Último Passe 

Crédito: FPF
2017-06-11
Um ano na evolução da seleção

Se lhe pedirem uma comparação entre a seleção portuguesa que vai entrar na Taça das Confederações e a que, há um ano, se preparava para dar os primeiros passos no Europeu, a diferença é muito mais do que um estado de espírito, uma dose de confiança reforçada por um título internacional. A ideia geral – que era a minha também – é a de que a equipa chega a este ponto da temporada menos sobrecarregada em 2017 do que em 2016, quando apresentou vários jogadores “presos por arames”. Mas esta é uma teoria que não tem sustentação nos números. Fazem-se as contas e a diferença entre a utilização do plantel atual e a do de há um ano é menor do que a causada pela troca dos dois guarda-redes suplentes – além de crença e credibilidade, o que há agora é mais talento. E mais idade.

Claro que as perceções gerais são sempre muito influenciadas pelos exemplos de topo. E nesta seleção não há ninguém acima de Cristiano Ronaldo, que na parte final da época em curso até foi poupado por Zidane a várias deslocações do Real Madrid, com o objetivo de poder estar em grande na fase decisiva da Liga dos Campeões. Disso poderá beneficiar também a seleção, mas a questão é que, tudo somado, entre clube e seleção, Ronaldo fez esta temporada mais um jogo competitivo – e mais 103 minutos em campo – do que os que tinha na bagagem antes de entrar no Europeu de 2016. São 51 jogos contra 50. Se há um ano tinha feito 36 jogos da Liga, 12 na Champions e dois na qualificação para o Europeu, desta vez soma 29 na Liga, 13 na Champions, dois no Mundial de clubes, outros dois na Taça do Rei e cinco na qualificação para o Mundial. Ronaldo, portanto, jogou mais este ano. Como jogaram mais Moutinho, Guerreiro, Cédric, William ou André Gomes, só para citar os que estiveram no onze inicial contra a Letónia e já tinham estado no Europeu. Entre estes, só Rui Patrício, Fonte e Bruno Alves vêm com menos competição do que há um ano, sendo que Gelson e André Silva são novidades.

Tudo somado, os 23 convocados para a Taça das Confederações têm, na verdade, menos jogos na época do que os que tinham os 23 que estiveram no Europeu: são 918 jogos, contra os 948 que o plantel acumulava há um ano. Mas esta diferença – 30 jogos – é anulada se retirarmos da equação os dois guarda-redes suplentes das duas listas: há um ano, Anthony Lopes (47 jogos) e Eduardo (44) somavam 91 partidas competitivas, enquanto que este ano Beto (nove jogos) e José Sá (seis) só contabilizam 15. Quem a 91 tira 15 fica com 76, bem mais do que os 30 que são a diferença geral. O que a equipa deste ano tem é gente importante em melhor fase – Ronaldo e Moutinho não chegam em dificuldades –; mais talento no meio-campo e na frente – Pizzi, Bernardo Silva, André Silva e Gelson são acrescentos muito importantes, que permitem, por exemplo, prescindir sem grandes dramas de João Mário e Renato Sanches, um lesionado e o outro nos sub21 – e mais crença em jogadores com os quais Fernando Santos conta em absoluto mas que há um ano não eram bem vistos pela nação futebolística, como Cédric, Guerreiro ou André Gomes.

E, no entanto, é preciso ter calma. No final do jogo com a Letónia, uma jornalista levou Fernando Santos a rir num misto de incredulidade e indignação quando lhe perguntou se ele estava em condições de garantir que Portugal ia ganhar a Taça das Confederações. A lógica do raciocínio parece simples, mas bem vistas as coisas é apenas simplista. Se a equipa está melhor do que a que foi campeã da Europa… Acontece que Portugal não está melhor em tudo. Precisa, por exemplo, de encontrar sangue novo para o centro da defesa, nem de propósito o setor da equipa onde os escolhidos tiveram menos competição este ano do que no anterior: Neto substituiu Ricardo Carvalho, enquanto que Pepe passou de 32 jogos para 22, José Fonte de 45 para 41, Bruno Alves de 43 para 39. Vai-se a ver e afinal o problema que esta seleção pode apresentar na Rússia não é o excesso de competição. Também não será a falta. A surgir, será antes aquilo que levou a essa diminuição: a idade de um setor ao qual a renovação vai tardando a chegar. Sim, a experiência conta muito e a Juventus fez a época que fez com três defesas centrais trintões. Mas no fim quem ganhou a Champions foi o Real Madrid.