Último Passe 

Crédito: Facebook/Cristiano Ronaldo
2017-06-15
Ronaldo, o Bancada e o desafio do jornalismo

Achei curioso que, ontem, o El Confidencial, jornal digital espanhol, tivesse dado corpo a uma suspeita que nos tinha assaltado a todos logo pela manhã, na redação do Bancada, quando olhámos para as primeiras páginas dos jornais desportivos espanhóis do dia. Que todos traziam Ronaldo na manchete, era uma evidência gritante. Que os dois de Madrid apresentavam o jogador equipado à Portugal e os dois de Barcelona o exibiam com a camisola do Real Madrid já requeria algum esforço de análise. Que o facto tenha resultado de um pedido expresso do Real Madrid, como revelou o “El Confidencial”, já é um labéu de suspeição lançado sobre o jornalismo que se faz e que não queremos fazer no Bancada.

Não podemos exigir às pessoas que saibam exatamente como se faz jornalismo, mas uma das coisas que exigimos a nós próprios é fazê-lo como ele deve ser feito. Ainda ontem tivemos um exemplo disso. Estando Paulo Gonçalves, funcionário do Benfica, sob suspeita no caso dos emails, impunha-se contar quem ele é e o que tinha feito no futebol e nesse sentido falámos com José Veiga, que o trouxe para a Luz, com Carlos Janela, o influenciador mais próximo das posições do Benfica neste momento, com José Guilherme Aguiar, que o conhece do círculo de advogados da cidade do Porto e foi durante muitos anos dirigente do FC Porto, e até com Hermínio Loureiro, que na qualidade de ex-presidente da Liga esteve envolvido numa polémica com Paulo Gonçalves, quando este esteve para entrar para os quadros do organismo a que ele então presidia.

Poucos gostaram. Os benfiquistas não gostaram sequer que se falasse do assunto ou que para ele fosse chamado o nome de Veiga, que está para a Luz como Voldemort para o universo de Harry Potter – é “aquele que não deve ser nomeado”. Os portistas odiaram que tivéssemos contactado Carlos Janela, por verem nele a cabeça por detrás da cartilha do Benfica. E houve até os que condenaram o facto de termos destacado a condição de “portista fanático”, assim mesmo, entre aspas, achando que estávamos a querer culpar o FC Porto por tudo o que estava a passar-se, mas ignorando que até tinha sido Guilherme de Aguiar a caraterizar assim aquele que agora é profissional das cores rivais. Fazer jornalismo é isto. Não é ignorar as opiniões que parciais – é ouvir todas as fações, ser plural, e refletir no produto final todas as versões, todas as sensibilidades.

E é, sobretudo, não nos deixarmos influenciar pelo que nos é dito. Porque uma coisa vos garanto: ouvimos todos, mas nenhum vai mandar nas nossas opiniões e nas nossas opções editoriais. Aqui, escusam de pedir para usar fotos dos jogadores com esta ou com aquela camisola. Usaremos a que a verdade impuser como mais natural.