medida que a equipa encontrou outras soluções – e prepara-se agora para partilhar com o investidor que ajudou a trazer Carrillo para Alvalade a perda do valor do passe. Às duas perdas, pode somar ainda uma terceira: a de ver Carrillo jogar com a camisola de um rival e, ainda, a de eventualmente vê-lo depois ser transferido por bom dinheiro. Mas é evidente que Carrillo tem todo o direito de assinar pelo Benfica. Assim como Jesus teve todo o direito de assinar pelo Sporting. A esse respeito, podemos criar todos os cenários que quisermos, mas ainda que Jesus não tenha sido convenientemente fotografado na mesma rua e no mesmo dia de Bruno de Carvalho, numa data em que já poderia assinar por um novo clube, como aconteceu com Carrillo e Luís Filipe Vieira, fará tanto sentido vir agora o Sporting processar Carrillo pela vontade que este tenha de jogar aqui ou ali como fez o Benfica processar Jesus por se ter mudado da Luz para Alvalade no verão passado. Nenhum sentido, portanto.
2016-01-29
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Último Passe

As informações saídas da Assembleia Geral da SAD do Sporting parecem indicar que os bancos aceitaram prolongar o prazo de pagamento das VMOC contra um ligeiríssimo aumento de juros, abdicando assim do direito de transformar as ditas VMOC em ações e de retirar ao Sporting – clube a maioria do capital da sua SAD. É uma decisão que terá de ser amadurecida – e por isso mesmo Millenium e Novo Banco têm uma semana para a confirmar – e que, se por um lado faz todo o sentido, por outro vem dar razão aos que se queixam de favorecimento da banca aos leões, por oposição ao tratamento dado aos rivais. Resta ver ser estes querem aproveitar a disponibilidade dos novos players que substituíram o BES e a PT. Primeiro, a decisão. O que há, para já, é uma votação unânime na dita Assembleia no sentido de prolongar o prazo de pagamento das VMOC. Não foram anunciadas contrapartidas ou sequer se as houve. Mas causa alguma estranheza que, horas depois de ter feito saber que não ia aceitar o plano de Bruno de Carvalho, o Novo Banco tenha afinal acabado por o viabilizar. A ser assim, sem letras pequeninas no acordo, “chapeau” ao presidente do Sporting, que foi fazendo bluff até final e acabou por abandonar a mesa com as fichas todas. Terá sido um jogo de risco elevado, mas com a noção de uma coisa: que as ações das SAD portuguesas são ativos tóxicos, que dificilmente podem ser rentabilizadas. Afinal de contas, para que queria o Novo Banco ações que desvalorizam a toda a hora? Não lhe convirá mais acabar por receber o dinheiro, nem que seja a dez anos? Essa jogada de antecipação do que ia ser o pensamento da outra parte poderá ter estado na base da jogada de Bruno de Carvalho, que não quis desviar milhões para o pagamento desta dívida e terá acabado por ver a sua tese vingar. O problema é que o Sporting compete com clubes que estão a fazer esse desvio de dinheiro para pagar aos bancos. E, mesmo não sendo a banca estatal e não se colocando aqui uma questão de favorecimento institucional a um clube face aos outros – ainda que o resgate de que foi alvo o BES, titular original do crédito, possa levar a que o caso tenha de ser visto também à luz desta realidade – a verdade é que Benfica e FC Porto têm aqui razão suficiente para se queixarem. A questão é a de se perceber se querem fazer mais do que queixar-se, se querem aproveitar para provocar a renegociação da dívida ou apenas continuar a falar em descriminação positiva dos leões. Com jeito, talvez se verifique com a banca um fenómeno idêntico ao que se viu com as operadoras de televisão, com renegociações de dívida sequenciais em condições favoráveis para os clubes. E aí, sim, passaria a haver dinheiro para o futebol português se tornar mais competitivo no plano internacional. É que a PT e o BES já lá vão, mas o futebol continua uma força incomensurável nos players que os substituíram.
2016-01-08
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Último Passe

Os mais mil e trezentos milhões de euros injetados em três clubes de futebol pelas principais operadoras de TV por cabo nas últimas semanas vieram agitar o futebol nacional e merecem uma explicação. Ao mesmo tempo que os adeptos querem sobretudo ver escrito que o seu clube fez o melhor negócio dos três - seja ele qual for -, essa medição é o que menos me interessa, porque só é feita por quem vê o futebol como um exercício de culto da personalidade, seja ela a de Luís Filipe Vieira, de Pinto da Costa ou de Bruno de Carvalho. Mais interessante é perceber como é que isto foi possível e o que vai acontecer daqui para a frente.É verdade que o panorama de rivalidade fortíssima entre os clubes, que está na génese das tais atitudes de confronto do adepto comum, ajudou a potenciar todos os negócios, porque contribuiu para o crescimento da concorrência: todas as operadoras temem o efeito de rejeição dos adeptos de um clube excluído. Mas a chave destes negócios esteve na decisão tomada há tempos pela autoridade da concorrência, quando impediu a entrada da PT no capital da Sport TV e impôs que os contratos existentes expirassem em 2018, matando a cláusula de preferência que eternizava o domínio exercido pela PPTV de Joaquim Oliveira no direitos de TV do futebol.Se o aparecimento da concorrência e o desaparecimento do intermediário ajuda a explicar de onde veio o dinheiro, já me parece impossível definir quem dos três fez o melhor negócio, porque fruto da tal predisposição para o culto do líder, todos os clubes acabaram por meter mais e mais coisas nos contratos para poderem subir o montante final de cada contrato, que é o que faz manchetes nos jornais e motiva a discussão dos adeptos. Creio que os tempos da gestão irresponsável ds operadoras estão bem lá atrás e que tanto a Nos como a Altisse pagaram um justo valor, não pelo que os direitos valem agora mas sim pelo que poderão valer nos próximos dez anos, com a criação de novas plataformas e o aparecimento em Portugal de realidades como o Pay Per View.Aliás, essa é uma das inquietações que me assaltam neste momento. É que se é mais ou menos claro que até 2018 - até os jogos do FC Porto passarem para a Altice - o futebol vai ficar concentrado na Sport TV, onde a Nos deverá querer meter o Benfica, a dúvida é acerca do que acontecerá depois. Quererá a Altice criar um novo canal de desporto - diz-se até que já está a negociar com outros clubes nesse sentido - para concorrer com a Sport TV? E com os valores que ambos estão a pagar aos clubes, poderão estes dois canais ser rentáveis a médio prazo, tendo só metade do futebol? É que, ainda por cima, apesar de a Liga de Proença estar a falhar o encontro com a história ao perder a oportunidade de centralizar pelo menos as negociações dos clubes além dos três grandes - se 17 jogos de um dos grandes em casa valem 400 milhões por dez anos, 45 jogos dos três fora de casa valerão seguramente mais de mil milhões - ainda há muito dinheiro a gastar para assegurar todo o futebol. E os pequenos têm de entender que nesta guerra não são de todo um verbo de encher.
2015-12-29
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Último Passe

O Sporting perdeu o caso Doyen/Rojo no Tribunal Arbitral do Desporto porque tinha de o perder, porque objetivamente desrespeitou um contrato assinado por responsáveis anteriores do clube. Bruno de Carvalho anuncia que vai recorrer e que continuará a lutar contra aquilo que considera ser um “subsistema opaco” no futebol porque tem de o fazer e porque objetivamente os fundos de investimento fazem mal ao futebol. Uma coisa não invalida a outra. Primeiro, a decisão do tribunal. Sabendo bem o que estava a fazer, o Sporting firmou um acordo com a Doyen para a contratação de vários jogadores, um dos quais era Rojo. As premissas do acordo eram simples e similares às de outros acordos que outros clubes assinam com este e com outros fundos de investimento: os investidores entram com parte do capital necessário à contratação dos ativos e assumem parte do risco ou do lucro. Isto é, se o jogador fracassar – como está a ser o caso de Labyad, por exemplo – já não voltam a ver a cor do dinheiro; se se valorizar, recebem uma percentagem semelhante à do capital investido no valor de uma futura transação. Rojo valorizou-se, foi vendido ao Manchester United e mandava o contrato assinado pela direção anterior que o executivo de Bruno de Carvalho entregasse à Doyen a parte que lhe cabia do bolo. Não o fez e por isso foi agora condenado. Tanto quanto me parece, justamente. Depois, as ações de Bruno de Carvalho. O Sporting não entregou à Doyen a parte que lhe cabia do lucro, em primeiro lugar, porque lhe dava jeito o capital. Como atravessava um período de vacas magras, em que o capital fazia muita falta, fez aquilo que na gíria se chama empurrar o problema com a barriga: usou o dinheiro primeiro, optando por pagar mais tarde, quando os cofres estivessem já mais forrados. Mas não foi só por isso. Pelo meio, Bruno de Carvalho assumiu uma guerra que também é justa e que merece continuar a ser travada. A verdade é que os fundos de investimento – todos eles – fazem mal ao futebol. Porque não se sabe de onde vem o dinheiro e no limite pode haver interesses comuns em equipas diferentes a manipular resultados ou transações inflacionadas ou deflacionadas para proceder à lavagem de capitais vindos de atividades criminosas. Porque abrem caminho a possibilidades de ingerência externa em decisões dos clubes, obrigando-os a comprar ou a vender quando não querem ou até indo ao ponto de estipular quem joga e quem fica de fora. E porque, por fim, ao abrigo da ilusão de estarem a proporcionar acesso a jogadores que de outra forma os clubes não poderiam contratar – sobretudo porque os próprios fundos inflacionam os valores dos passes – estão a contribuir para a descapitalização dos clubes, que qualquer dia já não são donos de nada. Por isso, Bruno de Carvalho faz bem em continuar a luta. Tanto quanto me parece, com razão.
2015-12-21
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Último Passe

Quase todos crescemos a ouvir dizer que Portugal é um país louco por futebol. Vemos os programas acerca de futebol proliferarem nas televisões, as transmissões dos jogos de futebol baterem recordes de audiências. Mas depois chega-se à altura em que percebemos que a esmagadora maioria dos negócios à volta do futebol são deficitários. Os clubes precisam de vender jogadores para pagar salários, os jogadores precisam de emigrar, há jogos com menos de mil espectadores na nossa maior Liga…. Os jornais perdem vendas, não temos uma revista de grande circulação sobre futebol. Tentei durante anos pôr de pé esse projeto, que esbarrou sempre na mesma parede: as marcas não querem associar o nome ao futebol e já se sabe que sem publicidade não há revistas. Parece um contrassenso? Mas não é. É que os portugueses não gostam de futebol. Gostam do escapismo que o futebol lhes permite, da possibilidade que têm de se insultar ao abrigo das rivalidades do futebol. Já todos ouvimos que os portugueses, na verdade, não gostam de futebol – gostam dos seus clubes, aprenderam a gostar da seleção em períodos de sucesso, mas gostam acima de tudo de odiar os clubes dos outros. Só assim se explica que passemos horas de televisão a discutir penaltis, foras-de-jogo, mãos na bola e bolas na mão, intencionalidades ou falta delas e depois não sejamos capazes de aceitar factos ou de debater técnica, tática, estratégia... Essa é, para todos nós, para todos vós, a parte aborrecida. Quando comecei a andar no futebol, antes de as televisões colonizarem as conferências de imprensa com os seus diretos, sempre na busca do “soundbyte”, ainda apareciam perguntas dessas. Depressa foram erradicadas porque não levavam a declarações bombásticas. Por isso, um dia como o de hoje, com queixas do Benfica acerca do Sporting, com queixas do Sporting acerca do Benfica, é o máximo a que podem aspirar os “adeptos” de futebol. Comunicados e contra-comunicados, tiros nos pés e momentos flagrantes de auto-flagelação. Haja animação! O problema é que esta lógica das queixas permanentes – que está no sangue dos portugueses – é a génese de todos os problemas. Do défice à falta de patrocinadores, com passagem pela falta de liquidez. Simpatizo com as ideias de Bruno de Carvalho, como o vídeo-árbitro ou o ataque aos fundos de investimento, mas desagrada-me a vitimização e a pressão permanentes. Simpatizo as atuais ideias de Luís Filipe Vieira, como a discrição em defesa do negócio do futebol, mas aborrece-me que só tenha chegado a elas quando começou a ganhar mais vezes do que as que perdia. Simpatizei com a eleição de Pedro Proença, por ser alguém que conhece o futebol profissional de altíssimo rendimento por dentro, mas chateia-me que ainda não tenha posto mão no problema. É que, no fundo, os portugueses não são loucos por futebol. São só loucos.
2015-12-01
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Último Passe

Quando Julen Lopetegui disse, recorrendo à mais fina ironia que em tempos fez escola no FC Porto, que a sua equipa devia ser a única da Europa que ainda guardava em segredo o nome do seu especialista em penaltis, estava a mostrar duas coisas. Um maior conhecimento da realidade do futebol português, onde facto e opinião se misturam de forma indisfarçável, e a noção de que o vazio deixado pelo maior recato recente de Pinto da Costa tem de ser ocupado por alguém para entrar no jogo que Sporting e Benfica estão a disputar. Portugal está muito longe da realidade que serve de base aos manuais de jornalismo, onde os factos são a base de tudo e podem ser lidos de forma impoluta. Em Portugal, quem consome informação sobre futebol está amplamente colonizado pelas diatribes radicais dos programas de comentadores-adeptos e não é capaz de separar o facto da opinião. A ironia de Lopetegui tem essa noção como princípio orientador. O facto é que o FC Porto ainda não teve penaltis a favor na Liga. A opinião é a de que o FC Porto está a ser prejudicado, porque o Benfica já tem um e o Sporting soma cinco. Só que os factos não são só estes. Primeiro porque o FC Porto não é a única equipa da Liga sem penaltis a favor – há mais sete nessas condições. Depois porque FC Porto e Benfica são duas das oito equipas que também não têm nenhum penalti contra (e o Sporting, por exemplo, já tem dois) e isso não quer dizer que estejam a ser beneficiados. Porque ao contrário do que acontece nos programas de segunda-feira à noite, um facto é um facto e uma opinião, podendo ser nele baseada, é uma opinião. Nada mais… Outra questão prende-se com a razão que leva Lopetegui a entrar neste jogo – e essa tem a ver com aquilo que Rui Vitória disse no final do dérbi da Taça de Portugal. É que, tal como o técnico do Benfica, o treinador basco também não quererá “ser comido de cebolada”. Ora este é mais um plano em que o futebol nacional funciona como prolongamento dos programas de segunda-feira, onde quem fala mais alto e radicaliza mais o discurso é quem ganha. Só que aqui, até ver, FC Porto e Benfica estão a correr atrás, a reagir ao Sporting. Jorge Jesus nem precisa de falar do assunto, de se meter com o lado negro da força, porque Bruno de Carvalho e Octávio Machado têm feito todo o trabalho sujo. No Benfica, Rui Costa foi o primeiro a dizer alguma coisa, mas só o fez na viagem a Astana, depois de Rui Vitória ter sido lançado à fogueira na sequência da derrota de Alvalade. No FC Porto, que foi onde este “jogo” foi inventado, o silêncio impera e só é rompido de quando em vez pelo boletim “Dragões Diário”. O futebol seria muito melhor sem estas guerras. Disso não tenho dúvidas, da mesma forma que não tenho certeza de que a pressão dê frutos e se reflita em benefícios. Mas que Benfica e FC Porto estão próximos do Sporting aristocrático de outrora, onde Paulo Bento tinha de fazer a guerra sozinho, ao passo que em Alvalade se recorre às armas que outrora celebrizaram Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, disso já não me restam dúvidas nenhumas.
2015-11-27
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Último Passe

Quando há dias aqui defendi um papel mais proactivo da Liga no combate aos problemas que afetam o futebol nacional estava longe de antecipar uma tarde tão intensa como a vivida hoje pela Comissão de Instrução e Inquéritos. Os visitantes foram tão ilustres e incompatíveis que só faltou transformar a sede do organismo de acordo com as normas arquitetónicas de um qualquer consultório de psicologia clínica, para evitar que eles se cruzassem. Só hoje por lá passaram Luís Filipe Vieira, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus – e alguns outros podiam ter lá dado um salto também. A questão é que, além de ser um empecilho – Vieira, a crer nas palavras de Rui Gomes da Silva, não pôde ir à Guiné Bissau, ao passo que Bruno de Carvalho e Jesus também terão coisas mais importantes para fazer – não vai ser a ouvir que a Liga lá chega. Há questões de procedimento, nada moderno para um desporto que se considera na vanguarda, e fazer os protagonistas correr meio país para lhes fazer perguntas de resposta óbvia é uma delas. Jesus terá então dito de onde conhece o árbitro Jorge Ferreira. Dos campos de futebol? A sério? Bruno de Carvalho terá sido questionado acerca das acusações que fez ao Benfica sobre o “vouchergate”? E não adiantou mais do que tudo o que já tinha dito no programa Prolongamento há um mês – um mês, veja-se a rapidez processual… – ou nas dezenas de intervenções que se seguiram? E Vieira terá sido questionado acerca das razões que levam o Benfica a oferecer os vouchers aos árbitros? E disse que era uma questão de cortesia e de bem-receber? Palavra de honra? Para cúmulo, os árbitros ouvidos também acham que as ofertas que recebem dos clubes não lhes toldam o discernimento, nem em campo nem no momento de escrever os relatórios? E isso é a resposta de agora e também a que darão se entretanto descerem de divisão? De certeza? Nem vale a pena dizer que nada disso me conforta, porque nem assim houve um único membro da equipa de arbitragem liderada por Cosme Machado a ver Lito Vidigal confrontar Naldo antes de este o empurrar para fora de campo, o que terá estado na origem da leveza do castigo ao treinador do Arouca. E não sei o que me preocupa mais. Se é que esta Comissão se leve tão a sério que ache que tem de convocar estas mini-cimeiras para ouvir respostas óbvias, que qualquer comentador engajado das segundas-feiras à noite daria, ou se é que mais ninguém faça nada para mudar isto. Vai-se a ver e no fim ficam todos amigos e vão almoçar juntos. Seja com vouchers ou senhas de presença.
2015-11-11
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Último Passe

Luís Filipe Vieira tem razão quando pede a Pedro Proença que aja. O futebol português já tem problemas suficientes para ainda andar constantemente a dar tiros nos pés, a espantar os potenciais patrocinadores com o levantamento de suspeitas. Sei do que falo. Já há 20 anos que defendo a aplicação de uma regra semelhante à que vigora em Inglaterra muito antes da Premier League, em que quem “provoca má reputação ao futebol” é severamente punido. Já o defendo desde o meu início de carreira, ligado ao futebol internacional, ainda Bruno de Carvalho andava na Juventude Leonina, ainda Luís Filipe Vieira estagiava no Alverca para vir a ser presidente do Benfica. Bruno de Carvalho, de facto, resiste mal aos microfones, às luzes das câmaras, que o levam sempre a passar à ação. Tem abusado do tempo de antena, e isso nota-se sobretudo quando não tem nada de novo para dizer, quando vem ofuscar aquilo que os jogadores vão conseguindo no campo. Mas se lhe condeno o repisar permanente do assunto, já não posso condenar as revelações que fez. Porque não sou eu quem tem de distinguir entre a oferta dos jantares aos árbitros, a fruta e o café com leite ou as máquinas fotográficas dadas noutros tempos. Não sou eu quem tem de dizer se uns devem descer de divisão e outros não. Já aqui escrevi aquilo que acho: não me interessa se as ofertas levam diretamente a benefícios, se são mais ou menos valiosas, mas nenhum clube devia oferecer aos árbitros nada que não tenha a ver com a tarefa que eles estão a desempenhar. E por isso acho que Vieira tem razão quando pede a Proença que aja. O presidente da Liga já devia ter agido para perceber realmente o que se passa ou passou e punir os prevaricadores, se tal se revelar justo. Só a Liga, através dos seus órgãos disciplinares, poderá estipular se o que se passou agora é ou não grave e que castigos deve ou não merecer. Andar um presidente de clube constantemente a dizer que ouro deve descer de divisão não é positivo. Como o não era ter o canal de televisão de outro clube a repetir “ad nauseam” as escutas do Apito Dourado, quando o seu presidente achava que ainda era preciso credibilizar o futebol nacional. Sim: um dos problemas do futebol português é que toda a gente tem rabos-de-palha e ninguém se queixa quando ganha. E alguém tem mesmo de agir, de fazer um risco no chão e dizer: “a partir de agora, chega!” Pode ser Pedro Proença. Mas se quer mesmo conduzir esta locomotiva, tem de a pôr em andamento. E vai-se fazendo cada vez mais tarde.
2015-10-29
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Último Passe

O dia seguinte ao dérbi ficou marcado por comportamentos antagónicos de Benfica e Sporting face àquilo que se passou em campo. No Benfica, a resposta dos responsáveis às inúmeras manifestações de descrença de adeptos mais ou menos ilustres foi o silêncio. No Sporting, Bruno de Carvalho não resistiu a cavalgar a onda do sucesso com uma declaração. Nada contra uma coisa nem outra. Mas eu faria tudo ao contrário. As cinco derrotas em onze jogos oficiais que o Benfica de Rui Vitória apresenta não são um bom cartão de visita. O campeonato não está perdido, mas está muito mal encaminhado. Claro que o Benfica pode arrepiar caminho, como fez o Sporting de Bölöni em 2001/02, quando perdeu três vezes nas primeiras oito jornadas e ainda chegou ao título, mas os sinais de instabilidade que a equipa apresenta não o prenunciam. E perante isto, não seria má ideia a administração vir agora reafirmar a ideia que teve para o clube, partilhar um pouco o mau momento com o treinador, de forma a diminuir a pressão em cima dele. Não falo de um voto de confiança no treinador, pois acredito que sempre que um presidente dá um voto de confiança público ao técnico é porque na verdade desconfia dele. Falo, isso sim, de uma manifestação clara do que o Benfica quer para o seu futebol e da concentração de energias no apoio à ideia que presidiu às escolhas que fez. Porque a sensação que fica é que na administração anda tudo obcecado com Jesus e que isso não só diminui Rui Vitória como leva a que ele próprio tenha de enfrentar esse fantasma no dia-a-dia, deixando de fazer aquilo em que acredita para fazer aquilo que acha que Jesus não faria. No Sporting, o momento é de euforia e o caso não é para menos. Os leões ganharam na Luz por números que já não aconteciam desde o tempo dos Cinco Violinos e voltaram à liderança da Liga de forma isolada. Jorge Jesus optou pela abordagem discreta e fez bem, ainda que boa parte do que disse e fez durante o jogo, quando evitou os festejos excessivos que podiam ser vistos como provocatórios, possa ser ameaçado por uma simples declaração: a de que podia “deixar Rui Vitória deste tamanhinho”. Os líderes querem-se discretos na hora da vitória e Jesus já foi apanhado suficientes vezes no pecado da soberba para o saber. Bruno de Carvalho é que não resistiu ao comunicado a pontuar o momento. Tê-lo-á feito apenas para agradecer o apoio dos adeptos que estiveram na Luz? É possível. E sabendo-se como a sua liderança é tão próxima das massas é até muito compreensível e defensável, por não ter ultrapassado limites e ter mantido um discurso sempre equilibrado. Ainda assim, a ideia que fica é a de quem não resistiu a chamar a atenção, a dizer “também lá estive”. Como se isso fosse preciso e se o facto de estar a endireitar o clube e a devolvê-lo às grandes decisões só valesse de alguma coisa se o mérito lhe for constantemente reconhecido.
2015-10-27
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Último Passe

O Benfica teve muita sorte na forma como viu a UEFA suspender a pena de um jogo à porta fechada devido às tochas lançadas pelos seus adeptos na direção dos espectadores do Atlético de Madrid, na segunda ronda da Liga dos Campeões, no Vicente Calderon. A opinião não é só minha: manifestaram-na ontem José Ribeiro e Castro e Gaspar Ramos. E se isso não chegar para os radicais, céleres a falar daqueles ex-dirigentes encarnados como oposicionistas, foi também o que presidiu à condenação imediata dos incidentes por parte de Luís Filipe Vieira. Uma condenação que terá sido fulcral na leveza assumida pela pena. O problema é que falar não basta. A lógica de confrontação existente no futebol nacional de há muitos anos a esta parte, e que neste momento tem o Benfica de um lado e o Sporting do outro, acabará por conduzir a novos problemas, mais cedo ou mais tarde. Do lado do Benfica acusa-se Bruno de Carvalho e o seu discurso hiper-belicista pela escalada do confronto. Com razão. Mas do lado do Sporting acusa-se a estrutura encarnada de fazer o trabalho sujo que permite a Vieira manter a pose de estadista e não se manifestar. E igualmente com razão. Nesta guerra não há quem tenha as mãos limpas. Há excesso de risco nas sucessivas intervenções de Bruno de Carvalho, muitas delas a roçar a piromania furiosa, e que pelo estilo populista têm tido o suporte da maioria dos sportinguistas. Mas tem havido também silêncio a mais de Luís Filipe Vieira na forma como, por exemplo, o Benfica é há anos convivente com a atuação das suas claques, que nunca se legalizaram no IPDJ mas nunca deixaram de ter apoio do clube, mesmo que ele não seja assumido. O derbi de domingo até pode acabar sem incidentes. Espero que sim. Mas se assim for, o mérito há-de ser da polícia ou do bom-senso de quem for ao estádio. Porque o que há por aí mais é gente a contribuir para a confusão em nome de outros interesses.
2015-10-20
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O Benfica não reagiu oficialmente às acusações lançadas por Bruno de Carvalho sobre as ofertas que alegadamente faria a árbitros, mas fontes do clube já se desdobraram em esclarecimentos destinados a desdramatizar a situação. Que a caixa só tem um custo de produção de 24 euros, aos quais se somam as entradas no Museu Cosme Damião e os jantares no Museu da Cerveja, mas que de qualquer modo o total respeita os limites máximos impostos pela UEFA, que é de 200 francos suíços, algo como 183 euros. Acredito. Mas não me chega. O presidente da APAF, José Fontelas Gomes, apressou-se a vir defender a classe, garantindo que nenhum dos seus membros aceitava ofertas que fossem além dos tais 183 euros. Percebo. Mas também não me chega. Porque a diferença entre cortesia e corrupção não está no valor da oferta mas sim no princípio. Nunca decidi jogos, como podem inadvertidamente fazê-lo os árbitros, mas sempre tive como muito claro que as minhas responsabilidades como jornalista não me permitiam aceitar ofertas de dirigentes de clubes, jogadores, treinadores ou empresários. E poucos saberão como me era sempre difícil explicar a familiares e amigos próximos as razões pelas quais não podia pedir sequer bilhetes para ir ver este ou aquele jogo, que já tinha lotação esgotada, mesmo que me oferecesse para os pagar – porque do outro lado podia sempre vir uma resposta como o “deixe lá estar isso: um dia destes faz-me um favor a mim”. A verdade é que nunca fiz pedidos desses e que jamais os farei. Porque a última coisa de que precisaria era de que um dia alguém me viesse recordar que uma vez lhe tinha pedido um bilhete para ir à bola, comido um almoço à conta ou aceite uma lembrança. Ora se isso é válido para mim, que – repito – não decido jogos, muito mais devia sê-lo para os árbitros, que com azar até podem fazê-lo. É verdade que, por tradição, vários clubes fazem ofertas a árbitros há décadas. É uma questão de cortesia, alegam. Mas mais do que ir buscar o limite máximo de euros que a UEFA impõe, o presidente da APAF devia ter sido claro nas indicações a dar aos seus homens: não há razão nenhuma para que essas ofertas, mesmo sendo legais, sejam aceites por agentes que já são relativamente bem pagos para cumprirem as suas tarefas de modo profissional. Da mesma forma que não há razão nenhuma para que os clubes pensem em oferecer aos árbitros presentes cujo valor se aproxima da metade de um salário mínimo. Porque ninguém oferece presentes a juízes do tribunal antes de uma audiência. E porque não se pode bradar pela verdade desportiva, condenar a “fruta” e o “café com leite” e depois ser assim tão cortez com os árbitros. É que às vezes mais vale ser bruto.
2015-10-06
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A presença do presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, no programa “Prolongamento”, da TVI24, onde tem cadeira o adepto benfiquista Pedro Guerra, agitou o panorama futebolístico nacional mas não por ali terem sido feitas revelações bombásticas ou por se terem esclarecido casos importantes. Na verdade também ninguém estava à espera que isso acontecesse. Nem Bruno de Carvalho, que aceitou sentar-se a debater com o mais retorcido dos “adeptos públicos” do rival, só para o menosprezar, excluindo-o várias vezes da conversa; nem Pedro Guerra, que sabia que entrava num combate desigual, por estatuto e até por deferência da estação televisiva para com o convidado, no qual o mais que podia fazer era agitar os braços atrás de resmas de papel e gritar as frases de propaganda com que tem feito carreira mediática; nem a própria TVI, que tinha a obrigação de saber que isto ia acontecer e apenas terá visto no programa a aproximação mais próxima possível aos “reality shows” com que tomou de assalto as tabelas de audiências. Uma “Quinta dos Presidentes”. A motivação de Bruno de Carvalho para estar ali era clara. Defender o Sporting, defender-se a ele próprio do ataque que tem vindo a ser conduzido pelo site “Football Leaks” – e nunca como hoje o Sporting e o seu presidente são tantas vezes confundidos, pelo uso repetido da primeira pessoa do singular por parte deste quando fala do clube – e meter na ordem o agitador Pedro Guerra. Podemos achar que um presidente do clube não devia colocar-se a este nível e ir debater com alguém que nem sequer é dirigente mas sim assalariado do rival, mas na verdade tanto Pinto da Costa como Luís Filipe Vieira o fizeram em tempos, antes de assumirem a atual pose de estadistas. Já várias vezes disse que o que me separa de Bruno de Carvalho não são tanto as ideias – já defendo o vídeo-árbitro e considero os fundos de investimento uma ameaça à transparência do futebol muito antes de Bruno de Carvalho ter sido eleito – mas sim o estilo, a forma populista como o presidente do Sporting usa a linguagem mordaz e desrespeitosa para garantir o apoio das faixas mais radicais de adeptos do clube. E ao aceitar sentar-se num programa onde está Pedro Guerra, Bruno de Carvalho não podia presumir que ia falar apenas com o moderador, Joaquim Sousa Martins. Como não presumia, de facto. Bruno de Carvalho foi ao prolongamento para esvaziar Pedro Guerra – e nisso esteve o seu equívoco. Porque os sportinguistas acharão hoje que o fez muito bem – com o bónus do seu próprio momento Football Leaks, que foi a caixa com as ofertas do Benfica aos árbitros, vindo de um remetente “anónimo” – e os benfiquistas acharão que o fez muito mal. Os neutros é que ficaram todos na mesma. Já Pedro Guerra tinha razões para sentir orgulho no que estava a acontecer-lhe. A atualidade colocou-o para Bruno de Carvalho como em tempos esteve João Malheiro para Pinto da Costa, com a vantagem de poder debater cara a cara, coisa que sempre esteve vedada àquele. Ao contrário de Malheiro, Guerra é um super-preparado obsessivo, faz-se acompanhar de dezenas de dossiers, conhece-os a todos com minúcia, mas a verdade é que nem o curso de direito e a oratória de tribunal lhe garantem o apoio popular entre benfiquistas que tinha o diretor de comunicação da voz de trovão. De Pedro Guerra separa-me muita coisa, das ideias ao estilo. A começar pelo facto de já ter mentido a meu respeito na televisão sem eu lá estar para me defender e a terminar na constatação de que a dureza das suas certezas absolutas não tem correspondência na facilidade com que as altera: basta uma visita rápida à internet para ver o que disse em momentos diferentes acerca de Jorge Jesus, desde a sua não-aposta na formação até ao seu comportamento enquanto cidadão. Guerra não ganhou o debate, mas também nunca poderia ganhá-lo, porque o campo estava naturalmente inclinado a favor do convidado, que era quem tinha de falar e cedo se recusou a falar com ele diretamente. O mais que podia fazer era o que fez e que faz sempre: levantar suspeitas e depois, impedido que estava de as concretizar por respeito do moderador do programa ao convidado, queixar-se dele, do árbitro, que o impedia de se adiantar no marcador. No fundo, Pedro Guerra esteve para o “Prolongamento” como os sportinguistas estão para o “sistema” quando perdem jogos no campo. Quem já lhe apreciava o estilo vai achar que ele fez bem o seu papel, quem não se revê nele encontrou ali mais do mesmo. Por fim, a TVI queria audiências e certamente deve tê-las tido, pois o programa foi “trending topic” nas redes sociais. Alegarão os mais puritanos que não houve esclarecimento, mas contar com isso era um pouco como ver a “Casa dos Segredos”, o “Big Brother” ou “A Quinta das Celebridades” em busca de elementos credíveis para uma tese acerca de comportamento humano. Não era esclarecimento que estava prometido. Era confronto, era um “reality show”. E qualquer telespectador que venha agora fingir que não sabia disso está a ser tão retorcido como os participantes naqueles programas de adeptos, para quem a verdade é uma coisa manejável. Porque, como dizia o Dr. House acerca dos religiosos fervorosos, “se fosse possível discutir razoavelmente com adeptos radicais, não haveria adeptos radicais”.
2015-10-06
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O caso Football Leaks tem abalado o futebol português – e não é caso para menos. Em menos de uma semana saltaram para a esfera pública mais documentos privados do que nas últimas três ou quatro décadas. E isso é digno de notícia. Talvez quase tanto como o é aquilo que esses documentos mostram. Salvaguardadas algumas diferenças, o football leaks é quase uma repetição do caso “off the record”, que à conta do carimbo na inscrição do zairense N’Dinga pelo V. Guimarães agitou as hostes futebolísticas nos anos 80. Com uma diferença. É que no “off the record”, toda a gente sabia quem estava atrás da divulgação da notícia: era o Record, tinha um diretor e um chefe de redação legalmente responsabilizáveis. À partida, quem tem mais a perder com tudo aquilo que o football leaks tem vindo a revelar é Bruno de Carvalho. Há ali documentos comprometedores para posições radicais assumidas pelo presidente do Sporting. Não é o ordenado de Jorge Jesus nem outras minudências da chicana político-desportiva, que serviram apenas de chamariz – o bom português saliva quando lê a palavra “milhões” – mas sim o envolvimento do Recreativo de Caala na contratação de jogadores como Bruno Paulista ou a recente troca de SMS entre Marco Silva e Augusto Inácio a propósito da reunião a que o treinador alegadamente teria faltado. Não há ali nada de ilegal, esclareça-se. Mas há posições muito próximas daquilo que Bruno de Carvalho tanto tem criticado acerca dos fundos de investimento – e de nada servirá chamar-lhes parcerias, porque aquilo que outros clubes têm com a Doyen ou a Meriton é também algo semelhante. E sobretudo há o desmoronar de muitas acusações feitas a outros agentes, contribuindo para descredibilizar a “guerra santa” que Bruno de Carvalho tem movido à esquerda e à direita. Posto isto, e não pretendendo nem por um segundo diminuir ou duvidar de tudo aquilo que o football leaks tem vindo a divulgar, a mim interessa-me também outro aspeto do terramoto, que é a origem da informação. O football leaks é um site com domínio registado na Rússia, não se sabe (possivelmente nem se saberá nunca) por quem. Quem divulga as informações não tem rosto, o que quer dizer que não pode ser responsabilizado por elas nem merece a mesma credibilidade que qualquer jornal que publique ao abrigo da lei de imprensa ou qualquer jornalista que respeite os códigos éticos da profissão. Dir-me-ão que isso é irrelevante, numa altura em que a maior parte da informação já circula através de agregadores ou das redes sociais, que promovem réplicas instantâneas de qualquer rumor. Que nestes tempos o consumidor de informação já tem de ser capaz de discernir acerca da credibilidade das fontes. É verdade. Mas o meu ponto é outro. E passa por uma pergunta que qualquer jornalista principiante tem de fazer sempre que tem uma notícia em mãos: a quem interessa a publicação? Porque se Bruno de Carvalho tem sido indiscriminado e muitas vezes injusto na sua “guerra santa” – e sei do que falo – neste caso apanha pela frente com snipers não identificados e especialistas em “guerra de guerrilha”. Em tempo de guerra vale tudo? Há quem diga que sim. Ainda assim, não duvido que ambos os lados passaram muito as marcas da beligerância aceitável.
2015-10-02
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Toda a gente viu nas declarações de Jorge Jesus, a dizer que está “100 por cento ao lado do presidente” nas decisões que este toma na defesa dos interesses do Sporting, uma manifestação de sintonia total entre ele e Bruno de Carvalho. É verdade. Mas aquelas declarações, na verdade, nem seriam necessárias porque, conforme disse entretanto o ex-candidato à presidência dos leões José Dias Ferreira “quem manda é o presidente, não é o treinador”. E como diz o ditado, “manda quem pode, obedece quem deve”. As declarações de Jorge Jesus acerca do caso Carrillo têm, assim, outro alcance. Por outras palavras, o que Jesus disse foi: não fui eu que afastei Carrillo. Fosse o treinador outro e já aqui se encontrariam motivos mais do que suficientes para se especular acerca de uma alegada falta de solidariedade do treinador para com os interesses do clube, de um “sacudir água do capote” próprio de quem não quer assumir esses mesmos interesses superiores. A verdade é que uma coisa é ser solidário e outra é ser responsável. No caso Carrillo, ao ser solidário, Jesus está a dizer que não é responsável. E que a responsabilidade tem de ser assumida por outros – os que mandam. E a verdade, também, é que estando eu convencido de que o Sporting não ganha nada com o afastamento de Carrillo, tenho a certeza absoluta de que com o que não ganha mesmo é com o eternizar deste caso no espectro mediático. De onde ele só vai sair quando tudo for claro. É por isso que, depois de Jorge Jesus ter sido claro ao dizer que é solidário – e por inerência não é responsável – alguém devia clarificar a situação. Porque as perguntas não vão desaparecer. E porque enquanto não houver respostas o “ponto final” que o treinador quis colocar na polémica vai sempre soar a reticências. 
2015-09-22
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Um golo de Montero, após jogada de Carlos Mané, pôs termo à resistência heroica de um Nacional a jogar com dez homens desde a meia-hora e deu ao Sporting a primeira vitória em casa nesta Liga e a possibilidade de se colar ao FC Porto na liderança da tabela, quatro pontos à frente do Benfica. Foi, simultaneamente, a primeira vitória dos leões desde a eclosão do caso-Carrillo, o extremo peruano que vinha sendo a maior arma ofensiva da equipa e que ontem viu a partida num camarote por não ter aceite renovar contrato. E do jogo veio uma chamada de atenção para Jorge Jesus: Montero e Mané pedem mais minutos em campo. Mais ainda se Carrillo não voltar. O primeiro zero na baliza de Rui Patrício nesta Liga teve a ver com o facto de a equipa de Manuel Machado se ter visto privada de um homem ainda na primeira parte, por expulsão de Sequeira, o que lhe reduziu o potencial de ataque, mas também com a diminuição da vertigem atacante do Sporting no jogo. Continuam os movimentos dos alas em sentido contrário à linha do fora-de-jogo, na busca do espaço nas costas das defesas adversárias, vê-se ainda a enorme projeção ofensiva dos dois laterais, mas o Sporting que enfrentou o Nacional parecia ter acusado o 1-3 contra o Lokomotiv e por isso mesmo temer desequilibrar-se. Tudo somado ao facto de o Nacional ter encostado as duas linhas defensivas mais do que o normal – reduzindo assim o espaço entre elas – resultou num futebol ofensivo muitas vezes inconsequente dos leões, que giravam a bola, cruzavam, mas não conseguiam ocasiões claras de golo. E é aqui que entram Montero e Mané. Gelson é a grande coqueluche dos adeptos leoninos, mas o seu futebol mais feito de drible, procura de linha de fundo e cruzamento não me parece neste momento mais indicado para a equipa que o jogo de Mané, mais prático e com mais golo nas botas. Teo Gutièrrez foi uma das aquisições mais sonantes desta época, mas continua a parecer um pouco perdido em campo em vez de ocupar os espaços que o jogo vai pedindo, como faz Montero. Por alguma razão, os dois golos que o Sporting fez nos últimos dois jogos nasceram de penetrações de Mané, a que se seguiram finalizações irrepreensíveis de Montero. Ontem, foi graças a eles que o Sporting ganhou e evitou um problema maior para o presidente, que teria maior dificuldade em convencer os sportinguistas não brunistas de que a decisão de afastar Carrillo da equipa não se destina apenas a salvar a própria face no infeliz epílogo de um caso que há muito devia estar resolvido. E foi graças a eles também que Jesus pôde manter a tranquilidade no final da partida, quando teve de justificar a decisão de manter Carrillo de fora.
2015-09-21
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Quando se trata de futebol, a opinião em Portugal tem uma tendência irreprimível para os tiros ao lado. Anda muita gente a fazer barulho com o novo cartão de sócio do Benfica, que custa cinco euros, como vai andar muita gente a protestar porque Bruno de Carvalho pode duplicar o salário de presidente da SAD do Sporting para os 10.500 euros brutos mensais. Na verdade, por muita razão que possam ter aqueles que contestam estas medidas, ambas as questões são irrelevantes. A responsabilização deve ser feita pela positiva. Os cinco euros por sócio podem ser uma cobrança compulsória, mas quem gosta verdadeiramente do seu clube não pode importar-se assim tanto com isso. Uma duplicação salarial de um momento para o outro pode parecer um abuso de poder ou de posição dominante, mas aquilo que não faz sentido é que um presidente possa receber menos ao fim do mês do que um qualquer ex-júnior que dê os primeiros passos no plantel. Se é dele que emanam as maiores decisões que o clube tem de tomar, o mais normal é que tenha um salário a condizer, pois o futebol profissional de alto rendimento não pode ser entretenimento para milionários com muito tempo: tem de ser uma atividade reservada aos mais capazes. O que não é normal nem coerente com esse caminho é que venham a instaurar-se processos a quem erra, como pode vir a ser o caso dos líderes leoninos que já deixaram o cargo. Porque por maior que seja o salário do presidente, há sempre uma certeza: ele cometerá erros. E não é por, tal como foi ontem sublinhado por Marco Silva em entrevista ao Record, Jorge Jesus ter subscrito todas as decisões tomadas na época passada pelo então treinador, abdicando dos jogadores a quem este já tinha dado poucas ou nenhumas oportunidades, que Bruno de Carvalho merecerá que um dia, quando a maré mudar, lhe instaurem um processo, por ter tomado más decisões de mercado.Pelo contrário: merece que, tal como deve vir a ser aprovado em AG, lhe aumentem o salário; merece que a posição que ocupa seja mais dignificada, para que cada vez mais seja a competência - e menos o tempo livre - a definir quem se senta naquela cadeira. E nesse aspeto, apesar de tudo, Bruno de Carvalho está com saldo claramente positivo.
2015-09-09
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