Último Passe 

Crédito: Facebook Óliver Torres
2018-11-04
Do ocaso patrocinado de Herrera à reafirmação de Óliver

Quando, há algumas semanas, Pinto da Costa revelou publicamente as elevadas exigências de Herrera para renovar contrato com o FC Porto, não era preciso ser um génio para perceber que, imolado dessa forma na praça pública, o mexicano ia perder influência na equipa. Estava criado um problema de que Sérgio Conceição seguramente não precisava no ataque ao bicampeonato. O treinador, no entanto, soube transformar a crise em oportunidade e aproveitou para dar a Óliver Torres o protagonismo que este nunca tivera com ele, conferindo nova alma à equipa. O médio espanhol foi providencial nos últimos dois jogos dos dragões no campeonato e, tanto como incensá-lo agora, seria curioso perceber por que razão ele andou tão apagado durante tanto tempo – porque a qualidade esta lá.
Ainda estou para perceber a estratégia no caso de Herrera. O mercado tem destas coisas e não haverá aqui uma forma certa e uma forma errada de reagir. Luís Filipe Vieira, por exemplo, permitiu que Jorge Jesus utilizasse Maxi Pereira até ao final do contrato, antes de o lateral uruguaio se mudar do Benfica para o FC Porto – foi campeão, mas retardou a busca de uma solução de continuidade. Bruno de Carvalho, por sua vez, impediu o mesmo Jesus de continuar a aproveitar Carrillo quando se viu que ele não ia renovar – a equipa perdeu o que era o seu melhor jogador mas abriu espaço para a entrada de Gelson, que só os extraordinários acontecimentos do final da época passada impediram (para já) que se transformasse num saco cheio de notas de euro. Com Herrera a jogar e a assumir alguma preponderância na equipa, Pinto da Costa veio dificultar que tal continuasse a suceder, excluindo-o do lote dos que sentem o clube no coração. Já se sabe que, no Porto, essas coisas se levam muito a sério – e o caso levou imediatamente à sua queda para o banco de suplentes.
Se isso faz parte de uma estratégia que ainda possa levar à venda do passe do mexicano no mercado de inverno, à sua renovação com outras condições mais favoráveis ao clube ou se foi apenas um lapso do presidente, só o futuro poderá dizê-lo. Para já, o que importa é a equipa. E a equipa tem funcionado. Óliver entrou no onze no jogo de Moscovo, ainda no contexto do 4x3x3, ao lado de Herrera e à frente de Danilo, mas manteve-se quando o treinador decidiu optar pelo ofensivo 4x4x2 com sacrifício de um médio para promover a entrada de mais um ponta-de-lança. O jogo do Funchal, no qual Otávio até assumiu mais protagonismo, por ter marcado o golo de abertura instantes depois de ter entrado em campo, mostra bem aquilo que o espanhol dá ao onze. No primeiro golo, é dele o rasgo, a capacidade de sair a rir de uma situação de um para três, depois resolvida de forma brilhante e sempre ao primeiro toque até à finalização do brasileiro. No segundo, é dele a ação de pressão que leva ao roubo de bola, bem como depois a condução do contra-ataque e a decisão (boa) de libertar a bola para quem pudesse dar bom seguimento ao lance.
Desde que Julen Lopetegui o trouxe para o FC Porto, interrompendo-lhe o percurso de jovem estrela à procura de afirmação no Atlético de Madrid, Óliver Torres deixou bem à mostra o que podia dar à equipa do FC Porto, tanto na fase ofensiva como na fase defensiva. É um jogador criativo, criterioso e inteligente, que devidamente motivado nem se furta a cumprir trabalho mais invisível. E no entanto, na época passada, seis meses depois de o clube português ter investido bem na compra do seu passe, transformando o empréstimo numa situação tão irreversível quanto o futebol o permite, o espanhol foi desaparecendo gradualmente. As razões, só quem está naquele balneário as saberá, mas a maior dúvida que me subsiste não é tanto se Óliver deve ser titular e figura chave deste FC Porto. É, sim, se a equipa pode manter este esquema com dois pontas-de-lanca e dois extremos contra opositores que, ao contrário do Marítimo de ontem, entendam que um campo de futebol não acaba na linha de meio-campo e acreditem que é possível atacar a baliza adversária.