Último Passe 

Crédito: Lusa
2018-11-15
O jornalismo, a internet e o “pão e circo”

Tenho evitado escrever acerca de casos judiciais, por um par de razões: primeiro, porque não tenho nada de útil a acrescentar, pois não é essa a minha área de especialidade, mas sobretudo porque, sejam os arguidos de que clube forem, gosto de me reger pelo princípio da presunção da inocência e não condeno ninguém enquanto os tribunais o não fizerem, não opino acerca daquilo que não posso comprovar. Mas a indignação de muitos amigos meus acerca da atenção mediática que tem estado a ser dada ao caso-Bruno de Carvalho leva-me a dirigir a agulha para outro lado – a razão pela qual os media passam horas a transmitir em direto à porta de um tribunal, onde o que quer que esteja a acontecer não é do conhecimento de ninguém a não ser de quem lá está dentro. Pois bem, a razão é muito simples: o Mundo está um lugar estranho. E perigoso.

A verdade é que o futebol parou no domingo – e não foi por causa da detenção de Bruno de Carvalho. Encerrou-se a décima jornada da Liga, a seleção começou a treinar e a preparar os jogos com a Itália e a Polónia e os melhores jogadores nacionais passaram a debitar aquelas palavras de circunstância com que nos presenteiam regularmente como resposta a perguntas igualmente de circunstância com que são presenteados com a mesma regularidade. A verdade é que nada daquilo motiva interesse a ninguém. As pessoas querem acontecimentos, querem causas, querem algo que as apaixone ou revolte. E, tendo a noção disso, os media dão-lhes aquilo que elas querem, numa espécie de variação moderna da política “Panem et circenses” que foi desenvolvida durante o império romano.

Seria fácil agora chegar aqui e acusar os algoritmos das redes sociais – cuja responsabilidade é evidente – desta deriva populista que o Mundo está a conhecer. Da mesma forma que é fácil aos cidadãos indignados acusar os programadores de estarem a pensar na audiência – a verdade, digo-vos eu, é que não é nisso que eles estão a pensar, mas sim na capacidade de pagar salários a quem trabalha, porque esses saem da publicidade e essa sai das audiências. É tão fácil aos jornalistas lavarem as mãos e atribuírem toda a responsabilidade às redes sociais como é aos cidadãos isentarem-se de culpa enquanto grupo e apontarem o dedo aos jornalistas. Mas o que é preciso é encontrar um modelo que funcione.

A pressão económica sobre os media é clara, num Mundo em que a facilitação do acesso de todos a tudo veio tornar os jornalistas aparentemente dispensáveis. As pessoas não querem verificação de factos, sobretudo se essa verificação as forçar a sair da sua própria zona de conforto, se as obrigar a serem confrontadas com uma realidade diferente daquela que querem ver e que as redes sociais lhes dão, na bolha de “amigos” de que as rodeiam artificialmente. Ao que isto nos leva é a um jornalismo sob garrote económico, que só agrava a situação, forçando os jornalistas a tentarem ir ao encontro daquilo que as pessoas querem. É daí que vem o perigo, sobretudo num mercado tão pequeno como o português, onde mesmo as maiorias são de menos para manter vivos projetos jornalísticos que não cedam à vontade da turba ululante e não lhe deem aquilo que ela quer.

No Web Summit do início deste mês, Margot James, ministra britânica das Indústrias Digital e Criativa, deixou no ar a possibilidade de se encontrarem modelos de financiamento e apoio ao jornalismo que compensem aquilo que a internet lhe tirou. Não creio em soluções desse género, nem em Inglaterra – onde apesar de tudo a dimensão do mercado e dos seus nichos ainda permite que subsistam muitas coisas boas – nem, muito menos, em Portugal. Como não creio que seja possível inverter o caminho da crescente liberalização do acesso. Tal como no futebol português de há uns anos – quando os clubes estavam falidos, os jogadores não recebiam a tempo e horas, os adeptos não encontravam condições para ir aos jogos e, no entanto, alguns empresários estavam cada vez mais ricos – o atual modelo de circulação de informação na rede favorece uns quantos, que prosperam. Os media, esses, definham e envergonham-se cada vez mais.

Como em tudo na vida, há dois caminhos. Um é para a frente: atrasará mas não evitará a morte de uma indústria. O outro passa pela reconversão, por dar um passo atrás para se poder depois dar dois em frente, por revalorizar uma profissão com base na qualidade e não na quantidade. Dificilmente será no meu tempo, porém. Infelizmente.