Último Passe 

2015-10-25
Consistência ou largura: a vitória do 4x4x2 que engana

Os extremos são dos jogadores mais entusiasmantes no futebol. São geralmente criativos, têm a capacidade para desbloquear jogos com números de magia, mas a ideia que tenho é que as partidas de futebol raramente se ganham na largura. O que as ganha é a consistência. E no dérbi de Lisboa, o Sporting foi sempre mais consistente do que um Benfica cada vez mais obcecado com a largura. Por isso se impôs com clareza por 3-0.

O 4x4x2 de Jorge Jesus engana, porque os dois médios-ala, que na Luz foram João Mário e Bryan Ruiz, aparecem muito por dentro, aproximam-se dos dois médios-centro e permitem a projeção ofensiva dos laterais, eles sim responsáveis pela largura no campo. Em contrapartida, no 4x4x2 de Rui Vitória há sempre quatro jogadores encostados à linha: quer a bola esteja num corredor ou noutro, o lateral e o seu médio-ala abrem ao máximo. Isso até pode ajudar, se a equipa tiver capacidade para ligar as pontas com rapidez e eficiência – o que raramente mostrou frente ao Sporting – mas dificulta muito quando o que se pede é consistência. Porque se os extremos encantam as bancadas – e por isso mesmo jogam mais perto delas, junto da linha lateral – é no meio que se ganham os jogos. E no meio, o Sporting esteve sempre em clara superioridade numérica, suficiente para explicar as constantes trocas de passes que até puxaram olés das bancadas, as repetidas interceções das bolas que o Benfica tentava enviar de um flanco ao outro, originando contra-ataques, e a elevada percentagem de duelos ganhos em bolas divididas. William Carvalho, nesse aspeto, foi um gigante.

Esta é a explicação tática para a vantagem do Sporting. Depois, é preciso juntar-lhe alguma sorte do jogo, que de facto sorriu aos leões. O Benfica não entrou mal, mas viu-se a perder na primeira vez que o Sporting foi à frente com perigo, num lance que Júlio César não abordou com a decisão necessária e Teo Gutièrrez aproveitou. Tentou reagir e levou com o 0-2, numa jogada que aliou um extraordinário cruzamento de Jefferson, uma cabeçada de grande nível de Slimani e, mais uma vez, falta de agressividade defensiva dos centrais encarnados, que abriram muito espaço entre eles. Com o 0-3, num ataque rápido conduzido pelo possante Slimani, em que mais uma vez faltou agressividade ao Benfica no corredor central e em que Ruiz foi mais decidido a chegar a uma segunda bola do que Sílvio, morriam as hipóteses do Benfica tirar algo do jogo e abria-se a temporada de introspeção benfiquista.

Na segunda parte, mesmo assim, o estádio encheu-se de entusiasmo dos adeptos encarnados, a puxarem pela equipa na tentativa de uma improvável reviravolta, mas a vontade nestas coisas não chega. Não sendo totalmente justo aquilo que diz Jesus acerca do que ainda há dele neste Benfica, é verdade que Rui Vitória está a meio caminho entre duas realidades. Decidiu deitar fora muito do que Jesus construíra, para dar um cunho pessoal à equipa, mas cedeu noutras coisas, não chegando a colocar as fichas todas naquele que é o futebol das suas equipas: a manutenção do 4x4x2 em vez do 4x2x3x1 que sempre adotou e que permite povoar melhor o meio do campo é disso exemplo. Jesus, pelo contrário, montou uma equipa à imagem da que tinha construído na Luz, sem se preocupar que depois venham dizer-lhe que está a usar a mesma fórmula. Está, mas ela resulta e, com a vitória clara na Luz e a liderança isolada na Liga – fruto do empate do FC Porto com o Sp. Braga – já mostrou que este Sporting é mesmo um sério candidato ao título.