Último Passe 

Crédito: Foto: FPF
2018-10-12
A seleção no domínio das ideias: lança ou machado?

O novo futebol da seleção nacional, mais feito de iniciativa, de ataque organizado e de envolvimentos coletivos suscetíveis de provocar desequilíbrios no adversário, tem maravilhado adeptos e observadores e leva mesmo alguns, mais radicais, a dizer que sem Ronaldo a equipa joga “melhor”. Aqui, no entanto, tal como acontecia no Europeu de 2016, não se trata de jogar melhor ou pior. Mas, não iludamos a questão, trata-se, sim senhor, de jogar “diferente”. E o grande desafio que se coloca a esta equipa e ao seu selecionador, assim que passar a fase de qualificação da Liga das Nações, passa pela capacidade de integrar Ronaldo, de devolver à equipa a sua capacidade concretizadora, sem lhe tirar a identidade feita destes envolvimentos que a transportam ao futebol português do início do século e que, no plano das ideias, é superior ao jogo que Portugal tem vindo a desenvolver nos últimos anos. Fernando Santos mostra-se otimista quanto à tarefa, mas que não restem dúvidas: é a missão mais complicada que teve à frente da seleção de Portugal.

No rescaldo da vitória na Polónia, por 3-2, os jogadores aceitaram as diferenças para um passado recente que será também, certamente, futuro não muito longínquo. “Fomos muito dominantes”, salientou Bernardo Silva, considerando que a equipa não é melhor nem pior, mas sim “diferente” da que esteve no Mundial. Cancelo, o melhor em campo, foi ao ponto de dizer que a equipa se “divertiu a jogar”. E Fernando Santos aceita essa diferença – provavelmente até a promove, porque mesmo sem treinos em quantidade já é possível identificar traços identitários no novo futebol da seleção. Mantém o ponta-de-lança móvel, ainda que a beneficiar de um excelente momento de confiança de André Silva; beneficia do futebol alternadamente curto e longo de Rúben Neves no início da construção; cria inúmeros envolvimentos através da articulação em triângulo de três homens na direita (Cancelo, Pizzi e Bernardo), quase sempre a libertar o lateral para a linha de fundo; estica mais o jogo à esquerda, de onde William sai mais, chamado a ocupar posições no corredor central, deixando ao lateral e ao extremo a missão de se haverem mais vezes sem ele.

A verdade é que isso resulta num novo futebol, mais agradável aos olhos, mas feito de iniciativa do que aquele que a equipa praticava para aproveitar melhor as maiores armas de Ronaldo: se abusava de um jogo mais feito em transição ofensiva, com mais ataque rápido e contra-ataque, em busca da libertação do CR7 atrás da última linha defensiva adversária, a equipa agora entra mais em organização, com mais ataque posicional, dentro do bloco adversário, a explorar o espaço entre as linhas deste. Este é um futebol mais em linha com aquilo que é a tradição recente do melhor futebol português: era assim que jogava a seleção de 1996 a 2000, apontada pelo filósofo do “jogo bonito” que era por esses tempos Jorge Valdano como exemplo do que é “jogar bem”, mas a quem o meu colega Manuel Queiroz uma vez chamou, num rasgo de inspiração, “uma equipa de bilhar livre”. Porquê? Porque para ser verdadeiramente grande lhe faltava a baliza, o buraco, a vertigem pelo remate e pelo golo. Tendo apanhado essa geração no ocaso e acabado por ser referência da que se seguiu, foi isso que Ronaldo trouxe a esta equipa de Portugal: futebol concreto.

No final do jogo na Polónia, na conferência de imprensa, perguntei a Fernando Santos se acredita que seja possível integrar esse futebol concreto de Ronaldo no jogo de toca e foge, de envolvimento permanente, que esta equipa está a começar a conseguir colocar nos relvados e que tão bons resultados está a produzir. O treinador, porém, desdramatiza a questão, quase que a resumindo à necessidade de incluir Ronaldo a partir da esquerda do ataque – e daí a importância da colocação de um jogador com cultura defensiva e posicional, como é William, como interior-esquerdo – sem que a equipa se desposicione quando ele for à procura da baliza. “Nestes últimos jogos jogámos com dois extremos, ainda que o Bernardo não o seja assim tão claramente. O Cristiano Ronaldo é mais um avançado que cai na esquerda e que aparece muitas vezes em zona de finalização. Com o regresso dele vamos ter de encontrar forma de resolver essa questão, para que ele possa manter esses movimentos e ter um jogador que possa abrir mais na esquerda”, começou por dizer o selecionador nacional.

“O William está muito bem nessa posição…”, prosseguiu, para finalmente adiar a solução lá mais para a frente. “Quando isso acontecer vamos encontrar soluções. Para já é nas que temos agora que temos de estar concentrados”, concluiu, como se a questão fosse meramente posicional. Não é. É que não será fácil responder a dois estímulos contraditórios: haverá sempre um momento em que a equipa terá de decidir por onde e como quer entrar, se a explorar a transição mais rápida e o espaço ou a organização, o envolvimento e a entrada com muita gente em zona de criação. Sendo Ronaldo uma personalidade tão forte, não é difícil adivinhar que muitos dos colegas de equipa se auto-limitarão no momento em que ele lá estiver. E não, não se trata de deixar de chutar para dar a bola ao CR7. Trata-se de submeter uma ideia de jogo a outra. E de definir qual é a ideia predominante do jogo de Portugal.

Não duvido que esta ideia, a atual, é melhor. Mas que será ainda melhor se puder integrar o futebol mais concreto de Ronaldo como ponta aguçada da lança, sem que o seu poder concretizador acabe por ser uma espécie de machado que corte a raiz ao pensamento futebolístico de uma geração que tem muito jogo para mostrar.