Último Passe 

2017-05-30
Valverde e o segredo do novo Barça

Quando se pensa num treinador para o Barcelona, das duas uma: ou é alguém que lá jogou ou é um holandês. Ernesto Valverde, o homem que os catalães escolheram para substituir Luis Enrique, jogou no Barça e até caiu no goto a Johan Cruijff. Era um extremo rápido e incisivo, que não se tornou mais útil porque se lesionava muito. Como treinador, porém, sempre foi mais próximo de Javier Clemente, por exemplo, do que do magrinho holandês. Nem de propósito, a alcunha, “Txingurri”, foi-lhe posta por Clemente e quer dizer “Formiga”, em basco. Valverde é um bom treinador, uma formiga trabalhadora, mas o estilo do Barça dos últimos anos aproxima-se muito mais das cigarras do que das formigas.

A desconfiança não vem do facto de Valverde só ter ganho verdadeiramente na Grécia, onde até uma formiga verdadeira, desde que colocada à frente do Olympiakos, se arriscaria a ser campeã. Não tem sequer a ver com o facto de Valverde ser um treinador defensivo, que não o é, ainda que o seu preferido 4x2x3x1 meta mais gente atrás do que os sistemas utilizados pelos “blaugrana” nos períodos de Guardiola ou Luís Enrique (que o período Tata Martino ninguém entendeu bem o que era) ou que a vontade de ter uma referência na área possa colidir com a liberdade de que beneficia Messi para se mover por onde quer no esquema construído para ele. E não é sequer influenciada pelo facto de o presidente Bartomeu ter lavado as mãos, no ato público em que oficializou a contratação, dizendo que esta era “uma aposta pessoal do diretor desportivo”, Roberto Fernández, ex-colega de Valverde no período em que este passou pelo Camp Nou. Nada disso.

A questão é que, mesmo tendo colocado o Athletic Bilbau a jogar um futebol atrativo, com gosto por ter a bola, Valverde é um treinador da garra, uma formiga, e não do estilo: as suas equipas destacam-se mais pelo ritmo que aplicam na circulação, pela intensidade defensiva nas zonas de pressão, do que pelo risco máximo na posse, pela eleição da solução que dá mais progressão em detrimento da que dá mais segurança. Admitamo-lo: em termos filosóficos, Valverde é mais Goicoetxea que Maradona, é mais Clemente que Cruijff ou Guardiola. E se isso pode implicar uma mudança de paradigma, é verdade que também torna este novo Barcelona no segredo mais interessante de descobrir da nova época que aí vem.