Último Passe 

2018-05-16
Por que é que Bruno de Carvalho tem de ir embora

Os trágicos acontecimentos de ontem, na Academia de Alcochete, devem ser vistos sob dois prismas. Um, o imediato, tem de levar à identificação, punição civil e criminal e afastamento vitalício de qualquer recinto desportivo das dezenas de mentecaptos que invadiram o balneário, sequestraram e agrediram os jogadores do plantel do Sporting. Outro, provavelmente mais importante, até, passa pela capacidade de denunciar as razões estruturais que levaram a que estes acontecimentos tivessem lugar – e neste não há forma de ignorar as intervenções de Bruno de Carvalho, que muitos confundem com exigência mas que estão carregadas da intolerância de que se fazem os líderes populistas.

Independentemente de se perceber se os jogadores serão convencíveis a ir treinar na sexta-feira ou a jogar a final da Taça de Portugal no domingo e se depois será possível impedir que avancem com pedidos de rescisão unilateral dos seus contratos, causando muitos milhões de prejuízo ao clube, Bruno de Carvalho só tinha uma forma de fazer parte do futuro do Sporting. Para isso, o presidente teria de ter compreendido o que se passou e feito ato de contrição imediato. Quando apareceu, ontem à noite, no canal do clube, a dizer que “foi chato” e que “o crime faz parte do dia-a-dia”, numa tentativa insana de fazer passar o que aconteceu como a versão aborrecida de “mais-um-dia-no-escritório”, o que está a provar é que perdeu qualquer noção da realidade e já não tem condições para continuar no cargo.

Em relação ao primeiro aspeto, creio que nem os criminosos que estiveram em Alcochete terão vontade ou capacidade para o discutir. Aliás, no “código-de-honra”, se é que podemos chamar-lhe assim, dos “hooligans”, os atos criminosos são medalhas, são coisas de que se gabarão por toda a vida. O que foi “chato”, ali, para alguns deles, foi o facto de terem sido apanhados. Eles não se arrependem, porque já chegaram à idade de terem juízo e, se não o têm, não há-de ser agora que o vão encontrar. São criminosos, que a sociedade deve julgar como tal e punir como tal e que o clube, caso pretenda passar a imagem de que se preocupa com a segurança e o espírito desportivo, deve punir de forma ainda mais radical.

Este caso, porém, não se resume ao ato isolado que foi praticado ontem em Alcochete. Ao contrário do que se passou recentemente em Guimarães – ainda que com consequências muito menores – quando as claques do Vitória SC invadiram o treino para “apertar” os jogadores, este caso encontra raízes nas sucessivas manifestações de intolerância levadas a cabo por Bruno de Carvalho. E enquanto elas foram sendo concentradas nos principais rivais – que faziam o mesmo, ainda que maioritariamente através de gabinetes de comunicação – ou nos árbitros, fui dizendo que suspeitava que, empolado pelos programas de adeptos engajados, cujo único propósito é espalhar o ódio e a clubite, isto um dia ia acabar mal. Quando a intolerância foi alargada a jornalistas – no final da última Assembleia Geral do Sporting – passei a ter a certeza de que um dia isto ia acabar mal.

E a coisa piorou muito quando a falta de resultados desportivos levou Bruno de Carvalho a sacudir responsabilidades dos próprios ombros, de forma a manter a imagem de infalibilidade que ele e os seus mais próximos acólitos querem impor do líder. Quando, na sequência de uma derrota, um presidente aparece em público a criticar individualmente as prestações de alguns dos seus jogadores, não está só a quebrar a solidariedade institucional que está obrigado a ter para com os seus “funcionários”, na tentativa de passar a ideia de que se alguém falhou não foi ele, o infalível. Está a acicatar as massas. Quando, depois, em várias entrevistas ou declarações públicas, acusa os jogadores de serem “meninos mimados” que só se preocupam com o dinheiro ao fim do mês; quando emite um comunicado em nome de toda a administração a suspender a equipa – para depois o retirar; quando aponta o dedo aos capitães e diz que eles não querem jogar pelo Sporting e andam sempre a pedir para ir embora; quando, mesmo que por meias-palavras, acusa o treinador de ser o instigador da união do balneário contra ele, continua a acicatar as massas.

Não acredito nas teorias que ontem circulavam, segundo as quais teria sido o próprio Bruno de Carvalho o mandante da invasão à Academia. Tenho a certeza, isso sim, que estas coisas são incontroláveis: sempre o foram na história. Os populismos intolerantes têm um efeito agregador nas massas que precisam de algo contra o que se unirem, mas rapidamente ganham vida própria e efeitos devastadores. Foi assim repetidas vezes na história recente da humanidade, desde a Revolta dos Boxers, na China, ao McCarthismo, nos Estados Unidos, com passagem pela Krystal Nacht, na Alemanha ou pela Revolução Cultural maoista. E há muitos mais casos, porque é assim que funciona a espécie humana.

Acredito, sim, que tal como o Dr Viktor Frankenstein Bruno de Carvalho terá ontem perdido o controlo da besta que criou – mas, como nos explicou o notável romance de Mary Shelley, isso não quer dizer que deva sentir menos culpa. Só que o discurso do presidente, à noite, na Sporting TV, veio assumir a culpa é do IPDJ, que não aprovou as medidas que Bruno de Carvalho lá fez chegar; dos jornalistas, que acham que é tudo responsabilidade de Bruno de Carvalho… Como sempre, o presidente achou que ele era a vítima ali: vejam só que até as filhas lhe telefonaram a saber o que se passava. É chato, pois então… Pois bem: alguém que lhe diga que ele não é a vítima. E, não sendo autor material, tem muita responsabilidade moral no que está a passar-se. Ontem, era o dia de mostrar arrependimento – não o tendo feito, tendo continuado a disparar noutras direções, dificilmente o futuro do Sporting pode passar pela sua permanência no cargo.

Claro que terão de ser os sportinguistas a dizer o que pretendem para o clube. Não querem um regresso ao passado aristocrático – disso já temos todos a certeza, nas inúmeras manifestações contra os “croquetes”. Mas quererão um clube onde se mistura exigência com intolerância, onde as visões divergentes estão sujeitas ao insulto e à exposição pública – caso evidente dos ‘sportingados’ –, onde as derrotas desportivas são punidas com um clima de intimidação e com agressões aos jogadores? Um clube onde todos os treinadores, quando não ganham, acabam por ser identificados como escroques? Onde os jogadores, quando falham, são alvos a abater com tacos de basebol, cintos e tochas? Se é isso que querem, boa sorte. Devo dizer-vos, porém, que não antevejo nada de bom nesse caminho.

Por fim, no imediato, há outra questão nada despicienda em cima da mesa, que tem a ver com a final da Taça de Portugal. Ao Sporting terá valido, para já, o facto de a GNR ter mantido toda a gente na Academia por umas horas, dessa forma impedindo reações de cabeça quente. Mais a frio, nas duas folgas forçadas que acabaram por ter hoje e amanhã, veremos o que vão fazer os jogadores. O bom senso manda-me recomendar que vão treinar sexta e sábado e joguem a final de domingo, ganhando assim um mês e meio para tomarem decisões ponderadas e em função daquilo que que evoluir o quadro do clube. É debatível se terão ou não justa causa para rescindir unilateralmente os contratos que os ligam ao clube, dessa forma causando centenas de milhões de euros de prejuízo. No entanto, se me colocar na pele deles, de duas coisas não tenho dúvidas: no quadro atual, se já lá estivesse, não quereria continuar; se estivesse noutro clube, nem em sonhos quereria para lá ir. E isso, sim, é que é chato.