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Três opiniões sobre o Jogo Duplo   A operação Jogo Duplo não foi uma surpresa para mim. Não sabia que ia acontecer, como é evidente, mas suspeitava de que algumas coisas daquele género se passam em Ligas menos visíveis, como a II Liga portuguesa ou até as Ligas principais de alguns países mais recônditos. Tem tudo a ver com a necessidade de compreender o sistema  e a própria realidade, em vez de lhe fechar os olhos, como têm feito as autoridades. A esse respeito, tenho por isso três coisas a dizer. Perante a detenção de agentes e jogadores acusados de fabricar resultados, a primeira tentação será a de se dizer: “isso das apostas é um mundo podre com o qual temos de acabar”. Errado! É uma falácia achar que o problema está no jogo. O problema está no jogo desregulado. Será mil vezes mais fácil detetar irregularidades e movimentações suspeitas de dinheiro com a regulamentação e a monitorização do jogo online do que limitando o jogo a terminais físicos, como sucede neste momento em Portugal. Ao manter estas limitações, o Estado português não está a acabar com o jogo online nem com as possibilidades de corrupção: está a encaminhar os grandes jogadores para fora do país – dessa forma deixando de recolher impostos sobre os volumes apostados – através de VPN e de contas bancárias no estrangeiro. Porque com ou sem jogo online em Portugal, ele continuará a existir no estrangeiro e a abarcar jogos de equipas portuguesas. Quem me conhece melhor sabe que enquanto isso foi autorizado fiz trading em casas de apostas desportivas, como a Betfair. Nessa altura cheguei a fazer parte de um grupo de “amigos” de vários países que se entretinha a “seguir o dinheiro”. E nem imaginam como é fácil descobrir movimentações suspeitas. Como? É simples. O trading funciona com base em apostas a favor (back) e contra (lay). O jogador não joga contra a casa, mas sim contra outro jogador, que aposta contra uma posição inicial colocada a favor de um determinado evento. Através de software relativamente fácil de utilizar, como o Geek’s Toy, por exemplo, é possível ver os montantes que estão à espera de ser correspondidos, isto é, as apostas colocadas mas ainda sem ninguém do outro lado. Estes grupos de apostadores têm Ligas e equipas sinalizadas como suspeitas, tanto na Betfair como sobretudo nos mercados asiáticos. É impressionante como por vezes aconteciam entradas de volumes anormais de dinheiro num determinado acontecimento e, assim que essas verbas eram correspondidas, esse evento verificava-se. Não é um meio fácil de ganhar dinheiro, porque muitas destas apostas eram simples bluffs: haverá certamente quem faça isto para lavar dinheiro, para o mover de uns países para outros, apostando a favor de um lado e contra do outro. Mas até por isso a regulação é importante, porque permitirá às polícias saber aquilo que os grupos de curiosos não saberão – de onde vem o dinheiro e para onde ele vai. Acredito que a generalidade dos jogadores de futebol não é subornável. Mas também acredito que entre os futebolistas – como entre os jornalistas, os médicos, os arquitetos, os políticos etc. – há gente capaz de aceitar dinheiro para facilitar um acontecimento. No caso dos futebolistas o problema é suscetível de ser agravado quando as suas equipas já não têm objetivos desportivos pelos quais lutar. O que fazer para o evitar? Se não é possível acabar com as apostas no Mundo, há duas coisas a fazer. Regulá-las, primeiro. E tornar o sistema do futebol o mais invulnerável possível a este tipo de tentações. Isto para dizer que ter jogadores profissionais de futebol a ganhar menos do que o ordenado mínimo – quando o recebem, porque parte deles só recebem o primeiro mês – é vulnerabilizar o sistema. Ora se o futebol move milhões – e tanto move, que as apostas se fazem – como é possível que os clubes da II Liga portuguesa, do segundo escalão profissional nacional, de uma elite, não sejam sequer capazes de manter em dia salários de miséria? O que há a fazer é tudo o possível para trazer os milhões que o futebol move para dentro do sistema, apostando depois numa repartição mais equilibrada da receita. É regulamentar o jogo, acabar com os monopólios existentes e permitir que as casas de apostas devolvam parte do dinheiro que ganham aos agentes desportivos sob a forma de patrocínios, por exemplo, e depois ser rigoroso na inspeção das irregularidades, tanto dos jogadores que se vendem como dos clubes que não lhes pagam. É por isso que digo que os menos culpados, aqui, são os jogadores. Eles são as vítimas que se deixaram apanhar num enredo que está viciado desde o início.
2016-05-19
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Artigo

Nenhum tema se apresenta tão primordial para o futebol em Portugal nas próximas eleições como o do jogo online. Os milhões de euros que são movimentados pela comunidade de apostadores que há muito deixou o Totobola e não acredita na aleatoriedade do Euromilhões fazem toda a diferença entre um futebol a entrar em falência e um futebol ao qual se dá uma botija de oxigénio – e se depois essa botija é aproveitada ou desperdiçada pelos dirigentes desportivos já é outra conversa. A questão é que quando falo de futebol não falo só de clubes, jogadores e treinadores. Falo de jornais, sites de internet, canais de televisão, todos eles dependentes dos patrocínios que só as grandes casas de apostas podem oferecer neste momento. Ainda que muito tardiamente, o Estado português apercebeu-se na última legislatura do volume de negócios das casas de apostas, que operavam em Portugal num regime totalmente desregulado. Fez-se uma lei para que daí pudessem vir receitas para o Estado, pela via normal nestas circunstâncias, que é a dos impostos. As taxas previstas na Lei portuguesa são superiores às da generalidade dos países europeus, o que desde logo condicionou a permanência no nosso mercado de alguns dos maiores “bookies” internacionais, mas ainda assim uma mão cheia deles anunciou que ia pedir licença para poder operar no nosso mercado. Sucede que o processo de atribuição das licenças – e por inerência da legalização dessas casas de apostas – tem sido demorado. Demasiado demorado para que se aceite que tem a ver com simples burocracia e não com a vontade de o arrastar até à data das eleições, por estar em causa uma profunda diferença ideológica entre as forças em disputa. Algumas casas continuam a trabalhar em Portugal. Fazem uma interpretação muito própria da lei, segundo a qual enquanto não for atribuída a primeira licença a lei não é considerada em vigor e tudo continua como antes. As grandes e mais competitivas – as que mexem com mais dinheiro, também – retiraram-se, abrindo caminho à entrada do Placard, o sistema de jogo offline da Santa Casa da Misericórdia. O sistema é simples: registam-se as apostas nos agentes que aceitam boletins do Euromilhões, mas não há depois qualquer possibilidade de gerir online as posições adquiridas. E se isso vem funcionar como sinal amarelo para os maiores apostadores, que funcionam com apostas de back-up, o sinal vermelho acende-se com a constatação das odds (probabilidades) praticadas pelo Placard, sempre uns bons “ticks” abaixo das que servem de referência nas casas de apostas internacionais. Parece-lhe normal? Então imagine que tinha o monopólio das transações bolsistas num país e que podia comprar todas as ações que quisesse a um euro e depois vendê-las nos mercados internacionais a 1,10€. De quanto tempo precisava para ficar imensamente rico? A questão é que a realidade atual não é má apenas para os apostadores. É má também para os jornais, que têm na Santa Casa da Misericórdia um cliente de luxo, mas que enquanto não foram disso impedidos por uma providência cautelar a trocaram pelas Betclics e BWins da vida. É má para os clubes, para a Federação Portuguesa de Futebol e para a Liga, que além de perderem potenciais patrocínios, recebem migalhas em vez de receberem uma parcela interessante daquilo que os seus jogos geram nos mercados de apostadores. No fundo, se presumirmos que um eventual governo PSD/CDS levará avante a lei que elaborou e que o PS manterá a ideia anunciada recentemente por António Costa – e que é a de dar o monopólio à Santa Casa da Misericórdia, dessa forma contribuindo para pagar a despesa do Estado ou da Segurança Social – este é um dos grandes pontos de discórdia entre as maiores forças políticas que vão concorrer às eleições de domingo. E é, ao mesmo tempo, uma das únicas diferenças verdadeiramente ideológicas entre ambas, entre quem prefere dinamizar a economia e receber a receita através dos impostos e quem prefere ter o Estado a gerir essa mesma economia, sem a intervenção da iniciativa privada. Em mais de 25 anos de jornalismo já passei por uma série de eleições. A tradição nas redações era ouvir-se os responsáveis que os maiores partidos designavam para a área do desporto acerca de política desportiva. Prometiam-se pavilhões, pistas de atletismo, relvados para treinar futebol, políticas de formação e dinamização do desporto escolar. Desta vez, nada disso importa verdadeiramente. A política desportiva do próximo governo vai definir-se com uma questão muito simples: o que vai fazer acerca do jogo online?
2015-09-30
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