Último Passe 

2017-06-19
Um empate bom e mau para Portugal

Há duas formas bem distintas de olhar para o resultado da seleção nacional frente ao México, na abertura da campanha na Taça das Confederações. Uma obriga-nos a olhar para a exibição, frouxa e descontínua, e para o resultado, que podia e devia ter sido melhor. A outra força-nos a olhar para a frente e para a vantagem que Portugal tem face a russos e mexicanos: joga com a Nova Zelândia na última jornada e, desde que não peca com os russos, na quarta-feira, fá-lo-á a saber de quantos golos precisa para se apurar para as meias-finais. Nunca mais de três, já se sabe.

“Voltou a trupe dos empatas”. Era isso que se lia um pouco por todo o lado, nas redes sociais, no seguimento do Portugal-México. Os portugueses sabem tanto de futebol como de incêndios e, regra geral, não hesitaram em condenar de forma veemente o resultado contra o México. O que é estranho é que o tenham feito recorrendo ao exemplo do último Europeu, prova na qual seis empates em sete jogos – dois deles transformados em vitórias no prolongamento – valeram o troféu à equipa de Fernando Santos. A gestão calculista dos resultados e da estratégia para os alcançar tem sido uma das principais armas deste selecionador e basta fazer contas mais com a cabeça do que com o coração para perceber que o empate com o México não deixa Portugal em tão maus lençóis. Ou que, mesmo tendo ganho à Nova Zelândia por 2-0, no jogo de abertura, a Rússia entrará em campo na próxima quarta-feira tão ou até mais pressionada do que a equipa portuguesa.

Como é possível? É. Porque Portugal tem a vantagem de defrontar a Nova Zelândia no último dia e acertar contas nessa altura. Imaginemos que Portugal empata com a Rússia e que o México ganha à Nova Zelândia por vários golos. Nesse caso, à entrada para a jornada das decisões, Portugal teria dois pontos, contra os quatro dos rivais, mas só precisaria de ganhar à Nova Zelândia por três golos para assegurar o apuramento. Isto, presumindo que México e Rússia empatavam, porque se um dos dois se impusesse no duelo, para ter a certeza da qualificação sem depender do que se passará à mesma hora em São Petersburgo, bastaria aos portugueses vencer os neozelandeses. Imaginemos, em contrapartida, que os mexicanos ganham à Nova Zelândia por apenas um golo – nesse caso, tudo se manteria, menos a necessidade de ganhar por três no último dia. Aí bastaria vencer os All Whites, bem menos poderosos do que os seus colegas All Blacks, do râguebi.

Mas quer isso dizer que Portugal esteve bem frente ao México? Não. Portugal cometeu erros, demasiados erros. Primeiro, o selecionador adotou uma estratégia que acabou por se revelar errada – a exclusão de André Silva para permitir a entrada de Nani como tampão a Herrera não resultou bem, sobretudo por ter inibido a equipa do ponto de vista ofensivo (conforme pode ler aqui: http://bancada.pt/futebol/artigo/falta-andre-silva-a-ronaldo-para-se-ver-o-melhor-de-portugal). Depois, a equipa acumulou erros individuais, reveladores de que afinal há ali gente longe dos melhores momentos: Fonte teve dificuldades nas saídas e falhou no segundo golo mexicano, Guerreiro mostrou menos fulgor do que habitualmente, Moutinho voltou a ser uma sombra do jogador dinâmico que já se revelou, Nani não justificou nova aposta como segundo avançado… Tudo coisas que Fernando Santos pode pensar em emendar antes do jogo com a Rússia. Ainda que, bem feitas as contas, novo empate acabe por não ser assim tão mau. Foi o que o Europeu nos ensinou.