Último Passe 

2015-09-28
A incompatibilidade entre futebol e eleições

A próxima jornada da Liga vai ter um foco de polémica no facto de os três grandes jogarem no dia das eleições legislativas. Toda a gente condenou a Liga por não ter deixado esse fim-de-semana vago no calendário e, depois ainda, por ter permitido que o Benfica, o FC Porto e o Sporting jogassem precisamente no domingo do ato eleitoral, em vez de anteciparem ou adiarem os seus jogos. Nada de mais disparatado, é o que me parece. E não é só por todos estarem envolvidos em jogos europeus a meio desta semana.

O que me espanta é que gente com responsabilidades governativas entre nesse tipo de argumentos, que facilmente se prova serem totalmente irresponsáveis. Como se o futebol de alto nível não fosse uma indústria tão precisada de gerar rendimento como outra qualquer, para poder cumprir as suas obrigações com funcionários ou credores. E como se o simples facto de querer ver futebol ao fim da tarde fosse impedir-me de cumprir o meu dever cívico e votar antes disso.
Além do mais, não dei por qualquer indignação ante o facto de no dia das eleições também estarem abertos os centros comerciais, os cinemas, os teatros, ou até o Jardim Zoológico e o Oceanário. Sei que a moda é usar o futebol como sinónimo de alienação, de corrupção intelectual das classes baixas, mas alguém tem ainda de me convencer como é que um jogo dos grandes é mais alienante do que os intermináveis espetáculos de música popular de gosto duvidoso com que os canais de TV nos brindam todos os domingos da hora de almoço até à hora de jantar. E, mais, por que é que ninguém se insurgiu contra a sua realização e emissão em dia de eleições.
Aliás, se me surpreendeu a reação da classe política quando rebentou de indignação ao saber que havia jogos de futebol na data das eleições, não me surpreendeu menos a reação dos dirigentes dos clubes, da Liga ou até da Federação. Os primeiros fizeram-no na tentativa de ganhar alguns voos no lóbi anti-futebol. Para o silêncio dos segundos tenho mais dificuldade em encontrar explicações. Foi como se já estivessem em período de reflexão.