Último Passe 

Crédito: Miguel A. Lopes/Lusa
2018-04-09
Nervosismo ou confiança a mais: o Benfica em Setúbal

Haverá muitas maneiras ed explicar a exibição menos conseguida do Benfica em Setúbal, onde ganhou de aflitos, por 2-1, com um golo de penalti já para lá do minuto 90. Em boa verdade, nenhuma é mais válida do que as outras, porque no futebol não há maneira de se voltar atrás para experimentar de outra forma. Mas todas, da falta de Jonas à boa organização do Vitória FC, do nervosismo face à aproximação do jogo decisivo deste campeonato ao aliviar da pressão por já não ter de o ganhar para ser primeiro, trazem matéria de reflexão.

As duas primeiras são mais fáceis de explicar. Jonas tem sido o homem-mais desta Liga e não é fácil uma equipa habituada a tê-lo ver-se privada dos seus movimentos desequilibradores, das desmarcações de apoio entre linhas, das derivações para os corredores laterais, da forma como ele encontra sempre espaço para finalizar, como se os adversários o menosprezassem. Como a esse fator se juntou um Vitória FC que José Couceiro dispôs em campo de forma a secar o jogo interior do Benfica, com duas linhas defensivas muito próximas, a maior fonte de jogo ofensivo do Benfica secou quase por completo. Sem capacidade para jogar dentro do bloco adversário, sem extremos dados a grandes larguras – Rafa é mais eficaz em ataque rápido e contra-ataque e Cervi procura muito o jogo interior para abrir o corredor a Grimaldo –, o Benfica só começou a ganhar o jogo quando foi à procura da profundidade, do espaço atrás da última linha sadina, com a entrada de Salvio.

Sucede que não foi só isso que Salvio trouxe à equipa: deu-lhe também agressividade sem bola. Tanto a grande ocasião que o argentino desperdiçou com um remate sobre a barra como o lance que origina o penalti nasceram de recuperações de bola que o próprio fez no meio-campo ofensivo. O que me transporta para as outras duas questões e para uma entrada mais apática no jogo de uma equipa do Benfica que, até por andar há meses a jogar apenas uma vez por semana, tem a possibilidade de afogar os adversários em intensidade desde o início dos seus jogos. A explicação mais fácil é a da ansiedade, da aproximação de um jogo decisivo como será o Benfica-FC Porto de domingo que vem. Receio de alguns exagerarem na agressividade por medo de um amarelo que os tirasse do clássico? Poupança subconsciente de outros para esse jogo do ano? Admito que sim, até porque nem todos os elementos de um grupo reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Mas na generalidade dos casos inclino-me mais para o plano inverso, o do retirar do garrote da pressão.

Há dois anos, quando seguia três pontos à frente do Benfica – e ainda o recebia no seu estádio –, o Sporting entrou assim, sem pressão, no jogo em Guimarães, com o Vitória SC. Empatou a zero. Manteve, mesmo assim, um ponto de avanço à entrada para o dérbi que era jogo do ano, podendo começa-lo com a vantagem de jogar por dois resultados, pois apesar de ainda ter de se deslocar ao terreno do terceiro – tal como agora sucede com o Benfica, que vai a Alvalade na penúltima jornada, na altura era o Sporting quem tinha de ir ao Dragão visitar o FC Porto, na antepenúltima – o empate mantê-lo-ia na liderança. As semelhanças com a atual realidade do Benfica são muitas. Rui Vitória, que nessa Primavera de 2016 estava do lado do perseguidor, sabe que este tem sempre mais “momento”, mais capacidade de vencer a inércia. Cabe-lhe agora, do lado de quem está na frente, evitar o afrouxar da pressão. Porque é só pela pressão que se fazem equipas vencedoras.