Último Passe 

Crédito: Facebook/Benfica
2017-07-07
Sistema do Benfica de Vitória depende do melhor Jonas

Rui Vitória lançou o alvoroço nas hostes benfiquistas ao dizer, em entrevista à BTV, que está a ponderar fazer “mudanças táticas e na forma de jogar” da equipa tetracampeã nacional. Duas coisas a este respeito. Primeiro, que mudanças táticas não implicam um novo sistema, como já vi escrito. Depois, que a afirmação me parece muito mais para consumo externo do que para debate ou plano de ação no Seixal. A questão não é tanto a de ser tolice mudar algo que, para já, funciona: as grandes organizações são as que mudam antes de entrar na curva descendente. A questão é sobretudo a de não se verem alternativas melhores do que o recurso à qualidade de Jonas. E de se perceber se vai ou não haver Jonas.

Muito daquilo que for o Benfica de 2017/18 vai depender da capacidade de Rui Vitória para voltar a potenciar Jonas, o avançado que foi fulcral há dois anos, mas a quem problemas físicos roubaram grande parte da época passada. E Jonas, tal como Ronaldo, por exemplo, rende mais como avançado em 4x4x2, com uma referência frontal presente, que lhe permita escolher por onde circular, do que num sistema mais próximo do 4x3x3, que o obrigasse a ser ponta-de-lança solitário. Rui Vitória, ele próprio um treinador que sempre gostou do 4x2x3x1, tentou aplicar este sistema à chegada à Luz: a primeira partida oficial que fez no Benfica, uma Supertaça perdida contra o Sporting, foi abordada neste sistema, com Talisca atrás e Jonas como ponta-de-lança solitário. Não resultou. E com Jonas será sempre má ideia regressar a essa variante. Porque, tal como Ronaldo, mais uma vez, Jonas é um excelente finalizador, mas não deve pedir-se-lhe que seja a referência avançada da equipa, não se deve amarrá-lo aos centrais adversários. Ele ajuda mais a equipa se aparecer atrás do homem que faz isso.

É verdade que, na sequência daquela frase, Rui Vitória deixou essas eventuais mudanças como dependentes de várias coisas. “Está dependente de eventuais saídas de jogadores-chave”, disse. “Uma coisa é ter um lateral que entra na área, outra é ter um que só faz jogo por fora. Uma coisa é ter o Jonas, outra é atuar sem ele”, prosseguiu. E aí está, mais uma vez, Jonas no centro da decisão. Parece mais ou menos evidente que as saídas de jogadores-chave, no Benfica, já não irão muito além das que se verificaram. Sem Ederson, Vitória perde qualidade entre os postes e uma alternativa viável na saída de bola mais direta. Sem Lindelof, também perde qualidade no centro da defesa, que pode tentar resgatar entre as até aqui segundas opções, como Jardel ou Lisandro. Isto, presumindo que Luisão consegue fazer mais um ano no top. A verificarem-se mais saídas, como as dos laterais – e Vitória referiu-se a isso na entrevista – a questão passará sempre por ser capaz de encontrar alternativas no mercado. Tarefa em que os cofres entretanto reforçados podem ajudar. E muito.

Porque a maior arma do Benfica para ser considerado favorito na nova época é a continuidade. Há novos argumentos na frente – Seferovic permite uma maior exploração da profundidade ofensiva do que Mitroglou e até Jiménez, sem perder capacidade defensiva – mas há sobretudo a noção de que os que já existiam continuam a ser válidos. E se Jonas já recusou o exílio na China em Janeiro, como também não é admissível que possa vir aí uma equipa de topo de um dos campeonatos mais representativos da Europa atrás dele neste momento, não haverá razão nenhuma para que pense agora que ele possa sair. A não ser que a dúvida de Rui Vitória esteja, de facto, na capacidade de Jonas para voltar a ser o Jonas de 2015/16. No fundo, essa é a grande dúvida em torno de um Benfica que, pela primeira vez desde a chegada de Rui Vitória, entra na Liga com o estatuto de maior favorito popular.