Último Passe 

Crédito: Andrea di Marco/Lusa
2018-04-04
O desafio aos limites de Cristiano Ronaldo

Já vi muitas leituras do fenomenal golo de Cristiano Ronaldo em Turim. Das mais poéticas às mais inflamadas – e o Alexandre Albuquerque, que narrava o jogo comigo na RTP conseguiu juntar essas duas vertentes naquele momento. A minha, mais ainda passadas quase 24 horas, é de pasmo, mas de pasmo científico. O que me interessa ali é a física da coisa. Tanto se me dá que me digam que como não gritei mais do que o Alexandre no direto da RTP1 deve ser porque não gosto de futebol – e já houve quem o fizesse. Gosto. E gosto ainda mais de o compreender, sobretudo quando vejo um Cristiano Ronaldo a desafiar os limites.

Aquele golo não é coisa de futebol. É coisa da NBA. Remete-me para a adolescência, para os spots promocionais com voos de Michael Jordan e a banda sonora de MC Hammer: “You can’t touch this!” Porque é isso que impressiona ali. Mattia De Sciglio mede mais de 1,80m e estava a saltar, mas o pé de Ronaldo subiu bem mais alto do que a cabeça do lateral italiano, acima dos 2,30, talvez até aos 2,50m. Ponha-se aí no meio da sua sala de estar e imagine alguém a tocar no teto com o pé, a coordenar o tempo de salto com o tempo de chegada de uma bola qualquer imaginária e ainda a ter a força para lhe acertar em cheio e a precisão de a enviar na direção de uma baliza.

O que impressiona no golo de Ronaldo, aceitemo-lo, não é a parte futebolística. É a parte atlética. Como naquele golo de cabeça a Gales, na meia-final do último Europeu, em que Ronaldo saltou nas costas de James Chester, foi lá acima espreitar à janela do segundo andar e ficou lá, a planar, no ar. Nessa noite ficou ultrapassada a frase de Dadá Maravilha, o avançado brasileiro que dizia que só havia três coisas capazes de parar no ar: “O helicóptero, o beija-flor e o Dadá Maravilha”. Afinal, descobriu-se uma quarta: Cristiano Ronaldo. Que, agora já se sabe, também é capaz de jogar futebol no teto, como um qualquer Homem Aranha, que desafia a lei da gravidade.

Há dois debates que vale a pena ter a este respeito e nenhum deles passa por saber se Ronaldo é o melhor do Mundo ou se, em contrapartida, esse título pertence a Messi. Um é o de perceber até que ponto o condicionamento e o trabalho físico podem levar o corpo humano a aperfeiçoar-se do ponto de vista atlético. Porque basta ver, por exemplo, o golo de bicicleta marcado por Ronaldo – e depois anulado pelo árbitro – ao Azerbaijão, em 2006, no Bessa, para se perceber que há muito mais capacidade atlética neste jogador de 33 anos do que havia naquele, de apenas 21. Qual é o limite para este aperfeiçoamento? Não para nos 30? Será Ronaldo capaz de inverter todas as teorias da decadência física com a idade.

O outro tem a ver com a forma como Zidane tem sabido preservar Ronaldo para os momentos que verdadeiramente importam. O facto de o português ter marcado em todos os jogos da Liga dos Campeões esta época e de ter sido decisivo nos confrontos de alto perfil com o Paris Saint-Germain ou a Juventus não inibe o treinador de o poupar em jogos mais irrelevantes da Liga espanhola, como aconteceu na última jornada, frente ao UD Las Palmas. É isso fundamental na forma como Ronaldo se apresenta nos momentos certos? E será o suficiente para que chegue a top ao Mundial da Rússia? Os portugueses esperam que sim e que por lá ele invente outra forma de desafiar as leis universais aplicadas aos humanos.