Último Passe 

Crédito: Arquivo
2018-11-30
As motivações de Vieira e os efeitos no Benfica

Luís Filipe Vieira podia ter chegado à conferência de imprensa de ontem e dito que não, que toda a gente na estrutura do Benfica está com Rui Vitória, que nunca lhe passou pela cabeça despedir o treinador e que a onda de notícias que por aí circulava era obra dos malvados dos jornalistas. Ou “jornaleiros”, especializados em “jornalixo”, como agora se diz neste Mundo de realidades pré-fabricadas ao gosto de cada fação. Só que não. Vieira reconheceu que havia muita gente na estrutura que queria trocar de treinador, que ele próprio acedeu a esse desejo e que, depois de uma noite passada no Seixal, decidiu reconfirmar Vitória. E isto motiva-me duas perguntas. A primeira é: porquê? A segunda é: com que efeitos?

Ao porquê só o próprio Vieira poderá responder. Daqui, do lado de fora, posso avançar duas hipóteses. Porque era verdade e Vieira sentiu a necessidade de dizer a verdade – quando podia tê-la escondido, mesmo sem mentir – por solidariedade com os profissionais da comunicação social que estão sempre a ser atropelados e sovados pelas máquinas de comunicação dos clubes,  criadas pelo próprio Vieira e pelos seus colegas presidentes de emblemas rivais. Se foi isso, está de parabéns. Ou então por se sentir iluminado por uma espécie de luz providencial e achar que se Rui Vitória der a volta à situação ele próprio será visto como o mago do sucesso, o homem que manteve a coerência e, tal como sucedera com Jesus em 2013, viu essa aposta dar frutos. O gestor por excelência, portanto. Uma hipótese mostra um Vieira despojado de vaidade, a outra mostra um líder excessivamente vaidoso.

Na verdade, a não ser para os benfiquistas e em eventual cenário de futuras eleições, pouco importa qual é a real. Importa que o presidente do Benfica manteve a sua coerência, a aposta num paradigma em nome do qual tinha despachado Jorge Jesus há três anos e meio. Este Benfica é o Benfica do Seixal, da ligação direta entre a formação e a equipa principal, que quer ser a “espinha dorsal da seleção nacional”, conforme o próprio Vieira prometeu em 2003. Foi para isso que Rui Vitória foi contratado – mesmo que isso signifique que a equipa vai perdendo competitividade a cada ano que passa. Não necessariamente (ou apenas) por responsabilidade do treinador, mas também porque promover miúdos tem custos associados antes de valer receitas no mercado.

O que nos transporta para a segunda pergunta: que efeitos terá a comunicação de Vieira, o reconhecimento de que quase toda a gente no clube queria Vitória fora e que foi ele, em decisão solitária, que aguentou o treinador? O futuro o dirá, já a partir de sábado, na receção ao Feirense. Porque a partir de agora, quem não sabia ou não tinha a certeza – adeptos, jogadores, adversários, jornalistas… – ficou a saber que Rui Vitória está periclitante. Esperará o presidente encarnado que, sabendo disso, os jogadores consigam ir buscar a reserva extra de forças e de esclarecimento para segurar o treinador e que tudo se conjugue para uma exibição convincente e uma vitória concludente. O pior é se acontece ao contrário.