Último Passe 

2017-08-13
Acerca do vídeo-árbitro e de outras coisas

Acabei a crónica do Sporting-Vitória de Setúbal, fiz o push para que aqueles que as subscrevem possam receber as notificações, a partilha nas páginas de Facebook e de Twitter, e dirigi-me à máquina de café em busca de alento para os dois textos que ainda tinha de escrever naquela noite. Quando voltei ao computador, dois minutos depois, deixei que o sentimento de culpa pelo abandono a que por vezes voto os meus seguidores tomasse conta de mim e, vendo que já tinha 14 comentários, fui ver o que diziam. Eram todos, repito, todos, sem exceção, acerca do mesmo assunto. “Então mas este [inserir aqui insulto à escolha] não escreve que não foi penalti?” Outros, mais elaboradosmas muito mal informados, iam mais longe e, ignorando que em lances de pura subjetividade, como o que protagonizaram Nuno Pinto e Bas Dost, o VAR não pode intervir, perguntavam: “É para isto que serve o vídeo-árbitro?”

Há três anos, isto é, desde que saí do circuito dos jornais – neste momento, sou apenas colunista do Diário de Notícias, onde não me pedem opiniões sobre arbitragem –, passei a escrever por iniciativa própria e fundei o Bancada.pt, fiz as minhas próprias regras: não explico jogos de futebol com a arbitragem. Na RTP, se me pedem, dou a minha opinião sobre os lances. Que é isso mesmo: uma opinião. Porque nos casos de arbitragem há dois tipos de lances: os claros, que toda a gente vê, e os que se prestam a exercícios da mais pura subjetividade – intensidade do toque; quem promove o contacto; momento da paragem da imagem em situações de fora-de-jogo, se um frame atrás, se um frame à frente... E aqui muitos se confundem. E de muitas maneiras. Uns dizem-me que é impossível explicar futebol sem recorrer ao fator mais importante (helas!), que no entendimento deles é o árbitro. Argumentam que ao estar a escrever aquilo que estou a escrever agora, estou a comentar arbitragens – quando na verdade do que estou a falar é de espírito desportivo ou da sua falta. E, por fim, decretam já a morte do vídeo-árbitro porque, num lance em que ele nem sequer podia manifestar-se, por ser subjetivo, ele decidiu contra a vontade deles.

Querem falar de arbitragens? Vamos a isso. Lembram-se do encontrão de Bruno César em Lindelof na época passada, que o árbitro não assinalou? Era penalti a favor do Benfica? Lembram-se do toque de Soares, ainda no Vitória de Guimarães, nas costas de Schelotto, que o árbitro não considerou faltoso, validando o golo que deu o 3-3 final aos minhotos contra o Sporting, aos 90’? Era falta? E, andando três anos e meio para trás, lembram-se do toque de Slimani nas costas de Rui Correia, num Sporting-Nacional, que acabou empatado a zero, porque nessa altura o árbitro considerou falta e anulou o golo ao argelino? Era falta? A questão é que em nenhum destes lances há uma verdade incontestável. Há opiniões. E aquilo que os leitores querem é que o jornalista dê a dele, para acionarem de imediato uma de duas opções: se estão de acordo, imediatamente decretam que aquele é um jornalista sério e – nunca esta palavra foi tão mal empregue – “isento”; se não concordam, imediatamente aquele jornalista é catalogado como um “avençado”, um “cartilheiro”, que se vende “por um pequeno-almoço” (se o insultante for benfiquista) ou “por um voucher” (se for sportinguista). E depois aparecem as comparações com o “grande jornalismo” que se faz “lá fora”, como se eles costumassem ler a imprensa internacional, como se “lá fora” fosse regra explicar jogos com a atuação dos árbitros, ou como se “lá fora” os árbitros não se enganassem também ou o futebol estivesse livre de lances que se prestam a decisões discutíveis. 

O problema é que as pessoas não querem sequer falar de arbitragem. Aliás, estão-se mesmo nas tintas para a arbitragem. Querem validação das suas próprias opiniões parciais – nunca vi um adepto de futebol neutro reclamar que se fale mais de arbitragens. E é por isso que escolho não explicar os jogos que vou analisando com lances de arbitragem: porque este é um tema tão dado à intolerância que seca todos os outros que lhe queiramos juntar. E porque se entro por esse caminho nunca mais consigo falar de futebol. E, peço-vos desculpa a todos, é para falar de futebol que aqui ando. Para falar de arbitragens há por aí muita gente que sabe mais do assunto do que eu.