Último Passe 

Crédito: Facebook Sporting
2018-11-01
Por que falhou Peseiro no regresso ao Sporting

O despedimento oficiosamente anunciado de José Peseiro do Sporting era uma inevitabilidade que já estava inerente no momento da sua contratação, ainda que o momento em que se concretiza deixe sinais deveras preocupantes acerca da liderança de Frederico Varandas. Peseiro foi contratado numa conjuntura de crise em nome de uma competência que de facto possui e apesar de uma imagem negativa que dele tem a maioria dos adeptos leoninos, ainda por cima ampliada pela resistência dos saudosos do regime de Bruno de Carvalho, que em nome do líder até estavam prontos a endeusar Sinisa Mihajlovic. Desde sempre se percebeu que Peseiro resistiria no fio da navalha enquanto os resultados o permitissem e que teria de optar entre seguir as suas convicções mais profundas ou deixar-se enredar num instinto de sobrevivência que talvez lhe permitisse aguentar mais algum tempo mas nunca faria dele solução de futuro, como o próprio Frederico Varandas já deixara bem claro.

Acho que Peseiro cometeu um erro estratégico profundo, ao optar por construir um modelo de jogo de risco zero em termos ofensivos, muito em contraciclo com aquilo que marcou a sua primeira passagem por Alvalade. Uma vez, há mais de dez anos, foi o próprio quem me explicou a metamorfose que vivera como treinador: alegou que a equipa do Sporting de 2004/05 se baseava tanto em movimentos de envolvimento coletivo que se desequilibrava a atacar e não era depois capaz de fazer uma boa transição defensiva, por ser apanhada com muita gente fora de posição. Olhando para o plantel que tinha ao dispor no Sporting de 2018/19 e, mais ainda, para a conjuntura de animosidade entre jogadores e adeptos, Peseiro optou por reforçar esta identidade securitária e por montar a equipa em cima de valores como a união, personificada na solidariedade defensiva. Do meu ponto de vista, fez mal.

Fez mal, porque embora tivesse razão acerca da perda de qualidade do plantel – passou os primeiros meses da época sem sete dos onze titulares de Jesus e só teve um real acrescento de qualidade em Nani – alienou a única coisa boa que os adeptos prontos a defendê-lo recordavam a seu respeito: o bom futebol. Porque, sendo verdade que este Sporting de 2018/19 é bem mais fraco do que o de 2017/18, não é potencialmente tão fraco como o revelam a sua confrangedora produção ofensiva – esta equipa não é capaz de construir por dentro, por exemplo – ou a regularidade com que comete erros defensivos. A verdade é que, apesar de tudo, para este Sporting, têm sido melhores os resultados do que as exibições – e isso até poderá ser um ponto a favor de Peseiro, que consegue chegar a Novembro em condições muito razoáveis em todas as competições. Tal como há um ano, o Sporting está a dois pontos do líder na Liga – e já visitou dois dos três primeiros. Além disso, está em prova na Taça de Portugal, tem boas condições de seguir em frente na Liga Europa e até na Taça da Liga não deve precisar de mais do que uma vitória no terreno do Feirense para chegar ao “final four”.

Porque falhou, então, o regresso de Peseiro a Alvalade? Falhou por três razões, a primeira das quais o facto de o presidente-eleito depois da sua contratação não o ter visto nunca como solução: só assim se compreende uma decisão tão populista como o despedimento de um homem que está em todas as competições. Mas falhou, também, porque o próprio Peseiro foi pouco perspicaz na gestão da perceção que dele tinham os adeptos. Manda qualquer manual de liderança que se há dúvidas acerca da capacidade de uma equipa se aproveite qualquer bom sinal para reforçar essa mesma qualidade. Ora, depois da boa exibição conseguida frente ao Boavista e perante um jogo de risco elevado e motivação-zero, como era a receção ao Estoril, Peseiro não devia ter dado o toque a desmobilizar, mudando quase todo o onze, com o acréscimo da perda evidente de qualidade. Devia, pelo contrário, reforçar os laços entre titulares, que certamente não estarão tão fatigados que não aguentassem três jogos numa semana. Neste aspeto, o ideal está entre a aposta sucessiva nos mesmos onze que foi feita por Jesus na época passada e a rotatividade total preconizada por Peseiro esta época, ainda por cima com um plantel mais fraco.

Falhou, por fim, porque o treinador deixou a frustração e a sabatina levarem a melhor sobre a lucidez no final do jogo com o Estoril. Por mais frustrado que esteja com um resultado, quem pede aglutinação, como tem pedido Peseiro, não pode depois pregar a divisão, dizendo que “quem quer apoiar apoia e quem não quer está no seu direito”. E, por outro lado, tem de ter a noção de que há limites para o politicamente correto na forma como fala da equipa após os jogos. Dizer, depois da derrota em casa com o Estoril, que a equipa “jogou bem” não é aceitável. Sobretudo porque não é minimamente verdade.