Último Passe 

2018-04-06
O problema de Bruno de Carvalho não é de estilo

 

 

Tenho estado de acordo com algumas das ideias mais fraturantes defendidas por Bruno de Carvalho. Do efeito pernicioso dos fundos de investimento à necessidade de centralização dos direitos televisivos, tirando-os aos clubes, com passagem pelo vídeo-árbitro, com a recente deriva que pede as imagens nos ecrãs dos estádios – antes de o presidente do Sporting falar no tema eu até tinha ido mais longe, defendendo o exemplo do rugby, com divulgação imediata, em direto, da conversa entre VAR e árbitro de campo. E, no entanto, consigo estar em desacordo com quase todas as intervenções públicas de Bruno de Carvalho. E não, não me digam que do que não gosto é do estilo. Porque não é o estilo que está em causa. É a função. É a noção de responsabilidade institucional, que não existe só para se exibir numa aula de etiqueta: existe porque quem está à frente de uma instituição tão grande quanto um dos maiores clubes nacionais precisa de ter a noção de que, ao falar, está a levar muita gente atrás. Gente que pensa pela própria cabeça, mas também gente que reage a estímulos da mesma forma que o cão de Pavlov.

Grave não é Bruno de Carvalho ter ligado para a CMTV. Percebo a contradição, porque o mesmo Bruno de Carvalho aconselhara os sportinguistas a não verem o canal, mas isso, francamente, parece-me irrelevante. Grave é Bruno de Carvalho ter escrito o que escreveu no Facebook, com acusações de índole técnica, tática e até levantamento de suspeições – os que “não quiseram jogar a segunda mão” – aos jogadores. O que está em causa não é se teve ou não razão. Porque é evidente que o Sporting perdeu em Madrid devido a erros individuais. O que está em causa é que eu posso dizer isso em público – e, quando o faço, imediatamente a máquina de propaganda do clube mete-se em marcha para tentar destruir-me a credibilidade. Seja que clube for. Basta que recordemos o caso dos “sportingados”, alcunha criada por Bruno de Carvalho para catalogar os adeptos leoninos que criticavam publicamente o clube ou as suas equipas, ou a tentativa de assassinato de caráter de João Malheiro posta em marcha pela máquina propagandística do Benfica, por exemplo.

Mas, dizia, eu posso fazer estas críticas em público. Um presidente de um clube não pode. E, repito: não é porque isso parece mal. Não é, sequer, porque o próprio Bruno de Carvalho disse em Castelo Branco, no discurso dos “sportingados”, que não se pode “num dia, apelidar uma equipa de bestial e noutro dia de besta”. Mais uma vez, o que me preocupa aqui não é a contradição. Não é, tão pouco, porque ter o presidente a criticar publicamente as exibições dos jogadores ou as opções do treinador supera até, em termos institucionais, a afronta que seria ter um jogador ou um treinador a criticar publicamente as aquisições de Shikabala ou Slavchev, de Gauld ou Rosell, ou as intervenções públicas do presidente antes do recente jogo de Braga, quando passou a semana a acicatar o adversário e tornou mais difícil a tarefa dos jogadores em campo. Não é, ainda, por isso ser, no mínimo, pouco inteligente em termos de condução de balneário – Jesus, ao menos, nesse aspeto, pode ser arrogante quando ganha, mas é um senhor quando perde – ou por prenunciar um sacudir de água do capote que não fica bem a um líder máximo. É, sobretudo, porque atrás do que um presidente diz ou escreve vai toda uma legião de seguidores e um líder tem de ter isso em conta.

O problema das intervenções de Bruno de Carvalho após a derrota do Sporting em Madrid é o mesmo que esteve por trás do discurso acerca dos jornais na última Assembleia Geral: é que desde ontem os adeptos mais acéfalos – que também existem em todos os clubes – já têm para onde dirigir a frustração. Desde ontem já não são só os árbitros ou os jornalistas. São também os jogadores, como um dia há-de-ser o treinador. Nos comentários ao post de Bruno de Carvalho já li coisas como “apertões” aos jogadores na garagem. E isto não é, não pode ser, uma questão de estilo. É uma questão de civismo e saber estar com os outros.