Último Passe 

2017-05-27
O Sporting, Jesus e o PSG: saídas da crise

É muito complicado dizer se o interesse do Paris St. Germain é uma boa ou má notícia para o Sporting. Porque depende de muita coisa. Depende, primeiro, do grau de veracidade da informação oficial do clube, segundo a qual Jesus e o presidente Bruno de Carvalho estarão na mesma página, a trabalhar para o futuro do clube. Se isso é verdade, então a saída de Jesus será sempre uma má notícia; se for mentira, é uma porta de saída para a crise, porque não é possível duas pessoas que não se entendem construírem seja o que for com sucesso. Mas mesmo que a eventual transferência de Jesus para Paris seja a tal saída providencial, não se iludam, porque outra crise se seguirá, à qual vai ser preciso dar uma resposta rápida e, acima de tudo, certeira: é preciso encontrar um treinador.

Primeiro ponto. É bom para o Sporting que Jesus saia agora? Disso não tenho dúvidas: não é bom. Jesus trabalha como poucos na Europa, conhece o futebol nacional como menos ainda e era uma mais-valia para o projeto do futebol do Sporting. Não ganhou ainda o campeonato, no primeiro ano por infortúnio e uma unha negra, no segundo por erros evidentes – dele e de quem o enquadra – que poderia sempre corrigir, mas a certeza que tenho é que quem quer que entre no caso de ele sair terá de começar tudo do zero. E isso só será positivo em dois casos. Ou no caso de se achar que entre Jesus e o presidente já não há base de entendimento para construir seja o que for, o que tem sido amplamente desmentido pela comunicação oficial do Sporting. Ou no caso de se achar que Bruno de Carvalho é absolutamente infalível, o que até encontra base de suporte nas escolhas que fez de treinadores mas está muito longe de ser verdadeiro nas operações de mercado que subscreveu, antes mesmo de Jesus ter chamado a si essa pasta tão delicada. E não há-de ser preciso falar de Shikabala, Slavchev ou no Mini-Messi para recordar isso mesmo.

Mas assumamos que a questão aqui é mesmo de números e que os valores que o PSG estará a propor seriam suficientes para dar a volta à cabeça não só do treinador, mas também do clube. E se no caso de Jesus isso até se compreende, no caso do clube significará também assumir que a ideia de investir num treinador valores que poderiam servir para reforçar a equipa com bons jogadores terá sido uma ideia errada. Para Bruno de Carvalho aceitar agora de bom grado aquilo que tanto trabalhou para contrariar há dois anos – se bem se lembram, a estratégia de Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes passava por colocar Jesus no Dubai, de passagem para o PSG, onde alargaria a rede de influência do circuito Gestifute/Benfica – é porque mudou radicalmente de ideias em relação à estratégia que quer seguir. Ou que pelo menos reconhece ser impotente para a manter, porque nada significa que a eventual passagem de Jesus para o Paris St. Germain não venha a reforçar essa mesma zona de influência de que fazem parte os tetracampeões nacionais e as suas operações de mercado.

Pode até dar-se o caso de o Sporting não ter poder de evitar o que aí vem. De o treinador ter no contrato clausulado que lhe permita ir à sua vida, pagando pela sua libertação. E nesse caso, nem que quisesse manter o treinador e acreditasse que o sucesso do Sporting passava por ele Bruno de Carvalho poderia fazer o que quer que fosse. Livrar-se-ia do ato de contrição, mas não da decisão seguinte. Que treinador contratar? Digo aqui o que já disse acerca da opção de Pinto da Costa para substituir Nuno Espírito Santo. O Sporting precisa de um treinador de futebol ofensivo e espetacular, o que desde logo afasta algumas das opções que têm vindo a ser publicitadas, mas com conhecimento profundo da realidade do futebol português. Nestas condições há Paulo Fonseca – que esteve no radar leonino para entrar se Jesus tivesse saído há um ano –, Paulo Sousa ou eventualmente Vítor Pereira. O primeiro tornou-se entretanto muito caro, o segundo pode ter de o disputar ao FC Porto e o terceiro é portista profundo. Não será uma escolha fácil.