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Último Passe

A saída de Antero Henrique do FC Porto, no final de um defeso capaz de deprimir a maioria dos adeptos do clube, pode até ter sido mesmo devida apenas a razões pessoais do ex-administrador da SAD com responsabilidade máxima no mercado, conforme foi escrito no comunicado que pôs termo a mais de duas décadas de ligação. Mas no futebol estas coisas raramente se explicam com recurso a uma só leitura e neste caso parece evidente que o que está aqui em causa é a chicana política visando a inevitável sucessão de Pinto da Costa e a aplicação das duas leis do Pinto-da-Costismo.Sim, é verdade que o presidente portista tomou posse em Abril para o 14º mandato, apontando a mais quatro anos à frente do clube, até 2020. Goste-se ou não do estilo e da estratégia, há que reconhecer ao veterano líder dos dragões o estatuto dos gigantes, de quem mudou o panorama do futebol em Portugal. Se a hegemonia do Benfica começou com Eusébio, na década de 60, a portista teve início com Pinto da Costa, entre os anos 80 e 90. Só que tal como Eusébio deixou de jogar, um dia Pinto da Costa vai deixar de liderar. E à noção de que esse dia está próximo – o presidente completará 79 anos em Dezembro – junta-se o facto de o futebol portista estar a atravessar um dos períodos mais difíceis desde que Pinto da Costa tomou posse para o primeiro mandato, em 1982. Desde que ele é presidente, esta é apenas a segunda vez que o FC Porto passa três campeonatos seguidos sem ganhar (a primeira foi de 1999 a 2002 e acabou com a chegada às Antas de Mourinho) e a primeira em que, nesses três anos, não ganha mais nenhum troféu. A Supertaça de Agosto de 2013 foi a última conquista do plantel azul-e-branco.A verdade é que há muitos anos que se fala na sucessão de Pinto da Costa e até aqui o presidente sempre soube dar a volta por cima. Chegou a pensar-se que o sucessor podia ser José Guilherme Aguiar, que podia ser Angelino Ferreira, que podia ser Fernando Gomes – seja o Bibota de Ouro ou o presidente da FPF –,que podia ser Vítor Baía, que podia ser António Oliveira… Houve quem mencionasse o próprio Antero Henrique ou até António Salvador, presidente do Sp. Braga mas portista de coração. Como todas as estrelas do firmamento, Pinto da Costa atrai vários planetas à sua órbita, mas ao contrário do que sucede na lei da gravidade universal, estes planetas acabam por se afastar. Porque aqui não se aplicam as Leis de Newton, mas sim as tais leis do Pinto-da-Costismo. A primeira é que Pinto da Costa nunca “nomeará” um sucessor, nem formal nem informalmente. A segunda é que não se pode ganhar um lugar no pós-Pinto da Costa afrontando Pinto da Costa. Nem é o legado, esse inatacável: é a presidência atual e as decisões de hoje.E em que medida é que se enquadra aqui a saída de Antero Henrique? Isso é matéria de discussão para blogues, uns acusando Antero de ser o culpado dos erros de mercado cometidos pelo FC Porto nos últimos anos, outros atribuindo esses erros à intervenção do presidente e dos seus “yesmen”. Uns achando que o regresso de Luís Gonçalves é a vitória da importância do scouting sobre os jogos de bastidores, outros rebatendo que é apenas uma forma de o clube deixar de ter massa crítica que se oponha aos especialistas nos tais jogos de bastidores. Qual é a verdade? Só o próprio Antero poderia vir esclarecê-lo. Mas tal como nunca se ouviram a Angelino Ferreira declarações públicas acerca das divergências que mantinha com a linha dominante na SAD acerca do destino a dar às mais-valias que se iam fazendo no mercado de transferências – abatimento de passivo ou compra de mais e mais jogadores –, também dificilmente se ouvirá Antero Henrique falar abertamente das últimas escolhas de treinador ou da crescente influência de Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, que voltou às boas graças do pai depois de ter sido o parceiro predileto de José Veiga na tentativa de o derrubar.A questão é que, apesar dos tais três anos sem ganhar nada, a segunda lei do Pinto-da-Costismo continua válida. Foi por ela que, depois de se ter esticado mais do que quereria a propósito do presidente, Baía adotou imediatamente uma atitude conciliadora, deixando a animosidade para o debate entre as esposas dos dois nas redes sociais. É por isso que Oliveira mantém há muito um distanciamento cauteloso em relação às políticas do clube, que não abandona sequer nas suas múltiplas intervenções públicas, na TV ou nos jornais onde escreve opinião. Foi para aparecer na fotografia que, depois de também ter sido tão próximo de José Veiga, Fernando Gomes regressou ao clube para ocupar uma posição de alguma visibilidade mas nula importância estratégica. Onde se encaixa Antero Henrique? Di-lo-á o futuro próximo. E isso em muito vai depender do que fizer o plantel que ele deixa no clube na época que agora se inicia.
2016-09-05
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