Último Passe 

2017-06-25
Um futuro de oposição permanente

Um dia antes de a seleção nacional se qualificar para as meias-finais da Taça das Confederações, na Rússia, a equipa de sub21 ficou fora das meias-finais do Campeonato da Europa da categoria, que está a decorrer na Polónia, muito por força de duas questões: um regulamento idiota e o facto de ter ficado no mesmo grupo da Espanha, uma das poucas potências que pode rivalizar connosco nestas coisas do futebol de desenvolvimento e que impôs aos miúdos de Rui Jorge a primeira derrota em competição desde 2011. Futuro assegurado? Sim, se tudo dependesse dos jogadores e dos treinadores. Infelizmente não é assim, pois eles estão condenados a crescer num ambiente de oposição e irracionalidade permanentes.

A verdadeira imagem do futebol português podia ser esta, a de sucessivas gerações de sub21 que abriram e fecharam o ciclo sem perder um único jogo e que vão desbravando caminho até à seleção principal. Na Taça das Confederações estão vários representantes dessas gerações – José Sá, Cédric, Nelson Semedo, William, Danilo, André Gomes, Gelson, Bernardo Silva ou André Silva fizeram todos parte deste percurso, como nele entraram João Mário, ausente na Rússia devido a uma lesão de última hora, ou Renato Sanches, desta vez relegado para os sub21 mas presente no Europeu do ano passado. A verdadeira imagem do futebol português podia ainda ser a de uma seleção A que venceu o campeonato da Europa e que continua em liça para lhe somar a Taça das Confederações, uma equipa que desde a entrada de Fernando Santos, em Outubro de 2014, só perdeu um jogo competitivo, contra a Suíça, na qualificação para o Mundial do ano que vem. E no entanto, os portugueses que falam de futebol vagueiam entre a indiferença e o ódio por esta equipa. Porque foi isso que lhes ensinaram, é isso que ouvem no dia a dia.

Como jornalista e sobretudo analista de futebol, já muitas vezes me acusaram de ser “pessimista” ou “cético”, de incluir um “sim, mas” em cada frase. É verdade. Mas há uma coisa que procuro sempre fazer, que é compreender as razões de quem toma uma decisão. Percebi, discordando, que Fernando Santos tenha ontem colocado Pepe a jogar de início contra a Nova Zelândia, porque o selecionador terá achado que era importante mandar para dentro do balneário uma mensagem de responsabilização. Já percebi pior, continuando a discordar, que o defesa-central tivesse voltado para a segunda parte, quando havia 2-0 no marcador e um cartão amarelo o afastaria da meia-final. Que começa empatada a zero e onde o adversário será mais forte que os neo-zelandeses.

Uma coisa, porém, não faço. Que é alegar que Pepe jogou ou voltou após o intervalo em nome de uma qualquer agenda escondida e inconfessável do selecionador nacional. Porque como estão condenados a, nesta matéria, ser todos das mesmas cores, os portugueses depressa vão à procura de uma forma de se oporem. E aí há os que entendem que William, Adrien, Cédric e Gelson não estão a fazer nada na equipa e que a culpa dos golos é sempre de Rui Patrício. Depois, há os que entendem que quem está a mais são Nelson Semedo, Pizzi, João Moutinho, Bernardo Silva ou André Gomes, da mesma forma que estava a mais Renato Sanches há um ano em França. Estes dois grupos misturam-se muito com o dos que acha que qualquer decisão do selecionador nacional foi tomada ao serviço deste ou daquele agente de jogadores – há um ano Moutinho só jogava porque era de Jorge Mendes, agora Adrien e William só jogam porque o Sporting precisa de os vender…

Não vou ao cúmulo de ingenuidade de pensar que os agentes não têm influência, mas não creio que Fernando Santos pense pela cabeça de ninguém a não ser a dele ou a dos seus adjuntos. E a maior ameaça ao futebol português não é esta ou aquela decisão de um selecionador. É, sim, o ambiente geral. Não conheço mais nenhum país onde o futebol se veja assim, onde tudo tenha a ver com a cor. Porque os mesmos que antes achavam bem que as escutas do Apito Dourado fossem divulgadas, agora acham mal que os mails da polémica surjam na praça pública. E podia escrevê-lo ao contrário: os mesmos que antes se queixavam de devassa são os que agora mais contribuem para a revelação. Lá em cima escrevi futebol? Pois devia ter escrito desporto. Porque os mesmos que durante meses a fio ridicularizaram os que se queixam das arbitragens, agora aplaudem a decisão de fazer falta de comparência a uma final four da Taça de Portugal de hóquei em patins. E também aqui podia escrevê-lo ao contrário, já se sabe.