Último Passe 

2017-07-30
O futebol simulacro e o futebol a sério

Há vários tipos de adeptos de futebol. Isto é: há vários tipos de consumidores para o produto que hoje sai da indústria do futebol e que engloba tudo, desde a bilheteira às assinaturas de canais especializados com passagem pela compra de informação relacionada com o fenómeno futebolístico. Nenhuns valem mais do que os outros. Todos contam. Mas alguns não têm como satisfazer a sua curiosidade.

Há os adeptos do pitoresco, aqueles que adoram ver os vídeos do Augusto Inácio a zurzir no presidente do Zamalek, os mesmos que ainda choram a rir só de se lembrarem do Toni a falar do Essan ou do Vítor Pereira a vociferar “I speak the truth” perante uma atónita plateia de jornalistas sauditas. Para estes grandes consumidores de golaços e falhanços ridículos no YouTube, o momento alto do futebol nacional nos últimos anos terá sido a conferência de imprensa em que Paulo Futre deu um novo significado à palavra “sócio”, que até já fazia parte do léxico da modalidade, ainda que com outro alcance.

Há os adeptos maravilhados, que agora só falam do futebol feminino e que antes se dedicavam a dizer que o futebol em Portugal não vai para a frente porque os jornalistas só querem saber dos três grandes – eles próprios não leem acerca de outras coisas, mas se pudessem decretavam que elas deviam lá estar, juntamente com aquelas modalidades acerca das quais toda a gente diz ler quando responde a inquéritos, quanto mais não seja para ficar bem na fotografia. Aliás, bastaria a qualquer deles olhar para os gráficos de vendas dos jornais ou para as audiências das televisões com os dois olhos abertos para perceberem o mundo real para o qual os seus hábitos de consumo também contribuem.

Há os adeptos maldizentes por natureza, que só vêm futebol para dizer que o Renato Sanches não presta, que o William Carvalho é lento e precisa de um andarilho ou que o Casillas já está tão velho que devia andar de muletas. São os mesmos que toda a vida acharam um ultraje que Secretário tenha jogado no Real Madrid, que Luís Campos tenha feito carreira como diretor desportivo no estrangeiro ou agora que Vítor Pereira tenha sido contratado para dirigir a arbitragem grega – mesmo que sejam os mesmos que dizem que a arbitragem nacional só andava para a frente quando para cá viessem árbitros estrangeiros. Ainda não perceberam que é a realidade que não encaixa nas ideias deles mas continuam a viver na ilusão de uma conspiração global contra os interesses que defendem.

Para responder a estes, apareceram os adeptos da embirração positiva. Os que chamam a atenção para o dinheiro que Renato Sanches continua a movimentar, para os golos de Gonçalo Guedes nos particulares do Paris St. Germain, para as grandes exibições do João Mário nos amigáveis do Inter Milão. Estes até podiam ter nascido da influência daqueles jornalistas que sonorizavam os resumos televisivos do futebol internacional nos anos 80 e que – por não haver mais portugueses lá fora – chamavam várias vezes a nossa atenção para o facto de Futre ou Rui Barros terem tocado na bola numa jogada que acabaria por dar golo. Mas não – o que querem, tal como os maldizentes, é prolongar os dérbis nacionais pela Europa, como se os jogadores continuassem a vestir as camisolas que eles defendem até à insanidade.

E há os adeptos que gostam de futebol. Não são, como tive o cuidado de referir logo a abrir, melhores nem piores do que os outros, porque o futebol, felizmente, tem lugar para todos. As discussões fazem falta – não o digo no sentido de defender que o erro dos árbitros é o sal do futebol, só para que as pessoas possam debatê-lo, mas sim porque cresci num meio multi-clubístico de rivalidade sã – e também alimentam a indústria. A indústria é que, na sua voracidade controladora, alimenta cada vez menos o debate que faria crescer este último grupo, o dos adeptos que gostam mesmo de futebol. Um grupo no qual gosto mais de me incluir a cada dia que passa.

A mim, como a muitos outros integrantes deste grupo, interessar-me-ia ouvir o que tem Rui Vitória a dizer acerca do normal envelhecimento dos homens que ele já tinha substituído há dois anos – Júlio César e Jardel – e da necessidade de voltar a fazer deles primeiras escolhas ao mesmo tempo que tem de inventar mais um lateral direito, depois de ter feito nascer Nelson Semedo para substituir Maxi Pereira. Interessar-me-ia debater com Sérgio Conceição as razões pelas quais Aboubakar, que se tornara excedentário no papel de avançado de referência no FC Porto de Lopetegui, pode ser agora fundamental com Soares à sua frente – ou ao seu lado – numa equipa montada de acordo com princípios diferentes, mais explosivos. Interessar-me-ia ouvir a resposta de Jorge Jesus a uma pergunta sobre o efeito pernicioso que o sistema de três defesas que ele tem andado a testar tem na construção de jogo ou de que forma a colocação de William como um desses três pode garantir qualidade a construir desde trás.

Em vez disso, temos os treinadores a lerem respostas ditadas a perguntas igualmente escritas previamente pelos mesmos guionistas e interpretadas por quem se limita a fazer um papel que devia ser bem diferente. Fica tudo em família. A este futebol digo: não, obrigado! Prefiro ir ao cinema ou ao teatro, onde pelo menos os atores têm mais jeito para a representação.

Texto inserido na edição de hoje do Diário de Notícias