Último Passe 

2017-06-20
Jesus e a segunda ressurreição de Coentrão

Se há coisa tão irrelevante como tentar descobrir o clube do coração dos jornalistas é tentar descobrir o clube do coração dos futebolistas. Mas o futebol move-se em terrenos pantanosos que muito rapidamente se aproximam da irracionalidade, a ponto de quem está de fora tender muito a achar que os profissionais preferem fazer mal o seu trabalho só para depois celebrarem com os amigos a vitória do seu clube e isso acaba por condicionar toda a gente – tanto jornalistas como jogadores. Só por isso, para satisfazer esta audiência sedenta de clubismo, Coentrão terá dito um dia que a regressar a Portugal só o faria para jogar no Benfica. Felizmente para ele, nos tempos do Rio Ave também tinha dado uma entrevista em que se afirmava sportinguista e revelava o sonho que seria jogar no Sporting e isso agora será apresentado como atenuante no julgamento a que a santa inquisição vai submeter um lateral-esquerdo que já foi o melhor de Portugal mas que se perdeu no caminho e precisa outra vez de encontrar quem o compreenda e lhe dê o enquadramento competitivo correto. Pode ser no Sporting, ainda que o facto de chegar diminuído não o ajude.

Não vale a pena agora estarmos a questionar aquilo em que se transformou o futebol e que, por exemplo, leva os jornalistas presentes numa competição como a Taça das Confederações – ou um Europeu ou um Mundial – a não ter alternativas às entrevistas com os adeptos se querem exercer a faceta mais nobre da profissão, que é a reportagem. Mas, quando a Itália discute como discute o caso-Donnarumma, quando os adeptos lhe atiram notas falsas para o campo só porque não entendem as aspirações do jovem guarda-redes melhorar a vida e a carreira, percebe-se que não é uma corruptela só nossa e faz sentido pensar nas razões que levaram alguém a fazer aquela pergunta a Coentrão – e, antes ou depois, a Markovic, Simão, Bernardo Silva, Quaresma… –, bem como nas razões que os levaram a responder como responderam, com juras de fidelidade eterna cujo cumprimento na realidade não podem garantir. A questão é que se as coisas lhes correrem bem depois deste “o dobro ou nada” jogado no campeonato do amor ao emblema, ninguém se vai lembrar. Mas se correrem mal, toda a gente vai ter a arma apontada ao traidor, que passa a ser “mal-visto” dos dois lados da barricada.

Por isso, o Coentrão que entrar em Alvalade já vem duplamente diminuído. Vem diminuído no plano físico e competitivo, como se percebe facilmente pelas lesões acumuladas em 2016/17 e pelos menos de 300 minutos que fez em campo em toda a temporada. E depois vem diminuído pela pressão que vão colocar-lhe em cima aqueles adeptos mais fundamentalistas, que já não gostaram de ver chegar Markovic e vão exercer o grau-zero de tolerância para com erros, até porque não lhes agrada a ideia de verem Jesus, ex-treinador do Benfica, recorrer a jogadores que brilharam com ele na Luz e são, por inerência, do lado contrário da barricada. A verdade é que, mais do que parte do problema, aqui Jesus pode ser a solução. Foi ele que deu a segunda vida a Coentrão, quando o jogador andava perdido em empréstimos sucessivos – Nacional, Real Saragoça, Rio Ave –, o que parece significar que compreende como ninguém a muito complicada psicologia por trás do rendimento de Coentrão. Resta perceber se consegue sacar-lhe mais uma ressurreição.