Último Passe 

2018-11-06
Três perguntas acerca de Jorge Jesus e o Benfica

A corrente em torno do eventual regresso de Jorge Jesus ao Benfica alimenta-se daquilo que cada vez mais faz a notícia – o “buzz”, o assunto de que se fala. Não são “fake news”, porque na verdade ninguém no seu perfeito juízo se atreveu a apresentar a coisa como um facto, mas as alusões ao regresso também podem não ser mais do que um desejo para uns e um pesadelo para outros, com o potencial disruptivo de que se fazem os temas de que se fala nas redes sociais. São estes “trending topics” que, qual pescadinha de rabo na boca, fazem o Mundo andar para a frente e aproveitam o embalo para seguir caminho. Assim sendo, perante uma mera suposição, tudo o que posso fazer são três perguntas: É possível? É inteligente? É justificável? E se consigo dizer sim às duas primeiras, tenho mais dificuldade em explicar a terceira.

Primeiro: é possível? Neste momento, evidentemente, não. O Benfica tem um treinador em funções e ainda recentemente o presidente do clube lhe reforçou a legitimidade em entrevista televisiva. Se a palavra de Luís Filipe Vieira for para levar a sério, Rui Vitória estará para durar. A não ser que – e seguramente nenhum benfiquista quererá que tal suceda… – a equipa continue a perder e passe da atual fase de derrapagem para a consumação de um acidente de dimensões épicas. Aí, se Rui Vitória se demitisse, seja por desistir de lutar ou por ser convencido por alguém acima dele a fazê-lo, a questão mudava de figura. E então, sim, seria possível o clube recuperar Jorge Jesus, até porque as relações entre o treinador da Amadora e o presidente encarnado estão normalizadas à conta de sucessivos encontros no Ritz, onde Jesus almoçava diariamente e onde Vieira mantém frequentes reuniões de negócios.

Segundo: é inteligente? Aqui a questão assume duas ramificações. Se olharmos para o plano meramente futebolístico, eu diria que sim. A qualidade de trabalho de Jesus é muito superior à média, pelo que tê-lo é sempre melhor do que vê-lo num rival. Por isso, sim, contratá-lo seria uma medida inteligente. No entanto, o elevado potencial de amor e ódio que o treinador reúne poderia levar a uma cisão dentro do clube, que a partir desse momento precisaria de pacificação como de pão para a boca. Mesmo a jogar menos, muitos benfiquistas preferem o cavalheirismo e a solidariedade dentro do grupo de Vitória ao conflito permanente e ao abuso do “eu” que sempre foi apanágio de Jesus. Outros, ainda, nunca lhe perdoaram que tivesse assinado pelo Sporting e partilhado a trincheira com Bruno de Carvalho, mesmo que no final os dois tenham acabado em campos diversos. Se é verdade que grande parte deste tipo de “ameaças” nunca são concretizadas, já vi muita gente pronta a pôr o benfiquismo em hibernação se e quando Jesus voltasse.

E se digo que tenho grandes dificuldades em responder positivamente à terceira pergunta – é justificável? – nem é a pensar nos adeptos que só são do clube se lá não estiver alguém de quem eles não gostam particularmente. É sim, por pensar em termos estratégicos. A dispensa de Jorge Jesus, há três anos e meio, depois de o treinador ter ganho dois campeonatos consecutivos e levado o Benfica a duas finais europeias, foi “vendida” ao Mundo como uma questão programática. Jesus não servia para o Benfica porque não apostava nos miúdos da casa, que para ele teriam de “nascer duas vezes”, ou porque – e esta é uma vitória das “fake news” – alegadamente queria fazer de Bernardo Silva defesa-esquerdo. O projeto de auto-sustentação do Benfica passava por outros caminhos, nomeadamente pela afirmação dos jovens jogadores que saem do Seixal. Ora isso não mudou. E se a coisa se concretizasse até tinha graça só para ver como é que os “spinners” iriam dar a volta a esta narrativa.