Último Passe 

Crédito: Yuri Kochetkov/EPA
2017-07-02
O que leva Fernando Santos da Rússia

A Taça das Confederações é um pouco aquilo que se quiser. Com as costas protegidas, Joachim Löw quis dar férias aos titulares e trazer uma segunda equipa. Escaldado pela crítica, que olha para ele como o primo feio de Sampaoli, Juan Antonio Pizzi quis ganhá-la e mete em cada jogo toda a combatividade do futebol sul-americano, ameaçando levar toda a gente aos limites da exaustão. Os dois vão jogar a final hoje. Antes, como se fossem um prato de amendoins torrados, aparecem portugueses e mexicanos, que ficaram ali um pouco a meio-caminho. O que levam daqui? Um grupo “mais consolidado”, como disse Fernando Santos? Sim. Mas o futebol é o momento e a partir de Agosto há que desconstruí-lo de novo.

Fernando Santos não veio para a Taça das Confederações nem com a displicência alemã – e palavra de honra que nunce pensei poder vir a juntar estas duas palavras na mesma frase – nem com a combatividade chilena. Trouxe os mais fortes, mas não os esticou. Nunca abusou deles. E assim que a vitória na prova deixou de ser possível libertou o melhor de todos ele por razões pessoais, que toda a gente afirma compreender mas que no final será sempre uma incómoda pedra no sapato de cada um, quanto mais não seja porque faz jurisprudência. Porque, suceda o que suceder, esta é uma sombra a pairar sobre o jogo de hoje e sobre o futuro próximo desta equipa. Com que legitimidade poderá o selecionador daqui para a frente agir de forma diferente com outro jogador da seleção num jogo oficial?

O que está em causa não são o empenho ou o profissionalismo de Ronaldo. Ronaldo – ainda que outro Ronaldo, numa fase diferente da carreira – jogou aqui mesmo, na Rússia, um dia depois da morte do pai, de que teve conhecimento já em estágio. E quis jogar. Ronaldo continuou na equipa depois de saber que os gémeos tinham nascido – e isto não é um elogio, fez o que tinha de fazer, sendo ele o líder desta equipa – e se foi agora dispensado o que isso nos diz é que o jogo contra o México já não é uma prioridade para ninguém. Que apesar da cautela com que Fernando Santos e André Silva abordaram o tema na conferência de imprensa de ontem, o jogo com o México quer-se ganhar, como querem ganhar-se todos os jogos, mas o resultado não é a prioridade maior. Essa era a final e, não podendo estar lá, é pouco mais do que irrelevante ficar em terceiro ou em quarto.

Joga-se porquê, então? Joga-se, primeiro, porque está no calendário. Jogar-se-á, depois, pela mesma razão pela qual se esteve nesta Taça das Confederações, aquilo a que Fernando Santos chamou “consolidar o grupo”. E isso acaba por ser o que se leva daqui, além de uma presença nas meias-finais – que em termos futuros é isso que fica e não se se obteve o terceiro ou o quarto lugar. Da Rússia, Portugal leva três jogadores com mais estatuto na seleção e uma grande preocupação a juntar à escassez de defesas-centrais capazes de substituir os trintões que aqui vieram. Os jogadores que ganharam peso foram Cédric, William e Bernardo Silva. Cédric porque foi um dos melhores e mais constantes elementos da equipa na prova, a render muito tanto defensiva como ofensivamente; William, porque a evidência da sua importância estratégica na tarefa de dar visão ao meio-campo fez com que a contestação à sua titularidade já seja sobretudo de cariz clubístico; e Bernardo Silva porque mostrou finalmente no contexto de seleção que é um jogador único, com condução de bola e criatividade juntas ao serviço do desequilíbrio e com uma escolha de caminhos em campo que permite à equipa ser mais controladora nos jogos com adversários fortes.

Aliás, a preocupação prende-se também com Bernardo Silva e com o homem que está do outro lado do espelho, André Gomes. A questão é que também André Gomes é um jogador quase único no contexto do 4x4x2 da seleção. O jogador do Barça tornou-se o ódio de estimação da generalidade dos portugueses que gostam de ver futebol através das embirrações – outros candidatos são, de há muito tempo, Moutinho, Eliseu e, agora menos, William Carvalho. André Gomes não fez um mau torneio – jogou bem com a Rússia, menos mal com o México, só ficando aquém na parte final do desafio com um Chile que era demasiado rápido nos espaços curtos para ele. Mas o futuro da seleção em grandes competições passa por ter um médio como ele, alguém capaz de jogar na ala e de se juntar ao núcleo central do meio-campo. Na Rússia, como alternativa, Fernando Santos só tinha Pizzi, podendo em breve voltar a juntar-lhe João Mário, que não veio por estar lesionado. E o problema é que a Taça das Confederações pode ter sido uma das últimas oportunidades para convencer o público desta necessidade: nas eliminatórias do Mundial, com o regresso dos adversários mais fracos, os jogos vão voltar a pedir extremos puros e a solução vai voltar a parecer colada com fita-cola se e quando se chegar ao Mundial.

Original escrito para a edição de 2 de Julho do Diário de Notícias