Último Passe 

Crédito: Facebook Benfica
2018-11-03
Luís Filipe Vieira e o futuro de Rui Vitória

A derrota contra o Moreirense e, provavelmente quase tanto como isso a paupérrima exibição da equipa do Benfica na abertura da nona jornada da Liga, viraram ainda mais os ânimos de uma boa parte dos adeptos presentes no Estádio da Luz contra Rui Vitória. São reações emocionais, nascidas da frustração, como emocional foi igualmente a agressão de Jardel a Arsénio, punida com expulsão, ou terá sido a irritação de Jonas com Fábio Pacheco, num momento do jogo em que tiveram de ser os miúdos Gedson e João Félix a acalmar o experiente brasileiro. Rui Vitória, porém, já veio dizer que não desiste e Luís Filipe Vieira tinha sido taxativo no início da semana, a garantir que não muda de treinador. E, no entanto, nem tudo isto é irrelevante.

Rui Vitória é hoje o mesmo treinador que ganhou dois campeonatos no Benfica. É um técnico seguro, aquilo a que se chama um treinador de projeto. Dele não se esperam momentos de brilhantismo, mas sim fidelidade às linhas mestras que lhe traçam desde cima. Se é para apostar nos miúdos, ele aposta nos miúdos – e não deixa de ser curioso que todos os que o elogiaram quando, deixado sem mais alternativas por circunstâncias várias, foi forçado a promover jogadores como Ederson, Lindelof ou Renato Sanches, mais tarde vendidos a preço de ouro, agora o critiquem por jogar com os miúdos e deixar no banco jogadores mais batidos, como Salvio ou Cervi. No fundo, quem agita lenços brancos quer é ganhar e tanto se lhe dá se o faz com jogadores novos ou velhos, brancos ou negros, destros ou canhotos. Quem decide, no entanto, tem de ser capaz de ver um pouco mais longe.

Sempre achei que o maior mérito de Rui Vitória no Benfica tinha sido dirigir a favor do balneário. Mais influente no treino, no trabalho diário, Jorge Jesus via a personalidade levá-lo a uma gestão mais conflituosa dos jogadores. O primeiro campeonato ganho por Rui Vitória, precisamente ao Sporting de Jesus, não foi ganho porque o seu Benfica jogasse mais, que não jogava… – foi ganho porque o seu líder era mais discreto, usava mais o “nós” e menos o “eu”, e isso predispunha os jogadores a superar-se na defesa do grupo. O segundo título ganho por Vitória terá sido aquele em que, por dificuldades do FC Porto e impulso auto-destrutivo do Sporting, o Benfica foi claramente superior aos rivais. Sempre me convenci de que esse teria sido o momento para Rui Vitória sair – porque Vieira mimetizou de Pinto da Costa a tendência de não se separar de treinadores em baixa e aquele era o momento de corrigir o tiro e ao mesmo tempo ser grato a quem o tinha ajudado, como tentou fazer com Jesus quando quis desfazer-se dele, em 2015. Ainda hoje não sei o que falhou – embora suspeite que terá sido o facto de Jorge Mendes não ter conseguido tirar Leonardo Jardim do Mónaco nesse Verão de 2017 (falava-se do Arsenal…), depois de o madeirense ter atingido as meias-finais da Liga dos Campeões. Jardim ficou e o carrossel não arrancou.

A terceira época de Vitória na Luz já foi em perda. À campanha miserável na Liga dos Campeões somou-se a perda do campeonato para o FC Porto, a eliminação da Taça de Portugal aos pés do Rio Ave e a incapacidade de chegar sequer ao “final four” da Taça da Liga, em benefício do Vitória FC. A resposta do Benfica foi reforçar a equipa – e esta época, apesar do apagamento de Ferreyra, o ponta-de-lança que faria com que tudo aquilo adquirisse sentido, parece evidente que o melhor plantel da Liga é o que trabalha na Luz e no Seixal. Até por isso, a sequência de derrotas que afasta os encarnados do topo da Liga e os deixa em maus lençóis na Liga dos Campeões vem pressionar mais Rui Vitória, que a perder também mudou um pouco de forma de estar: parece mais tenso e substituiu o paternalismo pela irritação face a perguntas que nem chegam sequer a ser incómodas. Além disso, já bateu várias vezes com a mão no peito, reclamando em nome próprio os milhões encaixados pelo clube nos últimos mercados e chegando até a difundir dados errados acerca do “ratio” de vitórias em partidas internacionais em comparação com outros treinadores.

Vitória comporta-se em consonância com a frase que soltou ontem, depois de ver a sua equipa ser vencida e convencida pelo Moreirense – algo que não sucedera nem com o Ajax em Amesterdão nem como o Belenenses no Jamor. “Não desisto de nada!”, disse. E não desiste. Vai defender-se. E Vieira? Vieira continua marcado pela demissão de Fernando Santos e é hoje muito mais o presidente que segurou Jorge Jesus quando este perdeu tudo em 2013 do que um líder suscetível de mudar de treinador por causa da pressão, venha ela de adeptos ou até de dirigentes da SAD ou do clube. A questão aqui é a de se saber o que pensa Vieira de Vitória. Confia que ele é o melhor treinador para o Benfica, como confiava em Jesus em 2013? Se assim for, nem a eventualidade de mais uma derrota contra o Ajax, na quarta-feira, o levará a demitir o treinador. Ou está já convencido de que Vitória não é a melhor pessoa para comandar o barco e manifestou-lhe solidariedade no início da semana só porque é isso que se espera dele e estará nesse caso recetivo a aceitar um pedido de demissão que não o leve a entrar em contradição? As próximas semanas no-lo dirão.