Último Passe 

2017-06-04
Três meses definidores: o Benfica

O facto de ter conquistado os últimos quatro campeonatos nacionais e de ter terminado a época com uma dinâmica de vitória superior até à da época passada deixa, à partida, o Benfica na “pole position” para a Liga que aí vem. Como, apesar de práticas recentes poderem indiciá-lo, Luís Filipe Vieira já veio dizer que não tenciona mudar de treinador nem de paradigma, ao Benfica resta sobretudo não estragar o que tem feito até aqui, acertando o mais possível nas inevitáveis substituições de jogadores a que o mercado vai obrigá-lo. Mesmo que, como pode acontecer este ano, se veja forçado a substituir muita gente num mesmo setor tão fundamental como é o defensivo.

Parece afastada a ideia segundo a qual Vieira e Jorge Mendes poderiam sentir-se tentados a fazer com Rui Vitória o que já quiseram fazem com Jorge Jesus há dois anos: trocá-lo em alta e aproveitar esse facto para o colocar num clube de topo na Europa, de forma a alargarem a sua zona de influência no mercado e potenciarem futuras transferências milionárias. Se Vitória fica, resta verificar se o paradigma de aposta nos jovens do Seixal se mantém também e se essa é a melhor política para um defeso em que se prevê que o Benfica possa perder boa parte da sua estrutura defensiva mais recuada. Porque a maior ameaça à hegemonia que o Benfica tem estabelecido no futebol português é a junção do fator sucesso-mercado à veterania de peças fundamentais, como Luisão e Jonas, que entrarão nesta nova época com 36 e 33 anos no BI, respetivamente.

É verdade que o Benfica já suportou esta época uma quebra enorme de rendimento de Jonas, que passou boa parte do tempo de fora, por doença. É verdade também que na época anterior foi quando Luisão se magoou e Vitória fez dupla de centrais com Jardel e Lindelof que a equipa arrancou para o título, aguentando de forma estoica o sprint final do Sporting. A questão é que nunca faltaram os dois ao mesmo tempo, como a crescente veterania de ambos poderá levar a que aconteça, mais cedo ou mais tarde. Além de que, quando eles faltaram, à vez, havia em campo uma estrutura na qual a equipa podia montar-se. Uma estrutura que teve Júlio César e depois Ederson, que tinha Fejsa e Pizzi para permitir as eclosões de Lindelof, Nelson Semedo, Renato Sanches ou até Gonçalo Guedes. E falta perceber se há lá mais como estes – sobretudo se há tantos para um mesmo setor, no caso o defensivo.

É mais ou menos consensual que o nível do campeonato de 2016/17 foi um pouco inferior ao de 2015/16, mas também é verdade que o segundo Benfica campeão de Rui Vitória já se baseou mais em ideias do treinador do que o primeiro, excessivamente dependente da inspiração das suas individualidades (Jonas e Gaitán acima de todos) e do efeito Sanches, que deu à equipa uma explosão determinante. Na época que agora termina, o Benfica melhorou muito do ponto de vista defensivo – e a colocação do mais equilibrado e perspicaz Pizzi no lugar que Renato tantas vezes deixava vago, ao meio, foi tão importante para isso como a liderança firme de Luisão, cuja experiência foi um atributo de excelência na coordenação dos comportamentos defensivos.

O problema, para Rui Vitória, é que daqui por uns meses Luisão corre riscos sérios de olhar para o lado e não ver as caras a que se habituou. Ederson já foi, Lindelof e Nelson Semedo parecem estar a caminho e até Grimaldo teria mercado, caso agora o Benfica decidisse prescindir dele. Num setor onde a coordenação coletiva é tão importante, até para definir a altura onde se coloca a linha ou o momento de subida, fazer assim tantas mudanças já seria um problema, mesmo que o Benfica estivesse na disposição de gastar muito, de forma a que para o lugar dos que saem entrassem outros do mesmo valor, ou que haja por lá Jardel, já habituado a jogar ao lado do capitão. E é aqui que entra a questão do paradigma: a aposta nos miúdos, que foi desde sempre a maior justificação para a troca de Jesus por Vitória. Porque uma coisa é inserir, com meses de diferença, Lindelof, Renato Sanches e Ederson no onze-base e outra, completamente diferente, é começar a nova época com um novo guarda-redes, um novo defesa-direito e um novo defesa-central, todos vindos do futebol de formação. Assim ficará mais difícil.