Último Passe 

Crédito: Arquivo
2018-11-22
A Bola de Ouro sem teorias da conspiração

De França chegou a sugestão. De Itália, a revolta. Em Portugal fez-se eco da revolta italiana. Ao que tudo indica, nem Cristiano Ronaldo nem Messi estarão na lista de candidatos a receber a Bola de Ouro do France-Football relativa a 2018. Fim de uma era? De um duelo de titãs? Ou será antes a vingança servida a frio do lóbi do Real Madrid com a conivência dos franceses? Talvez não seja nenhuma das hipóteses acima, mas apenas a constatação de que o Mundial influiu sempre muito nestas escolhas e a base para um debate acerca de prémios individuais em jogos coletivos e do peso das conquistas da equipa nas escolhas dos jurados.

Não me restam a mim grandes dúvidas de que Ronaldo e Messi continuam a ser de um planeta à parte e que ainda não houve sucessão. Neymar ficou curto, Mbappé está a caminho mas ainda tem alguns quilómetros para palmilhar. Mas aqui surge a primeira questão: a Bola de Ouro deve premiar o melhor jogador do Mundo a esta data o aquele que foi o melhor do Mundo no ano que está a terminar? Não é a mesma coisa. Messi ganhou a Liga espanhola (de que foi o melhor marcador) e a Taça do Rei; Cristiano venceu a Liga dos Campeões (sendo igualmente o melhor marcador) e o Mundial de clubes (jogado já depois da entrega da Bola de Ouro anterior), mas ambos ficaram aquém do pretendido no Mundial de seleções. E não é preciso fazer um estudo muito aprofundado para se perceber que o anormal, aqui, foi aquilo que se passou nos últimos anos, em que a Bola de Ouro não foi entregue a um jogador que tenha estado, pelo menos, na final do Mundial.

Olhemos para trás. Desde que a Bola de Ouro foi criada, em 1956, ela foi entregue por 15 vezes em ano de Mundial (duas delas em parceria com a FIFA). Em seis dessas 15 ocasiões, porque a Bola de Ouro se destinava ainda apenas a jogadores europeus e o campeão mundial foi sul-americano, seria impossível premiar um jogador da seleção que ganhou o Mundial – sucedeu em 1958 (ganhou Kopa porque o campeão foi o Brasil), em 1962 (ganhou Masopust, mais uma vez em ano de Brasil campeão), em 1970 (venceu Müller, mais uma vez em ano de Brasil), em 1978 (impôs-se Keegan, com a Argentina campeã), em 1986 (Belanov foi o mais votado, mais uma vez com a Argentina a levantar a Taça) e em 1994 (a Bola de Ouro foi para Stoitchkov, com o Brasil campeão do Mundo). Em seis dos outros nove anos de Mundial, o Bola de Ouro foi também campeão do Mundo – o inglês Bobby Charlton em 1966, o italiano Paolo Rossi em 1982, o alemão Matthäus em 1990, o francês Zidane em 1998, o brasileiro Ronaldo em 2002 e o italiano Cannavaro em 2006. E alguém acha que Cannavaro alguma vez foi o melhor futebolista do Mundo?

Isso quer dizer que em mais de meio século antes da emergência de Cristiano Ronaldo e Messi e da junção da FIFA ao prémio da France-Football, só por uma vez houve um Bola de Ouro que não tinha sido campeão do Mundo – aconteceu com Cruijff em 1974. E mesmo Cruijff jogou a final do Mundial. Depois, Messi ganhou em 2010 com a Espanha a ser campeã do Mundo – e muitos se insurgiram, dizendo que o prémio devia ser para Xavi ou Iniesta – e Cristiano Ronaldo venceu em 2014, depois de a Alemanha ter ganho o Mundial. O normal, portanto, é que em ano de Mundial a Bola de Ouro seja entregue a um jogador que ganhou o Mundial. O normal, este ano, é que Mbappé a vença. Sem complots nem teorias da conspiração. O que não invalida uma realidade muito simples: que Cristiano Ronaldo e Messi continuam a ser os dois melhores do Mundo.