Último Passe 

2017-08-06
A paciência e os chineses

Tive há dias oportunidade de conversar longamente acerca da indústria do futebol com Pedro Proença, presidente da Liga Portugal – o resultado da conversa é uma entrevista publicada hoje em bancada.pt –, a propósito do início do campeonato, que esta tarde arranca com o Desp. Aves-Sporting. O momento é de preocupação global, face à louca escalada dos valores que o futebol continua a movimentar, e de que o caso-Neymar foi apenas o exemplo mais recente, tendo até levado a UEFA a uma ofensiva de relações públicas que chegou aos principais jornais desportivos europeus, mas o Pedro Proença que vi foi um homem estranhamente tranquilo e paciente, qualidades que podem facilmente ser confundíveis com desistência. Os dois anos que tem de experiência do lugar tê-lo-ão trazido até aqui, mas o que tem pela frente nos dois anos que lhe falta cumprir de mandato, até 2019, é tão difícil e exige tanto do patrão do futebol nacional que esta tentativa de mudar o sistema por dentro fica a parecer curta e corre risco de ser tão estéril como a luta de um Quixote contra os moinhos de vento.

Proença revelou-se bom conhecedor daquilo a que chama as “boas práticas” internacionais, mas apesar disso fala vezes a mais daquilo que os clubes querem. Porque nesta questão há aquilo que os clubes querem, julgando que estão a defender interesses próprios, e aquilo de que o futebol nacional como um todo precisa. Exemplos? Impedidos de fazer a guerra comunicacional por regulamentos disciplinares mais apertados, os clubes passaram à guerrilha, com “pontas-de-lança” que os representam na perceção popular mas não são castigáveis por serem meros adeptos ou funcionários sacrificáveis face a um bem maior, que é o passar da mensagem bélica. A Liga quer resolver o problema apelando ao bom-senso dos presidentes, recuperando um Conselho Superior que mantenha a discussão no interior do edifício do futebol, mas apesar da vontade de exercer este magistério de influência, Proença pode debater-se com dificuldades insuperáveis. Porque, lá está, falta saber se os clubes querem.

As tais “boas práticas” internacionais falam-nos de medidas mais proativas, da substituição de uma estratégia punitiva por outra, que preveja a ocupação do espaço mediático com conteúdos que privilegiem os verdadeiros artistas, os jogadores e os treinadores. Já aqui falei disso há semanas, aliás. Mas também aqui a Liga se deparou com dificuldades estranhas quando toda a gente devia querer o bem do negócio: os clubes não quiseram a centralização dos direitos televisivos, que permitiria aumentar a receita de uma forma significativa e, sobretudo, dividir esta receita de uma forma mais racional entre todos, com a diminuição do fosso entre grandes e pequenos. É assim que se faz em todo o lado, com uma implicação adicional: sendo a Liga a controlar a receita, poderia impor condições para a sua divisão; sendo a Liga a controlar os direitos, poderia impor condições benéficas para o futebol aos operadores que os quisessem retransmitir. Só que, lá está: os clubes não quiseram e, ao contrário do que sucedeu em Espanha, por exemplo, a Liga não quis pedir ajuda acima, ao governo, por exemplo, para fazer vingar aquilo que está até recomendado pela União Europeia.

A única carta que a Liga tem na mão é a internacionalização, a vontade dos clubes chegarem a mercados até aqui inexplorados. Para tal, Proença conta com duas vantagens: a necessidade que os operadores terão desses mercados para rentabilizar o muito que pagaram pelos direitos televisivos dos jogos e o conhecimento do mercado asiático que terá conseguido quando foi à China buscar a Ledman para patrocinadora da II Liga. Também aqui, porém, acredito que a Liga terá de contar com o contra-vapor dos principais clubes, que a esta hora já estarão a mover-se para chegarem sozinhos a esses mercados, antes dos rivais e com mais força do que eles. Pedro Proença desvalorizou esse risco com base numa premissa que me parece não se aplicar ao futebol português: o bem geral, a noção de que juntos serão mais fortes. Claro que se forem todos em conjunto, ganharão mais. Mas se isso não foi tido em conta em nenhum dos outros aspetos, por que razão há-de ser neste? A ver vamos se, daqui a dois anos, não estaremos todos a lamentar que os clubes não tenham querido explorar aquela que parece a via de ação mais recomendável.

O maior prolema que enfrenta a Liga de Pedro Proença tem a ver com o princípio filosófico de ação. Proença tem tentado ser o presidente que os clubes querem e acreditado na auto-regulação. Mas como as coisas estão, tenho dúvidas de que os clubes sejam quem melhor pode defender o futuro do futebol português.