Último Passe 

2015-10-29
Vieira, Proença e a locomotiva em andamento

Luís Filipe Vieira tem razão quando pede a Pedro Proença que aja. O futebol português já tem problemas suficientes para ainda andar constantemente a dar tiros nos pés, a espantar os potenciais patrocinadores com o levantamento de suspeitas. Sei do que falo. Já há 20 anos que defendo a aplicação de uma regra semelhante à que vigora em Inglaterra muito antes da Premier League, em que quem “provoca má reputação ao futebol” é severamente punido. Já o defendo desde o meu início de carreira, ligado ao futebol internacional, ainda Bruno de Carvalho andava na Juventude Leonina, ainda Luís Filipe Vieira estagiava no Alverca para vir a ser presidente do Benfica.

Bruno de Carvalho, de facto, resiste mal aos microfones, às luzes das câmaras, que o levam sempre a passar à ação. Tem abusado do tempo de antena, e isso nota-se sobretudo quando não tem nada de novo para dizer, quando vem ofuscar aquilo que os jogadores vão conseguindo no campo. Mas se lhe condeno o repisar permanente do assunto, já não posso condenar as revelações que fez. Porque não sou eu quem tem de distinguir entre a oferta dos jantares aos árbitros, a fruta e o café com leite ou as máquinas fotográficas dadas noutros tempos. Não sou eu quem tem de dizer se uns devem descer de divisão e outros não. Já aqui escrevi aquilo que acho: não me interessa se as ofertas levam diretamente a benefícios, se são mais ou menos valiosas, mas nenhum clube devia oferecer aos árbitros nada que não tenha a ver com a tarefa que eles estão a desempenhar. E por isso acho que Vieira tem razão quando pede a Proença que aja. O presidente da Liga já devia ter agido para perceber realmente o que se passa ou passou e punir os prevaricadores, se tal se revelar justo.

Só a Liga, através dos seus órgãos disciplinares, poderá estipular se o que se passou agora é ou não grave e que castigos deve ou não merecer. Andar um presidente de clube constantemente a dizer que ouro deve descer de divisão não é positivo. Como o não era ter o canal de televisão de outro clube a repetir “ad nauseam” as escutas do Apito Dourado, quando o seu presidente achava que ainda era preciso credibilizar o futebol nacional. Sim: um dos problemas do futebol português é que toda a gente tem rabos-de-palha e ninguém se queixa quando ganha. E alguém tem mesmo de agir, de fazer um risco no chão e dizer: “a partir de agora, chega!” Pode ser Pedro Proença. Mas se quer mesmo conduzir esta locomotiva, tem de a pôr em andamento. E vai-se fazendo cada vez mais tarde.