Último Passe 

2015-09-18
O exemplo do râguebi a favor do video-árbitro

A validação e posterior anulação de um ensaio a Matawalu, porque as imagens de TV mostraram que o médio de formação das Ilhas Fiji tinha deixado cair a bola para a frente antes de a recuperar e de a pousar na zona de ensaio, e a anulação e posterior validação de outro ensaio a Nadolo, porque as imagens provaram que o salto do ponta fijiano era regular, trouxeram até muita animação ao jogo de abertura do Mundial de râguebi. O público ouve o árbitro na instalação sonora do estádio, vê as imagens dos lances nos ecrãs gigantes e vibra com o sistema a funcionar. Mas, mais do que animação, as duas decisões do árbitro sul-africano trouxeram justiça. E essa devia ser sempre a função de um árbitro em campo.

No caso do Inglaterra-Fiji nem era o resultado que estava em causa: os dois lances ocorreram num período de cinco minutos – se o primeiro tivesse sido validado, o segundo provavelmente não teria acontecido – e foram ambos no ataque das Ilhas Fiji. Portanto, mais cinco pontos, menos cinco pontos, para quem gosta destas realidades contra-factuais o resultado seria até o mesmo. Mas haverá casos em que jogos se decidem por causa de uma decisão arbitral e condenar os árbitros a decidirem com muito menos meios do que quem está em casa a ver no sofá é tudo menos defender o futebol. Os árbitros não erram hoje mais do que antigamente: os adeptos é que têm muito mais meios para avaliar os erros que sempre se cometeram.

Cada vez há menos argumentos razoáveis a favor do arcaísmo que regula a tomada de decisões dos árbitros no futebol. O argumento tantas vezes do tempo que se perde não colhe. O Inglaterra-Fiji começou às 20 horas, teve vários lances de consulta vídeo pelo árbitro, e acabou antes das 22 horas, cumprindo-se as duas partes de 40 minutos num período semelhante ao que leva uma partida de futebol. O argumento de o erro ser o sal do futebol só pode ser assumido por quem passa o tempo em gabinetes, mesmo que em tempos tenha pisado a relva.

Defendo o direito dos árbitros ao erro, condeno os hooligans encartados que assumem que os erros dos árbitros são propositados ou os que só sabem explicar os jogos de futebol através dos erros de arbitragem (e só os que são contra as suas cores, que para os outros arranjam sempre uma explicação), mas acho que os árbitros deviam ser os primeiros a revoltar-se contra este estado de coisas, que os condena a demonstrações de inépcia a um ritmo diário. Ontem já era tarde.