Último Passe 

Crédito: Facebook Benfica
2018-11-08
O Benfica entre a pressão e o foguetório

Rui Vitória tem razão quando afirma que os minutos 92 e 94 dos dois jogos entre o Benfica e o Ajax podem ter mudado a história deste grupo da Liga dos Campeões. Não tivessem os holandeses marcado golo em Amesterdão tão perto do final e não tivesse Onana defendido o remate de Gabriel mesmo em cima do fim do jogo da Luz e seria o Benfica quem estava agora em posição privilegiada para se apurar. Onde o treinador do Benfica não tem razão é no raciocínio que faz a seguir. Porque não foi só esse detalhe a falhar na prestação de uma equipa que continua muito desorganizada a defender e cujos adeptos andam iludidos pelo fogo de artifício de uma primeira zona de pressão agressiva.
A expressão “pressão alta” entrou no dia-a-dia dos adeptos de futebol portugueses com o FC Porto de José Mourinho, em 2002. Veio de uma outra expressão, a “zona pressing” que tão bem caraterizava o Milan de Arrigo Sacchi, no final da década de 80 (e mesmo o treinador de Fusignano foi beber a inspiração a Niels Liedholm, o sueco que começou a acabar com o homem-a-homem no futebol italiano e que foi, por exemplo, o mentor de Eriksson). O problema de quem apreende os vocábulos e não os conceitos é que se prende muito mais com as cores do foguetório do que com o processo que leva cada foguete a descrever uma determinada trajetória ou a rebentar na altura exata. Muitos olhavam para aquele FC Porto de Mourinho e só viam a forma como Derlei, Postiga e companhia caíam em cima dos opositores e os sufocavam logo ali, recuperando bolas ou levando a um início de construção precipitado do opositor. Era bem mais difícil de reparar na forma como a equipa se comportava quando o adversário rompia aquela primeira linha de pressão: ficava junta, “curta”, como se dizia no futebol italiano, com linhas próximas, de forma a não deixar que o adversário jogasse dentro do seu bloco.
Ontem, durante o jogo com o Ajax, ouvi muita gente dizer que o Benfica estava a defender muito bem, que pressionava muito, mas que o problema seria perceber se a equipa iria ser capaz de aguentar aquele ritmo. Ora, sendo verdade que o comportamento defensivo foi melhor do que no jogo com o Moreirense, esteve longe de ser bom, uma vez superada a primeira linha de pressão. Porque, lá está, o resto da equipa não acompanha a pressão feita na frente, tenta resguardar-se, quem sabe se com medo ou com falta de referência, e nas inevitáveis ocasiões em que o opositor consegue entrar no bloco com a bola, joga a seu bel-prazer. Há dias, o Moreirense achou sempre forma de superar a tal primeira linha encarnada, entrou com bola no bloco, atraiu os laterais ao espaço interior (sobretudo um atónito Grimaldo) e lançou-lhes depois os extremos nas costas. Ontem, quando ainda assim o Benfica melhorou posicionamentos e coberturas a meio-campo (mesmo que me pareça que nenhuma equipa pode realmente melhorar sacrificando o seu melhor médio, no caso Pizzi), o pecado maior foi o espaço entre as linhas, causado pelo temor de avançar da mais atrasada.
É aí, e não na defesa de Onana (até porque também Vlachodimos fez excelentes defesas em Amesterdão e porque camaronês antes já tinha facilitado no golo de Jonas) que Vitória deve procurar pistas para melhorar. Este Benfica tem excelentes jogadores, mas não pode encontrar explicação para os resultados em erros ou proezas individuais. Elas são quase sempre coletivas.