Último Passe 

2017-07-09
Há mais a fazer no Sporting do que uma equipa

O novo Sporting de Jorge Jesus é uma incógnita quase tão grande como o novo FC Porto de Sérgio Conceição. O segundo falhanço na tentativa de ataque ao título nacional – e sobretudo a clara noção de que a equipa esteve mais longe de lá chegar do que na primeira vez – levaram a mais uma revolução no plantel, a um abalo que pode até estar ainda longe de conhecer o fim, uma vez que falta saber o que vai acontecer com os alvos que o leão tem mais apetecíveis no mercado internacional: Rui Patrício, William, Adrien e Gelson. No fundo, tudo depende deles e da política adotada por Bruno de Carvalho para lidar com os apetites internacionais por eles. Nem tão mole como era tradição em Alvalade antes da sua chegada, nem tão inflexível como se mostrou há um ano.

A grande dificuldade na condução de uma equipa da dimensão do Sporting – que é grande num mercado periférico, mas cujos resultados internacionais e salários praticados mostram que é pouco mais do que irrelevante no panorama internacional – tem precisamente a ver com a gestão de expetativas dos jogadores mais renomados. A excelente primeira época de Jesus, seguida de um Europeu onde Portugal foi muito para lá do esperado, sagrando-se campeão europeu com uma série de jogadores leoninos no onze, levou a que lá fora se olhasse para Alvalade como se de um mercado de pechinchas se tratasse. Porque os jogadores até podem ter cláusulas de rescisão muito altas, mas se elas forem pouco condizentes com os salários que lhes são pagos isso acaba sempre por se virar contra o clube que as estabelece. De que serve proteger um jogador com uma cláusula de rescisão de 100 milhões de euros, se depois ele ganha dez vezes menos do que os jogadores cujo valor real de mercado são mesmo esses 100 milhões de euros? 

Na prática, serve para que o clube possa segurar o jogador, é verdade. Mas isso é bom se de repente houver quem lhe ofereça um salário quatro ou cinco vezes maior do que ele ganha mas queira pagar apenas um terço da cláusula de rescisão, isto é, o real valor do jogador? A dúvida é: vale a pena ficar com jogadores contrariados? Não há certezas a este respeito. No ano passado, Bruno de Carvalho aceitou perder João Mário e Slimani, mas teve de se atravessar para ficar com Adrien, por exemplo, que fez de tudo – incluindo uma entrevista à revelia do clube, na qual assumiu a vontade de ir embora – para forçar a saída para o Leicester. E se é verdade que nenhuma equipa que tenha aspirações deve ser de um ano para o outro forçada a perder mais do que dois ou três jogadores, o que o fracasso da última época terá dito é que também não pode assentar a estrutura em elementos cuja cabeça esteja longe. O mais razoável é que haja um fluxo de comunicação desempoeirado entre clube e jogadores, em que estes aceitem a lógica do par de saídas por ano e o clube assuma uma fila de prioritários.

Olhemos para casos práticos. Em 2003, por exemplo, José Eduardo Bettencourt assumira que, já tendo vendido Quaresma ao Barcelona, e sem necessidades de tesouraria prementes, não ia deixar sair mais nenhum jogador de peso. Mas apareceu o Manchester United por Ronaldo e o Sporting não resistiu. Foi um erro? Creio que sim. Um ano depois, o jogador poderia certamente ser muito mais rentabilizado financeiramente e de caminho até poderia ter conquistado algo com a camisola do Sporting. Saiu logo ali porquê, então? Porque o clube não era capaz de resistir à pressão do mercado, dos jogadores, dos empresários, dos colossos europeus. A cena repetiu-se vezes sem conta no Sporting desde essa altura. Jogadores a saírem antes de tempo, antes da glória desportiva, antes de terem um valor decente no mercado, um valor que compensasse o clube por se separar deles. Porquê? Porque eles queriam. Chegava-se ao ponto de qualquer jogador formado no Sporting já não ter como objetivo imediato de carreira o fixar-se na equipa principal mas sim o sair para o estrangeiro. A geração dos Bruma, dos Ilori, dos Edgar Ié, já não tem raiz em Portugal.

Bruno de Carvalho mudou isso e assumiu a atitude rigorosamente inversa desde o seu primeiro defeso, onde teve de lidar com os casos Dier e Bruma, por exemplo. O Sporting passou a ser capaz de vender menos e muito melhor, mas a forma como correu a última época desportiva deixa dúvidas acerca de tanta inflexibilidade e pode ser uma forma de lançar o que aí vem. Até ver, os leões estão a construir um super-plantel. Falta perceber duas coisas. Se as estrelas que por cá estavam ficam e se, em caso afirmativo, isso não pode transformar os novos recrutas em peças sobressalentes sem uso, acabando por torná-los tão inúteis como aconteceu há um ano com Petrovic, Elias ou Markovic.