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Portugal vai entrar hoje naquela que se diz poderá vir a ser a última Taça das Confederações da história do futebol num papel a que nunca se habituou e com o qual, diga-se, nunca se deu bem também: o de favorito. Olha-se para as principais publicações europeias, sejam elas de que país forem, e todas carregam a equipa nacional de favoritismo. Para dizer a verdade, não estou assim tão convencido. E não é por Portugal estar mal, que não está. Está até melhor do que há um ano. Nem sequer por esta ser uma competição maldita, cujo vencedor costuma dar-se mal no Mundial a seguir. É só porque todas estas análises se fundam na premissa de que esta jovem Alemanha que Joachim Löw trouxe até à Rússia não tem capacidade para competir ao mais alto nível, mas se há coisas que estes alemães têm a mais do que os outros são energia, ritmo e intensidade. E isso costuma ser decisivo em finais de época. Há aquela velha frase de Gary Lineker. “O futebol é um jogo com onze de cada lado e onde no final ganha a Alemanha”. Pois bem, desta vez toda a gente acha que não ganha a Alemanha. É que, consciente de que não seria bom para o esforço de manter o título Mundial chegar à Rússia, daqui por um ano, com jogadores sujeitos a três anos seguidos com férias reduzidas e a conta-gotas, Löw trouxe uma equipa sem as suas maiores estrelas. Só lá estão três campeões do Mundo (Draxler, Mustafi e Ginter, sendo que este nem jogou um minuto sequer no Mundial); o mais velho é Wagner, ponta-de-lança do Hoffenheim, que tem 29 anos; e 18 dos 23 convocados têm 25 anos ou menos. Mais: face às lesões de Demme e Sané, o selecionador optou por nem chamar mais ninguém. “Bastam 21 jogadores”, disse Löw, mostrando uma ligeireza de atitude que, se for imitada pelos jogadores nos relvados, pode permitir-lhes ter as pernas muito mais leves do que as dos adversários. Esta não é a super-Alemanha que ganhou o Mundial há três anos, mas continua a ser uma muito boa equipa, com jogadores como Goretzka, Kimmisch, Draxler ou Werner. E será o maior teste ao novo paradigma do futebol alemão, o tal paradigma inaugurado depois da derrota contra Portugal no Europeu de 2000 (3-0 contra as reservas portuguesas, que os titulares ficaram a descansar depois de terem garantido a qualificação), em que passou a beneficiar-se a habilidade em vez do físico. Claro que Portugal pode fazer sombra a esta Alemanha e é, até, favorito, como dizem as mais renomadas publicações internacionais. Mas é aqui que entra o fator-maldição: o vencedor da Taça das Confederações nunca faz um bom Mundial. E não é seguramente por causa de um alinhamento negativo dos astros, mas devido a uma conjugação de fatores onde entram o tal cansaço acumulado com os efeitos perniciosos que o sucesso traz a uma equipa: se se ganha, muda-se menos e chega-se ao Mundial com uma equipa mais velha, petrificada, com menos sede de vitórias. Talvez por isso mesmo Santos tenha reforçado que traz “oito jogadores” que não estiveram no Europeu, como quem diz que, caso Portugal se qualifique para o Mundial, outras mudanças poderão suceder. Aliás, bem vistas as coisas, mais três equipas podem sonhar com o sucesso nesta prova. Há o Chile, que apresenta como desvantagem o facto de ser a seleção mais velha – 29 anos de idade média – de uma competição onde a recuperação física será fundamental, com três jogos numa semana. Mas que tem como vantagem o facto de muitos destes jogadores, de Sánchez a Vidal, de Bravo a Médel, já se conhecerem como irmãos, tantas batalhas já travaram juntos, incluindo as vitórias nas duas últimas edições da Copa América. Há a Rússia, uma Rússia rejuvenescida por Tcherchesov, em parte devido às ausências forçadas de Dzyuba, Dzagoev, Kokorin e Mamaev e aos abandonos internacionais dos centrais Berezutsky e Ignashievich, mas que mostrou contra a frágil Nova Zelândia uma velocidade rara nas suas seleções. E, sim, há o México, mais uma equipa veloz e vertiginosa, que depois dos 7-0 encaixados contra o Chile nos quartos-de-final da última Copa América, há exatamente um ano, não voltou a perder um jogo oficial e que além da tripla de inspiração portista – Layún, Reyes e Herrera – tem muita gente de qualidade na frente, graças a Chicharito, ao benfiquista Jiménez e aos regressos de Vela e Giovanni dos Santos.
2017-06-18
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Já deve ter reparado que a Liga portuguesa perdeu golos em relação ao ano anterior. Foram 103 a menos, caramba! Mais de três por jornada, em média. Se não reparou é porque anda mesmo desatento. E o que é preocupante não é apenas isso. É que esta é uma redução em contra-ciclo com aquilo que é a realidade das Ligas de topo da Europa e até com aquilo que vinha sendo a história da própria Liga portuguesa, que estava a ver o total de golos crescer desde 2014, que foi a última vez que tínhamos descido tão baixo. As 34 jornadas da Liga portuguesa resultaram em 728 golos, a uma média de 2,38 golos por jogo. São menos 103 se compararmos com os 831 golos marcados na época passada, que nessa altura valeram uma média de 2,72 golos por jogo, a melhor desde os 2,78 de 2012/13. O primeiro ano do tetra do Benfica marcou uma acentuada quebra, para 2,37 golos por jogo, mas desde então tinha sido sempre a subir: os 2,49 de 2014/15 e os 2,72 da época passada tinham deixado a Liga portuguesa em linha com as maiores da Europa. Há um ano, aliás, entre as grandes, a Liga portuguesa só era batida pela Bundesliga, que fechara a competição com uma média de 2,83 golos por jogo. A questão é que enquanto a Liga portuguesa voltou a baixar para números próprios da primeira década deste século – a prova andava estagnada por ali desde meados dos anos 80 do século passado – todas as Big Five cresceram na frequência com que se festeja a festa do golo. A Liga espanhola assumiu a dianteira, com 2,94 golos por jogo, seguida da Série A italiana, com 2,92 (a uma jornada do fim), da Bundesliga alemã, com 2,87, e da Premier League inglesa, com 2,80. Mais perto da nossa realidade só a Ligue 1 francesa, que encerrou a contabilidade nos 2,62 golos por jogo. E a culpa desta descida em contra-ciclo não pode ser dos treinadores portugueses, porque o campeão francês, o Monaco de Leonardo Jardim, foi uma das raras equipas europeias de topo a marcar mais de 100 golos no campeonato. À frente dos 107 golos monegascos (2,81 por jogo) só aparecem os 116 do Barcelona (3,05 por jogo). O Benfica, que passou a marca dos 100 golos (em todas as competições) pela sétima temporada consecutiva – e de resto foi a única equipa da I Liga portuguesa a conseguir fazê-lo esta época – teve o melhor ataque da Liga, mas ficou-se pelos 72 golos, que correspondem a 2,11 por jogo.
2017-05-22
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Último Passe

Não há-de haver um adepto de futebol que não tenha gostado da resposta que a Federação de São Marino deu a Thomas Müller, depois de o craque alemão do Bayern se ter queixado da perda de tempo que é ter de defrontar equipas como aquela nas eliminatórias do Mundial. Entre os que se emocionaram com os dinheiros que vão para a construção de campos nas escolas, os que se riram com a imagem das sandálias com meias brancas, tão própria da falta de gosto dos alemães, e os ficam felizes por ser possível a amadores defrontarem os campeões do Mundo, ninguém deixou de aplaudir. Mas agora que a festa está bonita, vamos lá a pôr um pouco de bom-senso na conversa e ver o lado correto entre as duas realidades. Não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha ou Portugal e outras como Andorra ou São Marino. Como espetáculo valem pouco mais de zero e são, como alertou Müller, um “risco idiota”, porque alguém pode magoar-se sem haver nada em disputa, mas para os representantes daquelas nações aquele é sempre um momento marcante. Nunca defrontei Bobby Fischer ou Anatoly Karpov num tabuleiro, quando era aspirante a xadrezista, nem tive alguma vez a oportunidade de placar Jonah Lomu ou Julian Savea numa das minhas incursões pelo râguebi, mas uma vez, estava eu junto ao relvado onde a seleção nacional de futebol jogava aquele meinho que se faz sempre antes do treino a sério, e a bola veio ter comigo. E não só a devolvi para o grupo onde estava Ronaldo com um toque de primeira, como o fiz de pé esquerdo. Estranhamente, nenhum dos nossos internacionais valorizou o gesto técnico que eu acabara de protagonizar: continuaram todos na galhofa. Como digo, não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha e equipas como a de São Marino. Acho contra-producente que se joguem nesta altura do ano, na qual os jogadores de top estão demasiado concentrados em competições de clubes, e por isso já propus que as datas FIFA para os jogos de seleção se concentrassem todas no final da época, de forma a evitar estas constantes mudanças de foco com as quais ninguém ganha a não ser as companhias aéreas que fazem voos de longo curso entre a Europa e a América do Sul. De resto, sou dos que acredita na componente aspiracional dos desafios de futebol: todos devem poder jogar contra todos, desde que mostrem mérito para tal, razão pela qual nunca achei que as eliminatórias dos Mundiais ou dos Europeus devessem jogar-se com duas ou três divisões e fui e serei sempre contra Superligas fechadas, sem subidas nem descidas, sem um modelo que permita a qualquer clube lá chegar. A realidade recente, porém, com a dissolução de tantas nações e o aparecimento de seleções com pouca razão de existir – Gibraltar, Andorra, qualquer dia o Vaticano, a Madeira, os Açores ou até o Baixo Alentejo – transformou a maioria dos calendários de seleções num aborrecimento quase permanente. Porque em cada dez jogos, as seleções de top só são verdadeiramente postas à prova duas ou três vezes. E isso não só vem complicar muito a vida a quem tem por missão exigir àqueles jogadores rendimento permanente como muda radicalmente o panorama que os adeptos da minha geração viveram ao crescer, onde as datas de seleções eram uma espécie de ponto alto do calendário. É isso que importa recurperar. E não se fará com muitos jogos entre a Alemanha e São Marino.
2016-11-15
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Os resultados do Grupo C levaram à classificação da Irlanda do Norte em terceiro lugar, atrás de Alemanha e Polónia, com três pontos e uma diferença de golos neutra (2-2). Neste momento, além de alemães e polacos, porém, mais duas equipas puderam desde já festejar a qualificação para os oitavos de final: a Eslováquia, terceira do Grupo B, com quatro pontos, e a Hungria, que amanhã vai defrontar Portugal e que, mesmo perdendo, sabe que nunca será pior do que terceira colocada do Grupo F. Ora isso, aliado aos quatro pontos que já tem, garante-lhe um lugar nos 16 melhores deste Europeu. Os húngaros não quererão perder o jogo, porque se perderem e a Islândia ganhar à Áustria serão mesmo terceiros e ainda há o risco de terem de enfrentar a Espanha – se esta ganhar mesmo o seu grupo, daqui a pouco – já nos oitavos-de-final. Ora esse raciocínio também vale para Portugal, que se empatar marcando pelo menos um golo e não vir mais do que um cartão amarelo no jogo com os húngaros também garante a qualificação: seria sempre terceiro, na pior das hipóteses com o mesmo 2-2 em golos que têm os irlandeses e veria o fair-play desempatar a seu favor. Só que se Portugal passar em terceiro lugar corre mesmo o risco de ter de enfrentar a Espanha já no sábado em Lens. Em contrapartida já se sabe que se torna impossível que venha a ter de enfrentar a Alemanha no domingo em Lille. Isso só aconteceria em cenários nos quais o terceiro do Grupo A (Albânia, com três pontos e diferença de golos negativa) se qualificasse, não estando o terceiro do Grupo B (Eslováquia, com quatro pontos) ou o terceiro do Grupo C (Irlanda do Norte, com três pontos e diferença de golos neutra). É que a UEFA desenhou um esquema complicado para assegurar que as equipas não defrontam adversários do mesmo grupo antes das meias-finais e, ainda que só mesmo quando se souber quem são os quatro melhores terceiros classificados se possa definir os emparelhamentos finais, há hipóteses que já estão afastadas. Assim, se Portugal empatar mesmo e acabar em terceiro do grupo (até pode empatar e ser segundo, se o fizer com mais um golo do que os registados no Áustria-Islândia), já sabe que jogará com o vencedor do Grupo D (Espanha ou Croácia, neste momento), no sábado. Para isso acontecer, os melhores terceiros teriam de ser os dos grupos C, A, B e F; B, C, D e F; B, C, E e F e B, D, E e F. Outras três hipóteses já são impossíveis de realizar. Daqui a umas horas, assim que se souber quantos pontos fará o terceiro do Grupo D se verá se esta hipótese continua em cima da mesa.
2016-06-21
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Último Passe

A Alemanha foi a primeira seleção a ganhar por mais de um golo, batendo a Ucrânia por 2-0, mas deixou a ideia de que pode jogar mais assim que resolver para um dos lados o conflito interior que a consome e lhe prejudica a identidade coletiva. De um lado, a faceta-Bayern, o “guardiolismo” que se reflete em vários aspetos do jogo, como a saída obsessivamente curta ou a tendência dos pontas (Muller e Drexler) para explorarem o espaço interior e tem depois um claro exagero na forma como Löw abdica do ponta-de-lança para fazer jogar ali Götze. Do outro, a faceta mais tradicional, que se vê sobretudo em momentos de transição ofensiva como a que possibilitou o segundo golo, por sinal marcado por um bastião do tradicionalismo alemão: Schweinsteiger, o ponto final de um contra-ataque rapidíssimo e feito de acordo com os livros, com preenchimento dos três corredores. Ver uma equipa ser capaz de dominar duas formas assim tão diferentes de jogar com a mesma maestria não é comum. E é isso, a juntar à aliança entre os seus dois corações – Kroos, que lança, e Khedira, que sobe com bola – que pode fazer desta Alemanha a mais forte candidata ao título europeu. Mais ainda se conseguir resolver o problema nas duas áreas, com a chamada de Gómez e de um central que ponha ordem à frente de Neuer.   O paradoxo croata: o que fazer a esta bola? Poucas equipas neste Europeu conseguirão aliar tanta qualidade num onze como a Croácia. Ter um ponta-de-lança como Mandzukic, médios criativos e técnicos como Rakitic ou Modric, um extremo incisivo e rápido como Perisic, outro taticamente inteligente a compensar e a procurar terrenos interiores como Brozovic e até laterais disponíveis para atacar como Srna ou Strinic dá aos croatas a possibilidade de apresentar uma proposta atraente e ao mesmo tempo contundente. A vitória sobre uma Turquia dececionante confirmou algumas destas ideias, mas deixou a nu um paradoxo na ideia de jogo croata. Na verdade, só quando os turcos perderam o posicionamento, depois do golo magistral de Modric, é que a Croácia conseguiu ter bola com continuidade e levá-la pelo corredor central até à zona de serviço do ponta-de-lança. Tanto Rakitic como Modric precisam de pegar no jogo mais atrás. Não são “números dez” puros e condenar um deles a estar ali é o mesmo que tirar-lhe influência no jogo: na primeira parte, Rakitic esteve no bolso de Inan. Esta Croácia tinha tudo a ganhar em inverter o triângulo de meio-campo, em jogar com Badelj atrás dos dois criativos, duplicando as vias de saída de cada ataque. Enquanto o não fizer, só é perigosa numa de duas situações: no jogo pelas alas e quando se vir a ganhar e com espaço para jogar.   Irlanda do Norte ou a coragem que não dá para tudo. Depois da Albânia, apareceu uma segunda equipa demasiado curta para poder estar na fase final de um Europeu. A Irlanda do Norte, que se apresentou em 5x4x1 contra a Polónia mas nem com três centrais conseguiu parar a aliança de Milik com Lewandoski, os pontas-de-lança polacos, mostrou coragem onde a Albânia exibiu dissimulação, mas também não irá longe. O jogo direto dos irlandeses precisaria de mais do que Lafferty para ser perigoso. Davis não chega para tudo e McNair e Norwood, os dois médios-ala, nunca foram capazes de criar desequilíbrios nas faixas. Contra a Alemanha e a Ucrânia não vai ser mais fácil.  
2016-06-12
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