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As diferentes reações que se têm visto à chegada do vídeo-árbitro ao futebol português têm a ver, sobretudo, com a incapacidade de entender aquilo que o vídeo-árbitro é ou pode ser por parte de mentes excessivamente tradicionalistas ou bloqueadas por um grave défice de cultura desportiva. O vídeo-árbitro é um meio auxiliar de diagnóstico, não é uma forma de acabar com o erro numa área onde muitas vezes impera a subjetividade. É uma forma, isso sim, de ajudar a impedir injustiças, não uma forma de acabar com elas ou com a polémica em torno delas. Porque a polémica não tem nada a ver com a arbitragem, mas sim com a tal falta de cultura desportiva, que é o que em Portugal – e em poucos países mais – gera tanto ruído em torno dos casos de arbitragem. No limite, aos céticos, respondo sempre com o râguebi, onde o TMO (Television Match Official) já impediu erros grosseiros e onde a dinâmica de interação entre jogadores, árbitros e vídeo-árbitros está tão bem oleada que passou a ser um espetáculo dentro do espetáculo. E é nessa altura que me respondem: “Mas queres comparar o público do futebol com o do râguebi?”. E eu digo: claro que sim! A ideia segundo a qual o futebol nunca poderá seguir o exemplo do râguebi nesta matéria por haver muito em jogo cai pela base quando se verifica que o TMO funciona – e bem – em competições como o Campeonato do Mundo, o Torneio das Seis Nações ou a Taça dos Campeões Europeus. Nestas competições, já vi ensaios irregulares serem anulados pelo TMO, não apenas pela conclusão, mas também por se detetar uma irregularidade lá mais atrás, tal como já vi questões disciplinares serem resolvidas com justiça pelo mesmo TMO. A dinâmica dos dois jogos não é assim tão diferente, ou não tivessem eles nascido da mesma base – as regras das duas modalidades eram as mesmas até meados do século XIX, quando se deu a separação entre os que permitiam que se agarrasse o adversário e se transportasse a bola nas mãos e os que o impediam. Se na altura houvesse programas de TV com adeptos dos diferentes clubes, imagino o que não se diria a respeito deste corte com a tradição. Não havendo, admito que a reunião decisiva para a cisão, na mítica Freemason’s Tavern, tenha sido preenchida com frases como “O futebol nunca mais vai ser o mesmo” ou “estão a destruir o futebol”. E a verdade é que tanto o futebol como o râguebi prosperaram. Foi por essa altura que nasceu o famoso aforismo segundo o qual “o futebol é um jogo de cavalheiros jogado por brutos e o râguebi um jogo de brutos jogado por cavalheiros”. Não tem de ser assim, no entanto. Nos círculos do râguebi, contam-se outras piadas, como as que marcam a diferença entre os jogadores das duas modalidades: no futebol rebolam no chão e dizem que estão lesionados quando estão de perfeita saúde, enquanto que no râguebi tentam convencer o árbitro e o treinador de que estão bem quando na verdade estão lesionados. E isto também não tem de ser assim. A questão é que nem tudo tem a ver com formação. Há aqui muito de ética, é verdade, mas muito de ação, também. E neste aspeto quem tem de aprender são as hiper-profissionais estruturas que governam o futebol, que ganhavam tudo em deixar de apostar no secretismo como arma. Podia aqui encher-vos a paciência com histórias acerca do “fruto proibido” e de como ele é o mais apetecido, mas prefiro dar o exemplo positivo: há pouco mais de um mês fui a Twickenham assistir ao vivo ao Inglaterra-Escócia que permitiu à equipa inglesa assegurar, a uma jornada do fim, a segunda vitória consecutiva no Torneio das Seis Nações. À entrada, quem quisesse, podia levar um mini-transistor. E não era para ouvir o relato: era, sim, para ouvir as conversas entre o árbitro de campo e o TMO. Para compreender as decisões, portanto. É nesse sentido, também, que as decisões são expostas à apreciação popular com repetições esclarecedoras nos ecrãs gigantes dos estádios. Ouvimos o árbitro dizer o que se passou e podemos ver que realmente se passou. É verdade que o fanatismo leva muita gente a ver o que não está lá e a ignorar o que qualquer mente sã é capaz de ver. Mas não terá sido essa a razão principal pela qual a FIFA deu em tempos indicações aos organizadores de jogos para que não sejam difundidas repetições nos ecrãs gigantes. Isso terá sido para que o público, os jogadores e até os próprios árbitros não possam aperceber-se de que estes últimos se enganaram de forma grosseira. E até isso o vídeo-árbitro pode impedir.  
2017-05-07
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Último Passe

Por mais voltas que os profissionais da confusão queiram dar ao assunto, a adoção do video-árbitro em Portugal um ano antes do previsto por iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol é uma excelente notícia. Não vai resolver os problemas relacionados com a arbitragem no futebol português, porque esses, mais do que com a arbitragem propriamente dita, têm a ver com o gritante défice de cultura desportiva de que sofre a maior parte dos agentes envolvidos. Não vai acabar com o erro nem com a discussão e com a polémica, porque a arbitragem é, em si, um exercício de subjetividade. Mas vai ser uma grande ajuda na diminuição dos casos mais gritantes de injustiça, porque fornece um meio extra de diagnóstico a quem, por agora, é forçado a decidir com menos certeza do que a que tem o telespectador confortavelmente sentado na poltrona lá de casa. E pode ser uma porta aberta para que se sigam outros caminhos de modernidade que a estrutura do futebol nacional precisa de assumir. As objeções vão começar a poluir o espaço mediático em breve, da mesma forma que já poluem as timelines das mais diversas redes sociais. Logo no primeiro dia, já se falou de muita coisa. Que é frequente os árbitros que opinam em painéis de opinião dos diversos meios de comunicação estarem em desacordo. Que as interrupções vão tornar os jogos aborrecidos. Que o erro é o sal e a pimenta do futebol – esta então é de bradar aos céus. Que têm de ser estabelecer as condições exatas nas quais o vídeo-árbitro poderá ser chamado a intervir, para definir o que se faz com jogadas que se sigam a outras que tenham sido interrompidas tardiamente. Que se criará uma confusão enorme sempre que o árbitro quiser inverter uma decisão do árbitro de campo. Que isto vai ser uma confusão porque há campos onde não há condições perfeitas. Ou que não é justo que se aplique no futebol de topo enquanto não estiver a vigorar também nos escalões inferiores – afinal as regras devem ser iguais para todos. Para todas estas objeções há resposta. Os especialistas divergem porque a arbitragem não é uma ciência exata e do que se trata não é de erradicar o erro, mas sim de criar condições para que ele seja menos frequente. A demora nascida das interrupções não tem de ser aborrecida e – vejam o exemplo do râguebi – pode até ser didática, desde que se dê o passo seguinte, que passa por tornar públicas as explicações dadas pelo árbitro de campo aos jogadores e se distribuam pequenos recetores pelos quais os espectadores possam ouvir o canal de comunicação entre o árbitro de campo e o de regie. Porque a transparência é sempre a melhor política. Depois, é claro que têm de se estabelecer as condições exatas em que a ajuda tecnológica poderá ser utilizada. E aqui creio que o passo que vai ser dado ainda é curto e que podia importar-se uma ideia do ténis, que é a possibilidade de também os capitães de equipa poderem desafiar um determinado número de decisões do árbitro de campo – uma por 45 minutos, por exemplo – que possam ter escapado a um primeiro visionamento do vídeo-árbitro. Por fim, é claro que há campos onde não há condições perfeitas e que esta inovação não estará disponível a não ser na elite, mas nem a vídeo-vigilância nas grandes superfícies comerciais depende da sua existência em botecos de esquina nem o facto de haver cidades onde não chegam as auto-estradas impede o estado de as construir onde isso é possível. Problemática pode ser, isso sim, a dependência que a Liga vai ter do prestador de servições que fará a transmissão dos jogos. O que acontece, por exemplo, se o canal detentor dos direitos decidir inverter a estratégia que o levou, desde a época em curso, a transmitir em direto todos os jogos da I Liga, o que implica a mobilização de um número razoável de câmaras? A questão, aqui, é a de aproveitar o problema para criar uma oportunidade e passar finalmente todos os direitos para a mão do organizador do campeonato, aproveitando de caminho para proceder à necessária centralização e à distribuição mais equilibrada da receita apurada, de modo a aumentar a competitividade interna e dos nossos clubes no estrangeiro. Mas isso, enfim, já é outra história.
2017-05-04
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Artigo

Uma semana dedicado a outros projetos valeu-me agora o regresso a um futebol português posto de pernas para o ar. As razões são as habituais: as arbitragens e a interferência que têm nos resultados dos jogos. A este respeito, quem me segue já sabe o que penso. Há culpa de todos, dos que andam nos relvados aos que dirigem, passando pelos que reportam (estes umas vezes por inércia e outras por exagero no aproveitamento populista), mas o pior é mesmo não querermos olhar para as coisas como elas devem ser vistas. Os árbitros erram e acredito que o futuro do futebol tem de passar (e rapidamente) pela criação de condições para que comecem a errar menos, com a institucionalização de um árbitro de régie, que tenha acesso às imagens de todas as câmeras disponíveis ao realizador de televisão. Isto não é unânime nem sequer pacífico. E até se preza a leituras como as que vi esta semana feitas por gente inteligente e responsável, que mesmo assim não se coibiu de dizer que com o vídeo-árbitro as coisas não teriam sido diferentes. Talvez. Não sou capaz de dizer que sim nem que não. Mas tenho a certeza que a complexidade de que se faz a natureza humana pode ajudar-nos a explicar o que acontece tanto a montante como a jusante dos factos. Nunca explico jogos em função do acerto ou do erro das arbitragens. E se o não faço não é por achar que os árbitros acertam sempre, por ter medo de os afrontar ou por estar ao serviço de alguém que os comande como se fossem marionetas. Não o faço por acreditar que há sempre aspetos mais relevantes, que quem gosta de futebol pode debater para aumentar os seus conhecimentos e tornar o debate bem mais frutuoso. E não o faço por saber que o dia em que entrasse por aí seria o dia em que todos os outros caminhos iriam esbarrar numa parede, porque nesse caminho nunca é possível definir quem tem mais razão, tais são as suas subjetividade e (até às vezes) irracionalidade. A mesma natureza humana que nos ajuda a explicar o erro dos árbitros volta a entrar na equação no momento em que o discutimos. Duplamente. Primeiro porque o sacudir de água do capote (em direção a tudo e muitas vezes aos árbitros) em noites de frustração é um reflexo muito normal no homem. Depois, porque em qualquer organização as relações de poder e a forma de as condicionar a nosso favor são aspetos fundamentais para separar o sucesso do insucesso. Sei disso. Sempre o soube. Ora isto quer dizer o quê? Que os árbitros erram, sim. Que cabe aos líderes do futebol criar condições para que eles errem menos a cada dia que passa. Que apesar de isso não levar a lado nenhum, o choradinho de quem se sente prejudicado é tão natural e humano como o erro. Tão natural, igualmente, como a propensão – também ela humana – para querer dominar as organizações e passar a ser beneficiado nelas se tal for possível. Aliás, muitas vezes esse choradinho não mais é do que uma tentativa de condicionamento para virar a mesa. Perante isto, o que fazer? Depende do lugar em que nos coloquemos. Os árbitros têm de continuar a apitar, os jogadores a jogar, os treinadores a treinar, os dirigentes a dirigir, os adeptos a apoiar, os jornalistas a reportar e a investigar. O que é muito diferente de se concluir que se os árbitros erram é porque são corruptos ou parte de um sistema que é corrupto, mas também de inferir que se as provas não nos caem no colo é porque não há corrupção nenhuma  – aqui serão as provas a marcar a diferença, mas é preciso inquietação e ir à procura delas. Esta semana, tal como em várias ocasiões no passado, quando eram outros a queixar-se e outros também a manter-se em silêncio, não foram apenas os árbitros a exorbitar nos seus erros. Houve muitos jogadores e treinadores a ir longe demais nos protestos, mas também na acusação pública e na tentativa de expor os rivais ao ridículo. Houve responsáveis de clubes a exagerar na reação à infelicidade e adeptos a passar muito para lá das marcas nas ações e nas palavras. Os jornalistas estão entre a apatia face ao que muitos julgam ser passível de acusação (mesmo sem provas, que não se conseguem só porque se quer) e a denúncia populista, porque é o caminho mais fácil para somar likes e cliques. Este é um assunto delicado. Não é por medo ou por conivência, mas sim por respeito à presunção da inocência. E não se resolve a misturar análise a jogos com avaliação das arbitragens.
2017-01-08
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Último Passe

O vídeo-árbitro foi risível no Mundial de clubes e a experiência serviu aos que sempre se opuseram à sua utilização para provarem uma razão que na verdade não têm. Não tivesse Gianni Infantino, presidente da FIFA, vindo reiterar que o caminho é para ser percorrido e até me ocorreria pensar que foi para adiar a discussão por mais uns anos que serviu esta experiência. Como assim não é, importa aprender com os erros que foram cometidos para que o futebol possa centrar-se no que é fundamental. E o que é fundamental não é abolir o erro ou a componente subjetiva que preside a cada decisão. É dar aos árbitros os melhores meios de diagnóstico possíveis. E isso não foi feito no Mundial de clubes. Aquilo que foi experimentado no Mundial de clubes é, em si, ridículo. Pedir a um árbitro que dê uma corridinha até um monitor colocado na linha lateral para ver uma repetição de um lance é apenas idiota, porque aumenta a pressão mediática sobre o decisor, com toda a gente a olhar para ele e para aquele pequeno monitor, porque não lhe dá todos os meios possíveis para esclarecer e trava na mesma o fluir o jogo. O que defendo não é isso. O que defendo há anos é a existência de um árbitro de régie, de um especialista treinado para tomar decisões rápidas com base em imagens televisivas, que tenha acesso imediato às imagens de todas as câmeras disponíveis para o realizador televisivo e que esteja em comunicação permanente por circuito áudio com os outros árbitros de campo. A entrada em vigor deste sistema teria de pressupor alguma abertura por parte das instâncias que regem a arbitragem e o futebol em geral. Ganhar-se-ia, por exemplo, com uma explicação por parte do árbitro no sistema sonoro do estádio a cada decisão do vídeo-árbitro, para que todos os espectadores percebessem o que estava a passar-se. É o que se faz no râguebi, por exemplo. E quando se ativaria o vídeo-árbitro? Simples. O vídeo-árbitro poderia ser ativado de duas formas. Quando os clubes, pela voz do seu treinador ou do seu capitão de equipa, desafiassem a decisão do árbitro central (e perderiam esse direito após duas oportunidades em que não lhes fosse dada razão), nunca sendo o jogo interrompido para tal – a consulta seria feita após a interrupção normal seguinte. Ou então quando o árbitro central, por ter dúvidas ou por ter sido para tal alertado pelo árbitro de régie, quisesse, por si só, pedir uma segunda opinião a quem pudesse rever as imagens de vários ângulos. É aqui que começam as objeções. Já ouvi muitas diferentes, mas todas são rebatíveis. Que o jogo perderia a fluidez, permitindo, por exemplo, a uma equipa pedir a intervenção do vídeo-árbitro só para impedir um contra-ataque perigoso após a perda da bola. Errado, pois nenhuma jogada seria interrompida, já que só após a interrupção normal de jogo se pediria a intergvenção do vídeo-árbitro. Que o árbitro-central perderia a sua capacidade de decisão, tendo de a delegar noutro elemento da equipa de arbitragem. Mas isso já acontece com os árbitros auxiliares, que se tornaram muito mais do que simples fiscais de linha. Ou algum árbitro central manda seguir o jogo depois de um seu auxiliar agitar a bandeira como se não houvesse amanhã para assinalar uma falta? Que levaria uma eternidade até se ter uma decisão. Outra vez errado. Basta perguntar a qualquer realizador quanto tempo leva a ter acesso a todas as imagens de todas as câmeras. Menos de um minuto, garanto. A minha objeção preferida, porém, é a de que o vídeo-árbitro não anula o erro, como é evidente pela consulta a diferentes opiniões de ex-árbitros dadas em painéis de jornais ou sites de internet, e que por isso não vale a pena tê-lo. Claro que não anula o erro. Primeiro porque o erro, como se sabe, é humano. Não é o sal ou a alma do futebol, como já ouvi dizer, mas infelizmente faz parte. Depois, porque em todas as tomadas de decisão há uma componente subjetiva, que depende da opinião de quem está a decidir. O objetivo, porém, não é nem nunca pode ser anular o erro. Tem de ser, isso sim, auxiliar o diagnóstico de quem tem o dever de decidir. Impedir que quem decide tenha menos meios que qualquer tele-espectador sentado no conforto do seu sofá. Impedir que eu em casa veja com os dois olhos aquilo que quem tem de decidir só vê com aquele onde necessita de mais dioptrias. O objetivo do vídeo-árbitro não tem de ser eliminar o erro. Tem de ser clarificar as coisas e, como disse Infantino, impedir que “uma equipa seja eliminada por causa de um erro dos árbitros”. Só por causa disso, serei sempre a favor.  
2016-12-19
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Ainda faço parte de uma geração que passou boa parte da infância e da adolescência a correr atrás de uma bola, a ler sobre bola, a ver bola, a discutir bola. As mães e as avós, que não nos compreendiam, nem a nós nem aos nossos pais, diziam que éramos “doentes da bola”. Ouvi essa expressão com alguma frequência. Hoje, os doentes da bola deram lugar a outro tipo de doentes. São os doentes da arbitragem, aqueles que não correm atrás de uma bola, não leem sobre bola, não veem bola nem discutem bola. Só discutem penaltis e off-sides, mãos na bola e bolas na mão, intensidades e intenções. O problema é que ou estão a ficar em maioria ou são uma minoria demasiado ruidosa. É sintomático que no fim-de-semana em que o Tondela, último classificado da Liga portuguesa, surpreendeu o Sporting, que é primeiro, com um empate a dois golos no seu próprio estádio não se esteja a debater a audácia de Petit, que jogou com as linhas subidas e soltou dois velocistas em diagonais para a área do leão, ou que depois, no final, fez substituições ofensivas para ir buscar o empate. Argumentarão que não se discute o jogo dos pequenos. OK, discuta-se então a forma como Jesus montou a equipa na segunda parte, com dez, para virar um jogo que estava complicado, chamando outra vez Gelson e prescindindo de William em quebra. Ou como depois deixou que a equipa baixasse o ritmo antes de ter o resultado seguro e não fez atempadamente as trocas que se impunham para o congelar. Não. O que se discute é um penalti de Rui Patrício sobre Nathan Júnior. Para uns é, porque o guarda-redes toca na perna do jogador adversário. Para outros não é, porque também toca na bola, porque antes do choque, o avançado do Tondela deu um chuto na relva e depois festejou o apito do árbitro. É sintomático também que não se discuta a pressão que o Benfica foi capaz de fazer ao Estoril, não o deixando sair do seu meio-campo, ou o jogo nada ambicioso dos estorilistas, que amontoaram homens à saída da sua própria grande área, quase se limitando a dar a bola ao adversário e a convidá-lo a encadear ofensiva sobre ofensiva. Não. O que se discute é se Mitroglou estava fora de jogo no lance do 1-1 e se uma bola que tabelou nas costas de Pizzi entrou ou não na baliza de Kieszek. E não se discute a forma como os jogadores que o V. Guimarães tem na frente foram capazes de manter em respeito o FC Porto, o erro de Casillas no lance que deu a vitória aos minhotos ou a incapacidade do FC Porto para fazer um golo num jogo em que jogou mais pelo meio e menos pelas pontas relativamente à herança de Lopetegui. Não. Discute-se se é admissível que haja notícias nos jornais acerca do interesse do FC Porto no treinador do V. Guimarães e assinalam-se nexos de causalidade do tipo: se Conceição for mesmo para o FC Porto, é porque vendeu o resultado. Como se um dirigente no seu perfeito juízo pudesse contratar um treinador que vende resultados, sabendo que um dia, na Champions ou onde for, também o FC Porto encontrará adversários mais poderosos que ele. O problema são os malucos da arbitragem. Os fanáticos da ilegalidade. Posso dar a minha opinião sobre os lances polémicos – é penalti de Rui Patrício sobre Nathan, porque o guarda-redes do Sporting toca antes no adversário e só depois na bola; há fora-de-jogo de Mitroglou no golo que deu o empate ao Benfica e a bola impelida inadvertidamente por Pizzi entrou na baliza de Kieszek. Nos três lances, contudo, admito que me digam o contrário. O que não admito, porque não é saudável, é que queiram dizer-me o contrário com letra de lei, porque são três lances tão difíceis de analisar, tão no limite, que todas as opiniões são válidas. E porque, continuo convencido disso, no final as contas entre o deve e o haver não vão influenciar assim tanto a tabela classificativa. Tendem mesmo a equilibrar-se entre os três, como acho que estão realmente equilibradas neste momento. E é aí que entram em campo os malucos da arbitragem. Uns fazem-no por carolice, porque são facilmente influenciáveis, outros por dever profissional, porque são pagos para isso. Porque se convencionou que a melhor maneira de um clube ser beneficiado – ou de não ser prejudicado – é convencer a opinião pública que quem está a ser beneficiado é o adversário direto. E aí vale tudo, valem todas as formas de influenciar os observadores. Valem conferências de imprensa, posts no Facebook, tweets no Twitter, longos monólogos em programas de comentadores engajados ou soundbytes em newsletters diárias. Mas, ao contrário do que acontece no campeonato da bola, não me interessa rigorosamente nada saber quem vai à frente neste campeonato, no campeonato da estrutura, da comunicação. Porque posso ser doente mas sou um doente da bola. In Diário de Notícias
2016-01-18
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Último Passe

O Benfica não reagiu oficialmente às acusações lançadas por Bruno de Carvalho sobre as ofertas que alegadamente faria a árbitros, mas fontes do clube já se desdobraram em esclarecimentos destinados a desdramatizar a situação. Que a caixa só tem um custo de produção de 24 euros, aos quais se somam as entradas no Museu Cosme Damião e os jantares no Museu da Cerveja, mas que de qualquer modo o total respeita os limites máximos impostos pela UEFA, que é de 200 francos suíços, algo como 183 euros. Acredito. Mas não me chega. O presidente da APAF, José Fontelas Gomes, apressou-se a vir defender a classe, garantindo que nenhum dos seus membros aceitava ofertas que fossem além dos tais 183 euros. Percebo. Mas também não me chega. Porque a diferença entre cortesia e corrupção não está no valor da oferta mas sim no princípio. Nunca decidi jogos, como podem inadvertidamente fazê-lo os árbitros, mas sempre tive como muito claro que as minhas responsabilidades como jornalista não me permitiam aceitar ofertas de dirigentes de clubes, jogadores, treinadores ou empresários. E poucos saberão como me era sempre difícil explicar a familiares e amigos próximos as razões pelas quais não podia pedir sequer bilhetes para ir ver este ou aquele jogo, que já tinha lotação esgotada, mesmo que me oferecesse para os pagar – porque do outro lado podia sempre vir uma resposta como o “deixe lá estar isso: um dia destes faz-me um favor a mim”. A verdade é que nunca fiz pedidos desses e que jamais os farei. Porque a última coisa de que precisaria era de que um dia alguém me viesse recordar que uma vez lhe tinha pedido um bilhete para ir à bola, comido um almoço à conta ou aceite uma lembrança. Ora se isso é válido para mim, que – repito – não decido jogos, muito mais devia sê-lo para os árbitros, que com azar até podem fazê-lo. É verdade que, por tradição, vários clubes fazem ofertas a árbitros há décadas. É uma questão de cortesia, alegam. Mas mais do que ir buscar o limite máximo de euros que a UEFA impõe, o presidente da APAF devia ter sido claro nas indicações a dar aos seus homens: não há razão nenhuma para que essas ofertas, mesmo sendo legais, sejam aceites por agentes que já são relativamente bem pagos para cumprirem as suas tarefas de modo profissional. Da mesma forma que não há razão nenhuma para que os clubes pensem em oferecer aos árbitros presentes cujo valor se aproxima da metade de um salário mínimo. Porque ninguém oferece presentes a juízes do tribunal antes de uma audiência. E porque não se pode bradar pela verdade desportiva, condenar a “fruta” e o “café com leite” e depois ser assim tão cortez com os árbitros. É que às vezes mais vale ser bruto.
2015-10-06
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Último Passe

A validação e posterior anulação de um ensaio a Matawalu, porque as imagens de TV mostraram que o médio de formação das Ilhas Fiji tinha deixado cair a bola para a frente antes de a recuperar e de a pousar na zona de ensaio, e a anulação e posterior validação de outro ensaio a Nadolo, porque as imagens provaram que o salto do ponta fijiano era regular, trouxeram até muita animação ao jogo de abertura do Mundial de râguebi. O público ouve o árbitro na instalação sonora do estádio, vê as imagens dos lances nos ecrãs gigantes e vibra com o sistema a funcionar. Mas, mais do que animação, as duas decisões do árbitro sul-africano trouxeram justiça. E essa devia ser sempre a função de um árbitro em campo. No caso do Inglaterra-Fiji nem era o resultado que estava em causa: os dois lances ocorreram num período de cinco minutos – se o primeiro tivesse sido validado, o segundo provavelmente não teria acontecido – e foram ambos no ataque das Ilhas Fiji. Portanto, mais cinco pontos, menos cinco pontos, para quem gosta destas realidades contra-factuais o resultado seria até o mesmo. Mas haverá casos em que jogos se decidem por causa de uma decisão arbitral e condenar os árbitros a decidirem com muito menos meios do que quem está em casa a ver no sofá é tudo menos defender o futebol. Os árbitros não erram hoje mais do que antigamente: os adeptos é que têm muito mais meios para avaliar os erros que sempre se cometeram. Cada vez há menos argumentos razoáveis a favor do arcaísmo que regula a tomada de decisões dos árbitros no futebol. O argumento tantas vezes do tempo que se perde não colhe. O Inglaterra-Fiji começou às 20 horas, teve vários lances de consulta vídeo pelo árbitro, e acabou antes das 22 horas, cumprindo-se as duas partes de 40 minutos num período semelhante ao que leva uma partida de futebol. O argumento de o erro ser o sal do futebol só pode ser assumido por quem passa o tempo em gabinetes, mesmo que em tempos tenha pisado a relva. Defendo o direito dos árbitros ao erro, condeno os hooligans encartados que assumem que os erros dos árbitros são propositados ou os que só sabem explicar os jogos de futebol através dos erros de arbitragem (e só os que são contra as suas cores, que para os outros arranjam sempre uma explicação), mas acho que os árbitros deviam ser os primeiros a revoltar-se contra este estado de coisas, que os condena a demonstrações de inépcia a um ritmo diário. Ontem já era tarde.
2015-09-18
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