Último Passe 

Crédito: Facebook/Benfica
2017-07-16
O Benfica e o mercado numa frase de Vieira

O Google tem destas coisas e de repente há temas que saem debaixo das pedras, que sobem no ranking dos motores de busca, ressuscitados por acontecimentos recentes. No seguimento da venda de Nelson Semedo ao Barcelona, apareceu-me uma frase de Luís Filipe Vieira que comecei por tomar por atual: “Este é o último ano em que precisamos de vender”. Afinal, o presidente do Benfica tinha-a a proferido em Agosto de 2013, há quatro anos, numa entrevista à Benfica TV. E nos anos que se seguiram foi batendo sucessivamente o recorde de vendas. Para gáudio de uns (os adeptos que gostam de ganhar o campeonato das vendas), arrelia de outros (os que acham que o Mundo vai acabar e que é possível manter os jogadores para sempre, como se eles não tivessem vontade própria), dúvida sistemática de outros ainda (os que não entendem como é que, mesmo assim, a dívida não desce substancialmente) e preocupação de um (Rui Vitória, que este ano vai precisar de recompor quase todo o setor defensivo).

O ressurgimento da frase nos motores de busca teve a ver com a ação de um destes grupos, os mais descontentes, que a terão recordado em fóruns ou nas redes sociais, fazendo-a crescer nos rankings que estão por trás dos algoritmos. Esses, porém, são em boa parte os mesmos que quando o Benfica não renovou contrato a Maxi Pereira porque tinha lá Semedo desesperaram como se o Mundo tivesse data de validade a expirar. São os pessimistas permanentes, os que olham para a equipa que teriam se não houvesse saídas, mas que depois se esquecem de descontar as entradas, sem as quais a equipa também seria muito mais fraca. A esses, vale a pena lembrar que 30 milhões de euros por um defesa lateral são um bom negócio, mesmo tendo em conta o aumento de importância dos laterais no futebol moderno. E que o erro – que acabou por acicatá-los, até – foi terem andado a dizer-lhes que Semedo só sairia pela irreal cláusula de rescisão que lhe puseram no contrato.

Os do primeiro grupo, os que fazem tabelas de vendas e somam milhões como se de repente passassem a tê-los no extrato bancário, andam maravilhados. Esfregam as mãos de contentes por superarem a concorrência neste particular, recordando que entre Ederson, Lindelof, Marçal, Mukhtar, Candeias e agora Nelson Semedo, os 100 milhões já lá vão. A julgar pela regularidade com que o Benfica tem atingido esta fasquia – este é o quarto verão sucessivo, após a tal frase de Vieira, no qual os encarnados rondaram os 100 milhões em vendas – as transferências na Luz já estão mais perto de ser receita ordinária do que extraordinária. E a estes vale a pena lembrar que não é tudo lucro. Que não só há casos de jogadores cujo valor não reverte totalmente para o clube, como foi o caso de Ederson (cujo passe era partilhado com o Rio Ave ou com quem quer que seja que o detivesse por trás do Rio Ave), como já se sabe que quando um clube entra nestas coisas do mercado com a força com que, por força da sua parceria com Jorge Mendes, o Benfica tem entrado, sabe que tem de manter a máquina a rolar. Que para beneficiar da parceria não tem só de vender – também tem de comprar.

E neste busílis está a resposta ao terceiro grupo, o dos que não entende como é que apesar de todo o dinheiro realizado, a dívida não baixa substancialmente. O propósito de um clube como o Benfica não é vender nem comprar jogadores. É ganhar campeonatos. E esses o Benfica tem-nos ganho. Pelo caminho, vende muito e compra muito, é verdade, mas isso é acessório. No plano abstrato é fácil de entender que se há um player que exerce uma força dominante sobre o mercado e nos ajuda a vender ativos a valores apetecíveis, depois quererá também que o ajudemos a escoar ativos de outros parceiros que estejam num patamar abaixo. Essa tem sido, até aqui, a estratégia do Benfica, que vende muito, compra muito, move muito dinheiro mas não reduz a dívida de forma substancial. E por que é que isto importa, neste momento? É que pela primeira vez em quatro anos quem parece estar a ser negligenciado é o quarto grupo. O grupo formado por Rui Vitória e pelos que com ele tentam encontrar soluções para refazer a equipa no seguimento das vendas.

Este ano, Vitória terá uma tarefa muito dura pela frente. Tem de substituir três dos cinco elementos mais valiosos da sua defesa: um guarda-redes que se tornara preponderante tanto na estratégia defensiva (porque permitia que a defesa jogasse invulgarmente alto) como ofensiva (pela saída de bola de proporciona); um lateral direito que fazia todo o corredor e se impunha a chegar à linha de fundo para cruzar mas também pela velocidade de recuperação; e um defesa-central sóbrio, que funcionava como complemento perfeito a Luisão. Até ver, não se viram grandes movimentações no sentido de assegurar entradas de jogadores pelos valores que, ainda assim, o Benfica vinha gastando, o que até leva a crer que, finalmente, quatro anos depois, a frase de Vieira possa fazer sentido: se abater dívida em vez de se reforçar com jogadores caros, o Benfica pode estar a criar condições para não ter de parecer tão interessado em vender na próxima época. É verdade que no plantel já havia peças sobressalentes para substituir Ederson, Semedo e Lindelof, ou que eles mesmo foram peças sobressalentes lançadas nos últimos dois anos para substituir Júlio César, Maxi Pereira e Jardel. Mas acreditar que o truque resulta sempre pode ser um excesso de confiança quase tão pernicioso como o alimentar permanente da conta corrente de entradas e saídas.

Texto incluído na edição de hoje do Diário de Notícias