Último Passe 

2017-05-28
Três meses definidores: o FC Porto

O FC Porto substituiu o Sporting no topo da atualidade desta semana, por ter sido anunciada a saída de Nuno Espírito Santo e por, em consequência disso, estar vaga a cadeira de treinador para 2017/18. Há muitos nomes no plateau mediático, o clube até já desmentiu alguns deles, como o de Marco Silva, por exemplo, mas a questão é mais profunda do que isso. O que está em causa aqui é a escolha de um caminho, de um treinador que comungue ideias com a SAD acerca do tipo de futebol que convém a estes jogadores, mas também a aceitação de normas que já estão definidas. Como a de um forte desinvestimento, imposto pela UEFA ao abrigo do “fair-play financeiro”.

Esta segunda parte da equação é, por sinal, a fundamental. Fruto de uma aposta na valorização da equipa e na recusa assumida de alienar passes de jogadores, a SAD portista encerrou as contas de 2015/16 com 58 milhões de euros de prejuízo, ultrapassando os limites legalmente estabelecidos pela UEFA nas suas regras de “fair-play financeiro”. O resultado, por mais modos que haja – e há – de mascarar as contas, seja pela diluição de compras em várias tranches anuais ou pela venda de jogadores e posterior acolhimento por empréstimo, é que o FC Porto vai ter de vender. Mais: terá de vender rapidamente, antes do final do exercício – o que quer dizer que não pode deixar as transferências para o encerramento do mercado. Em suma, quem vier terá de fazer mais com menos. Terá de fazer uma equipa mais competitiva com menos dinheiro. E isso, mesmo que possa parecer aliciante enquanto desafio, não costuma ser a melhor forma de chamar treinadores ao mesmo tempo ambiciosos e consagrados. Como diz o ditado, “não é com vinagre que se apanham moscas”.

Em consciência, não posso garantir que o FC Porto tenha tentado convencer Marco Silva a suceder a Nuno Espírito Santo, como transpirou para os jornais, as rádios e as televisões, ou se, tal como já veio dizer o diretor de comunicação do clube, não houve sequer negociações. Mas, mesmo sendo o FC Porto incomensuravelmente maior do que qualquer Watford da Premier League, não seria assim tão estranho que, podendo escolher entre um dos dois, um treinador na fase de carreira em que está Marco Silva, optasse por ficar em Inglaterra. E não seria por causa do dinheiro, que o Watford terá em mais abundância, mas sobretudo porque ali não se lhe vai pedir aquilo que é tão difícil de alcançar, que são títulos em ano de desinvestimento. Porque basta olhar para o plantel portista para perceber que para realizar milhões o clube terá de se desfazer de algumas das suas pérolas com mercado lá por fora. Alex Telles, Brahimi, Layun, Corona ou Herrera até podem ter mercado, mas os mais rentáveis poderão mesmo ser Felipe, Danilo ou André Silva, uma espinha dorsal que qualquer futuro treinador gostaria de encontrar quando chegasse ao Dragão.

A segunda questão fundamental tem a ver com o que quer o clube – e para isso é importante avaliar as razões pelas quais falhou Nuno Espírito Santo. O problema esteve na compatibilização das ideias do treinador com o plantel que tinha à disposição. Quando o FC Porto apostou num plantel jovem, de jogadores que não só estão na idade dos sonhos como se destacam por um futebol excitante, parece contraproducente colocar a liderá-los um treinador que prefere um futebol mais cauteloso e direto, sem tanto desequilíbrio na construção. O futebol é uno, toda a gente ataca a pensar em como vai defender depois de perder a bola e defende a pensar em como vai atacar quando a recuperar, mas uns pensam mais numas coisas e outros mais noutras. O futebol de Nuno Espírito Santo – como antes dele o de outros treinadores com sucesso no Dragão, ainda que com plantéis diferentes – convidava mais ao equilíbrio, enquanto os seus jogadores se sentiam melhor a promover o desequilíbrio. Esta contradição matou a equipa e levou-a aos empates que a impediram de dar luta até ao último dia ao Benfica ou até de acabar a Liga no primeiro lugar.

Olhando para o plantel que tem, mas também para a realidade conjuntural e para o contexto em que está inserido, o FC Porto deve pensar num treinador português, com bom conhecimento da realidade da nossa Liga, adepto de um futebol ofensivo, que não vire a cara a uma luta, mas que ao mesmo tempo esteja na firme disposição de dar tudo por uma tarefa que se apresenta como difícil. Em relação aos três de que mais se fala, não vejo Paulo Sousa nem Pedro Martins em guerras por causa das arbitragens, não vejo Sérgio Conceição ou o mesmo Pedro Martins a jogar um futebol de ataque solto. Aqui, depende do que quiser Pinto da Costa. Um treinador que seja o espelho do adepto guerrilheiro ou que sirva o futebol entusiasmante dos seus jogadores? Dentro em breve saberemos.