Último Passe 

Crédito: Facebook/Seleções de Portugal
2017-06-17
Ronaldo e o fisco numa mesa de póquer

Começa a ser um clássico que Cristiano Ronaldo se veja metido em grandes novelas por altura das grandes competições. Agora, garante a Marca, através do seu enviado a Kazan, o jogador já terá garantido a colegas de seleção que se vai embora do Real Madrid. Razão? Sente-se “maltratado em Espanha”, na sequência da investigação a que foi submetido e da posterior acusação de fuga ao fisco. Ora se nestas coisas entre o cidadão comum e a máquina fiscal a simpatia da quase todos nós está quase sempre com o cidadão comum, quando o cidadão é, digamos, menos comum, como é o caso de Cristiano Ronaldo, convém distinguir os factos do que é comunicação. E descansar os adeptos: não será por causa disto que Ronaldo vai render menos na Taça das Confederações. Bem pelo contrário.

Vamos a factos. Em Dezembro, o Der Spiegel obteve documentos via Football Leaks indicando que Ronaldo teria recebido parte substancial das verbas de direitos de imagem através de paraísos fiscais, fugindo à tributação devida. Soube-se então que a Fiscalía espanhola ia abrir – ou já teria até aberto – um expediente de investigação à conduta do jogador do Real Madrid. Duas semanas depois, Jorge Mendes, o agente de Ronaldo, declarou à Sky Itália que havia propostas da China pelo jogador: 300 milhões de euros para o Real Madrid e 150 milhões anuais para Ronaldo. Nunca se soube que clube fez a oferta – nem tinha de se saber, na realidade, pelo que esse facto tanto poderia servir para evitar um desmentido formal como para preservar o natural secretismo do negócio. Ato contínuo, foi dito que as propostas foram recusadas, porque, ainda nas palavras de Jorge Mendes, “o dinheiro não é tudo e o Real Madrid é a vida de Cristiano Ronaldo”.

Passaram seis meses e A Bola foi a primeira a noticiar que ia aparecer uma oferta de 180 milhões de euros – que o As, diário de Madrid, elevou depois para 200 milhões – por Ronaldo. Não tinha aparecido, note-se: ia aparecer. Semana e meia depois, a Fiscalía de Madrid fez sair a denúncia, acusando o futebolista português de criar uma estrutura societária para defraudar o estado espanhol em 14,7 milhões de euros, de forma “consciente”. O facto pressupõe a clara escalada do conflito mas, é preciso dizê-lo, não é uma condenação. É, isso sim, uma acusação, à qual Ronaldo tem o direito a apresentar defesa, como estará a fazer. António Lobo Xavier, advogado do jogador, diz que não há fraude fiscal mas sim “diferença de critério” e que Cristiano até pagou mais impostos do que deveria. O que em si também é peculiar.

Os factos são estes. As leituras, essas, podem ser diversas, dependendo do crédito que se dá às máquinas comunicacionais. Se olharmos para esta disputa como se de um jogo de póquer se tratasse, em que os jogadores vão de bluff em bluff sem que a outra parte possa saber onde está a realidade, verificamos que se há seis meses tudo se colocava no plano das relações públicas – “o Real Madrid é a vida de Cristiano” –, neste momento o conflito ameaça chegar a vias de facto – “Ronaldo quer ir embora de Espanha”. Para dizer a verdade, não me convence nem uma coisa nem a outra. Por mais que o sinta, nenhum jogador de futebol profissional pode alguma vez dizer de forma 100 por cento honesta que um clube é a sua vida, porque a este nível é o mercado que manda. E manda muito mais se, como é o caso, falamos do melhor de todos eles. Por outro lado, não vejo na ameaça de sair de Madrid muito mais do que uma forma de arregimentar para a luta os “soldados” que a máquina de Ronaldo sabe ter do seu lado – os milhões de “madridistas” que nenhuma administração fiscal ou política gostará de ver culpá-la se o clube vier a perder o jogador que deu um contributo tão decisivo para a conquista de três Ligas dos Campeões nos últimos quatro anos.

Aqueles que, mais do que saber se Ronaldo paga ou não ao fisco espanhol, querem sobretudo que ele conduza a seleção portuguesa a uma Taça das Confederações repleta de glória podem neste momento ter uma certeza. É que o capitão da equipa nacional está bem, chega a Junho numa forma que há muitos anos não conhecia nesta fase da época e não só não é rapaz para deixar que estas coisas o afetem em campo como sabe que, para a estratégia comunicacional que tem em campo fazer ainda mais efeito, não haverá nada como levar a taça para casa. É nisso que ele está concentrado. E é isso que dirá aos jornalistas de todo o Mundo, se hoje for escolhido para falar à imprensa e for confrontado com as notícias da sua vontade de deixar Espanha e o Real Madrid.