Último Passe 

2015-08-04
Boateng e a mudança de paradigma

Alex Ferguson contou um dia que só com o aparecimento da chamada “classe de 92” pôs em causa uma das verdades absolutas mais antigas do futebol: a de que não é possível ganhar nada com miúdos. Regra geral, isso acontece e é por isso mesmo que vemos os adeptos do Sporting agarrarem-se ao título oficioso de campeão da formação, ignorando por exemplo que muitos dos seus formandos (Simão, Moutinho, Quaresma, Varela, Carlos Martins…) andaram a ser campeões, mas com a camisola dos rivais. A questão é que, tal como Ferguson percebeu ao ter na equipa os dois manos Neville, Beckham, Giggs, Scholes e Butt, não tem de ser assim: o que mais interessa é a qualidade e se quem tem mais qualidade são os miúdos terão de ser eles a jogar.
Foi por ser contra qualquer tipo de protecionismo e por saber que a qualidade acaba sempre por se impor que nunca liguei muito às teorias segundo as quais Jorge Jesus ia pulverizar a formação do Sporting. Não tinha de ser assim e nem o histórico do treinador funciona como tendência de sentido absoluto – se até aqui ligou pouco à formação, por exemplo, no Benfica, foi porque lhe iam sempre dando jogadores melhores. E até aqui essa estava a ser também a regra no Sporting. João Pereira é melhor que Esgaio, mesmo para quem admita que durante a época este possa dar-lhe luta; Naldo é melhor que o promissor mas ainda desequilibrado Tobias; Ruiz tem tudo para ser melhor que Mané, que até funciona às mil maravilhas quando sai do banco para abanar os jogos; e, mesmo não metendo formação ao barulho, Teo Gutièrrez é titular da seleção do país de Montero, a Colômbia, de onde se infere que também ele deve ser melhor que o compatriota.
A teoria pode ser posta à prova com Kevin Prince Boateng, que vai chegar do Schalke com um salário de top no clube. O germano-ganês ganha a João Mário ou Adrien – presumindo que é para médio centro ofensivo que Jesus o quer – em poder físico e experiência, mas perde em muitos outros parâmetros. Logo à partida no salário, mas também na ascensão na carreira. E quando o que está em causa já é a possibilidade de colocar de lado dois jogadores que andam nas escolhas regulares de Fernando Santos para a seleção nacional, das duas uma: ou Boateng chega e rebenta com o meio-campo de tal maneira que ninguém se arrepende ou o que vai parecer é que mais valia a Bruno de Carvalho investir o dinheiro para garantir as renovações de Carrillo ou Jefferson.