Último Passe 

2015-10-29
Os críticos, a estrutura e o plantel do Benfica

O desastre benfiquista no dérbi provocou ondas de todas as espécies. De um lado, vieram o ex-internacional Romeu Silva e o professor Manuel Sérgio considerar que André Almeida não tem qualidade para jogar no Benfica e que Luisão está acabado. Do outro, a famosa estrutura, que afinal se destina menos a proteger o clube ou a equipa de futebol do que a limpar a sua própria imagem, já fez chegar à comunicação social o relambório dos milhões que Rui Vitória tem desprezado. São duas formas radicais de ver a coisa. E a verdade, como de costume, está mais ao meio do que todos creem.

André Almeida não é um craque de qualidade internacional, nunca foi brilhante, mas é um jogador útil, rigoroso e polivalente, que já esteve num Campeonato do Mundo a representar Portugal. E foi bicampeão com Jorge Jesus, jogando em cada uma dessas duas épocas mais vezes do que aquelas que Romeu, por exemplo, alinhou pelo Benfica na soma dos dois anos que passou na Luz. Luisão está um ano mais velho do que no segundo título do bicampeonato, mas se há uns meses era fundamental, nenhum fenómeno conhecido poderia conduzi-lo a uma decadência tão rápida que de repente ficasse obsoleto e acabado. Na verdade, embora seja fácil vir agora dizer que o plantel do Benfica é fraquíssimo e que com ele Rui Vitória não tem forma de se desenrascar, ele não é pior do que aquele que Jesus levou a ganhar os dois últimos títulos nacionais. Falta Maxi? Falta Lima? Mas há Nelson Semedo – ainda por cima a personificação daquilo que o clube quer em termos de política desportiva, que é a aposta na formação – e há Mitroglou e Raul Jiménez. Salvio está lesionado? Mas certamente que os problemas do Benfica não nascem da presença de Gonçalo Guedes nas escolhas do treinador. Além de que se tem havido algo normal em Salvio nas últimas épocas tem sido o facto de se lesionar com alguma regularidade.

Por outro lado, é curioso que vários jornais se tenham lembrado, no mesmo dia, de mencionar as resmas de talento que Rui Vitória tem desperdiçado. Falou-se de novas apostas, como Taarabt e Carcela, mas também de Cristante, Djuricic, Talisca ou Lisandro Lopez. Uma coisa é certa: como a combinação de primeiras páginas ainda não é uma realidade entre jornais concorrentes, estas coincidências só revelam a capacidade de persuasão da face visível daquilo a que convencionou chamar-se “a estrutura”. Que neste caso está mais preocupada em salvar a face de quem manda do que em atenuar a pressão em cima do treinador, que afinal de contas seria culpado de desbaratar tanto talento que por lá tem. Mas, é preciso que se diga, Jesus também não aproveitou esse talento: Djuricic, Lisandro e Cristante nunca contaram para o ex-treinador e até Talisca só foi titular três vezes na segunda metade da época passada. O problema, afinal, pode estar no talento... Na verdade, o plantel à disposição de Rui Vitória é tão bom como aquele que Jorge Jesus levou ao bicampeonato. Tem os mesmos pontos fortes e os mesmos pontos fracos. Simplesmente, Jesus conhecia-o melhor, sabia melhor como exaltar-lhe as forças e esconder-lhe as fraquezas. Mas isso a estrutura já devia saber.