Último Passe 

Crédito: Robert Ghement/EPA
2017-08-27
A estratégia, a tática e a mudança

Há, em cada decisão dos treinadores, muitas motivações. Umas são de caráter técnico, outras de caráter físico, outras de índole tática e outras ainda obedecem a questões estratégicas. Estas são as mais difíceis de tomar e de compreender – sim, estratégia e tática são coisas muito diferentes. Podem, mesmo, ser mal entendidas pelos próprios jogadores e até pelos adversários, mas são também as que criam condições para produzir mais resultados. É por aqui que se explica a aposta de Jorge Jesus em Doumbia em vez de Bas Dost no jogo de Bucareste, em que o Sporting conseguiu o bilhete de entrada na Liga dos Campeões. E é um pouco por aqui que pode explicar-se a mudança de paradigma na cabeça do treinador do Sporting.

Numa coisa, Jesus não mudou. Continua a ser dos treinadores portugueses que mais venera a estratégia particular para cada jogo – e foi por isso que no sábado passado, no programa noturno da RTP3, avancei com a possibilidade da troca de Bas Dost por Doumbia no jogo de Bucareste. A mudança fazia sentido por muitas razões. Primeiro, físicas: nas palavras do treinador, Dost “acabou morto” o jogo de Guimarães. Depois técnicas e táticas: Doumbia é também um goleador, um ponta-de-lança com faro de golo e bom posicionamento na área, com um primeiro toque e uma velocidade de reação que lhe têm permitido lutar pelos títulos de melhor marcador nos países por onde tem passado. Mas fundamentalmente estratégicas: o Steaua estava a jogar em casa, quereria aproveitar esse fator e superiorizar-se ao Sporting, ia subir o bloco e deixar espaço nas costas, pelo que convinha aos leões ter alguém capaz de explorar a profundidade, com rapidez na posse e velocidade na desmarcação.

O perigo da decisão foi bem explorado nos muitos comentários que fui ouvindo entre o anúncio dos onzes e o jogo propriamente dito. O que vai pensar a equipa? O facto de o treinador retirar da equação o melhor marcador da época anterior pode ser visto como sinal de medo, pelos próprios jogadores ou até mesmo pelos adversários, que dessa forma poderiam entrar mais moralizados? Não acreditei nisso, sobretudo porque a decisão fazia sentido do ponto de vista tático, pois não representava uma alteração de sistema. E atenção que Jesus sempre acreditou que tudo no futebol parte do sistema e não do modelo de jogo, como sustenta a nova escola de treinadores e provaram o FC Barcelona ou o Bayern de Pep Guardiola ou a Espanha de Vicente Del Bosque.

É verdade que o apuramento dos leões foi natural, porque são muito melhor equipa do que este Steaua, tanto do ponto de vista individual como coletivo – e se houve aqui erro de apreciação foi o do próprio Jesus, quando no final da primeira mão afirmou que estavam frente a frente duas equipas do mesmo nível. Não estavam. Ainda assim, mais até do que o apuramento natural, foi a goleada que permitiu colocar as luzes da ribalta em cima da componente estratégica. E a verdade é que em Guimarães e em Bucareste a estratégia passou o teste. Mas, apesar das duas goleadas seguidas, não creio que Jesus tenha já resolvido o puzzle que o plantel desta época lhe apresenta.

Porque a entrada no onze de Bruno Fernandes, que foi decisivo nos dois últimos jogos, criará outro problema em partidas como a que se segue já amanhã, em casa com o Estoril, por exemplo. Com Bruno Fernandes a segundo avançado/terceiro médio, o Sporting voltou a ter jogo interior dentro do bloco adversário – e a isso também não é estranha a subida de rendimento de Adrien. Só que a alteração tem outra implicação, que é a diminuição da presença na área: o sistema, de onde partem sempre as ideias de Jesus, até pode ser o mesmo, mas a sua interpretação difere se lá estiver Bruno Fernandes, Alan Ruiz, Podence ou Doumbia (ou Téo Gutierrez, o melhor entre os segundos avançados que Jesus teve no Sporting). Contra equipas que se destapam, que querem jogar, como o Steaua ou o Vitória no jogo do Minho, este 4x4x2 mascarado de 4x2x3x1 funciona às mil maravilhas. Contra equipas que metam o autocarro à entrada da área, um dos médios terá de ser sacrificado para que o Sporting possa continuar a jogar ocupando o campo todo.

Cruijff usava um método engraçado para provar a superioridade do 4x3x3: dividia o campo em quadrículas e mostrava que o seu sistema predileto era o que mais se encaixava no retângulo de jogo, ocupando-o na perfeição. Jesus, um cruijfiano convicto, nunca foi grande adepto do 4x3x3: chegou à primeira divisão em 3x5x2, joga há uma década em 4x4x2, testou neste início de temporada o 3x4x1x2 como Plano B mas está a cair muito no 4x2x3x1 de que nunca gostou particularmente. É por isso que me parece que 2017/18 pode marcar uma mudança no pensamento de Jesus: o sistema está em risco como base de todo o futebol, podendo dar lugar a um híbrido que seja capaz de mudar de pele consoante roda jogadores – outra coisa que o Sporting de 2016/17, por exemplo, não fez, sacrificando sempre as segundas opções.