Último Passe 

Crédito: Arquivo
2018-11-29
O paradigma do Benfica de Rui Vitória a Jorge Jesus

A mim, o que me confunde, não é que Luís Filipe Vieira possa vir a demitir Rui Vitória menos de um mês depois de ter defendido, em entrevista, a sua continuidade. Isso é o pão nosso de cada dia no futebol – os resultados definem tudo e os resultados do Benfica não têm sido bons, face ao que nenhum presidente deve ficar preso a declarações circunstanciais. A mim, o que me confunde, é que Luís Filipe Vieira possa estar a pensar no regresso de Jorge Jesus. Não por falta de competência do treinador, que até está agora no local para onde Vieira queria mandá-lo há três anos e meio – no Golfo Pérsico a reforçar a conta bancária com petro-dólares –, mas porque a eventual contratação de Jesus vai muito para lá dos resultados: é a negação de um projeto. Se avançar para Jesus, Vieira ganha um excelente treinador e, das duas uma: ou faz um ato de contrição e assume que há três anos e meio cometeu um erro de proporções gigantescas; ou está a dizer cá para fora que quando andou a falar de projeto, de formação, de levar o Seixal  para a equipa principal, não estava a falar a sério.

Mas vamos por partes. Primeiro, Rui Vitória. O que Luís Filipe Vieira disse, em entrevista à TVI, no final do mês passado, foi que o treinador iria cumprir contrato, ficando na Luz pelo menos mais  um ano e meio. Mentiu? Não necessariamente. É possível que nessa altura essa fosse ainda a intenção do presidente, mas esta é uma declaração circunstancial, de apoio ao treinador em funções, que pode sempre ser emendada se os resultados não melhorarem. Como efetivamente não melhoraram. Desde essa entrevista, o Benfica só ganhou dois jogos, ao CD Tondela e ao FC Arouca, perdendo em casa com o Moreirense e sofrendo a eliminação da Liga dos Campeões graças a um empate caseiro com o Ajax e à recente goleada encaixada frente ao Bayern, em Munique. Ora perante este cenário, perante a produção futebolística confrangedora da equipa nas últimas semanas, perante a contestação crescente vinda das bancadas, até é relativamente vulgar ver um presidente voltar atrás e deixar mesmo cair o treinador. Vieira, por exemplo, não cedeu quando Jesus perdeu tudo em 2013, a ponto de poder dizer-se que é presidente de manter os seus treinadores, mas pode perfeitamente sentir-se inclinado a agir de outra forma agora.

A falta de reação por parte do Benfica à recente entrevista de Jesus ao jornal A Bola – em que, a propósito de um eventual regresso à Luz, o treinador afirmou que “o bom filho a casa torna” – foi ao mesmo tempo um sinal de que ali havia gato escondido com rabo de fora e uma falta de solidariedade com o treinador em funções. Se nos detivermos apenas na segunda parte do problema, mais uma vez, poderia ser a assunção de que não havia mais margem para defender o atual treinador. Mas se olharmos para a primeira, há mais coisas a dizer. Porque a história do futebol está cheia de casos de treinadores que foram despedidos de um clube e depois acabam por lá voltar – uns com sucesso, outros sem ele. A questão é que Jesus não foi despedido do Benfica. Jesus foi afastado porque o seu perfil de treinador não servia para os valores mais altos que a administração da SAD apregoa – e não creio que os apregoe apenas para ficar bem na fotografia ou nos prospetos da CMVM.

Jorge Jesus é um dos mais resultadistas dos treinadores nacionais e, como tal, faz tudo para ter resultados, incluindo essa coisa estranha que é querer contratar sempre os melhores jogadores disponíveis para cada posição, roubando espaço aos miúdos que estão a sair da formação. Nesse aspeto, bem pode dizer-se que os primeiros títulos de Rui Vitória ainda foram obra de Jesus, não por causa do trabalho de campo efetuado, como Jesus chegou a insinuar, mas porque Vitória herdou um plantel fortíssimo, nascido da exigência e da inquietação permanentes do anterior técnico. Acontece que houve uma altura em que o Benfica resolveu dizer “Basta!” e quis mandar Jesus para o Golfo Pérsico, com a promessa de no futuro lhe ser arranjada uma vaga no Paris St. Germain. Não foi porque ele não ganhasse – tinha acabado de ser campeão – mas sim porque queria mudar de paradigma. E um paradigma não se esgota em decisões ou em declarações circunstanciais.

Se demitir Rui Vitória e acabar por trazer de volta Jorge Jesus, Luís Filipe Vieira dá um passo importante para resolver um problema, que é o da falta de qualidade de jogo da equipa. Jesus é dos mais competentes treinadores da atualidade, por exemplo, a trabalhar os processos defensivos, que têm sido um pesadelo nesta época na equipa do Benfica. Fica a curiosidade de se perceber até que ponto o trabalho de Raul José, adjunto de Jesus há anos, era fundamental no treino ofensivo, ou como vai a nação benfiquista pacificar-se com um treinador cuja importância foi ensinada a negar nos últimos anos. Mas fica sobretudo a curiosidade de ver como é que Vieira justificaria a troca, que deitava por terra o novo paradigma que ele tanto tem defendido – e que já levou, por exemplo, à entrada de vários jogadores do Benfica (ou lá formados) na seleção, conforme era anseio antigo do presidente.

Deixo uma pequena ajuda. A intervenção devia começar pelas palavras: “Eu estava enganado”.